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PONTO NULO NO CÉU: CHUVA NEGRA

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)



Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

O vento álgido que soprava forte àquela hora morta fez rodopiar as folhas secas no asfalto negro noturno. Bruno, o militar de baixa patente, contemplou absorto a dança etérea por uns instantes; olhou para cima e viu os relâmpagos que riscavam o céu. Escutou um forte estrando! Depois, levou as mãos à face e notou, nas palmas, pequenas e álgidas gotículas negras. O cabo Marques lembrou dos livros de história, que lera na adolescência, sobre a chuva negra que caiu depois do holocausto nuclear de Hiroshima e Nagasaki. Era uma chuva negra que caía.

O cabo Bruno Marques levou um tempo para processar o que ocorria: se de fato estava sonhando o pior de todos os pesadelos ou se era a hirta realidade que se impunha com toda a ferocidade. Se todo o rigor do impossível, do pouco provável ou mesmo do inimaginável ocorria ali, àquela hora noturna e naquele lugar.

O policial militar, tirou um lenço branco, feito de algodão egípcio, do bolso do uniforme, limpou as mãos e levou a peça imaculada até a face. O delicado tecido africano se recobriu de negro petróleo; então, o policial jogou a pequena peça importada no chão com força. Bruno sentiu algo que passou rápido sobre os seus coturnos. Ele olhou poucos metros à frente e viu um descomunal rato de minúsculos olhos vermelhos reluzentes, no meio do pátio. De repente, uma pequena luz vermelha se fixou no corpo do animal. Um silencioso tiro certeiro, um rápido ganido agonizante e o roedor estava morto.

Bruno olhou para cima, para a torre sul de observação. O sargento Alexander, o franco atirador-mor do coronel de ferro, dava seu pequeno espetáculo tétrico com toda a certeza deste mundo, pensou o cabo. Bruno, por fim, seguiu a sua marcha. Então, uma enorme nuvem de pássaros negros fez um sobrevoo desconexo pelo alto do quartel. A revoada desceu e subiu lentamente; era uma valsa noturna, macabra e muito barulhenta. As negras aves de longas patas finas e bicos alongados — animais exóticos — caíram mortas. Os pequenos corpos sem vida atingiram o pátio do quartel, fazendo um enorme barulho. Bruno ficou atônito e mais uma vez pensou se não estava vivendo um vívido pesadelo. Mas não estava. Retomou a marcha; de um jeito ou de outro, sabia que as respostas para tudo o que ocorria não tardariam.

O cabo, andou poucos metros e parou diante da porta de entrada da administração do batalhão. O cabo Bruno Marques, com os olhos semicerrados, encarou o hall através do vidro blindado. Minutos se passaram até o militar de baixa patente então decidiu, por fim, enfrentar o seu superior hierárquico. A porta abriu-se automaticamente assim que Bruno se aproximou. Numa olhada rápida, o cabo estranhou a solidão do recinto, pois o tenente-coronel Moreira César nunca andava só; quando estava no quartel, era raro ver o militar de alta patente desacompanhado, deveria ter uma ou duas sentinelas a postos ali. Somente andava sozinho quando, era visto perambulando, sem pressa alguma, pelas ruas do centro comercial da cidade. Como um político em plena campanha, parava para conversar com todo mundo, fosse quem fosse. Sempre fardado, pois o coronel nunca era visto sem as suas pomposas e imponentes dragonas ou sem o seu uniforme funcional para dias comuns.

Outro fato curioso: nesses passeios, ele estava sempre desarmado. Eram caminhadas que geralmente ocorriam nos fins de semana e feriados prolongados, sempre em plena luz do dia. Nunca parava para comprar, comer ou beber nada, mesmo que lhe oferecessem. Contudo, na funcionalidade do cargo, era comum vê-lo cercado de pequenos grupos de proeminentes jovens oficiais ou aspirantes ainda mais novos, todos bem armados, municiados e nada discretos. Poucas pessoas se lembravam de ter visto o homem fora da vida militar; o tenente-coronel Moreira César era um completo mistério na sua vida privada — que, de fato, não existia para o público interno ou externo.

Ao percorrer o hall da entrada da sede administrativa do batalhão, ignorando as ordens do sargento Alexander, do serviço secreto da corporação, Bruno se dirigiu com avidez até os elevadores. Aí lembrou que eles provavelmente não funcionavam e preferiu não arriscar ficar preso, mesmo que estivessem em modo mecânico. — Então tenho que enfrentar de novo as obsoletas escadas? Que seja o que Deus quiser e o que esse excêntrico quiser — disse em voz baixa.

