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EDITORIAL

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)



Por Paccelli M. Zahler, editor (Brasília, DF)

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A edição de outubro da Revista Cerrado Cultural apresenta um conjunto consistente de produções literárias e artísticas que reafirmam a missão da revista: promover circulação cultural qualificada, valorizar novas vozes e fortalecer o diálogo entre leitores, autores e colaboradores. Em um ambiente digital cada vez mais competitivo, seguimos investindo em conteúdo que combina rigor editorial, diversidade temática e estratégias que ampliam alcance e engajamento.

Neste mês, reunimos poemas, narrativas, reflexões, perfis culturais e trabalhos visuais que dialogam com temas relevantes da contemporaneidade. A pluralidade de abordagens — nacionais e internacionais — consolida a revista como espaço de referência para quem busca literatura, arte e pensamento crítico.

É uma edição marcada pela força da palavra e pela expansão da presença digital da revista. Convidamos leitores e criadores a explorar, compartilhar e participar. A Revista Cerrado Cultural segue aberta a novas vozes, novas ideias e novas parcerias.

Seguimos adiante com responsabilidade editorial, respeito ao leitor e dedicação à cultura em todas as suas formas.

ANGOLA

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)



Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)


      Angola, país no sul da África, é fascinante. As praias tropicais do Atlântico; o labirinto de rios e desertos; as florestas onde brotam imensas cachoeiras, parques coalhados de elefantes, girafas, impalas, búfalos selvagens. Lagoas cercadas de capim de fogo, labaredas verdes, sob um sol carrasco.

      A história de Angola atravessou séculos de reinos como o do Congo e de Ndongo. Depois, um longo período de colonização portuguesa, iniciado com a chegada do navegador Diogo Cão, em 1482. O tráfico intenso de mão de obra escravizada para o Brasil. O avanço militar para o interior do território. A transição para a independência (1861-1974) com lutas armadas, sustentadas por movimentos nacionalistas ora de base marxista, ora apoiados pelos Estados Unidos, ora pelos maoístas. Por toda parte, sangue, explosão de minas terrestres, mutilações. A Independência só foi alcançada em 1975, após a Revolução dos Cravos em Portugal, que derrubou a ditadura de Salazar. Centenas de portugueses que viviam em Angola retornaram a Portugal. Angola mergulhou numa violenta guerra civil. Um caminho difícil de democratização, descolonização e desenvolvimento.

      Estou impactada pela leitura do romance “Os Cus de Judas”, do escritor português António Lobo Antunes (1942-2026). O livro que quebrou silêncios, que consolidou o autor, que descobriu a face de um massacre insano e sem sentido, como são todas as guerras.

      Comecemos pelo título: “Os Cus de Judas” é uma expressão para indicar lugares longínquos, isolados, abandonados por Deus. Algo como: “Lá, onde Judas perdeu as botas.”

      Trata-se de um romance autobiográfico narrando os horrores da Guerra Colonial em Angola. A história de um médico, ex-militar, que é o protagonista, um alter-ego do próprio autor. Lobo Antunes serviu em Angola entre 1971 e 1973. Vinte sete meses curando corpos para matarem ou morrerem. Voltou traumatizado, destruído psicologicamente. As trincheiras habitando sua mente. Sem conseguir se adaptar com a vida em Lisboa. Sem conseguir se comunicar com a mulher e a filha de olhos verdes. Abismo no lar. Laços rompidos. Olhar distante.

      Numa noite, o médico entra num bar e entre goles de conhaque, conversa com uma mulher silenciosa, que acabou de conhecer. Despeja memórias, amarguras, crueldades presenciadas. Tudo numa linguagem densa, poética, nostálgica. Há inúmeras citações a pintores como Salvador Dalí, Mondrian, Vermeer; a poetas como Fernando Pessoa e Antero de Quental; a filmes de Buñel e de Chaplin. A mulher interlocutora representa a própria sociedade portuguesa forçada a ouvir o relato cheio de verdade. O livro é dividido em 23 capítulos que recebem, cada um, uma letra do alfabeto. Um dicionário de fragmentos e dores.

 

      Veio forte a lembrança do meu encontro em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no ano de 1980, com o português Octávio Canhão Bernardes (1923-2010). Canhão Bernardes era engenheiro, arquiteto, escultor autodidata. Deixou uma marca profunda no urbanismo e na arte de Angola, especialmente em Lobito, onde viveu e trabalhou intensamente entre 1960 e 1970. Foi ali que esculpiu “A Sereia”, às margens do Lobito; a estátua “Caminhando” e o “Monumento à Aviação”, perto do aeroporto. Tudo no nível do chão e das águas, pois detestava os pedestais.

      Canhão Bernardes lera um poema meu no jornal Correio do Estado e quis me conhecer pessoalmente. Ele e sua esposa, Dona Odete, nos receberam em sua casa, com doces amarelos, os papos de anjo e vinho do Porto. Era um filósofo, um teórico original. Escrevera o livreto: “Em busca do paraíso perdido: arqueologia da arte.” Ele afirmava em sua investigação sobre os impulsos humanos primordiais voltados à criação artística, que as raízes puras e ancestrais jamais são anuladas. Ao contrário, são reinventadas. Esses impulsos, segundo ele, levam à transcendência, à busca do sagrado e do eterno; à territorialização estética do espaço através dos símbolos; à projeção catártica dos sonhos e dos conflitos internos e à ânsia de comunicação e conexão coletiva.

      Aprendi muito com ele. Ouvia suas explicações com sede de conhecimento. Eu era tão jovem. Depois, o casal partiu para o Rio de Janeiro e os perdemos de vista. Foram ao encontro dos filhos, Viviana, que tinha nome de fada e Nuno, uma homenagem ao herói Nuno Álvares Pereira, o nobre general condestável, cantado por Camões nos “Lusíadas”.

      Uma noite, entre lágrimas, contou-nos sobre os últimos e tensos momentos vividos em Angola. A fuga, o medo da guerra, da sanha revolucionária contra os portugueses. Havia escondido uma arma no quintal, caso houvesse necessidade de se matar para não cair nas mãos de torturadores. O alívio que sentiram quando entraram no avião rumo a Lisboa. E as aventuras em solo brasileiro até chegarem ao nosso distante Mato Grosso do Sul, como gerente de armazenamento de grãos.

