quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PERFIL: GUSTAVO DOURADO

Por Paccelli José Maracci Zahler

 
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A Revista Cerrado Cultural (RCC) entrevistou, por correio eletrônico, o poeta Gustavo Dourado (GD), presidente da Academia de Letras de Taguatinga - ALT. Ele nos falou sobre suas origens, sua vinda para Brasília, DF, cultura, projetos futuros. Registramos nosso agradecimento por nos receber virtualmente.

RCC. O senhor nasceu em Recife dos Cardosos, município de Ibititá, no coração da Bahia. Como foram os seus primeiros anos de estudos?

GD. Sim! Nasci no povoado de Recife dos Cardosos, sertão de Ibititá, região de Irecê, Baixo Médio São Francisco, no coração da Chapada Diamantina, no Estado da Bahia. Por lá passaram remanescentes de Conselheiro e da Insurreição de Canudos, cangaceiros, jagunços, os revoltosos da Coluna Prestes, bandeirantes, sertanistas, garimpeiros, aventureiros, era rota de tropeiros, vaqueiros, aventureiros, ciganos e viajantes. Foi cenário do coronel Horácio de Matos e do capitão Manoel Quirino...

RCC. Como foram os seus primeiros anos de estudos?

GD. Aprendi a ler em minha prima infância, literatura oral, cordel, Bíblia, causos, contos, crônicas cotidiárias. Aos três anos, já lia, escrevia e recitava para os trabalhadores das roças e sítios e do empório comercial do meu pai, Ulisses Marques Dourado, um homem irrepreensível, de caráter irretocável, que tinha a honestidade e a ática como um valor fundamental. Aconteceu comigo parecido com o garoto de Central do Brasil. Esse aspecto de minha vida é cinematográfico. O sertão é um filme permanente, contínuo...
Estudei com professores leigos, Dionísio Maia, Adelmita Cardoso, Leobina Severo. Depois estudei com Arli, Loídes Dourado, Hildete, Célia, Agnes, essas já professoras normalistas, formadas. Mas aprendi muito com o meu pai, minha mãe e com os professoras da rua, da universidade da vida...

RCC. A sua vocação literária manifestou-se ainda na infância?

GD. Sim! Ainda bem novo, infante. Já inventava palavras e improvisava versos nos primórdios da infância. Lia cordel, lia a Bíblia, almanaques, bulas de remédios e sobretudo ouvia muito os transeuntes, os contadores de causos e histórias, as rezadeiras, os vendedores, as parteiras e os garimpeiros, além dos parentes que habitavam o povoado de Recife dos Cardosos.

RCC. Sua passagem pelo Colégio Polivalente de Irecê, BA, entre 1972 e 1975, foi muito importante em sua vida. Poderia tecer comentários a respeito?

GD. Muito importante. Fundamental. Ali tive contato com centenas de jovens estudantes e comecei a minha militância no movimento estudantil. Fui orador da escola e coordenador do clube de leitura. Participei de olimpíadas estudantis e de júris simulados. Fui vencedor em algumas disputas. À época, a nossa sétima série venceu a oitava. Foi um fato extraordinário e que gerou uma certa popularidade, na cidade de Irecê, para o poeta que vos fala.

RCC. A economia de Ibititá, BA, é essencialmente agrícola. Foi por essa razão que o senhor veio estudar no Colégio Agrícola de Brasília?

GD. Não necessariamente. Brasília para mim era um sonho.

RCC. Havia intenção de retornar a Ibititá, BA, e trabalhar como técnico agrícola?

GD. Não. Mas tinha muita saudade dos meus familiares e amigos.

RCC. Enquanto estudava no Colégio Agrícola de Brasília, sua vocação literária começou a falar mais alto?

GD. Sim. Foi um período de muita leitura e descobertas interessantes.

RCC. Foi por essa razão que o senhor decidiu graduar-se em Letras na Universidade de Brasília?

GD. Sim. Pensei fazer Agronomia. Mas com o gosto pela poesia e pela literatura, optei por Letras, mas sempre com um viés para a Arte, a Filosofia e a Comunicação.

RCC. Como foi a sua passagem pela Universidade de Brasília?

GD.Poética, Transformadora. Revolucionária. Transmutadora.

RCC. O senhor passou pelo período de invasões do campus da UnB por parte das forças militares?

GD. Sim.Presenciei vários momentos da repressão e do autoritarismo no auge da Ditadura Militar. Sempre lutei pela Anistia, Direitos Humanos e pela Redemocratização do Brasil.

RCC. O senhor fez parte da geração de escritores de Brasília que imprimia seus livros em mimeógrafos e vendia nos bares?

GD. De certa forma sim, em menor escala e de forma autônoma Mas sempre fui mais independente e alternativo e até mais clássico. Trabalhei com o cordel, posters, cartazes, postais, etiquetas e adesivos poéticos. E também atuei muito de forma oral, por meio de performances, improvisos, repentes, tiradas, sarcasmo, ironia e crítica política. Cheguei a ser detido algumas vezes por desenvolver essa atividade cultural.

RCC. A sua aproximação com o cordel vem da época da UnB ou dos tempos de Ibititá?

GD. Começou em Recife dos Cardosos, em Ibititá, depois em Lapão e, por fim, na cidade de Irecê. Tudo girava em torno das feiras e da venda. Depois, em Brasília, o cordel veio com força na UnB, nas assembléias, debates, encontros, recitais, congressos e shows, sobretudo no Teatro de Arena, no Restaurante, nas entradas Sul e Norte e nos anfiteatros do ICC, além dos bares e festas...