Andou até o final do corredor vazio, na semiescuridão das luzes de segurança. Ao alcançar as escadarias, deu passos firmes e desapareceu na escuridão absoluta, pois ali, diferente do hall, as tênues luzes de emergência não funcionavam. Subiu trôpego por três andares até chegar ao topo, no andar do tenente-coronel, onde a iluminação de emergência estava operante.

Bruno percorreu o corredor do último andar do prédio secular, parou ao final do corredor e contemplou o espaço minúsculo através de uma parede de vidro temperado verde-fumê, o que ficou na mente do militar de baixa patente que o escritório do tenente-coronel era maior. O cabo Bruno vislumbrou o sombrio escritório de despachos do temido Moreira César. O àquela hora, o local estava longe de parecer o escritório de alguém que emanava poder. Era pequeno, nada funcional e totalmente obsoleto, com uma velha escrivaninha estilo clássico europeu de bronze e marchetaria, ladeada por um arquivo de aço de quatro gavetas. Havia também a pequena mesa do ajudante de ordens, com uma velha máquina de escrever Manzer, importada. Outro fato que chamou a atenção do cabo foi a sala estar bem iluminada, um contraste com o resto do prédio. — Onde está a dita besta-fera? — disse Bruno para si. Foi quando uma mão gelada tocou-lhe o ombro esquerdo de forma furtiva.

— Boa noite, cabo Bruno! — disse amavelmente o tenente-coronel ao sair das sombras e ao ver o cabo, que entrou em posição de sentido, Moreira Cesar se aproximou e emendou: — Descanse, cabo. Nada de formalismo marcial, pelo menos hoje. Meu bom amigo, não temos tempo para isto. Moreira César falava de forma álgida ao pé do ouvido do jovem militar, que bateu os calcanhares e prestou continência imediatamente após ouvir as primeiras palavras do superior. O tenente-coronel ergueu a mão direita e as portas de vidro se abriram. Para Bruno, parecia que os portais do paraíso haviam se aberto.

— Vamos entrar. Apetece-me que faça um relato oral dos seus tediosos e precisos relatórios burocráticos passados. Quero saber profundamente o que são esses tais pontos cegos, ou melhor, como você mesmo descreveu: pontos nulos no céu!

Com o braço do oficial erguido apontando para dentro do escritório, Bruno não teve alternativa senão entrar no bunker do coronel. Ao entrar, sentiu a temperatura despencar.

— Sente-se, cabo. É uma ordem! — disse Moreira César, apontando para uma cadeira à frente da escrivaninha.

 — Então, coronel? Começo por onde? — disse Bruno que tinha acabado de se sentar na rústica e bela cadeira, estranhamente confortável para uma peça de museu. O tenente-coronel estava de costas, buscando algo sobre o arquivo de aço. Ao se virar, trazia uma caixa de charutos ricamente decorada em uma mão e dois copos de uísque na outra. Bruno ficou atento; nunca vira um oficial de alta patente quebrar o protocolo daquela forma com um praça, nem em eventos íntimos.

O oficial sorriu — um sorriso sádico, na interpretação de Bruno. O homem era da velha guarda, adepto da força bruta e com pouco tempo para estratégias elaboradas. Moreira César parecia deslocado no tempo e no espaço em relação à geração do cabo. Ele se sentou lentamente e colocou a caixa de charutos entalhada na mesa. Bruno, absorto com o objeto que remetia ao Caribe dos anos 50, demorou a notar uma cadeira de rodas no canto — uma peça cara, do tipo usado para pacientes abastados em passeios de outono.

Bruno Marques se lembrou de um rumor antigo sobre um acidente nebuloso envolvendo a esposa de Moreira César e um militar de baixa patente que fazia a sua segurança. A mulher, de família abastada, foi para em uma cadeira de rodas e o tal militar acabara morto. Bruno sentiu um cheiro forte de pólvora queimada no ar; a morte parecia ter invadido o lugar.

— Sabe de uma coisa, cabo Marques? O meu falecido pai, que também era militar, sempre dizia que primeiro vêm as obrigações e muito depois as diversões. Mas hoje não, meu amigo. Hoje não mesmo! — O oficial sacou por de baixo da escrivaninha uma garrafa de uísque importado e encheu os copos. — Prefiro à americana: puro e sem gelo. Beba, cabo, é por conta da casa. A Viúva é quem paga a conta hoje — disse, referindo-se ao poder público. — Sabe, é uma coincidência incrível: lidei com outro cabo chamado Bruno que me serviu como ajudante de ordens. Decepcionou-me muito. Era um jovem de futuro brilhante, mas que teve a carreira abreviada por uma tragédia particular. Deixemos o outro cabo Bruno entre os mortos e saudemos a vida entre os vivos.