      A partir desse relato, escrevi o poema “Visão de Angola”:

 

Vejo Angola

Da janela do avião:

Uma barcarola

No mar de Benguela,

A água lilás,

Guardiã da sabedoria,

Divide em ondas-

 

A guerra de um lado

E de outro, a harmonia.

 

Vejo Angola

Da janela do avião:

Uma casinhola,

A amoreira gigante

Onde enterrei a pistola

Com a qual me mataria.

 

Vejo Angola

Da janela do avião:

Tão verde,

Tão sagrada,

Nem parece que presenciei a degola,

O combate,

A afirmação de nacionalidade,

O canto dos poetas

Exigindo liberdade

Nas cordas da viola.

 

Vejo Angola

Da janela do avião:

Angola, minha escola,

Meu espaço de luta,

Minha infância crioula,

Mestiça,

 

Filho de português e africana.

 

Não pintarei mais meu corpo de tacula,

Não ouvirei mais o tam-tam dos tambores,

Não tocarei a pele dos antílopes,

Não comemorarei ritos de passagem,

Não seguirei as abelhas do dia,

Nem penetrarei nas florestas de lianas.

 

Angola,

Da janela do avião,

Rola

Como um filme

No fundo das minhas retinas.

 

       Sim, caro amigo Canhão Bernardes, não há bem maior, maior que a própria vida, do que a liberdade.

PODE HAVER LEIGOS NA IGREJA?

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)


Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

  

Quando se reconhece que pouco ou nada se sabe de certo assunto, é costume dizer: " Sou leigo nessa matéria!"

Na Igreja não deve haver fiéis que sejam leigos. Todos os cristãos, devem ser evangelizadores – por palavras, ações e conduta de vida.

Evangelizar, é trazer alguém a Cristo. Não é angariar prosélitos para que a Igreja cresça, em quantidade; pouco se preocupando com a qualidade.

O neófito, uma vez convertido, precisa de integrar-se num grupo de crentes, que pode ser ou não, o mesmo do evangelizador.

Billy Graham, um dia, disse: “O convertido ou reconvertido, após haver corrido várias comunidades, inclinasse para a de seus pais e avós”. -Cito de cor.

Na Igreja há muitas tarefas. O sacerdote pode indicar, conhecendo a capacidade, educação, e conhecimentos adquiridos por cada um.

Uma, é tarefa de todos: evangelizar; mas, para o fazer, precisa de estar preparado, para enfrentar o mundo.

Na Bíblia existem passagens obscuras, que só se percebe devidamente, depois de bem esclarecidas. É recomendável frequentar, com assiduidade a catequese para adultos ou a aula dominical. Se o catecúmeno escolhe a Católica, pode integrar-se na – Igreja diocesana ou comunidade, com poucas diferenças. Exemplo: Franciscanos; Beneditinos; Dominicanos etc., etc. Ou a mais recente, semelhante às pentecostais, que atualmente encontra-se em grande expansão. Possui canais de TV, e emissoras de rádio, a: "Canção Nova"" A escolha depende do temperamento de cada um, já que todas ensinam a mesma doutrina bíblica e obedecem a Sua Santidade o Papa.

Com a globalização, a cada passo, somos abordados por quem pretende difundir religiões – africanas, asiáticas ou do médio -oriente.

Se não se sente preparado a dialogar, não o faça: diga-lhes: que já aderiu a Cristo e À Sua Igreja, e pretende viver e morrer, na crença dos pais.

Compete às Igrejas cristãs, de todas as confissões, tentar evangelizar s pessoas, que surgem no nosso país, devido à globalização e mormente. à imigração, originária de nações onde o cristianismo não é dominante.

A INVEJA ENTRE OS INTELECTUAIS

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

 

Quem vive muitos anos, facilmente verifica que, o parecer dos homens de Letras e não só, - variam consoante a posição que ocupam no xadrez da vida.

Basta escrever critica desfavorável ou pouca lisonjeira, para o poema ou texto, escrito por Fulano, passe de bom a mau.

 Moura e Sá, no interessante ensaio: " Vida e Literatura", escreveu: "Quando dizemos: Este poema é mau, queremos muitas vezes, afirmar que o autor pensa em matéria política, de maneira diferente da nossa".

Em 1604, Lopes de Vega, despeitado, escreveu missiva a amigo, referindo-se a Cervantes, por este haver depreciado seu teatro: " De poetas não digo, que esteja bom ano (...), mas nenhum há tão mau como Cervantes, nem tão néscio, que seja capaz de Gabar o D. Quixote."

É conhecidíssima a carta, que Voltaire escreveu a Quinault, lamentando-se:" Só se ganha (com os escritos,) inimigos, desprezo, quando não se vence, e ódios quando se triunfa.".

Também Ramalho, “Em Paris" se lamenta:

"Os homens predestinados pelo talento de escrever, criam às vezes prosélitos, mas não criam amigos; conquistam inteligências, mas não corações; tornam-se célebres, mas não se tornam amados."

Já que pretendo reunir apanhado de opiniões de homens de Letras, sobre a inveja, cito o que declarou ao " Diário de Notícias" Helena Sacadura Cabral: " Os valores, raramente são conhecidos, e os mais inteligentes constituem o repasto ideal para a calúnia."

É sabido que a crítica é, em geral, fruto de "capelinhas". Se são de esquerda, elevam ao Olimpo, os correligionários; se são de direita comportam-se como diz Cruz Malpique: "Agora é que vais saber de quem sou filho!", e desandam sem dó e piedade. Álvaro Lins, em " Literatura e Vida Literária" afirma:" Alguns me advertem que não estou agradando inteiramente com a minha crítica, porque não me coloquei ao serviço de um partido ou de grupo, que por sua vez, me apoiaria"

O defunto suplemento literário, do "Jornal de Notícias", foi encerrado por não ter louvado o romance de Paços d'Arcos, segundo, Manuel António Pina, ("JN”, de 26/O1/2012, pág. 48.).

Disse. por graça, Júlio Dantas, sobre a inveja entre intelectuais, que era - A "Formiga branca das literaturas".

Por sua vez, algumas editoras preferem publicar só os da sua ideologia política. Certo jovem, no início da carreira, lembrou-se de enviar o original, a escritor consagrado. Este deu-lhe parecer favorável – O que é raro! Acrescentando que seu editor talvez pudesse publicá-lo. Mas, teria de se inscrever no partido de Sicrano, se o queria vê-lo em letra de forma!....

Infelizmente quem não tem posses ou mecenas, se quer singrar, tem que se tornar Bonifácio de "importante", e pensar, e agir, como ele quer.