RCC. Há algum tempo, o senhor compôs o Cordel da Ufologia. Foi apenas uma homenagem aos estudiosos do assunto ou o senhor acredita em discos-voadores?

GD. As duas coisas...

RCC. Há quem diga que os extraterrestres estão entre nós. O que o senhor pensa a respeito?

GD. Não é de hoje, desde tempos imemoriais. Somos nós no futuro...

RCC. Por que razão o senhor adotou o nome literário de “Amargedom”? Tem algo a ver com o Apocalipse bíblico? Uma antevisão dos tempos amargos vividos pela humanidade?

GD. Sim. Aprendi ler na Bíblia e no Cordel. O Apocalipse sempre foi um dos meus livros preferidos. Depois conheci outros apocalipses. Amargedom vem do Armagedon bíblico. Foi letra de música, rock, cordel e auto. Foi um dos meus poemas mais conhecidos no final dos anos 70 e idos dos anos 80. Muitas pessoas me chamavam por esse codinome, até hoje. Amargedom...Amar Já é Dom...Amar é um dom...O dom de amar...

RCC. Como é a sua relação com as editoras e com os editores?

GD. Sou independente, alternativo, sempre editei e paguei pelos meus livros. A minha relação maior é com os gráficos. Não conheço editores e editoras em Brasília. Nem sei se existe essa categoria por aqui. Se existe, precisam aparecer e editar de forma profissional os autores do DF. Gráficos que cobram pelo trabalho tem muitos. Brasília carece de editores e de editoras, falta divulgação e distribuição do livro. Não há política para o livro e para a leitura. O mercado editorial de Brasília é voltado para o que vem de fora.

RCC. Com trabalhos reconhecidos no Brasil e no exterior, prêmios e títulos literários, o senhor vive da Literatura?

GD. Subvivo. Sobrevivo. Sou educador e gestor público. Quem vive de literatura não sobrevive no Brasil...Fica mais lá fora do que aqui. Quem sobrevive bem com literatura aqui no Brasil?

RCC. De 1997 para cá, o senhor tem se utilizado da internet para publicar seus trabalhos. Como o senhor vê o advento do livro virtual (e-book)?

GD. É uma ferramenta importante, mas que precisa ter o seu viés econômico. Dispus toda a minha obra gratuitamente na internet, via sites, blogs e redes sociais. O livro real é fundamental. O virtual torna-se real. Virtureal...Revirtual...

RCC. O livro virtual não é muito frio, ou seja, tira o contato do leitor com o papel, tira o prazer de folhear páginas, marcar textos, rabiscar, meditar, sonhar, no decorrer da leitura?

GD. Sim. Mas com o tempo ganhará mais energia e calor.

RCC. Recentemente, uma escola particular do DF anunciou que irá abolir os livros de papel e adotar tablets eletrônicos. Isso não vai prejudicar o aprendizado e acabar com a caligrafia? Como professor, qual a sua opinião?

GD. Creio que é preciso evoluir e saber usar as novas tecnologias, sem esquecer das consagradas, como o livro e o filme.

RCC. O senhor foi presidente e hoje é conselheiro do Sindicato dos Escritores do DF. Na sua opinião, o Sindicato tem conseguido defender adequadamente os escritores e fortalecer a categoria?

GD. Precisa se fortalecer mais. Isso só será possível com a Regulamentação da Profissão do Escritor. Mas existem muitos interesses contrários das grandes editoras, das grandes livrarias e distribuidoras.

RCC. O Sindicato vem lutando pela profissionalização do escritor. Isso não tiraria o glamour da atividade literária?

GD. Tem que saber dosar o glamour com o profissionalismo. A regulamentação não tira o glamour de outras profissões.

RCC. Profissionalizando-se e passando a trabalhar sob encomenda, o escritor não ficaria à mercê dos clientes, perdendo o idealismo?

GD. Tem que saber trabalhar e não perder o ideal. É preciso sonhar sempre.

RCC. Como o senhor vê a política cultural do DF?

GD.Qual? Existe? desconheço...

RCC. E a qualidade do ensino?

GD. Precisa melhorar sempre. Temos boas escolas em Brasília e boas experiências dentro da Secretaria de Educação do DF.

RCC. Atualmente, o senhor preside a Academia de Letras de Taguatinga. Que projetos culturais o senhor pretende implementar na sua gestão?

GD. Levar os autores para as escolas, o que em parte já realizamos, incluir os jovens e estudantes. Profissionalizar o Jornal Alternativus. [Além disso] fazer uma Antologia dos autores e autoras acadêmicas. Temos muitos sonhos, mas faltam recursos e apoio. Lutamos para a consecução da sede própria, etc.

RCC. Qual a sua opinião sobre a Feira do Livro de Brasília?

GD. Precisa ser democratizada e valorizar mais o autor de Brasília. Não se tem apoio para o autor brasiliense. Apenas para um grupo de amigos dos organizadores. O resto tem que pagar pelos estandes. Falta divulgação, estrutura, profissionalismo.

RCC. Ela tem conseguido conquistar mais leitores e valorizar os escritores do DF?

GD. Da forma como é feita, não consegue esse intento. Urge mudar para melhor.

RCC. O Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade é adequado para a realização da Feira do Livro?Não fica mais distante e difícil para a visitação do público que dependo do transporte coletivo precário da cidade?

GD. Se fosse feita com profissionalismo e de forma democrática, ouvindo os segmentos culturais, não teria problema com o local. Precisa mudar a mentalidade dos organizadores e não pensar apenas no lucro. É preciso também dar um viés cultural à Feira, com inclusão dos jovens, estudantes, das minorias e dos autores locais. É preciso valorizar o livro e a leitura.

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