Moreira César pensou na Condessa Fá Rodrigues Butler naquele momento. Desejou que a afra rainha Sibelly Lopez a jogasse pela vidraça do alto de uma daquelas torres onde a condessa vivia. Imaginou a cena em câmera lenta. Mas, por hora, tinha um problema para resolver: um dos subprodutos das traquitanas noturnas da Condessa escocesa-espanhola. E o problema estava parado à sua frente.

— O que estou fazendo aqui, coronel? — perguntou Bruno.

— Aproveite a viagem, apenas isto. O destino final é só um detalhe desagradável no nosso caso hoje — disse o oficial, erguendo o copo. Os copos de cristal tilintaram.

Moreira César parecia arrastar aquele teatro bufo para se divertir, diante de um subalterno. O prólogo seria longo, mas o desfecho, rápido, conforme as ordens específicas que recebera. Eles beberam; o uísque desceu macio. O coronel cortou dois charutos cubanos com precisão e acendeu o de Bruno, depois levou o seu a boca, tirou um isqueiro butano do bolso do uniforme, ascendeu e levou a peça de prata ao charuto de Bruno e depois ascendeu o seu charuto.

— Veja, cabo! Já chego lá. Quero falar sobre os desígnios da natureza. Um deles é o equilíbrio; tudo é regido por isso. A busca pela equidistância perfeita entre polos opostos. Assim disse um filósofo grego.

  A fala arrastada e professoral irritou Bruno.

 — Não entendo, coronel...

— Escute, cabo! O equilíbrio é assim: "Toda ação provoca uma reação de igual ou maior intensidade, mesma direção e sentido contrário". É uma lei simples da física que rege a nossa realidade. No submundo, pequenos delitos geralmente passam despercebidos; impunes, depois os pequenos infratores partem para escalas maiores, com o passar do tempo. Li a sua ficha; você é versado em ciência criminal e estatística. E bem poderia ter progredido mais na carreira, penso eu.

Moreira César exalou uma baforada nada discreta. Na sua mente, brotou a imagem do antigo ajudante de ordens nu, na cama com a sua esposa. A imagem veio como uma sentença severa. Um resquício de humanidade ainda pairava ali, por mais que estivesse enterrado no âmago enegrecido do homem de armas. O tenente-coronel levantou-se, pegou três pastas encadernadas da escrivaninha enferrujada e voltou a sentar-se em silêncio. Jogou a primeira pasta sobre a mesa; o barulho ecoou na sala.

— Não preciso dizer o óbvio, preciso? Primeiro ato: Kriseide. Foi o seu primeiro trabalho infiltrado, não foi?

Bruno, embora atônito, decidiu entrar no jogo.

— Se é para ser óbvio, o serei! Sim, foi meu primeiro caso infiltrado. E o senhor sabe que investigações de pós-crime não são das nossas atribuições, a menos que investiguemos a nós mesmos. Sim, eu redigi o relatório Kriseide.

Bruno estava curioso para saber onde Moreira César queria chegar ao desenterrar aquela aberração sobrenatural dos arquivos da burocracia.

— E o caso Kriseide estava ligado à corporação, não estava? — perguntou o tenente-coronel de forma incisiva.

— Sim. A arma que matou o promotor Fábio Ramos pertencia ao nosso arsenal. Até hoje não sei por que tive que redigir o texto em máquina de escrever e levá-lo direto ao Estado-Maior, quebrando a cadeia de comando.

— Um bom soldado nunca questiona ordens, cabo! E vejo um relatório cheio de lacunas.    — Não poderia ser diferente. Kriseide era uma cigana da tribo Caló; não descobrimos mais nada sobre a vida pregressa dela. O promotor Fábio Ramos a matou Acácio Caetano, o amasio dela, um pescador artesanal, o promotor o matou com as próprias mãos, desafiando as probabilidades. Um advogado engomado contra um homem do mar. Depois de solto, o promotor foi achado morto ao lado de uma pistola Taurus .40 da corporação que nem constava como saída do depósito. Especulo que um oficial de alta patente a emprestou para defesa pessoal. Como estamos até aqui?

