EDITORIAL

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)



Por Paccelli M. Zahler, editor (Brasília, DF)

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A edição de setembro da Revista Cerrado Cultural apresenta ao leitor um conjunto sólido de produções que refletem a vitalidade da criação artística e literária no Brasil e no exterior. Mantemos nossa linha editorial baseada na credibilidade, na diversidade temática e na valorização de autores que contribuem para o fortalecimento da cultura contemporânea.

Neste mês, reunimos textos que ampliam o debate sobre identidade, sensibilidade, espiritualidade, convivência e expressão artística. A presença de diferentes vozes — incluindo produções em espanhol, narrativas breves, poemas, reflexões sociais e perfis de artistas — reforça o papel da revista como espaço de circulação cultural e diálogo permanente com o leitor.

TÔNIA CARRERO E RUBEM BRAGA: UM AMOR EM PARIS

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)



                     Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

Paris é uma cidade de tirar o fôlego: os jardins clássicos, a água furta-cor do rio Sena, as margens fluviais charmosas com bancas de livros e flores, as catedrais góticas, as galerias com imensos quadros impressionistas.

O filme “Casablanca” é um ícone romântico, cheio de ação, espionagem, aventura. Um triângulo amoroso que exige sacrifício e renúncia. Inesquecível o diálogo entre Rick (Humphrey Boagart) e Ilsa (Ingrid Bergman), que foram amantes em Paris. Ela pergunta na despedida: “- E quanto a nós?”. Ele responde: “- Nós sempre teremos Paris.” É a aceitação da separação. A maturidade. O foco na beleza do que foi vivido. Todos sonham em viver algo maravilhoso, fascinante, em Paris. E vivem.

Foi lá que aconteceu a paixão desmedida, intensa, atribulada entre a bela e sedutora atriz, Tônia Carrero (1922-2018) e o diplomata e cronista Rubem Braga (1913-1990). Flanavam juntos, de mãos dadas, pelas ruas de Paris. Corria o ano de 1947. Os dois eram casados. Ela, com o artista plástico Carlos Thiré, com quem tinha um filho, Cecil. Ele, com a dramaturga mineira Zora Seljan, mãe de Roberto Braga. O casal se encontrava às escondidas num pequeno hotel. Ao redor deles: o ciúme, a fúria, o flagrante moral e as luzes estonteantes de Paris.

Ao voltarem para o Rio de Janeiro, os casamentos de ambos terminaram.

Tônia decide romper também com o instável e mulherengo Rubem Braga. O escritor reage de forma dramática, ameaça atirar-se sob os carros ou se jogar no mar. Persegue os passos de Tônia. Envia rosas vermelhas para o camarim do teatro onde ela se apresentava. Mas ela o trata com desdém. Era o encerramento definitivo. Ele nunca a esqueceu. Manteve admiração pela atriz ao longo de toda a vida. Escreveu por décadas poemas, crônicas e cartas endereçadas a ela, como este soneto “Tarde”:

 

E quando nós saímos era a Lua,

era o vento caído e o mar sereno

azul e cinza-azul anoitecendo

a tarde ruiva das amendoeiras.

 

E respiramos, livres das ardências

do sol, que nos levara à sombra cauta

tangidos pelo canto das cigarras

dentro e fora de nós exasperadas.

 

Andamos em silêncio pela praia.

Nos corpos leves e lavados ia

o sentimento do prazer cumprido.

 

Se mágoa me ficou da despedida

não fez mal que ficasse, nem doesse:

- Era bem doce, perto das antigas.

 

Quem me enviou o poema e me fez relembrar desse caso amoroso foi Danilo Gomes (1914), o jornalista e crítico literário, que pertence à Academia Mineira de Letras. Danilo conhece profundamente a história urbana e literária do Brasil. É um grande memorialista. Escreveu o estudo “Em torno de Rubem Braga: ensaio e homenagem ao estilo do mestre”. Danilo foi assessor de imprensa da Presidência de República (1985-2004), nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Em mensagem, Danilo descreveu: “Encontrei-me com Tônia uma vez, no Palácio do Planalto, numa homenagem a Fernanda Montenegro. Dei a Tônia o meu livrinho sobre Rubem Braga. Ela ficou surpresa. E, segurando minhas mãos, olhos marejando, ela me disse o soneto que Rubem Braga lhe dedicara.” E acrescentou: “Emotiva, franca, verdadeira, amável e adorável. Assim era Tônia Carrero, carioca da gema. (Não quero dizer que todas as cariocas sejam assim). E aquele poema do Rubem é antológico, como você captou logo.”

 

No meio de tudo isso, pegou-me, de surpresa, a pergunta de uma amiga que se preparava para viajar a Paris: “- O que você quer que lhe traga de presente de Paris?”

Respondi em forma de poema:

 

- O que você quer de Paris?

- Uma folha da borda do Sena,

Uma folha de castanheira,

Ressequida e amarela.

 

Bastará uma folha

E me virão à lembrança

Os beijos,

Os barcos,

As abadias;

 

Atravessarei pontes,

Arcos,

Águas ancestrais

E ficarei presa ao passado,

Às torres

E ao cais.

 

Uma folha só,

Da árvore mais velha

Ou da mais alta

E sorverei magia,

Gotas de chuva,

Pingos de luz.

 

Uma folha arrancada pelo vento

Como a que caiu

Sobre meu casaco de veludo

Naquela tarde bordô.

 

Uma folha do Sena

Armazena todo meu sonho

De ser feliz.

 

Uma folha da borda do Sena

É o que quero de Paris.

A BARONESA DO FORTE COIMBRA

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)




                       Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

Minha filha, Letícia, questionou-me o porquê de somente ela ter sido registrada com um dos sobrenomes da família de seu pai, o Portocarrero. É mesmo belo esse Portocarrero de origem espanhola, ligado às regiões de Castela e da Estremadura. Significa algo como “porto”: passagem e “carrero”: carreiro, caminho de carros. As rodas das carroças sulcando as antigas estradas ibéricas.

Em Mato Grosso do Sul, Portocarrero lembra um episódio da Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior conflito armado da América Latina. O Paraguai se opôs à Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai, num confronto mortífero, de dor e destruição. Combates, fome, doenças. Países esgotados espiritual e financeiramente. Esse foi o saldo da cruenta guerra.

O tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero (1818-1893) foi enviado para inspecionar o Forte Coimbra, localizado às margens do rio Paraguai, município de Corumbá. Esse forte foi construído em 1775, no período colonial, pelos portugueses, para proteger a fronteira oeste e controlar a navegação. Todo branco, imponente, cercado por grossas muralhas, onde pousam garças e tuiuiús. Dos mirantes avista-se a paisagem pantaneira. As ilhas de camalotes com flores roxas que descem o rio. É patrimônio histórico e destino turístico.

Era o princípio da guerra. Ao anoitecer do dia 26 de dezembro de 1864, surgiu a poderosa esquadra do coronel paraguaio, Vicente Bárrios: 11 navios de guerra, 29 peças de artilharia, 3200 homens. No forte, a guarnição brasileira possuía dois canhões, 250 pessoas, entre elas, 115 soldados e civis, 70 mulheres, crianças e 10 indígenas guaicurus. Portocarrero assume a defesa. Quando recebeu um ultimato para render o forte, recusou-se a capitular e declarou que resistiria “até o último cartucho”. Seguiram-se dois dias de intenso bombardeio. Foi nesse momento que se levantou a liderança de sua esposa, a uruguaiana Ludovina Portocarrero (1825-1912). Ludovina organizou parte das mulheres para fabricarem buchas de munição com pedaços de suas saias. Algumas cozinhavam. Outras escalavam na escuridão da noite as íngremes barrancas para buscar água em latas. Outras ainda prestavam assistência aos feridos. Nenhuma gritava. Nenhuma chorava. Mantinham, firmes, o moral dos soldados. Entre as heroínas, a maioria anônimas, destacaram-se duas mulheres do povo, as negras Aninha Cangalha e Maria Fuzil.

