Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Segunda Parte
Com o sorriso
marcado
Da certeza de quem vai indo
Sob a luz da lua!
Entre as brumas...
Sozinha! Vende-se amor!
Mas quem quer comprar?
Quem sabe somente eu!
Os
passeios noturnos da Dama da Noite iam da Rua de Baixo, localizada na zona
portuária, e acabavam na praça da Igreja Matriz, e invariavelmente começavam no
crepúsculo. Eram um misto de aventura ao desconhecido e também pura diversão
para Cigana. Ela sabia como as coisas funcionavam: as ruas tinham donos, e
esses donos eram cruéis e bem persuasivos em seus pontos de vista. O livre
transitar dela tinha prazo para acabar, e a Dama da Noite sabia disso.
Pois
o transitar avulso de Cigana, da zona portuária, dominada pelos bordéis
baratos, ao limiar da zona dominada por gays, travestis e transexuais que
trabalhavam na rua, era, por si só, uma aventura perigosa. Perigosa e divertida
para Cigana, pois, no início, o mercado profissional do sexo achou graça nela:
uma figura exótica, de pele morena, olhos negros ligeiramente puxados, longos
negros cabelos reluzentes e vestida com roupas diáfana, coloridas e
esvoaçantes. A até então desconhecida passeava pela noite à cata de clientes
desavisados, de forma avulsa e independente.
Cigana
se divertia muito com a forma como os trabalhadores portuários, pescadores
profissionais, tripulantes de navios nacionais e estrangeiros e as figuras
fáceis do submundo a tratavam: — Tem carne nova no pedaço, gente! Ela escutou
muito isso ao caminhar por ali, como também escutou palavras em diferentes
línguas que ela pouco entendia. Atendia essa clientela avulsa em seu
apartamento quarto e sala, localizado entre a zona portuária, o porto pesqueiro
e o centro da cidade.
Em um
final de tarde, quando Cigana saiu de casa, andou poucos metros em linha reta,
cruzou a grande avenida e se deparou com uma outra realidade. Muito diferente
da pulsante e plural zona comercial no centro da cidade portuária: o comércio
do sexo que se movia nos arredores da Igreja Matriz depois que as missas
acabavam.
Por
ali, Cigana vislumbrou muitos fregueses em potencial; de fato, muitos
perguntavam se ela era mesmo mulher, visto que estava na zona dominada por
gays, travestis e transexuais.
Enfim,
aquela aventura pueril acabara de perder a graça para alguns naquele começo de
noite, pois perder o controle das coisas não estava nos planos dos donos da
noite. As leis não escritas, por fim, ganhariam corpo em improváveis mãos
invisíveis. A figura andrógina que se materializou na frente de Cigana veio,
enfim, para pôr ordem no local.
—
Como uma gracinha como tu veio parar por essas bandas e a esta hora, meu anjo?
— Quem fez a pergunta era uma mulher alta, de pele branca, cabelo bem curto e
negro como a noite mais escura.
Ela estava
vestida toda de preto, calçava coturnos bem engraçados, usava uma camisa
regata, esmalte preto reluzente nas unhas, anéis de prata nos dedos, batom
negro nos lábios e rímel marrom cintilante nos olhos. Tinha olhos negros e
gelados, calça de silicone, um delicado piercing no nariz, outro na sobrancelha
esquerda e grossas correntes de prata no pescoço. Comportava-se como se fosse a
dona da rua.
A voz
de comando fez estrago na percepção de realidade da Dama da Noite. Cigana ficou
sem ação.
— Com
os meus pés, ora essa! E com minha boa vontade de caminhar também! E não és
minha mãe, ora bolas! — respondeu de forma zombeteira a Dama da Noite.
— Vai
pra casa, menina, meu anjo negro, antes que tu te machuques de verdade ou coisa
pior! — A ordem, à moda militar, seguiu-se de um cartão de visita que a mulher
passou para Cigana. — Vê se aparece nesse endereço e na hora que está marcada
aí atrás.
O
cartão branco tinha um dragão vermelho em formato de serpente desenhado e
trazia escrita a palavra Parole.
Cigana,
com temor, pegou o cartão de visitas e leu no verso o endereço e o horário
referidos pela mulher. Ao levantar os olhos para fazer qualquer pergunta, a
mulher simplesmente sumira, como se tivesse se desintegrado.
Fragmento da novela A Casa de Teto Verde. Texto
de Samuel da Costa, poeta, novelista, e contista em Itajaí, Santa Catarina.