quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

ATERRISSEI COMO UMA ESTRELA


Por Urda Alice Klueger (SC)

                                   Estrela de cinco pontas, diga-se de passagem: joelhos, cotovelos e o queixo. Vinha com Atahualpa, mais Maria Antônia e seu cachorrinho Lucas, proveniente da casa da minha amiga Sheila, na Servidão Basilissa (que não tem calçamento), toda feliz da vida. Atahualpa recém chegara do banho e tosa, prontinho para o Natal, com estrelinhas azuis na testa, e eu e ele corríamos juntos e pulávamos juntos, e foi numa dessas subidas que a minha sandália resvalou numa pedrinha... e eu fiz a aterrissagem de estrela! Só lembro que, naquele minúsculo pedacinho de segundo, enquanto caía, ter pensado que deveria defender os meus sagrados óculos – o que resultou no grande impacto no queixo.
                                   Fiquei estatelada, tentando me normalizar, cuidando para ver se os óculos tinham sobrevivido – Maria Antônia, que me acudia, afinal pegou os meus óculos, e eu fui revivendo, mexendo as pernas, os braços, e afinal, a cabeça, que se levantou o suficiente para eu cuspir o sangue.
                                   Era tanto arranhão cheio de areia e tanto sangue, e eu estava tão feliz por estar consciente e estar me levantando, sem nenhum osso quebrado, que fui dizendo à minha solícita amiga:
                                   - Deixa... deixa... é melhor eu ir para casa tomar um banho e pôr vinagre na boca (vinagre estanca o sangue).
                                   Acabei vindo e ainda fiz o essencial: alimentar os Mal Diagramados, quer dizer, cachorros e gatos, inclusive os da rua, dar remédio para o Atahualpa, tirar do carro as compras que precisavam ir para a geladeira, tudo com vinagre na boca – até que afinal tomei o banho e vim me deitar. Foi então que comecei a lembrar dos detalhes e a achar engraçado. Agora, três horas depois, meu queixo começa a inchar que é uma beleza, e penso que ficarei com a cara roxa, fora as muitas dores pelo corpo, coisa natural depois de um tombo assim. Estou cuidando para não tomar nenhum analgésico por mais algumas horas, para não mascarar algum possível machucado do qual não me dei conta ainda. Maria Antônia está lá de prontidão na casa dela, para alguma emergência. O que mais me preocupa é que decerto vou perder o aniversário da minha amiga Marlene de Fáveri, daqui a dois dias. Ela irá entender. Afinal, apesar daquela aterrissagem estelar (e espetacular), ela tem uma amiga que, aos 67 anos, ainda consegue pular e correr com seu cachorrinho de estimação como se o tempo não houvesse passado!
                            (Acho bom avisar aos amigos para não telefonar, pois está um pouco complicado falar.)
                               Voilá!

Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutora em Geografia

Sertão da Enseada de Brito, 11 de dezembro de 2019.

Nenhum comentário:

Postar um comentário