Ludovina, cheia de fé (e a fé move os obstáculos), retirou a faixa de comandante do uniforme do marido e a colocou aos pés da imagem de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do forte. Confiou simbolicamente o governo daquelas vidas a algo sobrenatural, extraordinário. Depois, deu ordem ao soldado músico, o Verdeixas, para subir no ponto mais alto da muralha e mostrar a imagem. O gesto abalou a sensibilidade religiosa dos paraguaios. Todos aplaudiam, deliravam, bradavam vivas. Uma verdadeira comoção.

Enquanto isso, a população de Corumbá, em pânico, fugia pelas matas. Muitos foram massacrados. Portocarrero ordena a retirada durante a noite, numa embarcação chamada “Amambaí”. Ninguém ficou para trás. O barco não fez barulho, não soltou faíscas, não bateu remos nas pedras. Envolto na bruma, sumiu na correnteza do rio.

Anos mais tarde, Ludovina e Portocarrero receberam das mãos de Dom Pedro II os títulos de Barão e Baronesa do Forte Coimbra. Era 1889, final melancólico do império. Ludovina ficou viúva aos 68 anos. Perdeu oito de seus 15 filhos. Mergulhou em sua digna velhice. Faleceu aos 87 anos, no Rio de Janeiro.

Descendente direta do casal foi Tônia Carrero (1922-2018), Maria Antonieta Portocarrero Thedim, a sedutora atriz, filha do neto, general Hermenegildo Portocarrero e de Dona Zilda. A estrela de tantos filmes, peças teatrais e novelas. Mais de seis décadas de dedicação à dramaturgia. Morreu de hidrocefalia, aos 95 anos, cercada por filho e netos. Seu brilho permanece. Era azul, divino, de diva.

Por que coloquei o sobrenome Portocarrero em você, filha? Tornei-a LP, Letícia Portocarrero, como era ela, Ludovina Portocarrero. O anagrama LP bordado no linho do enxoval que se encontra até hoje no Forte Coimbra. Uma coincidência? Um chamado? Uma sugestão? Um augúrio? Um legado? Não sei, mas desejo que você tenha a mesma coragem dela para enfrentar as guerras.

 

COMO ESCOLHER BOAS COMPANHIAS

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)

 

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

 

Disse Fulton Sheen, que: " Livros, revistas e jornais, são: "Como as numerosas pessoas que encontramos no carro elétrico, nos cinemas, nas feiras e nas festas mundanas, como nos é, evidentemente impossível, travar relações com essa gente toda, procedemos a uma seleção – "Os Problemas da Vida"

Da mesma forma devemos escolher na " floresta" humana, dentro do possível, os amigos de semelhança à nossa.

Montaigne, nos " Ensaios", diz-nos – que apreciava a boa companhia, mormente quando tomava refeições. Algumas vezes, recusava sentar-se à mesa, quando receava encontrar desagradáveis.

A Arte de Conversar parece que passou de moda, e pena é que assim seja. Prosear, em boa cavaqueira, é forma simples de se aprender, principalmente, se soubermos escutar, com atenção o intelectual – autodidata.

Moura Sá, escreveu, que: " O convívio é indispensável ao homem, como o respirar e o comer. E termina, lamentando que: "A decadência da tertúlia, e falta de reunião para conversar, é um dos fenómenos mais alarmantes da nossa época."

Aprende-se, cultiva-se, do mesmo jeito, como a abelha fabrica o mel – colhendo, de flor em flor, o que precisamos para estimular e alimentar o nosso cérebro.

Jovem leitor, que me lê, por certo, me dirá: O que escreve é exato, mas não me serve, porque não conheço, nem tenho acesso a intelectual de valor.

Sertillanges, em: " A Vida Intelectual", diz-nos, que por vezes conhecemos professor ou autodidata, de grande cultura e: " Não lhe prestamos atenção, e não o interrogamos; só discutimos com ele, cortando-lhe a palavra, para proferirmos bagatelas."

Mas, qualquer um pode, se quiser, dialogar com conhecidos ensaístas, pensadores e filósofos de renome, lendo as suas obras e dialogando com eles. Concordando ou não, o que escreveram, de jeito a conhecê-los a fundo, mormente os Mestres, assimilando-lhes o pensamento.

Se me permitem, gostaria de aconselhar a leitura de livrinho, escrito por um dos maiores intelectuais de França, André Mourois, intitulado: " Carta Aberta a Um Jovem", nele encontrará tudo que necessitas para escolher livros e autores. 

COMO OS HOMENS SUAS MEDIDAS

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)

  

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

  

Lembra-nos os "Apólogos Dialogais", de D. Francisco Manuel de Melo, uma grande verdade, mas poucas vezes dita:

Andava em alvoroço e sobressaltada, a gente alojada nas costas do Reino - porque havia misero pirata, que infestava, a costa macedónica, com duas pequenas barcas, movido a remos. Até que janízaros o arrastaram à presença do Grande Alexandre,

Na presença de Sua Majestade, o pobre corsário, tremia e temia, receando severo castigo. Porém, movido de coragem, empertigou-se, e de voz macia e segura, respondeu-lhe às ásperas injurias de Sua Majestade. Transcrevo as próprias palavras do nosso insigne clássico, conservando o sabor e a elegância da sua sublime prosa:

- Tá, tá, senhor Alexandre! Não me trates, que tu e eu, ambos temos um próprio ofício, mas com tal diferença: que a ti, porque roubas o mundo cercado de exércitos, te saúdam as gentes por monarca, e a mim, que com poucos companheiros faço pequenos danos, me infamam de corsário."

E Manuel de Melo, remata: " Eis aqui como os homens fazem suas medidas! "

Este texto merece reflexão ponderada:

Se cai nas teias da justiça, grande senhor, este, apresenta-se aos magistrados, acobertado de juristas experientes, que com presteza, conseguem que saia ileso ou, pena reduzida.

Mas, se o larápio inculto, que nunca topou oportunidade, ou por ser fraco de inteligência e de memória, assalta galinheiro, e não sendo ligeiro, como lebre, foi apanhado nas malhas da justiça.

Este, sofre sentença impiedosa, que sirva de exemplo, para os demais.

Recordo o hábil chefe, que era benévolo para prevaricadores, e validos dos diretores; e cruel, para servidores humildes. E dizia – se lhe pediam razão. - É necessário dar exemplo...

PEQUENÍSSIMA HISTÓRIA INFANTIL...OU TALVEZ NÃO!

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)


Por Pedro Silva (Portugal)

 

Era uma vez um ursinho muito feio. Era tão feio que se assustava com a sua própria imagem reflectida no espelho. Mas Deus, na sua sabedoria, dera a esse urso um bom coração, tornando-o bonito por dentro. Porém, a vida desse urso era tudo menos simples. Sentia-se triste e sozinho, qual sem-abrigo abandonado à sorte. E sofria! Muito, mesmo. Os seus dias eram monótonos e vazios, visto que o seu interior, ainda que bonito, ansiava por algo mais. Como todos os ursos da sua idade ele queria encontrar alguém a quem oferecer o seu interior, alguém com quem partilhar os seus sentimentos. Mas os seus horizontes eram muito amplos e, quiçá por isso mesmo, ou por ser feio por fora, a dificuldade em encontrar a ursinha especial fez-se sentir de tal forma que, cansado de esperar, decidiu desistir. E como desistiu!