— Segundo ato: Otto Kürten Wagner Van Petter Meisel — disse ríspido o coronel.

— Uma figura menor do submundo, desconhecida até aquela execução em praça pública. Ele voava abaixo do radar. Foi o início da nossa vigilância eletrônica de alta tecnologia. Otto era um traficante que flertava com a submundo da prostituição. Era excêntrico, poliglota, com contatos mundiais para um bandido pé de chinelo. Fazia reuniões em vários idiomas em plena praça, perto do porto. Até o incidente...

— O que não está no relatório, Bruno? — perguntou incisivo Moreira Cesar. 

— O corte cirúrgico na carótida dele, parecia de médico usando um bisturi. E teve o pulso eletromagnético: um campo magnético que queimou todos os aparelhos num raio de trezentos metros no ato do crime.

 — E o que mais? — perguntou de forma amena Moreira Cesar

 — Elias Grael, o dono do carrinho de cachorro-quente, não foi atingido pelo pulso. Dizem que ele era nosso informante.

— Terceiro ato: Adérito Muteia, o exilado luso-africano! — o tom agora era sutil.

— Uma figura ímpar. Nunca vi alguém tão inocente e tão culpado ao mesmo tempo. O homem era mais puro que um bebê recém-nascido, e isso justificava a vigilância: grandes criminosos costumam posar de bons homens e mulheres. Mas o real motivo de eu estar aqui é que eu sou o único elo entre os casos. Eu fiz as vigilâncias, eu redigi os relatórios. No caso Kriseide, só compilei dados de uma equipe que eu nem conhecia, supervisionada por alguém do Estado-Maior. Ninguém assina esses relatórios, coronel. Nem timbre eles têm.

— Esperava mais da sua memória eidética, cabo — disse Moreira César, enfadado.

— Então vamos apelar para ela: o policial do arsenal que liberou a arma do caso Kriseide é o mesmo que estava sob suspeita de envolvimento com Otto Kürten. E tem o quarto ato: os três policiais dizimados na praia deserta na mesma hora em que Otto era executado. A viatura deles também foi atingida por um pulso eletromagnético. O que faço aqui de fato, coronel? — perguntou Bruno, nervoso.

De repente, uma mulher loira de meia-idade saiu das sombras atrás do coronel. Ela sorriu para Bruno. Segurou a testa de Moreira César com uma mão e, com a outra, usou um bisturi para cortar a garganta do oficial. Um jato quente cobriu o cabo. Bruno viu uma tatuagem no braço da mulher: Agnes.

— Cabo! Cabo Bruno! — as pontas dos dedos gélidos do coronel sacudiam o ombro de Bruno. — Acorde, homem! Estamos quase no fim.

Bruno lembrou do nome. Agnes era outro elo. O capo Bruno Marques estava exausto.

— Quem é Agnes? Vou sair vivo daqui coronel? — sussurrou o cabo Bruno.

 — Paciência homem! — Moreira César levantou-se e pegou um relatório de capa branca: José Carlos Couto. Jogou-o na mesa com fúria. — Este é o marco zero, o princípio de tudo!

Bruno lembrou: José Carlos era um bêbado folclórico típico de bairro de periferia e de cidade pequenas.

— Apareceu morto, boiando no rio... É o primeiro pequeno delito? — perguntou Bruno.

— O Big Bang, cabo! A morte dessa figura opaca é o elo que liga seus relatórios aos pulsos magnéticos que inutilizam nossa tecnologia. Os pontos nulos no céu. Que o senhor nominou nos vossos relatórios! — disse o tenente-coronel.

— O homem pulou da ponte, coronel. Só isso! — ponderou o cabo Bruno.

— E as luzes da ponte queimaram no mesmo instante! Um corpo nas águas não é mais que um anônimo que deu um passo para a morte. É algo maior! Mas o passo seguinte é o que tu farás por nós. Você vai matar alguém. Não um anônimo qualquer. Agora vá para casa, não se comunique com ninguém, ninguém e aguarde ordens. Saia! É uma ordem cabo Bruno Marques! Vá! — gritou o coronel Moreira Cesar, que levantou da cadeira e apontou para porta.

Uma onda de energia atingiu Bruno, as luzes do escritório faiscaram e explodiram. Marques trôpego saiu do escritório. Poucos metros depois, o cabo ouviu o som abafado de um disparo de arma antiga e o baque de um corpo caindo. O cabo ficou aterrado, a poucos metros do sombrio bunker do coronel.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.