Assim foi e assim será – em todas as profissões....

 

O HOMEM QUE TECIA BOLSAS

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)


Por Leandro Bertoldo Silva (Padre Paraíso, MG)

 

Ele havia aprendido com a sua mãe que as bolsas servem para guardar histórias.

Elena aprendera desde cedo a arte da costura. Menina ainda e, naquele tempo, trabalhou em uma fábrica de sapatos. Como era muito pequena, era colocada pelos adultos dentro de uma caixa, onde separava os pares entre pequenos, médios e grandes.

Mas não eram os sapatos a ser a razão do que a acompanharia pelo resto de sua vida.

Com o tempo aprendera a cortar, e aqueles pedaços de retalhos de couro que diziam não servirem para nada, eram emendados um no outro com desenvoltura pela menina que fez nascer de suas mãos de criança uma linda e encantadora bolsa.

Todos ficaram maravilhados com o prodígio de Elena. Mas o que ninguém sabia é que não era o couro a preencher o coração da menina, mas a linha. Era com ela, em laçadas mágicas em pontos e costuras, que o tempo passou para ela, deixando pelo caminho de sua existência centenas de bolsas tecidas de todos os tipos: grandes, pequenas, brancas ou pretas, de adultos e crianças a serem preenchidas com histórias, histórias que nem mesmo ela sabia que tinha, mas continuava, ano após ano, tempo após tempo, linha após linha a tecer, tecer e tecer.

Antes que Elena partisse, as pessoas imploravam: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena não vendia. Seus próprios filhos e netos não entendiam e também pediam. Seus amigos repetiam palavras ao vento: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena não vendia, apenas dizia: “Eu sei o momento”.

Elena passou como o tempo. E o “momento” ninguém sabia, ninguém via. Seus cabelos brancos e finos que um dos seus filhos tão bem conhecia, ficou na lembrança de uma saudade que doía. O filho, agora homem feito, recordava do dia que sua mãe, pouco tempo antes de partir, abrira na cama todas as bolsas e as mostrava uma por uma. E agora lá estavam elas guardadas pela casa: bolsas de todos os tipos e cores, lisas, felpudas, abertas, fechadas, com cascas, almíscar, fechos e presilhas.

Para as pessoas era apenas um tempo perdido, um trabalho em vão. Mas para o filho que aprendeu a observar, cada bolsa era um afago de existência. Ele vira a mãe tecer muitas delas e trouxe à memória de como as suas mãos pareciam não segurar a linha e a agulha, mas a magia do invisível que logo se formava em mais uma reminiscência. Viu a bolsa de linhas azuis e lembrou de quando  ela o apresentou ao mar pela primeira vez; vira-a tantas vezes em volta de linhas amarelas a tecer o sol para aquecer o dia; afagou a bolsa bebê e imaginou como teria sido o dia em que ele mesmo dera os primeiros passos. Cada ponto, cada laço, do primeiro ao último, contava histórias. E ele estava ali com todas elas a sua frente. Mas as mãos de sua mãe não mais teciam, descansavam no silêncio que já não mais existia.

Com o tempo, sempre o tempo, uma aglomeração de vozes foi se formando. Para todos os cantos, para todos os lados, o filho parecia ouvir uma legião de pessoas, colecionadores, curiosos, palpiteiros a clamar: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena, agora ele próprio, não vendia. O que ele fez, porém, ninguém podia imaginar. Ele chamou as pessoas e dispôs todas as centenas de bolsas a frente delas, assim como sua mãe lhe havia feito. E foi aí que o “momento” que Elena tanto esperava, aconteceu.

O homem começou a abrir bolsa por bolsa diante da multidão que se aglomerava como num teatro. Curiosamente, à medida que eram abertas, o lugar se poetizava em afinidades. Ao abrir a primeira bolsa, um som suave de canção de ninar tomou o coração dos filhos que ali se encontravam a lembrar dos pais. A segunda fez surgir o aroma delicioso das manhãs de domingo quando o café coado exalava o gosto de bom dia. Da terceira saiu o barulho da chuva na telha de barro quando o sol dava lugar a outros espetáculos. Lembrou também de um livro que lera, onde o tempo era guardado em uma caixa e as palavras dançavam em sua mente… “Na caixinha iam parar a folha da árvore que caía, a gota da chuva que chovia, o medo que ela escondia, os bilhetes que ela escrevia, os desenhos que ela fazia, um tempo que ela sabia que não perdia, a imensidão dos sentimentos que ela vivia e a história da vida que ela tecia”. Mas ele tinha mais do que caixas; tinha bolsas tecidas à mão, as mãos de Elena, as mãos de sua mãe, que estava certa, afinal.

Que momento sublime ao mostrar que o mundo é efêmero e que os afetos precisam de um lugar para morar. Agora sabia. Elena desde cedo tecia não objetos, mas abrigos seguros para acolher os deslumbramentos de um primeiro beijo, as alegrias das famílias em noites de festa, as dores dos que perdiam seus entes queridos, os medos e descobertas da primeira infância, o perdão entre gerações. Cada bolsa era uma casa; cada casa uma vida na imensidão dos dias.

O homem então convidou um a um a se aproximar, e cada qual, ao abrir pela ressonância a sua bolsa, encontrava suas histórias e o que lhe definia. Saía feliz. Até que ele mesmo abriu a sua, uma bolsa simples lhe dada de presente pela própria mãe. Ao abri-la, encontrou a saudade. Essa apertava tanto! Mas junto dela encontrou também um desejo imenso do amanhã a partir do qual ele também começaria a tecer.

O GRITO

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)


Por Catarina Osoegawa (Florianópolis, SC)

 

O Grito, tela de Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês, revela o que nenhum artista havia conseguido expressar anteriormente, um momento de uma emoção vívida que nos remete a memórias arcaicas de experiências de medo, terror e desamparo, sensações que vivemos em torno  do nascimento. Munch retrata na pintura um momento de profunda ansiedade que descreveu como “um grito infinito que passava pela natureza”.

Viver sem emoção é como dormir com um chocolate delicioso na mão e acordar com ele todo derretido no lençol. Perde-se o sabor daquilo que mais se deseja quando não se degusta no momento certo. Viver exige entregar-se para cada expectativa, marcar o tempo de cada detalhe, celebrar, registrar, fotografar, chorar de alegria ou tristeza, compartilhar entre amigos uma experiência ainda aquecida pela emoção, vibrando com todas as cores do arco-íris, no exato momento em que nos surpreende, pois logo se desfaz e se esconde por entre as nuvens escorregadias do céu.