A pouco e pouco o seu interior deixou de ser tão especial e o sofrimento foi-se apoderando da sua alma. Todos aqueles que lidavam com ele notaram a diferença, mas deixaram o urso entregue a si próprio. E porquê? Porque todos se consideravam tristonhos e infelizes, pelo que aquele urso não deveria receber nenhum tratamento especial. Mas estavam todos enganados – aquele urso era especial pelo que, obrigatoriamente, deveria merecer um tratamento diferente. Quanto mais não fosse porque quando eles precisavam aquele urso estava sempre pronto a ajudar. Só que a ingratidão do mundo, aliada à indiferença natural que reinava entre os ursos, fazia com que fosse mil vezes mais fácil ignorar. E, enquanto isso acontecia, o urso feio por fora ia-se tornando menos bonito por dentro. E esse ursito, ainda que infeliz, arranjava sempre um bocadinho de ânimo ou de boa vontade para ajudar um seu próximo que sofresse. Era sempre o primeiro a acorrer a um urso em apuros, sempre o primeiro a dirigir uma palavra de reconforto a um urso sofredor, enfim, o seu interior continuava a demonstrar preocupação, carinho, amor...

Entretanto, ao seu redor, o mundo dos ursos não parava – implacável e imparável. Tal como todos os outros ursos, aquele urso especial tinha de cumprir a sua obrigação – arranjar comida para sobreviver. Foi num certo dia, ao desempenhar a sua função, que encontra uma ursa muito bonita, que irradiava uma luz muito especial, mas ao mesmo tempo com o semblante mais triste que jamais vira. O urso feio sentiu algo de tão forte que na altura não conseguiu explicar. Mas Deus, do alto do seu trono, sabia bem o que era e a definição correcta não era amor! Era algo de mais forte, muito mais forte!

O urso feio sentiu necessidade de acorrer em auxílio da pobre ursa bonita, mas infeliz, só que embateu num muro de frieza. Não havia dúvida nenhuma que aquela ursa havia sofrido muito na sua escassa vida – e o urso feio era, devido ao seu interior especial, o único urso no mundo capaz de compreender, aceitar e tentar modificar o rumo dos acontecimentos, ou seja, o mesmo é dizer, fazer aquela ursa feliz. Porque o urso feio sentia que era capaz e porque estava dentro de si a noção de que todos os ursos tinham direito a ser felizes. Acima de tudo, acreditava que Deus o iria ajudar a concretizar os seus intentos.

Tentou uma aproximação suave – a ursa recuou, como num instinto de sobrevivência que, notava-se, havia sido alcançado à custa de muito sofrimento. E nesse primeiro encontro nada de muito especial surgiu, a não ser a tomada de conhecimento da existência, para ambos, do outro no mundo. O urso feio, porém, sentiu algo no seu interior que o deixava algo apreensivo – parecia que o seu corpo estava inteiramente descontrolado e que deixara de ser propriamente seu. Quem passara a ser o dono é que não sabia. Mas no dia seguinte, o certo é que voltou àquele lugar e, ainda que pelo caminho fosse bastante incrédulo em relação ao facto de voltar a encontrar aquela ursa bonita, o certo é que sentia que tinha de ir.

O urso feio desconhecia por completo que fora Deus que o colocara no caminho daquela ursa e que aquela força que o impelia a dirigir-se de novo àquele local era-lhe superior. Foi só quando, ao chegar ao lugar exacto, viu a ursa de novo ali sentada, que o urso feio sentiu que algo de muito especial estava a passar-se. E mais intrigado ficou quando, numa tentativa de aproximação mais forte, a ursa decidiu começar a falar. Trocaram nomes próprios e pouco mais, mas a ursa bonita já não parecia a mesma – ainda que se fosse notando cada vez mais o sofrimento que possuía, o certo é que o à vontade, que aumentava a cada instante, fazia acreditar que aquilo a que o urso feio se propusera podia realmente acontecer – assim Deus o ajudasse.

Nos dias seguintes, e como a ursa bonita sempre ali se encontrava, cada vez mais deliberadamente à espera do urso feio, as conversas foram-se tornando cada vez mais profundas – a ursa sofrera de terríveis acometimentos que a fizeram sentir-se a ursa mais infeliz de toda a comunidade. Incapaz de sentir-se inteiramente livre, mercê de um asfixiar inconsciente por parte dos seus progenitores, tentara a fuga para a frente, ou seja, decidira abandonar aquela comunidade para viver noutra. Porém, desde cedo entendeu que embora todos lhe achassem muita graça, à medida que foi crescendo entendeu que o Mundo era todo igual e não havia, em lado algum, alguém interessado em ouvi-la. E o seu desencanto era de tal forma que a sua aprendizagem de vida, ainda que bastante intensa, foi de tal forma angustiante de chegara à triste conclusão que a liberdade em sofrimento era pior que a prisão com algum descanso.

A sua vida tornou-se mais pacata durante algum tempo, mas havia dentro de si algo que a atrofiava – o seu interior pedia sempre mais, mas do quê nem ela própria sabia. A vida em comunidade era muito pouco para ela e de novo sentiu-se demasiado apertada para o seu gosto. Sentindo, tal como todas as outras ursas da sua idade, o apelo do contrário, deixou-se enlear por uma necessidade e conheceu um urso garboso que lhe parecia de todo inofensivo em termos pessoais, mas que a levaria a concretizar todos os seus desejos e ambições – uma vida louca pelas florestas, livre das amarras super-protectoras dos pais ursos. E o certo é que a relação com esse urso garboso a fazia sentir-se, pelo menos, solta.

Só que a visão provocada pela ansiedade de liberdade cedo esfumou-se. Sem saber como, o certo é que a sensação positiva se deteriorou – eram ursos de feitios diferentes e, ainda que tivessem alguns gostos semelhantes, o certo é que a relação se assemelhava a uma laranja seca: por mais que espremesse não saia uma única gota de sumo. A pouco e pouco a ursa foi-se desvanecendo da vida o urso garboso, mas, no entanto, e apesar de sentir vontade de ser feliz, afirmava que era uma vergonha, perante a comunidade dos ursos, o expor de uma situação dessas. Afinal de contas, nunca nada semelhante tinha acontecido.

O urso feio tudo ouvia e registava. Tentou, do fundo do coração, ajudar aqueles dois ursos a fim de que não sofressem do mesmo mal que ele – de solidão. Tentou ajudar a ursa a levar as más palavras ao bom sentido, aproveitando tudo aquilo que de bom o urso garboso tinha. Mas a ursa bonita era demasiado livre para ser aprisionada, demasiado ela própria para ser o que os outros ursos queriam que ela fosse. E sentiu-se tentada a avançar em frente. Mas o urso feio, desconhecedor da situação, continuou na mesma toada de reconciliação, insistindo no continuar da relação entre os ursos.

Mas, com o passar dos dias, começaram a tornar-se visíveis os sinais de ruptura total – a ursa afirmava que não gostava de passear com o urso garboso na floresta e o urso feio sentiu-se tentado a desistir. Mas Deus, sentindo que só ele poderia ajudar aquela ursa, impeliu-o a continuar com o seu acto de caridade. Foi então que, com o passar dos dias, ambos se detinham mais em falar de si próprios do que de outros ursos. Existia algo entre eles – a sua relação fora feita no Céu e pelo próprio Deus. Só podia ser assim mesmo, dada a alegria que ambos agora irradiavam, isto apenas e só quando estavam juntos, porque quando afastados a tristeza voltava e dava lugar à depressão.

