Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)
Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Terceira parte
Nas medidas de todas as coisas
Nas medidas de todas as coisas
De todos os inaudíveis sons ao redor
De
todas as abstratas
E vívidas cores
E de todas as negras múltiplas
Escuridões ao meu redor
Na
avenida movimentada em frente do clube noturno, uma carroça parada; o seu
condutor decidiu examinar a caçamba de lixo, que fora abastecida antes mesmo
que amanhecesse o dia. O cavalo, que conduzia a carroça decadente, parecia não
estar com seus dias contados; estava, na verdade, bem perto do fim: velho e
doente. Mesmo assim, o animal detinha um porte aristocrático, que chamou a
atenção de alguns desavisados transeuntes que por ali caminhavam a pé e de
bicicleta. Os turistas e locais pararam e bateram fotografias da cena inusitada
e rara em tempos apopléticos de autoestradas congestionadas. E toda sorte, de
veículos automotores, em uma cidade pequena, sazonal e turística. O carroceiro
pareceu não se importar com nada para além da sua busca pela subsistência.
Estava acostumado com a atenção que o cavalo atraía para ambos, o que ajudava
no caso de algum agente da lei ou segurança privado aparecer para pôr fim à sua
atividade cotidiana.
Alheio
ao que ocorria à sua frente, um prédio imponente, com um ar de decadência, não
se importava em ter o seu brilho ofuscado. Um ar artificial, pois a construção
em estilo gótico não era tão velha assim. Um olhar mais atento teria a
impressão de que os mantenedores do lugar queriam mesmo que fosse assim. O
prédio era todo pintado de preto e cinza por fora, com a pintura descascando,
mas, em uma olhada rápida, notavam-se as modernas câmeras de vigilância de alta
resolução que ladeavam todos os quadrantes do edifício. Dois enormes e
imponentes vasos, feitos por um oleiro luso-brasileiro renomado, ladeavam a porta
de entrada do clube noturno. Os vasos eram estéreis, não tinham planta alguma;
somente finos arames simulando uma árvore sem vida, sustentados por uma grama
verde e artificial. As árvores artificiais iam até o teto do hall de entrada.
Não havia tapete algum na entrada, só o piso frio e branco de mármore Carrara.
A grande porta era toda entalhada com detalhes artesanais feitos por um artesão
local já falecido: uma peça de ébano com figuras sacras que remontavam ao
século XVIII.
Quando
a Dama da noite parou diante da porta de entrada do Darkness Fall Club, ignorou por completo a agitação turística
existente a poucos metros dela. Somente olhou para o cartão de visitas que
segurava com as pontas dos dedos das duas mãos. Estava no lugar certo e na hora
certa, então só poderia ser ali mesmo, pensou, um pouco excitada. Ao se dirigir
à porta de entrada, movida mais por curiosidade que por qualquer outra coisa, a
Dama da noite percebeu um interfone na lateral esquerda da porta. Levou a mão
para tocar, mas a porta se abriu de repente. A mulher que a abordou no dia
anterior saiu das sombras e se materializou na frente da Dama da noite. Usava
as mesmas roupas; a jovem logo calculou que fosse um tipo de uniforme e que ela
estava em pleno horário de trabalho.
—
Pontual, gostamos disto. Começou bem, anjo negro! — disse a mulher, em meio a
um sorriso gélido que lhe brotou na face por uns instantes, para depois retomar
a postura marcial do dia anterior.
— Nem
te conheço e já botou um apelido em mim? Que coisa esquisita, não acha? No
mais, não te dei tamanha liberdade! — disse Cigana, demarcando posição.
— Vamos
entrar! Tem umas pessoas que querem te ver com urgência!
— Me
ver? Sabe que não sou barata, cobro por hora e cobro caro!
A outra
não deixou de rir de novo, para depois retomar a postura marcial. Dessa vez, a
Dama da noite notou que a mulher olhou rapidamente para o lado antes de mudar
de feição; ela estava com um ponto eletrônico. "Sem dúvida é a encarregada
da segurança e não uma recrutadora como pensei anteriormente", pensou a
Dama da noite.
— Olha,
dona toda músculos, antes de eu entrar neste muquifo de quinta, quero saber
onde estou me metendo, oras bolas. Onde estou indo? Onde quer me enfiar, dona
músculos? — disse a Dama da noite, mais alto do que pretendia.
— É
melhor entrar de uma vez, moça e não me faz perder mais tempo! — vociferou a
outra de repente, pegando-a pelo braço com rispidez. Cigana nem teve tempo de
dizer nada. Ela é mesmo profissional de segurança, pensou de forma rápida.
Ao
adentrar no clube noturno, Cigana percebeu uma estranha agitação no lugar; sons
de pessoas sussurrando e conversando em tom baixo. Não demorou para a Dama da
noite perceber que estavam testando a aparelhagem de som e a acústica do lugar.