Nossas redes sociais tão facilitadoras de trocas e comunicação, propõem, ao mesmo tempo, que uma proximidade em velocidade alucinante, se transforme em um distanciamento longínquo e duradouro marcado pela ausência de contato e presença física. Nada é capaz ainda de substituir a emoção que pode ser vivida no contato olho a olho, corpo a corpo, na continuidade de sensações que nos provocam o estar junto com alguém.

Sensações são fenômenos naturais que vivemos a todo momento, que nos provocam todas as formas de emoções. Voam como os pássaros que chegam e se vão, alegram e às vezes assustam o nosso jardim emocional, mas logo permitem que outros se apresentem com um canto e colorido diferenciados, para exercitarmos o olhar e a escuta, e rapidamente tudo se emoldura em um novo retrato na sequência infinita do viver.

Podemos perguntar à IA, que tanto nos acrescenta de competência e praticidade: Seria possível agregar em proporção semelhante algo mais de amor em excelência? Uma era de transformação cultural global exige também um olhar mais respeitoso ao humano, e nós, brasileiros que somos, podemos perder o momento de dizer o que necessitamos verdadeiramente. Desejos diferem de necessidades, e estas precisam ser ouvidas, mesmo que sejam necessários os gritos de todas as vozes reunidas da sociedade, por mais heterogênea que seja.

O trabalho em equipe é algo que aprendemos desde que nascemos. Na família se congregam todos os esforços físicos e mentais para acolher as necessidades de um bebê que acaba de chegar e grita com o seu choro desesperado ansiando por recuperar a paz que vivia no ambiente embalado pela segurança garantida no meio intrauterino.

Planejamento rigoroso, rotina bem estabelecida, sintonia nos cuidados, empatia e afeto, criam para o recém-nascido uma base de sustentação firme para o desenvolvimento pleno e saudável. Somos bebês gritando em uma sociedade de surdos? Como nos fazer ouvir em meio a ruídos de toda sorte? Aproveitar o momento de uma eleição seria uma oportunidade de reunir os gritos de todas as vozes em consonância e harmonia, porém, cada grito tem a sua particularidade e uma interpretação diferenciadas. Qual o trabalho seria exigido para compreender e acolher o grito do desespero e desamparo coletivo?

Perder este momento seria como tentar degustar um pequeno pedaço de chocolate depois que ele estivesse todo derretido no lençol de censuras, ausências e silêncios mortificadores. Somos social e culturalmente marcados pelo Grito de Munch onde podemos observar duas pessoas que caminham ao longo da ponte totalmente indiferentes ao grito de uma outra pessoa em desamparo. Sair deste lugar que demanda algo do outro é desesperador, exige um amadurecimento e um longo tempo de processamento. O pequeno humano é capaz de transformar o seu grito em linguagem e criar formas cada vez mais claras de expressar seus sentimentos e necessidades. Munch, ao tentar processar e elaborar através da sua arte sentimentos profundos e difíceis de lidar, nos ofertou uma possibilidade na cultura criando a linguagem que chamou de expressionismo. Expressar desejos, sentimentos, necessidades e emoções, por todas as formas de linguagem, significa ainda...uma propriedade essencialmente humana.

PERGUNTA

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)


Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)

(Tradução: Carlos Ramos)


Se o ar contaminado

tivesse matado toda a vida,

 

se o calor

tivesse abrasado tudo,

 

ou se a Terra

tivesse sido devastada por um dilúvio,

 

restaria então

— como há tanto tempo —

alguma arca?

 

E, se nada restasse,

haveria um Deus

para criar o novo ser humano? 

O JARDINEIRO QUE FALAVA COM AS PLANTAS

  Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)



Por Dias Campos (São Paulo, SP)

 

A Casa de Repouso Jardim das Hortênsias era um exemplo a ser seguido. O atendimento aos idosos era personalizado; o ambiente, propício à socialização; as atividades físicas e lúdicas a todos estimulavam; os cuidados médico e dentário nada deviam aos melhores planos de saúde; e a escolha dos funcionários obedecia à rigorosa seleção.

A mensalidade era, portanto, salgada. Mas os responsáveis a honravam com prazer, pois, além de reconhecerem a seriedade desses diferenciais, viam os resultados estampados nos rostos dos moradores. 

            Mas como tudo o que é bom pode ficar melhor, a contratação de um novo jardineiro foi, aos poucos, elevando ainda mais o astral daquele lugar. E isso se devia não apenas à afabilidade que lhe era natural, mas, sobretudo, à maneira peculiar com que exercia a sua atividade.

            Esse modo, não o inventara, tanto que muitos há que o praticam. No entanto, o conversar com as plantas como se fossem íntimos, com certeza fazia de seu João um profissional que destoava, uma vez que o comum é ver um jardineiro trabalhando sozinho e em silêncio. E se estiverem em dupla, o máximo que fazem é falarem entre si.

Fosse como fosse, seu João seguia papeando com as plantas, estivessem a céu aberto ou em vasos espalhados pelas dependências do Jardim das Hortênsias. Apenas que, neste último caso, o diálogo realizava-se a baixa voz, seja para não incomodar um idoso que estivesse próximo, seja porque muitos dos assuntos tratados tinham um caráter de confidencialidade. 

O jardineiro tratava as plantas com a mesma deferência dispensada a qualquer pessoa. Daí que só iniciava um bate-papo depois do devido cumprimento – bom dia ou boa tarde. Em seguida, queria saber se estavam com sede ou se se ressentiam da marca do adubo. E as regava até que se dissessem satisfeitas, e prometia às descontentes mudar o fertilizante assim que a verba fosse liberada. 

Era claro que os assuntos não poderiam estender-se, visto que plantas e trabalho havia de sobra. Mas seu João sabia quando e como parar, de maneira que nenhuma delas ficava melindrada. 

E o fazia enaltecendo o viço nas suculentas; elas agradeciam, e retribuíam com mesuras e bons conselhos. Seguia parabenizando a escolha do modelito pelas rendas-portuguesas; elas sorriam, e faziam rodar os vestidos. E prosseguia louvando as formas, as cores e as fragrâncias com que as flores o brindavam a cada novo dia; e elas, apaixonadas, delongavam-se em seus atributos, fazendo com que os moradores e funcionários mais e mais admirassem o trabalho do novo jardineiro.