Parecia um lindo conto de fadas e passavam os dias a contar os minutos que os separavam do encontro – só viviam para isso. Ao fim de algum tempo começaram a sentir que alguma coisa de realmente especial estava a passar-se – afinal de contas quanto mais a ursa bonita comparava o urso feio ao garboso mais infeliz se sentia no espaço de tempo em que não estava com o seu novo confidente. Mas o urso feio não era diferente e ainda que sentisse um certo remorso ao notar que a ursa bonita aproveitava aquela oportunidade para criticar o urso garboso, o certo é que achava que aquele tempo passado com a ursa era como um pedaço de Paraíso na Terra.

Os dias foram passando e ambos os ursos sentiam já que aquilo que realmente desejavam era que aqueles momentos pudessem ser prolongados por todo o dia. Mas isso era impossível enquanto a ursa bonita não dissesse ao urso garboso o que não sentia por ele. E, o urso feio, cego de amor, pediu a Deus que a ursa o conseguisse fazer feliz. Mas Deus ficou triste com aquele pedido – o que ele lhe estava a pedir era o sofrimento de outro urso. Nem parecia próprio daquele urso que sempre tanta preocupação revelara com o se próximo. Mas, atendendo ao sofrimento que ele passara e à felicidade actual da ursa na sua companhia, decidiu atender ao pedido e, em pouco tempo, o urso garboso soube que a ursa já não tinha gosto em passear com ele pela floresta. Deus ajudou-o e ele tornou-se rapidamente feliz com outra ursa, mais simplória, mas que o fez sentir amor verdadeiro.

Tal facto abriu portas ao relacionamento entre o urso feio e a ursa bonita. Foi nessa mesma noite que o urso feio recebeu a visita de Deus na sua caverna, tendo-lhe pedido que tratasse a ursa bonita da melhor forma que o seu coração permitisse, de modo a que ela fosse feliz para todo o sempre. Porém, caso o urso feio falhasse no seu compromisso, seria castigado de uma forma que não possibilitaria recuo – a ursa deixaria instantaneamente de gostar dele e, em consequência, iria abandoná-lo de forma definitiva. O certo é que, até hoje vivem os dois, felizes, na floresta.

 

(A história continua... E que assim seja por muitos e bons anos!)

 

Pedro Silva

Trilhando o seu caminho literário alicerçado na serenidade que a independência permite, o escritor Pedro Silva (1977) possui obras publicadas em vários países, nomeadamente Portugal, Brasil, Espanha e Chile. Para além disso, colaborou com órgãos da imprensa escrita em Portugal e Brasil. Licenciado em História e Pós-Graduado em Estudos Portugueses Multidisciplinares, é ainda Cidadão Honorário da Cidade Velha (Cabo Verde), Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro (Tomar – Portugal), Patrono da Biblioteca Municipal Pedro Silva, sita em São Martinho Grande (Ribeira Grande de Santiago – Cabo Verde) e Medalha de Mérito do Jornal “Audiência”. https://pt.everybodywiki.com/Pedro_Silva

A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)








LA ISLA DE TAIWAN

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)


Por Lee Kuei-Shein (1937-2025) (Taiwan)




Traducción: Germain Droogenbroodt e Rafael Carcelén

Enviado por: Germain Droogenbroodt

A IDEIA MAGNA

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)



 Por Dias Campos (São Paulo, SP)

 

Gilberto sempre se lançou aos grandes desafios. Para ele, os objetivos não comportavam gradação. Ou se atirava de cabeça na concretização de uma ideia que julgasse ser a mais ambiciosa possível, ou passava o tempo que fosse preciso para que o melhor dos projetos despontasse no horizonte.

E se em seu espírito sobrava ousadia, sobre seus passos rondava o risco dos apostadores.

Daí que às vezes emplacava. E usufruía dos vultosos ganhos, e se capitalizava para novas e mais audaciosas aventuras.

Noutras, porém, o fracasso o abraçava como se fosse um tamanduá. E mesmo que perdesse até as calças, nem por isso sucumbia. Apenas que demoraria um pouco mais de tempo para se relançar em direção a um novo alvo.

Só que na última vez que ousou – e conseguiu embolsar três vezes o que investira –, o peso da idade e a falta de uma família o fizeram pensar...

Até quando aguentaria esse arriscado e indomável sobe-e-desce? Alcançara os cinquenta e cinco anos, e mesmo sabendo que em sua mente uma caldeira ainda fervilhava, o vigor que julgava eterno já dava os primeiros sinais de que um dia faltaria.

Dessa forma, concluía, ou encontrava uma ideia, a mais original de todos os tempos, aquela que mereceria o título de a mais criativa da História, e que permitisse obter em pouco tempo um retorno financeiro o mais astronômico possível, ou teria que amargar o que julgava ser o pior dos castigos, a frustração de terminar a vida sem a sonhada estabilidade e relegado ao ostracismo dos perdedores.

Mas a ideia magna teimava em não aparecer. As que surgiam não passavam de meros “devaneios de training”, como ele mesmo as classificava.

Gilberto começou a se preocupar. Afinal, nunca demorara tanto para que um novo sol ressurgisse e aquecesse a sua criatividade.

Passados quase três meses sem nenhuma perspectiva, e o empresário admitiu que se não mudasse de foco acabaria entrando em parafuso. Assim, o melhor que poderia fazer seria procurar outros ares. E para isto, nada como uma boa viagem.

Uma vez dissipadas as espessas nuvens que o impediam de ver, e com certeza uma porta brilharia bem à sua frente, permitindo que entrasse e tomasse posse de um futuro glorioso e para sempre imutável.

As reservas que acumulara permitiam que viajasse para onde bem quisesse. Só faltava o destino. E foi folheando o jornal que ele apareceu – O Taj Mahal despontou fascinante em atrativos, pulsante em mistérios, e sedutor em promoções.

A viagem seria de apenas sete dias, tempo suficiente para conhecer o Triângulo dourado, compreendido por Delhi, Agra – onde se encontra o fabuloso mausoléu – e Jaipur.

A gana por viajar era tanta que Gilberto nem pensou que talvez precisasse de alguma vacina para poder entrar na Índia. E só foi saber dessa exigência no momento em que assinava o contrato com a agência de turismo. Menos mal que a única exigida era a contra a febre amarela, que sabia já ter sido imunizado, possuindo o necessário certificado internacional.

Afastada essa condição, e o empresário foi advertido quanto aos cuidados com a alimentação e intimado a que só tomasse água mineral engarrafada e lacrada. Caso contrário, o restante da viagem poderia ficar consideravelmente comprometido em razão de sérios desarranjos intestinais.

Mesmo tendo comprado assento na classe executiva, as mais de vinte e uma horas de voo até Delhi – com escala em Zurique, na Suíça – massacrariam qualquer passageiro. Desta forma, a saída foi improvisar. E depois de uma overdose de filmes na TV, vários copos de uísque 12 anos viriam completar a estratégia em que pensara, fazendo-o sonhar durante a maior parte do trajeto.

Quem não gostou nada desse último artifício foi a sua vizinha de assento, uma adolescente cheia de não-me-toques que desembarcou em Zurique alquebrada e enojada. É que além de Gilberto ter roncado por quase toda a viagem, em que pesem as sutis cotoveladas que por vezes recebeu, como sua cabeça tombava, ora para a direita, ora para a esquerda, a camisa que usava amanhecia toda babada – Ela quis mudar de lugar, mas o avião tinha decolado lotado.