A primeira impressão era de que o lugar parecia um clube noturno, como outro
qualquer, mas parecia bem maior por dentro do que por fora, e o jogo de luzes
da casa era moderno. A Dama da noite não viu a cabine de som; bastou olhar para
cima para notar que ela ficava em uma espécie de balcão que lembrava um teatro.
O palco no fim da pista também pendia mais para um palco de teatro do que para
qualquer outra coisa. O telão ao fundo dava a impressão de que o local era uma
mistura de teatro, danceteria e cinema. Três trabalhadores negros
uniformizados, equipados com cintos de segurança, óculos de proteção pessoal e
radiocomunicadores digitais, faziam a manutenção da iluminação. Dois operários
estavam no piso e o outro em cima de uma pequena plataforma móvel, fazendo a
manutenção na iluminação da casa noturna. Cigana não entendia as palavras que
chegavam pelo rádio nem as respostas dos que estavam no chão. Logo percebeu que
falavam uma língua estrangeira, apesar de não parecerem de fora do país. Os
três nem se deram conta da presença das duas mulheres que passavam ao lado
deles.
A
mulher com ares militares conduziu Cigana para os fundos do lugar. Ali, a Dama
da noite percebeu outras duas presenças estranhas e improváveis: um jovem
casal. Ela, uma indígena com trajes sumários típicos, abraçava um homem com
traços teutos. A nativa, com seus longos cabelos negros e lisos que iam até a
cintura, tinha o corpo moreno escultural e pintado, penas coloridas nas orelhas
e estava descalça. Ele, louro de olhos azuis, usava chapéu e trajava roupas
grosseiras, rasgadas e sujas, com botas de montaria. Pareciam estar em marcha,
com aparência cansada, mas o rosto da mulher irradiava luz de tanta felicidade.
Ao passar pelo casal, a indígena olhou para a Dama da noite e balbuciou
palavras ininteligíveis; ela tinha uma aparência familiar para a moça. Cigana
logo pensou em alguma performance teatral a ser encenada naquele lugar
estranho. E Cigana, que conhecia bem a cena noturna na cercania, achou
esquisito não saber da existência do Darkness
Fall Club, que parecia ser um agitado clube privativo.
Olhando
para o lado esquerdo, Cigana viu o bar, um misto de sofisticação e decadência:
um balcão mármore, taças e garrafas de cristal e quatro barris de carvalho. O
barman — a jovem não soube dizer se era homem ou mulher — vestia camisa polo
branca e um casaco preto, usava rímel nos olhos e preparava um drink. Ergueu a
cabeça para olhar a jovem nos olhos; a boca pequena se abriu em um sorriso.
Tinha o queixo pontudo e fino com um pequeno coração negro pintado, olhos
negros rasgados com um brilho gélido, mãos pequenas e delicadas com os dedos
desnudos e cabelos espetados, empastelados de gel. A Dama da noite, não sabia
se a criatura andrógina era homem ou mulher.
— Gente
esquisita que trabalha neste muquifo, hein, sargentona?
— Estás
falando do quê, minha filha? É melhor ficar quietinha, pois vai acabar logo e
não vai doer nadinha!
Caminharam
até o fim do clube. Cigana, demonstrava certa resignação, sabendo que sua vida
estava prestes a mudar; já a outra caminhava como se estivesse em uma missão
militar. Enfim, chegaram ao fim do clube noturno e pararam ao lado esquerdo do
palco, junto a uma escada metálica estreita, em caracol, feita artesanalmente
por um talentoso ferreiro do mediterrânico.
—
Então, sargentona, o que acontece aqui afinal de contas?
— Sobe,
anjo negro. Falta pouca coisa agora, meu doce de gente! Suba! — ordenou, como
quem dá uma instrução a alguém que já não entendia mais nada.
— Por
que devo subir, sargentona? Não vens comigo?
— Não
faz a gente perder tempo, tempo que tu não tens, meu amor! Suba e não olhe para
nada, não pare para nada. Vá até o terceiro piso, vais encontrar outra escada
dessa e é só isto! — Pegou com força os braços de Cigana e deu uma sacudida. —
Entendeu? Vamos, responde, sua sonsa!
O tom
ríspido e o olhar gelado não assustaram a jovem em absoluto.
— Tá!
Tá! Me solta, já sei. Vou subir, mas me larga! Anda, me larga!
A Dama
da noite, subiu sem dificuldade. Na cabeça, martelava a ideia de tudo aquilo e
o porquê de a sargentona não poder subir junto. A escada era longa e estreita e
a Dama da noite pensou na funcionalidade de haver uma estrutura metálica
daquelas ao lado do palco, notando também os detalhes artesanais do
mediterrâneo da peça.
Fragmento
da novela: A Casa de Teto Verde. Texto de Samuel da Costa, poeta, novelista e
contista em Itajaí, Santa Catarina.