É claro que havia quem desfizesse da maneira que seu João trabalhava. Afinal, observar um homenzarrão, com pouco mais de quarenta anos, tagarelando com vegetais era, no mínimo, caricato. Mas o jardineiro, que não era surdo, dava de ombros, já que o importante era respeitar os contrários, o que sempre garantiria um bom convívio.

Entretanto, como a esmagadora maioria das pessoas tinha se acostumado com o método empregado por seu João, alguns idosos, porque estimulados com o que constatavam, também passaram a imitá-lo. De início tímidos, receosos, só pronunciavam poucas palavras e apenas com as plantas que decoravam os seus aposentos. Posteriormente, as conversas aconteciam em qualquer local, e chegavam mesmo a empolgar. 

Havia quem elegesse os girassóis para compartilhar a vitória no campeonato de tranca; quem optasse pelos cactos visando a dardejar o companheiro de quarto que jurava não roncar; e quem preferisse o salgueiro para chorarem juntos ante a goleada imposta ao time do coração.

Os novos hábitos dos moradores não passaram despercebidos dos funcionários, tanto que uma das cozinheiras começou a pedir sugestões para suas violetas sobre um novo cardápio que pretendia implementar.

É certo que esse “efeito dominó” chegou aos ouvidos dos três sócios da Casa de Repouso. E também é exato afirmar que nuvens cinzentas assomaram sobre suas cabeças, haja vista o temor de que essa moda pudesse manchar a excelente reputação de que desfrutavam, e, por conseguinte, comprometer futuros contratos. 

Mas como todos sabiam que jamais poderiam impedir que alguém conversasse com as plantas; como era notório que a maneira de ser e de agir do jardineiro melhorara a vibração dos idosos; e como os seus responsáveis (pagantes) comentavam satisfeitos a visível transformação nos semblantes de seus parentes, o receio deu lugar ao pragmatismo, e o salário de seu João mereceu substancioso aumento – nada como tratar com carinho a galinha dos ovos de ouro!

Certo dia, o jardineiro percebeu que um dos moradores, mesmo tentando disfarçar, esforçava-se para ouvir os seus bate-papos com as plantas. 

Seu João fez que não percebeu, e continuou conversando, risonho. 

No outro dia, a mesma curiosidade. Foi quando o jardineiro, não se contendo, virou para o idoso e explicou que não se perturbava em dividir o assunto com quem quer que fosse, mas as roseiras eram um tanto melindrosas, e gostariam de saber do seu interesse.  

É claro que o morador não sabia onde se enfiar. E, pedindo desculpas ao roseiral, passou a explicar o porquê tentava escutar o que falavam. Disse que não se envergonhava de falar com as plantas; muito pelo contrário, fazia-lhe muito bem. Mas as conversas travadas por seu João pareciam ser... reais! como se ele verdadeiramente ouvisse respostas, apelos, confissões!... E terminou confessando, um tanto sem jeito, que temia ficar como ele, um pouco... maluco.

O jardineiro, que não se ofendeu, explicou que fala com as plantas desde a infância. Mas foi na adolescência, quando os conflitos começaram a amontoar, que ele se perguntou se o que ouvia era mesmo verdade ou apenas fruto da imaginação. E como não queria que o apontassem como lunático, decidiu que só falaria com pessoas; não abriria exceção nem para os animais de estimação.

O idoso era só ouvidos.

Ao que parece, contudo, prosseguiu seu João, as plantas da redondeza não gostaram daquela decisão, e resolveram provar que ele nunca fora louco. Daí que, certa tarde, depois de ter pulado o muro do vizinho, quando alcançava a goiabeira, foi por ela avisado (aos gritos) para que estacasse, haja vista as urtigas plantadas em seu redor pelo dono da casa, com a intenção de dar uma lição no ladrãozinho. E ao prestar atenção, o adolescente constatou que havia, sim, mudas de urtiga-brava desejosas de serem roçadas pelos desavisados.

O idoso não teve coragem de comentar. Mas levantara a sobrancelha direita, o que lhe denunciava o pensamento. 

O jardineiro, por sua vez, retrucou que os crisântemos que estavam próximos acabavam de assoprar-lhe um recado, mensagem esta que veio sendo passada de planta para planta. 

O ouvinte franziu a testa. E seu João transmitiu o que recebera: A muda de boldo que ele cultivava em seu apartamento, e que sempre foi eficaz quando das crises de má digestão, concordava com o seu confidente sobre a ineficácia ulterior do seu chá e sobre a suspeita de uma úlcera. E o aconselhava a procurar o médico do Jardim das Hortênsias o mais rápido possível.

O morador arregalou os olhos! 

Ora, como ele não comentou com ninguém sobre essa suspeita – salvo com sua muda de boldo, a baixíssima voz e na intimidade do seu quarto –, era evidente que o jardineiro podia, sim, ouvir perfeitamente tudo o que as plantas falavam! 

E como essa comprovação abalou bastante o espírito do idoso, seu João teve que acudi-lo, pois desfalecia, e o amparou até o banco mais próximo.

Assim que bebeu um pouco de água, o morador sentiu-se melhor. E prometeu ir consultar-se com o médico no mesmo dia, no que foi estimulado pelo jardineiro.

            Nem se precisaria dizer que aquele idoso espalhou o que presenciara aos quatro cantos da Casa de Repouso... E uma longa fila formou-se à porta da cozinha, onde sabiam que seu João apreciava um cafezinho recém-passado antes de ir embora.

            E por quê? Porque todos queriam ouvir de suas plantas prognósticos acerca da saúde, opiniões sobre cláusulas testamentárias, conselhos relativos a pretensões amorosas, fofocas concernentes aos rivais de Bocha…

            O jardineiro foi pego de surpresa.  E se demorou um pouco para entender o que se passava, levou outro tanto para decidir o que faria.

Mas antes que fosse ter com os moradores, o gerente do Jardim das Hortênsias, seu Abelardo, entrou na cozinha e trancou a porta, deixando os idosos do lado de fora. Em seguida, pediu para que os funcionários os deixassem a sós, e eles se foram pela porta traseira, que dava para o pátio.

O administrador puxou de um banquinho e pediu para que seu João permanecesse sentado. O momento era delicado e precisavam pôr ordem na Casa de Repouso antes que a diretoria soubesse dos fatos e resolvesse intervir – Cabeças poderiam rolar...