Os fatos ocorridos até chegar a Agra, no dia seguinte, desmerecem ser citados.

A visita ao Taj Mahal, contudo, mudaria a vida do empresário por completo.

É claro que Gilberto ficou deslumbrado com o monumento assim que o avistou. A imponência e a alvura do mármore o maravilharam como a qualquer mortal. Os jardins, as decorações de flores-de-lótus, a gigantesca cúpula em forma de cebola, os painéis esculpidos sobre as arcadas, os fabulosos minaretes levemente inclinados em oposição ao edifício central... tudo o extasiava! – Ele, porém, recusou-se a tirar a “foto turística” em que, por efeito de perspectiva, e tendo o mausoléu ao fundo, parece estar segurando o pináculo da cúpula com a ponta dos dedos.

O empresário e seus colegas de excursão também ficaram fascinados quando adentraram no edifício. Os frisos em baixo-relevo, as incrustações de pedrarias – em particular os lápis-lazúlis –, os notáveis painéis de caligrafia... tesouros da Humanidade que os enlevavam; carícias estilísticas para os olhos, para a mente, para o espírito!

Foi quando o guia indicou duas notáveis construções que jaziam no centro do suntuoso monumento.

E como todos dele se acercaram, ouviram a tão manjada pergunta – Se alguém sabia qual o nome que se dá àquelas preciosidades?

Mesmo os mais atilados ficaram um pouco constrangidos em responder o que parecia óbvio. Afinal, o guia já explicara que o gigantesco sepulcro era, antes de tudo, um símbolo dedicado ao amor, tendo sido construído a mando do imperador Xá Jahan para venerar a sua esposa, que morrera ao dar a luz ao seu décimo quarto filho.

Ora, o que viam só podiam ser os túmulos dos apaixonados; no máximo, os jazigos dela e o de um dos filhos do casal, provavelmente o preferido.  

E foi o que uns e outros responderam, tendo Gilberto optado pela primeira versão.

O guia, por seu turno, lamentou não ter apostado alguns dólares com os membros da excursão, o que desencadeou alguns risos.

Em seguida, disse que o que viam não eram túmulos, mas, sim, cenotáfios.

Já que o silêncio acompanhava uma e outra caras de paisagem, o guia explicou que cenotáfio nada mais é do que um monumento fúnebre construído em memória de alguém, mas que não contém nenhum corpo. Serve apenas para homenagear. E deu exemplos conhecidos de alguns brasileiros, como os de Pedro Álvares Cabral, de Vasco da Gama e de Camões que estão no interior da Igreja de Santa Engrácia, o Panteão Nacional, localizada em Lisboa.

E como percebesse a pergunta que muitos pretendiam fazer, o guia se antecipou e disse que as tumbas reais, com os corpos do Xá Jahan e de sua esposa, encontravam-se em um nível inferior.

Mas no instante em que ouviam que o cenotáfio do Xá, além de ser o maior dos dois, era a única disposição assimétrica de todo o complexo, Gilberto teve um insight!

Daí por diante, sua atenção ora se dividia entre as belezas do mausoléu, ora, em uma ideia mirabolante que se corporificava a cada segundo.

Foi penoso para ele, portanto, manter-se interessado nas explicações e nos detalhes artísticos, quando todas as suas fibras buscavam ansiosamente navegar pela Internet à procura de um documentário que o tinha impressionado há alguns anos.

Apesar de tudo, a hora de partirem chegou, e a pesquisa teve início assim que se sentou dentro do ônibus.

No entanto, a navegação teve que ser interrompida pela euforia de uma septuagenária que se acomodou ao seu lado, e cuja avidez por comentar sobre tudo o que viram e ouviram parecia não ter limites.

Quando chegaram ao hotel, os ouvidos do empresário ferviam, os olhos estavam pesados, e o mau humor alcançara o grau máximo.

Mesmo assim, ainda teve ânimo para se despedir de tão agradável companhia, meneando positivamente a cabeça e endereçando um inevitável sorriso amarelo.

Ao entrar no quarto, Gilberto sequer se preocupou com banho ou jantar. A tudo isso se entregaria, mas só depois que encontrasse o que procurava.

            Depois de navegar por um tempo razoável, a reportagem por fim apareceu. 

A matéria mostrava um novo-rico da recém-transformada Rússia que, entediado com os prazeres proporcionados pela abastança, resolveu inovar em matéria de diversão. Assim, fantasiou-se de mendigo e passou o dia inteiro pedindo esmolas em praça pública.

O prazer estava em interpretar um miserável sabendo-se milionário. E mais divertido ficava quando os passantes, ao entregarem as suas moedas, endereçavam olhares de piedade ou palavras de esperança.

Enquanto se divertia, uma equipe de apoio o protegia contra eventuais perigos e o filmava para que se visse depois.

Ora, a excentricidade não dispensa uma plateia. Daí que o protagonista resolveu postar o vídeo nas redes sociais, e a brincadeira viralizou em segundos.

Dessa forma, a moda pegou, e outros endinheirados despeitados e desocupados também se entregaram à enganosa mendicância.

Gilberto recostou-se no espaldar da cadeira e sorriu com o prazer dos que estão a um passo da vitória.

No entanto, ainda faltava o preenchimento de mais duas condições para que a sua surpreendente ideia pudesse ser posta em prática.

Para que esses bons ventos continuassem soprando em seu favor, o empresário resolveu acalmar-se com um banho relaxante – havia uma banheira vitoriana à sua espera –, em que sua mente, liberta de todo e qualquer embaraço, planaria ao sabor de si mesma, e possibilitaria avistar o terceiro, e quem sabe até o quarto requisito.

Mas porque o dia tivesse sido bastante agitado, e cansativo, Gilberto sucumbia à moleza, e à sonolência.

Quando despertou, olhou rapidamente para o relógio.

Ora, em excursão, até os espirros estão submetidos aos rígidos horários. Por isso, a demora no banho fez com que perdesse o passeio pela noite de Agra. E, por consequência, o fabuloso jantar a que teria direito.

Alternativa não teve senão a de ir jantar no restaurante do hotel.

É verdade que essa vacilada deixou o empresário um tanto irritado. Ainda mais quando, ao pisar no restaurante, teve o desprazer de avistar, sentada sozinha, em uma mesa de canto, aquela mesma septuagenária que o alugara no ônibus.

Mas como a fome já o perfurava, teve que enfrentar o desafio.

Daí que começou a se embrenhar por entre os hóspedes que jantavam, até alcançar uma mesa que jazia do lado oposto àquele em que se sentara tão inconveniente senhora.

O garçom não demorou a atendê-lo.

Graças às estrelas do hotel, a cozinha era internacional. Sendo assim, os pratos estavam descritos em inglês, o que facilitava uma escolha.

Seja porque estivesse mal-humorado por ter perdido um passeio gastronômico, seja porque soubesse que outro jantar típico já estava reservado na cidade de Jaipur, Gilberto acabou optando pela conhecida cozinha italiana, e pediu um espaguete com frutos do mar.

Por insistência do sommelier, que enalteceu a qualidade internacional dos vinhos indianos, o empresário, que ficou bastante curioso, abriu mão de um velho conhecido e resolveu experimentar um tinto produzido na região de Bangalore.

O vinho, cujo buquê nada perdia para as melhores safras do ocidente, foi degustado com o ritual dos que conhecem do assunto – Na realidade, ele mais encenava do que entendia.

