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UM MERGULHO NA ESCURIDÃO (2ª PARTE)

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)




 Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

Segunda Parte

Com o sorriso marcado
Da certeza de quem vai indo
Sob a luz da lua!
Entre as brumas...
Sozinha! Vende-se amor!
Mas quem quer comprar?
Quem sabe somente eu!

 

Os passeios noturnos da Dama da Noite iam da Rua de Baixo, localizada na zona portuária, e acabavam na praça da Igreja Matriz, e invariavelmente começavam no crepúsculo. Eram um misto de aventura ao desconhecido e também pura diversão para Cigana. Ela sabia como as coisas funcionavam: as ruas tinham donos, e esses donos eram cruéis e bem persuasivos em seus pontos de vista. O livre transitar dela tinha prazo para acabar, e a Dama da Noite sabia disso.

Pois o transitar avulso de Cigana, da zona portuária, dominada pelos bordéis baratos, ao limiar da zona dominada por gays, travestis e transexuais que trabalhavam na rua, era, por si só, uma aventura perigosa. Perigosa e divertida para Cigana, pois, no início, o mercado profissional do sexo achou graça nela: uma figura exótica, de pele morena, olhos negros ligeiramente puxados, longos negros cabelos reluzentes e vestida com roupas diáfana, coloridas e esvoaçantes. A até então desconhecida passeava pela noite à cata de clientes desavisados, de forma avulsa e independente.

Cigana se divertia muito com a forma como os trabalhadores portuários, pescadores profissionais, tripulantes de navios nacionais e estrangeiros e as figuras fáceis do submundo a tratavam: — Tem carne nova no pedaço, gente! Ela escutou muito isso ao caminhar por ali, como também escutou palavras em diferentes línguas que ela pouco entendia. Atendia essa clientela avulsa em seu apartamento quarto e sala, localizado entre a zona portuária, o porto pesqueiro e o centro da cidade.

Em um final de tarde, quando Cigana saiu de casa, andou poucos metros em linha reta, cruzou a grande avenida e se deparou com uma outra realidade. Muito diferente da pulsante e plural zona comercial no centro da cidade portuária: o comércio do sexo que se movia nos arredores da Igreja Matriz depois que as missas acabavam.

Por ali, Cigana vislumbrou muitos fregueses em potencial; de fato, muitos perguntavam se ela era mesmo mulher, visto que estava na zona dominada por gays, travestis e transexuais.

Enfim, aquela aventura pueril acabara de perder a graça para alguns naquele começo de noite, pois perder o controle das coisas não estava nos planos dos donos da noite. As leis não escritas, por fim, ganhariam corpo em improváveis mãos invisíveis. A figura andrógina que se materializou na frente de Cigana veio, enfim, para pôr ordem no local.

— Como uma gracinha como tu veio parar por essas bandas e a esta hora, meu anjo? — Quem fez a pergunta era uma mulher alta, de pele branca, cabelo bem curto e negro como a noite mais escura.

Ela estava vestida toda de preto, calçava coturnos bem engraçados, usava uma camisa regata, esmalte preto reluzente nas unhas, anéis de prata nos dedos, batom negro nos lábios e rímel marrom cintilante nos olhos. Tinha olhos negros e gelados, calça de silicone, um delicado piercing no nariz, outro na sobrancelha esquerda e grossas correntes de prata no pescoço. Comportava-se como se fosse a dona da rua.

A voz de comando fez estrago na percepção de realidade da Dama da Noite. Cigana ficou sem ação.

— Com os meus pés, ora essa! E com minha boa vontade de caminhar também! E não és minha mãe, ora bolas! — respondeu de forma zombeteira a Dama da Noite.

— Vai pra casa, menina, meu anjo negro, antes que tu te machuques de verdade ou coisa pior! — A ordem, à moda militar, seguiu-se de um cartão de visita que a mulher passou para Cigana. — Vê se aparece nesse endereço e na hora que está marcada aí atrás.

O cartão branco tinha um dragão vermelho em formato de serpente desenhado e trazia escrita a palavra Parole.

Cigana, com temor, pegou o cartão de visitas e leu no verso o endereço e o horário referidos pela mulher. Ao levantar os olhos para fazer qualquer pergunta, a mulher simplesmente sumira, como se tivesse se desintegrado.

 

Fragmento da novela A Casa de Teto Verde. Texto de Samuel da Costa, poeta, novelista, e contista em Itajaí, Santa Catarina.