De primeiro, seu Abelardo elogiou o jardineiro, haja vista todos saberem que sua maneira de trabalhar implicou benefícios efetivos para os moradores, para os funcionários, e, por consequência, para o Jardim das Hortênsias. De outra parte, disse que acorreu à cozinha assim que ficou sabendo que a fila formara-se em decorrência da crendice de que o jardineiro realmente ouvia o que as plantas falavam, ao contrário do que se passava com os demais, um monólogo travestido de diálogo.

Seu João ouvia com humildade.

Por fim, o gerente perguntou como poderiam acalmar os idosos para que a vida na Casa de Repouso voltasse à normalidade?

O jardineiro respondeu que a ideia que lhe veio à mente foi a de satisfazer a curiosidade dos idosos. Em outras palavras, toda vez que ele fosse cuidar de uma planta cultivada no interior de um dos aposentos, ele aproveitaria para servir de intérprete, caso o morador lhe fizesse alguma pergunta.

O administrador não sabia se ria ou ralhava. Mas como o burburinho aumentava, e como tal sugestão pareceu que contentaria os idosos, seu Abelardo engoliu a prevenção e acabou concordando. Pedia, contudo, que ele fosse contar a solução para a fila, enfatizando que as interpretações só começariam no dia seguinte. Ademais, que pedisse respeito ao seu horário de trabalho, paciência quanto à ordem de atendimento, e que não houvesse inquietação, visto que ninguém seria esquecido ou preterido. 

De fato, tudo o que seu João disse e pediu foi acatado pelos moradores. E a fila desfez-se.

O gerente ficou satisfeito. E antes de retomar a rotina, pediu para o jardineiro, encarecidamente, que não causasse mais turbulências. Afinal, tinha família para sustentar, e perder o emprego não estava nos seus planos – Seu João concordou com um movimento de cabeça.

No dia seguinte, a cada vez que o jardineiro batia à porta de um apartamento – em que havia pelo menos um vaso cultivado –, deparava-se com o seu ocupante que, ansioso e sorridente, sentado ou em pé, o aguardava desde muito cedo. 

Desta forma, tão logo terminasse a jardinagem, era bombardeado com várias perguntas, que traduzia da melhor forma possível. 

E alegrava-se quando o idoso sorria ante a resposta de que seu filho estava a caminho, e que trazia esposa e netos para visitá-lo; de que os companheiros do Jardim das Hortênsias só fingiam ter esquecido o seu aniversário, que era surpresa; ou de que aquela dor que o atemorizava, longe de ser câncer, não passava de moléstia perfeitamente curável.

E divertia-se quando a planta recomendava ao idoso que não mais guardasse asinhas de frango debaixo do travesseiro visando a um lanchinho na madrugada; que parasse de tentar enganar a fisioterapeuta quanto ao número de agachamentos que jurava ter feito; ou que se abstivesse de urinar no jardim, pois era mentira que isso fazia bem à grama ou ao caule das amigas. 

E admirava-se quando a moradora era advertida de que só voltariam a conversar se não mais ouvisse reclamações sobre sua demora em florir; se não priorizasse a navegação na Internet em detrimento da arte da frivolité; e se parasse de invejar a companheira do quarto ao lado, que lhe era mais velha e mais bem-disposta. 

E condoía-se quando a planta tentava consolar a sua proprietária, que recebeu um telefonema contando sobre o falecimento de uma irmã; que deixou espatifar contra o chão o Casal Enamorado de biscuit que ganhara do falecido marido como presente de noivado; ou que ficou sabendo que aquela promoção veiculada por certa rede social, e que agarrou sem pestanejar, não passava de mais um golpe.

Súbito, essa rotina foi abalada por uma notícia que vazou e se espalhou mais rápido que fofoca em grupos de WhatsApp. Um dos diretores, o mais desconfiado, mandou fazer uma auditoria nas contas da Casa de Repouso. E descobriram que uma fortuna vinha sendo desviada há pelo menos dois anos. A autoria, porém, era inconclusiva.

A revolta, por óbvio, tomou conta dos moradores, visto que ninguém gosta de saber que sua casa está sendo assaltada. 

Os funcionários ficaram boquiabertos, menos pela indignação do que pelo medo de serem acusados.

Por força dessa hecatombe, aquele diretor convocou uma reunião com os outros sócios, com o auditor e com seu Abelardo para o mesmo dia. Era preciso agissem rapidamente, já que o autor dos desvios tudo faria para apagar suas pegadas.

Essa movimentação foi apreendida por alguns idosos. E os mais atilados logo se prontificaram a ajudar. Um, pondo à disposição toda a sua experiência de vida como contador; outro, gabando-se que elucidou vários casos de infidelidade conjugal, quando atuava como investigador particular; e um terceiro, garantindo que era amigo pessoal de um vidente de mão cheia.

A gerência agradeceu as iniciativas, mas as dispensou com a gentileza habitual. 

E como ouvissem que a prisão do ladrão não tardaria, alternativas não tiveram aqueles moradores senão as de retomarem a pacatez de suas vidas.

            O local escolhido para a reunião foi a sala de seu Abelardo, por ser mais reservada e confortável.

O auditor recebeu a palavra e esclareceu os fatos para quem ainda não os conhecia.

Terminada a explicação, a indignação só não se prolongou porque um dos sócios começou a espirrar – era a rinite que o atacava.

Como a frequência dos espirros só aumentava, o alérgico perguntou, à voz desesperada, se havia alguma planta por perto.

O gerente, que se envergonhava, apontou um canto esquecido do cômodo onde havia um vaso de grande porte que continha um ramo de artemísia e algumas gramíneas.

Com voz entrecortada pelos espirros, o sócio “pediu” para que sumissem com o vaso, uma vez que o pólen dessas plantas é, de longe, o principal responsável pelas alergias respiratórias.

Neste exato momento, seu João passava a poucos metros da janela. 

O administrador gritou para que viesse ajudá-lo, já que o vaso era muito pesado para ser removido por uma só pessoa.

Assim que o jardineiro entrou, seu Abelardo mandou que o ajudasse a removê-lo – Não houve sequer tempo para cumprimentos.

Só que no momento em que seu João se aproximou do vaso, as plantas pediram para que parasse e as escutasse com muita atenção. 

O jardineiro ficou aturdido, pois o gerente agarrara o seu lado do vaso e já o questionava (com os olhos) sobre o motivo de não ter avançado.

E no átimo que medeia a ação e a reprimenda, as plantas, exaustas de serem mal cuidadas pelo administrador, resolviam desforrar-se. 