Quando trouxeram o pedido, Gilberto comemorou. Era uma alegria para os olhos e, de certo, um encanto ao paladar.

Mas não foi o fato de o espaguete estar perfumado, equilibrado, com a massa e com os frutos do mar cozidos no ponto correto o que mais o impressionou.

O que deixou o empresário impressionado foi o tamanho dos anéis de lula – gigantescos!

Não se quis dizer, com isso, que houvesse uma desarmonia gritante entre os frutos do mar utilizados no preparo, pois os mariscos também eram grandes.

É que esse gigantismo fez lembrar a Gilberto de um outro documentário muito interessante que assistira em um canal especializado, e que, se bem pensado, preencheria a terceira condição à sua extraordinária ideia.

Mas ele não teve ímpeto de largar o prato ou de devorá-lo em três garfadas para, em seguida, sair correndo em busca da Internet.

            Ora, estava de férias, apreciando um vinho de excelente qualidade, degustando um clássico muito bem preparado... Para que a pressa se o destino estava demonstrando, e a descoberto, que se tornara o seu mais fiel aliado?

            Para dizer a verdade, a única preocupação que experimentava era se aquela desagradável senhora o reconheceria ao se levantar, e, vendo-o só, fosse toda lépida ao seu encontro, na certeza de que fizera a melhor das amizades.

            Fora isso, o momento era todo sensorial. Pois que aproveitasse ao máximo! Afinal, salvo um eventual furto, o celular não sumiria do seu quarto.

            Quanto à nacionalidade da sobremesa, Gilberto estava indeciso. Ou banhava-se no Ganges ou atravessava o Rubicão. O jeito foi apelar para um processo empírico bastante conhecido entre os despreocupados. E depois de concluir o Uni-duni-tê, seu dedo parou em uma panna cotta com geleia de damasco que, se parecia simples, foi entusiasticamente recomendada pelo garçom.

            De volta ao quarto, o empresário se foi ao YouTube. E não demorou muito para que encontrasse o que buscava.

            O documentário, produzido por uma equipe inglesa, tinha por objetivo mostrar um pouco sobre a vida das lulas gigantes de Humboldt, moluscos que habitam grandes profundidades, onde a luz solar não consegue penetrar.

            O local escolhido foi o Mar de Cortez, no golfo da Califórnia, no México. O mergulho ocorreria à noite, pois é nesse período que esses monstros sobem seiscentos metros para caçar.

Dois mergulhadores – um repórter e um cameraman – desceram a uma profundidade de setenta e cinco metros, trajando cotas de malha para proteção contra as investidas das lulas.

E não precisaram de muito tempo para descobrir que elas caçavam em bandos e que existem carnívoros sob a superfície que são muito mais dóceis do que elas!

            Gilberto viu e reviu o documentário. E não deixou de anotar em um bloquinho cada detalhe que parecesse vantajoso e cada senão que se mostrasse um empecilho.

            Faltava, apenas, resolver o problema do quarto requisito, a clientela, o que envolveria uma apresentação cativante, que implicasse total convencimento.

Mas por mais que a sorte estivesse ao seu lado, a Índia não era o local adequado para conseguir clientes. Até porque, a maioria dos seus contatos estava no Brasil e nos Estados Unidos. Assim, o melhor a fazer seria desconectar e aproveitar o resto da viagem. E tão logo voltasse para casa, arregaçaria as mangas e correria atrás de quem fosse preciso.

Gilberto raciocinara corretamente. Portanto, que o dia seguinte chegasse logo, pois partiriam para Jaipur pela manhã, chegando bem na hora do tão esperado almoço.

Aliás, a expectativa para com este almoço não se referia ao exotismo dos temperos ou ao esplendor do ambiente. A graça estava em que a excursão pusesse as mãos na massa, sendo ela a responsável pelo preparo de toda a refeição.

Daí que todos se reuniriam na casa de uma família tradicional, cujo anfitrião, que também era chefe de cozinha, iria coordenar toda a distração.

A recepção foi a mais calorosa possível, e todos passaram a se sentir não como turistas que chegam para mais um show, mas, sim, como velhos amigos que se reúnem para um gostoso bate-papo.

O chefe convidou a todos para que o seguissem em direção à sua grande cozinha. E dividindo a excursão em grupos de trabalho, passou a dizer o que cada um teria que fazer.

E a farra prosseguiu; com certa disciplina, é verdade, mas sem abrirem mão da descontração brasileira.

Acontece que Gilberto estava morrendo de sede. Ora, como fora designado para lavar e cozer os alimentos, e porque não quisesse se passar por pedante ou indelicado, ao invés de pedir água mineral ao dono da casa, tratou de se saciar com a “torneiral” que manejava.

E se o valor do almoço não foi nada exorbitante, o preço que teve que pagar no dia seguinte foi altíssimo!

Menos mal que o desarranjo intestinal só durou um dia; por coincidência, o último da viagem, e que foi muito bem aproveitado por seus colegas de excursão.

Gilberto chegou entusiasmado ao Brasil. Afinal, o fato de já estarem engatilhados três quartos do seu plano era o melhor estímulo para que seguisse adiante.

Mas onde encontrar a fração que faltava ao seu projeto?

Foi aí que ele se lembrou dos russos do documentário a que assistira. Ora, por que sair por aí à procura de clientes se aqueles novos-ricos reuniam todos os atributos a que aspirava?

Era imperiosa, portanto, a aproximação. E graças aos seus vários contatos, não só conseguiu saber o que interessava sobre três daqueles milionários, como, também, uma videoconferência acabou acontecendo, e exatamente com o que primeiro se fez passar por mendigo; por sinal o mais rico de todos.

Porque Gilberto tivesse o dom da palavra, porque as preliminares acerca do projeto chamassem muita atenção, e porque ambos falassem fluentemente o inglês, o russo teve uma ótima primeira impressão. E como esta é a que conta, uma segunda reunião foi marcada.

Mas como o assunto requeria sigilo, e como o empresário quisesse mostrar lastro, segurança e disponibilidade, o novo encontro aconteceria não mais por teleconferência, e, sim, tête-à-tête, em um dos melhores hotéis de Moscou.

Desta vez, porém, Gilberto não abusaria dos filmes nem consumiria álcool, mesmo sabendo que levaria, em média, dezesseis horas para aterrissar na capital da Rússia. Em primeiro lugar, porque não queria acordar com a camisa ensopada de baba. Em segundo, porque sentara ao seu lado um armário em forma de homem, e que, pela cara de poucos amigos, com certeza não seria muito compreensivo com um vizinho que se sabia emérito roncador. E por fim, porque estava tão ligado no seu projeto, que pretendia passar boa parte da viagem revendo cada detalhe da apresentação, imaginando cada pergunta que pudesse ser feita, e meditando sobre todos os caminhos que levassem ao convencimento.

E como um dia é da caça, e o outro, do caçador, desta vez quem ficou muito incomodado foi Gilberto, pois o seu vizinho, que sentara na janelinha, sofria de incontinência urinária – Se ele ganhasse cem reais a cada vez que ouviu um pedido de licença, a passagem aérea e a estadia já estariam pagas.

Depois que pousasse em Moscou, o empresário ainda dispunha de três horas até o início da reunião, tempo suficiente para que conseguisse descansar e revisar todos os tópicos. E foi o que fez.

Eram dezessete horas quando Gilberto foi recebido por um homem franzino, de apenas trinta e oito anos, mas dono de uma fortuna incomensurável, conquistada, sobretudo, com investimentos no setor petrolífero, no de telecomunicações, e no cultivo de certas amizades...

Para que a conversa começasse descontraída, Gilberto não se esqueceu de trazer algumas lembranças do Brasil, valendo a pena destacar uma garrafa da mais cara das cachaças, uma lata de goiabada cascão da melhor qualidade, e um pacote de um quilo de café tipo exportação.

O russo agradeceu muito, e fez questão de experimentar a cachaça.

Gilberto bem que tentou avisar, mas não deu tempo. O milionário encheu até a borda um copinho com a aguardente e a engoliu de uma só vez, como fazia com sua vodka predileta. E por mais que estivesse acostumado ao teor alcoólico desta bebida, o daquela era “ligeiramente” maior.

Superado esse contratempo – e ambos riram muito –, e o assunto importante teve início.

Gilberto ligou o laptop e mostrou o documentário protagonizado pelo novo-rico.

Por óbvio que ele se reconheceu. E voltando o rosto para o brasileiro, perguntou o porquê dessa introdução.

O empresário, com total tranquilidade, disse que há milionários, e há milionários excêntricos; que preferia estes últimos; e que muitos deles são endeusados por milhares de expectadores, que retribuem com aplausos, badalações e curtidas nas redes sociais.

O russo concordou com um leve sorriso.

Gilberto, relembrando a videoconferência, enfatizou que sua empresa era especializada em satisfazer os gostos dos muito ricos. Só que um dos diferenciais estaria, justamente, na possibilidade de seus clientes serem divinizados por milhões de pessoas.

O russo levantou as sobrancelhas! E pediu para que estrangeiro continuasse.

O que estabeleceria diferença, prosseguiu o brasileiro, ainda mais confiante, seriam quatro tipos de benefícios, e que seriam cumulativos. O primeiro, o de serem endeusados por toda uma população, pois passariam a ser lembrados como verdadeiros mecenas; o segundo, o de se divertirem como nunca; o terceiro, o de verem os seus nomes eternizados em cenotáfios personalizados; e por fim, mas não menos importante, o de ganharem muito mais dinheiro do que pagaram pelo serviço contratado.

O russo ficou envaidecido com relação ao primeiro diferencial; muito estimulado quanto ao segundo; sem saber o que opinar quanto ao terceiro; e bastante curioso quanto à última promessa.

E como percebeu a ignorância do ouvinte em relação ao terceiro benefício, Gilberto foi logo explicando o que era um cenotáfio. E mostrou as fotos armazenadas no laptop.

O russo inquietou-se, pois, pelo que compreendia, um cenotáfio pressupunha a morte de alguém, e morrer não estava em seus planos.

Gilberto, então, com a maior paciência do mundo, passou a explicar a parte sensível da sua ideia.

De primeiro, seria necessário forjar a morte do cliente – as sobrancelhas do milionário levantaram de novo –, e de uma maneira tão sensacionalista, tão impactante, que não haveria ninguém que não ficasse sabendo dessa lastimável ocorrência por todos os meios de comunicação.

Depois, um testamento falso viria à tona, com a obrigação de o espólio adquirir um grande terreno onde seria implantado um parque magnífico, com lagos, áreas de lazer, restaurantes, e uma área destinada às edificações, de preferência com apartamentos de alto padrão.

Em seguida, e de acordo com esse mesmo testamento, ergueriam um gigantesco mausoléu, no interior do qual seria colocado um majestoso cenotáfio, e que, a exemplo dos que existem por aí, teria o nome do defunto gravado em baixo relevo na sua lateral e em letras garrafais.

A boca do russo se abriu...

Ato contínuo, e sempre respeitando a vontade contida no testamento, todo o parque seria dedicado à população, de modo que o nome do benfeitor, o falso defunto, seria ainda mais glorificado; um verdadeiro mecenas de toda a população!

Ora, tudo estaria sendo acompanhado às escondidas pelo cliente, que, à exemplo do mendigo de mentira, estaria se divertindo a cada notícia da imprensa, a cada pêsame que ouvisse dos amigos, dos parentes, das autoridades, e de quem mais dele se lembrasse. Além do que, ficaria mais e mais empolgado a cada etapa cumprida na construção do grande projeto.

E quando tudo já estivesse mais calmo, e o complexo, prestes a ser inaugurado, o cliente reapareceria de inopino, coberto por uma áurea de mistério, deixando a todos boquiabertos, fazendo com que seu nome se tornasse ainda mais conhecido porque muito mais requisitado!

Por fim, e graças a toda essa ficção, o interesse por todo o empreendimento aumentaria em proporções nunca antes vistas, o que elevaria ainda mais o preço dos imóveis que seriam comercializados, o que deixaria o nosso cliente ainda mais rico.

Bravo! – foi como o russo se manifestou.

Gilberto fez questão de repetir e enfatizar que se havia milionários que se divertiram fazendo-se passar por mendigos, muito mais diversão teriam se se passassem por mortos. E arrematou dizendo o quão chateados ficariam os herdeiros que com os defuntos não se dessem, assim que os vissem ressuscitados.

Como o pasmo permanecia no ouvinte, o brasileiro tratou de arrematar que a moda do cenotáfio não passaria com a inauguração do primeiro mausoléu, pois uma vez descortinada a falsa morte, e devidamente viralizada nos meios de comunicação, essa onda ganharia um tremendo impulso, fazendo com que outros milionários excêntricos não admitissem ficar para trás, o que os levaria a brigar para verem os seus nomes imortalizados nos cenotáfios que seriam erguidos em muitos outros empreendimentos, tais como resorts, marinas, oceanários, parques aquáticos e estádios de futebol.

Ora, assim como o futuro cliente tinha sido o primeiro a se fingir de mendigo, Gilberto também tinha certeza de que ele quereria ser o primeiro a iniciar a brincadeira de se passar por morto, divertindo-se com tudo o que acontecesse durante a sua ausência, e vendo os seus amigos milionários aderirem a ela, mas com a satisfação de saber que eles estariam sempre um passo atrás – O ouvinte deixava escapar um sorriso de triunfo no canto esquerdo da boca.

Passados alguns segundos de espera, em que os olhos do empresário clamavam por uma resposta, mas os do russo transpunham os limites da sala de reuniões, e a lembrança de um detalhe incomodou Gilberto. E ele se pôs a explicar que uma das muitas maneiras em que pensara para que a morte do futuro contratante fosse a mais impactante possível, e, com isso, ganhasse notoriedade, seria a notícia de que um milionário excêntrico resolvera mostrar ao mundo a sua coragem. E mergulhando à noite, a grandes profundidades, teria sido violentamente atacado, estraçalhado e devorado por um bando de lulas gigantes de Humboldt, moluscos que chegam a medir quase dois metros de comprimento. E pegou o laptop, e mostrou o documentário.

Por óbvio, prosseguiu Gilberto, que as lulas gigantes também seriam uma armação, não existindo perigo real para nenhum envolvido. Daí que o cinegrafista que acompanharia o herói faria algumas tomadas apenas para comprovar que o mergulho aconteceu e que ambos rumaram ao encontro daqueles monstros. O ataque seria devidamente editado e incrementado pela Inteligência Artificial, de maneira que todos acreditariam que esse terrível fato teria realmente acontecido. E o sobrevivente, que conseguiria escapar “por milagre”, apresentaria as imagens ao mundo, que viralizariam mais rápido que a velocidade do pensamento.

            A mudez e o impasse permaneciam. Daí que o milionário respondeu que iria pensar bastante, e só depois daria a resposta.

            Gilberto saía frustrado da reunião. Não conseguia compreender como alguém seria excêntrico o bastante para se fingir de mendigo, mas titubeasse na hora de se divertir, passando-se por morto. O jeito era aguardar.