A mensagem, ouvia-a seu João, perplexo!…

Nesse comenos, o sócio alérgico, porque indignado, questionou-os sobre a demora. E seu Abelardo, enérgico, mandou que o jardineiro agarrasse o vaso.

Toda essa aspereza foi percebida por um dos idosos que por ali passava. E como fosse bisbilhoteiro, tratou de aproximar-se da janela e apurar a escuta – Essa indiscrição chamou a atenção de outros moradores, que também se achegaram, curiosos.

Mas seu João não obedeceu àquela ordem. E, virando-se para a diretoria, pediu licença para repassar o que acabara de ouvir de suas novas pacientes.

Todos, é claro, arregalaram os olhos; sendo que o sócio atacado pela rinite até parou de espirrar. 

O gerente, então, pediu, por entre dentes cerrados, para que o jardineiro calasse a boca e não o envergonhasse.

Mas seu João pouco se importou com a súplica. E tornou a pedir licença para repassar o que sabia.

O mais sereno dos sócios, porque achasse que o momento precisava de certo alívio, resolveu tomar a frente e deu a palavra para o jardineiro. 

E antes que os outros sócios se insurgissem, seu João afirmava que o único responsável pelo desvio de dinheiro era ninguém menos que o próprio gerente!

Seria desnecessário dizer que as reações foram imediatas. O sócio que encomendou a auditoria soltou um “Valha-me Deus!...”; o alérgico, um “Que idiotice é essa?!”; o sossegado limitou-se a uma rápida risada; o auditor meneou a cabeça, em sinal de reprovação; e o administrador, ultrajado, teve gana de avançar no pescoço do jardineiro, mas recuou quando percebeu os idosos que o encaravam pela janela. 

O desconforto era geral. Seu Abelardo, funcionário de longa data, sempre mereceu dos sócios total confiança; e dos subalternos, admiração e respeito. Como, agora, esse sujeitinho tinha a coragem de apontá-lo como criminoso, e, ainda por cima, baseando-se nos “testemunhos” de plantas?! Seria caso de internação em hospício, não fosse o fato de que o sócio mais tranquilo se lembrava de que era 1º de abril – se a mentira fora muito bem urdida, não deixava de ser de extremo mau gosto.

Mas seu João retrucou que nada era mentira; reafirmou o que lhe disseram; e, de dedo em riste, chamou o gerente de ladrão.

Só não brigaram porque o sócio comedido interpôs-se entre ambos, dando tempo para que o auditor tomasse seu João pelo braço e o levasse para fora.

O jardineiro foi demitido em seguida. E partiu sem poder despedir-se de ninguém.

Os debates prosseguiram, mas de janelas fechadas e cortinas abaixadas. E concluíram que, por força das circunstâncias, o mais provável seria que o larápio suspendesse a atividade criminosa e se mantivesse na obscuridade por um bom tempo. No entanto, o auditor prometia, e por sua honra, que, na menor vacilada, ele o identificaria e o colocaria diante dos sócios.

Finda a reunião, e todos se foram. Menos o administrador, que ficou incumbido de achar uma justificativa para a demissão do jardineiro que pudesse ser oferecida aos moradores e aos funcionários de maneira a não criar revoltas nem estimular especulações.

Seu Abelardo sentou-se em sua poltrona, apoiou os cotovelos sobre a mesa, e pôs-se a esfregar as mãos.

Depois de alguns minutos, a justificativa corporificou-se, e o contentou.

Só que antes de apresentá-la, o gerente virou-se para as plantas, e sorriu.

Em seguida, levantou-se calmamente, saiu da sala a passos lentos, e dirigiu-se ao almoxarifado. E não foi preciso muito tempo para reencontrar o velho maçarico – tinha contas para acertar...

AIRE DE SOLEDAD

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)


Por Panagiota P. Lambri (Grécia) 

 (Enviado por Germain Droogenbroodt, Altea, Espanha) 

  

¿Qué aire de soledad, astuto y extraño,

sopla esta noche también?

¿Por qué llega persistente galopando

y azota salvajemente las hojas desiertas del corazón?

  

Y esta luna brillante y dulce,

que extiende su oro por doquier,

¿por qué no envía un poco a todas las almas

que caminan solas esta noche?

 

Y la noche, que ha llegado extraña hasta las ventanas,

¿por qué las cubre con silencio de muerte

y, en lugar de enviarles raros y santos remedios para sus dolores,

les ofrece vasos rebosantes de veneno?

  

Aire de soledad, luna llena,

y tú, Noche primigenia, hija del Caos,

venid, serenad las almas solitarias,

enviadles un poco de olvido. Y otro poco de esperanza.

 


PROFESSOR

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Professor ensina e forma.

Professor orienta e é da hora.

Professor tem saber da hora.

Professor forma outras pessoas.

 

O médico precisa de um professor.

Um professor precisa de um professor.

Um assistente social precisa de um professor.

Conhecimentos se aprendem e se passam.

 

Professor você é uma arte incansável.

Seu saber e paciência são admiráveis.

Feliz dia do professor.

Obrigado(a) meu (minha) querido(a) professor(a).

 

Feliz dia do professor(a)!

CRIANÇA

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Eu sou criança quando:

Brinca, chora, pula e ria.

Eu sou criança.

Meu universo eu que faço e canto.

 

Criança feliz.

Criança agitada.

Criança inteligente.

 

Eu sou criança.

Pulo no céu.

Viajo nas nuvens.

Corto papel.

E como mel.

 

Instagram: @liecifranborgesmartins

UM MERGULHO NA ESCURIDÃO (1ª PARTE)

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

Primeira Parte

 

De sorriso fácil... Sob a luz da lua.

A Dama da Noite...

 A Dona da noite. Entre a bruma...

Com o corpo marcado... Cicatrizado.

 

As imagens e sons abafados que vinham eram fragmentados, convulsos e confusos. Cigana só se lembrava com exatidão do passeio proposto e realizado com a amiga, bem cedo naquele dia de sol outonal ameno. Agora, havia apenas aquele mergulho na escuridão abissal, era uma certeza inconteste e absoluta. Exaurida, nua e deitada de bruços em uma confortável cama, virou-se e levou a mão direita ao próprio sexo latejante; um ardor lascivo nascia na boca e descia até a garganta.

O estômago estava levemente embrulhado e sentia um leve latejar na cabeça. O que a angustiava, de fato, não era o sabor agridoce na boca, mas a perda da memória recente. Sim, houve a caminhada matinal pela avenida movimentada e o café da manhã, controversos na companhia de Agnes. E os borrões multilíngues, sons simultâneos e sobrepostos.

Não saber como ou onde estava depois disso era, de fato, desesperador. Antes de abrir os olhos e deparar-se com o que tinha feito ou onde fora parar, havia a certeza de que aquilo não era bom nem profissional, como recomendara Agnes horas antes. Beber ou usar qualquer coisa na função ia contra as regras da amiga de ofício: — A palavra-chave é o controle, Cigana, meu anjo negro. Quem não se controla não sabe aonde as coisas podem levar!

Eram as palavras exatas que ela dissera naquela manhã outonal, diante de uma sortida e sofisticada mesa de café da manhã. Tinha dito isso mesmo ou ela havia sonhado com a coisa toda? Naquela altura, Cigana já não tinha certeza de mais nada. Um Boa Noite, Cinderela ou um Acorda, Alice, àquela altura seria patético e constrangedoramente amador.

A Dama da Noite relutava em abrir os olhos e encarar a hirta realidade. Ao estender o braço para o lado esquerdo da cama, sentiu e reconheceu o corpo nu, macio e quente da outra. A mão passeou pelos cabelos curtos e sedosos da amiga de trabalho e repousou sobre seus seios fartos. Ali parou. Uma mistura de medo e alívio tomou a mente da Dama da Noite.

Um sentimento veio com força, mais que de repente! Agnes era mesmo tudo o que se ouvia por aí? Dominava tudo e a todos à sua volta, conduzindo as pessoas como bem lhe convinha? Cigana estava em alerta total; só agora a Dama da Noite, percebia que os seus sentimentos em relação à outra não eram claros, nem os da outra para consigo. Era Agnes quem a vinha conduzindo nos últimos tempos, e este fato fez alarmes dispararem.

 

Fragmento da novela: A casa de teto verde! Texto de Samuel da Costa, poeta, novelista e contista em Itajaí, Santa Catarina.

UM MERGULHO NA ESCURIDÃO (2ª PARTE)

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)




 Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

Segunda Parte

Com o sorriso marcado
Da certeza de quem vai indo
Sob a luz da lua!
Entre as brumas...
Sozinha! Vende-se amor!
Mas quem quer comprar?
Quem sabe somente eu!

 

Os passeios noturnos da Dama da Noite iam da Rua de Baixo, localizada na zona portuária, e acabavam na praça da Igreja Matriz, e invariavelmente começavam no crepúsculo. Eram um misto de aventura ao desconhecido e também pura diversão para Cigana. Ela sabia como as coisas funcionavam: as ruas tinham donos, e esses donos eram cruéis e bem persuasivos em seus pontos de vista. O livre transitar dela tinha prazo para acabar, e a Dama da Noite sabia disso.

Pois o transitar avulso de Cigana, da zona portuária, dominada pelos bordéis baratos, ao limiar da zona dominada por gays, travestis e transexuais que trabalhavam na rua, era, por si só, uma aventura perigosa. Perigosa e divertida para Cigana, pois, no início, o mercado profissional do sexo achou graça nela: uma figura exótica, de pele morena, olhos negros ligeiramente puxados, longos negros cabelos reluzentes e vestida com roupas diáfana, coloridas e esvoaçantes. A até então desconhecida passeava pela noite à cata de clientes desavisados, de forma avulsa e independente.

Cigana se divertia muito com a forma como os trabalhadores portuários, pescadores profissionais, tripulantes de navios nacionais e estrangeiros e as figuras fáceis do submundo a tratavam: — Tem carne nova no pedaço, gente! Ela escutou muito isso ao caminhar por ali, como também escutou palavras em diferentes línguas que ela pouco entendia. Atendia essa clientela avulsa em seu apartamento quarto e sala, localizado entre a zona portuária, o porto pesqueiro e o centro da cidade.

Em um final de tarde, quando Cigana saiu de casa, andou poucos metros em linha reta, cruzou a grande avenida e se deparou com uma outra realidade. Muito diferente da pulsante e plural zona comercial no centro da cidade portuária: o comércio do sexo que se movia nos arredores da Igreja Matriz depois que as missas acabavam.

Por ali, Cigana vislumbrou muitos fregueses em potencial; de fato, muitos perguntavam se ela era mesmo mulher, visto que estava na zona dominada por gays, travestis e transexuais.

Enfim, aquela aventura pueril acabara de perder a graça para alguns naquele começo de noite, pois perder o controle das coisas não estava nos planos dos donos da noite. As leis não escritas, por fim, ganhariam corpo em improváveis mãos invisíveis. A figura andrógina que se materializou na frente de Cigana veio, enfim, para pôr ordem no local.

— Como uma gracinha como tu veio parar por essas bandas e a esta hora, meu anjo? — Quem fez a pergunta era uma mulher alta, de pele branca, cabelo bem curto e negro como a noite mais escura.

Ela estava vestida toda de preto, calçava coturnos bem engraçados, usava uma camisa regata, esmalte preto reluzente nas unhas, anéis de prata nos dedos, batom negro nos lábios e rímel marrom cintilante nos olhos. Tinha olhos negros e gelados, calça de silicone, um delicado piercing no nariz, outro na sobrancelha esquerda e grossas correntes de prata no pescoço. Comportava-se como se fosse a dona da rua.

A voz de comando fez estrago na percepção de realidade da Dama da Noite. Cigana ficou sem ação.

— Com os meus pés, ora essa! E com minha boa vontade de caminhar também! E não és minha mãe, ora bolas! — respondeu de forma zombeteira a Dama da Noite.

— Vai pra casa, menina, meu anjo negro, antes que tu te machuques de verdade ou coisa pior! — A ordem, à moda militar, seguiu-se de um cartão de visita que a mulher passou para Cigana. — Vê se aparece nesse endereço e na hora que está marcada aí atrás.

O cartão branco tinha um dragão vermelho em formato de serpente desenhado e trazia escrita a palavra Parole.

Cigana, com temor, pegou o cartão de visitas e leu no verso o endereço e o horário referidos pela mulher. Ao levantar os olhos para fazer qualquer pergunta, a mulher simplesmente sumira, como se tivesse se desintegrado.

 

Fragmento da novela A Casa de Teto Verde. Texto de Samuel da Costa, poeta, novelista, e contista em Itajaí, Santa Catarina.