            Só que tempo é dinheiro. Assim, enquanto aquele russo ficava pensando, o empresário resolveu procurar outros dois novos-ricos.

            Mas para seu desassossego, as reuniões acabaram da mesmíssima forma – com um pedido para que o brasileiro aguardasse uma decisão.

            Gilberto ainda esperou mais uma semana até que fosse cobrar uma posição dos três milionários.

            E elas vieram. E foram todas pela negativa, sem se preocuparem com justificativas.

             O empresário ficou arrasado. E como não dispunha de mais de tempo, como o dinheiro que levara chegava ao fim, e como não tinha outros clientes em vista, remédio não teve senão o de retornar para o Brasil.

            Quando o avião aterrissou, pouco importava o cansaço. O que ele queria era ir para casa, tomar um demorado banho, dormir e, de preferência, sonhar com uma solução.

            No dia seguinte, Gilberto acordou calmamente. E mais tranquilo ficava à medida que a solução por que implorara descortinava-se...

            Foi ao computador e verificou a sua conta bancária. Ficou tranquilo com o saldo e com relação às suas aplicações. Isso vinha a calhar, pois assim seria mais fácil pedir um empréstimo.

            Ligou para o seu advogado e marcou um horário; precisava lavrar um testamento.

            E tratou de reunir a sua equipe para explicar a adaptação que pretendia à ideia original.

            Passadas poucas semanas, e uma nota saía pelos diversos meios de comunicação. Ora, se nenhum milionário aderira ao seu plano, ele mesmo iria ao encontro das lulas gigantes; seria por elas devorado; ficaria escondido pelo tempo necessário; e se divertiria com a repercussão do seu falecimento, com a construção do parque e do complexo imobiliário, com o seu nome imortalizado em um cenotáfio, e com a multiplicação do próprio patrimônio.

E lá se foram, Gilberto e sua equipe, rumo ao Mar de Cortez.

Tudo tinha sido milimetricamente pensado e revisado, desde a escolha da noite em que iriam mergulhar até o cinegrafista que o acompanharia, profissional experimentado no mergulho com as lulas gigantes, além de ganancioso e venal o suficiente para aderir a qualquer mentira.

Só que ao contrário do que prometera aos russos, o encontro com os moluscos seria verdadeiro, o que daria maior credibilidade ao plano. E como Gilberto já dispunha do conhecimento e das horas necessários para descer a grandes profundidades, pois certificados de mergulho tinha de sobra, ele e o cinegrafista entraram na água gelada e começaram a descer, munidos de potentes holofotes.

O breu era impenetrável, e assustador!

Alcançando cerca de oitenta metros, os primeiros monstros começaram a surgir. E tal como vira na filmagem do YouTube, dezenas de lulas gigantes passaram a cercar os mergulhadores e a atacá-los, atraídas que foram pelos fachos luminosos.

De início tímido, o ataque se intensificou. Investiam velozes, e recuavam tão rápido quanto, ora buscando aprisioná-los em suas ventosas cheias de dentes e puxá-los para baixo, ora estocando-os com seus bicos duros feito aço, na tentativa de arrancar alguns pedaços de carne.

E investiam de uma maneira tão feroz, e famélica, que Gilberto, de corajoso, passou a poltrão.

Como toda a conversa era transmitida ao vivo, não só o companheiro de mergulho ouvia os seus pedidos de socorro, como, também, a equipe que ficara na superfície ficou desorientada ante os seus gritos de pânico!

O cinegrafista tentou ajudar o parceiro, falando para que se acalmasse, usando dos sinais convencionais.

Mas as lulas atacavam a ambos, e cada vez com mais ferocidade!

Súbito, o ataque simplesmente cessou.

Não que as lulas tivessem ido embora... Os mergulhadores perceberam, contudo, que elas tinham se afastado, posicionando-se a certa distância.

Esse recuo mais atemorizou do que tranquilizou, pois era como se estivessem apenas sondando, esperando o momento certo para reagruparem-se e desferirem um novo e fatal ataque.

Gilberto e o cinegrafista estavam imóveis. Este, sem largar a sua câmera; aquele, com os dentes cerrados.

Neste meio tempo, o empresário conseguiu distinguir as súplicas de sua equipe – era preciso subissem o mais rápido possível, pois talvez não tivessem outra chance!

E porque Gilberto já recobrara uma pouco mais o autocontrole, fez sinal para o cinegrafista para que subissem.

Neste exato momento, porém, o motivo por que o bando de lulas se afastara era revelado. E os olhos do cameraman arregalaram-se ao perceber o que parecia ser o rei daquele bando, um monstro de quase dois metros de comprimento, de olhos bem maiores que uma bola de basquete, de tentáculos que pareciam não ter fim, e que flutuava bem atrás dos mergulhadores, a uma distância de não mais de um metro!

O cinegrafista só teve tempo de virar o rosto para Gilberto.

E numa fração de segundo, aquele gigante precipitou-se em direção ao empresário, enredou-o em seus tentáculos, e o puxou violentamente para baixo, fazendo com que a luz de sua lanterna se perdesse em rodopios e imprimindo aos ouvidos de todos que escutavam a eterna lembrança dos últimos gritos de terror!

Por instinto, o mergulhador começou a subir desesperado, torcendo para que o bando não o perseguisse.

De repente, lembrou-se de que se não parasse para fazer descompressão, morreria de embolia. E raspou do seu espírito os últimos gramas de coragem para estacionar de tantos em tantos metros, suplicando a Deus para que aqueles bichos não estivessem em seu encalço.

Por sorte, ou por milagre, o cinegrafista conseguiu voltar a salvo à superfície, onde o recolheram terrificado – Não se precisaria dizer que todos naquele barco ficaram atônitos.

Foi preciso que lhe aplicassem um calmante para que pudesse dormir. Mas não conseguiria descansar, pois aqueles gritos de pavor o acompanhariam por muito tempo ainda, sob a forma de repetidos pesadelos.

            A natureza impunha roteiro próprio ao frágil script humano. E nada mais caberia aos atores da vida senão a ele se resignarem.

No entanto, não foi isso o que aconteceu.

Se é verdade que, em um primeiro momento, a desolação abateu-se sobre a equipe de Gilberto, também é correto afirmar que, passado o trauma, sobraram vários minutos de filmagem e um testamento falso. E como a morte do empresário foi manchete em todos os meios de comunicação, os sonhos de riqueza recomeçaram a brotar.

Assim, a equipe resolveu colocar em prática o plano inicial. E para isso, o braço direito do falecido foi nomeado inventariante.

            O espólio soube muito bem negociar e adquirir uma extensa área; todos os projetos foram devida e rapidamente aprovados; e as obras seguiram em velocidade máxima.

E hoje, passados os anos necessários à edificação da segunda torre, e já tendo sido comercializadas a quase totalidade de suas unidades, o cenotáfio em memória de Gilberto será finalmente inaugurado, estando confirmadas as presenças da imprensa, das autoridades, e de todos que se engajaram no seu último e mais ambicioso projeto.

            Não fosse o ataque da maior das lulas, e o mecenas também teria se beneficiado de tudo aquilo que planejara.

Mas?... E se até aquele ataque tivesse sido forjado? E se o projeto contivesse uma última fase, desconhecida, inclusive, da própria equipe que o executou?!

O que posso afirmar é que pessoas berraram, outras desmaiaram, e mais de uma taça de champanhe se despedaçou no chão assim que a tampa do cenotáfio começou a se mover.