EDUARDO WAAK APRESENTA FRAGMENTOS DE SUA "ALMA BRASILEIRA"


 

Livro lançado dia 21 de maio conta com apoio do Ministério da Cultura

Por Eduardo Waack / Fotografias de Eliseu Batista

 

A literatura brasileira está em festa, em especial meu coração estradeiro que tanto aguardou este momento. Dia 21 de maio foi lançado em Matão o livro “Alma Brasileira” numa cerimônia simples, porém repleta de significado e pessoas queridas.

 

 

 

A Biblioteca Municipal “Maria de Lourdes Lian” estava tomada de uma energia telúrica e irradiava potente a multíplice chama libertária da poesia para todo o Planeta. Pois que nossos sentimentos e vibrações convergiam e afluíam, interagiam. A bibliotecária Estela Farias pontualmente iniciou as atividades prometendo algumas surpresinhas… Após ser anunciado, apresentei “Alma Brasileira” aos presentes e discorri sobre a obra. Poemas que nasceram em momentos muito especiais de minha existência e na existência também deste país. Situações, comparações, sublimações. A Arte tudo abraça e acolhe em seu seio farto. Alavanca, potencializa, indica, exemplifica. Disse que eram poemas sofridos, mas que essa dor trazia no bojo a semente da esperança e da vitalidade. A resistência, que não se negocia…

 

 

Ao meu lado, alunos da Escola “Prof. Antônio Carlos Manzini” e integrantes da Associação dos Deficientes Visuais de Matão (Adevima). Muitos amigos e pessoas ligadas à Lira e ao Engenho. Adreana Paula Santana (Secretária de Educação e Cultura de Matão) nos prestigiou, assim como professores e diretores de escolas públicas estaduais e municipais, a saber: Ana Cláudia Câmara Pereira (Escola Técnica Sylvio de Mattos Carvalho” / Etec), Celimara Garbim Avelino (Escola “Prefº Celso de Barros Perche” / CAJU), Claudia Regina Rodrigues (bibliotecária da Etec Matão), Claudemir Mariotti Junior (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo / IFSP), Claudionice Pereira Bellintani (diretora municipal de Educação), Emílio Paganin (Escola “Prof. Odone Bellini”), Graziela Guttardi Monteiro (Escola “Prof. Antônio Carlos Manzini”), Lilian Sampaio dos Santos (Escola “Benta Maria Ragassi Scutti” / CAIC), Maria Paula Ciarantola Bottura (Escola “Adelino Bordignon”) e Michela Adriani Alves (Gerente do Ensino Fundamental Anos Finais).

 

 

 

 

 

 

O microfone esteve aberto às manifestações espontâneas e poemas foram interpretados criando uma atmosfera lúdica, lírica, mística. Oito leitores e oito poemas: Cristiano Cândido (“Alma”), Cristiano Rossi (“Ascenção”), Fernando Canafolha (“Aquilo que somos”), Haroldo Valério (“Oráculo”), Margareth Ribeiro da Silva (“Aos jovens”), Maria Celeste Tortorello Callegher (“As quatro estações”), Maria Teresa Rigoli Rossi (“Barretos 2017”) e Sérgio Floriano (“Inventário”). Eu li um poema escrito há poucos dias e provisoriamente chamado “Cordilheira”.

 

 

 

 

 

O apressado trânsito que se entrevia na Av. 7 de Setembro, com suas buzinas, ronco de motocicletas, badalar de sinos e murmurinho popular unia-se à música que Gabriel Bueno Magni dedilhava em seu violão. Trilha sonora de toda uma geração. A poesia nascida das ruas é emoldurada pelo clamor urbano. O fotógrafo Eliseu Batista (Revel Filmes) atento registrava quadro a quadro a apoteose que vivíamos (ou era eu quem imenso imaginava tudo isso). Somou silenciosa e positivamente resguardando para a posteridade o lançamento oficial de “Alma Brasileira”.

 

 

 

E no dia 27 de maio, integrando as comemorações dos 40 anos da Etec Matão estivemos reunidos com alunos e a galera sempre animada da Adevima (capitaneados por Dercino Bertolaia) para apresentar o novo livro. Levamos conosco o poeta e metalúrgico Braz Ferreira, e debatemos a contribuição das Artes junto à Educação na formação do povo brasileiro. Também fomos brindados com a leitura de nosso poema “Velho Arvelino” por um aluno e a oferta de belas palavras lidas em braille pela professora Maierling Vicente dos Santos (carinhosamente chamada de Mey).

 

 

 

 

Esperamos ter contribuído com nossa cidade ao dedicar um livro a seus habitantes, que através de sua leitura mergulharão no âmago de um país que ainda é desconhecido e desrespeitado pelos seus filhos. Uma nação soberana que necessita afirmar-se, abrir os olhos e o coração às aspirações nascidas na soturna Pátria vilipendiada. Um Brasil profundo e esquecido, que aos poucos perde-se soterrado pelo falso canto da sereia estelionatária consumista, alheia ao povo, vendedora de ilusões e promessas de frágil cintilar. Aos brasileiros devemos ofertar e possibilitar aquilo que há de melhor, mais sublime e libertário!

 

 

Em tempo! O projeto “Alma Brasileira” foi realizado com suporte do Programa Nacional de Apoio à Cultura (PRONAC), Lei Rouanet. Ministério da Cultura / Governo do Brasil — do lado do povo brasileiro.

 

 

 

TRÊS MARIAS



Por José Perez Urtiaga Martinez (Guarulhos, SP)

Três Marias

Três

      Três

Três

As arrecadações, as doações,

a ajuda, a acolhida aos romeiros.


O coração cheio de esperança.

De dia,

de noite,

de noitinha,

no amanhecer

o coração batendo forte,

sim, muito forte.


A sensação e a alegria vêm ao encontro das lágrimas no rosto.

Impossível descrever neste poema, impossível imaginar

a emoção,

a energia,

a alegria de te ver.

A dedicação de todos para curar,

para realizar um curativo,

a comida que não para de chegar,

a alegria no rosto

de quem caminha cheio de dores,

a alegria no coração

de quem recebe os romeiros.


São muitos os romeiros que vêm, de todos os lugares do Brasil

A fé!

O pequeno grão de mostarda

que se espalha pela estrada.

Não consigo te dizer

a alegria de ver,

a emoção de sentir.

Na estrada...

de dia,

na estrada,

de noite.

                     Três

           Três           Três

                   Marias

                     Três

                     Três

Impossível te dizer como,

impossível te dizer onde,

impossível te dizer...


Como definir a alegria

               de quem cuida?

Como definir a alegria?

De quem vem com nada nas mãos?

Um sorriso, um abraço, um prato de comida, uma água, um simples oi

Vai em frente...

As histórias que se misturam na estrada

de noite!

de dia!


                       Três

                Três       Três

                    Marias

                       Três

                       Três

O apoio aos romeiros na estrada que transforma o amor ao próximo.


Oração a Virgem Maria  Século III

Sob tua compaixão nós nos refugiados, Mãe de Deus, não ignores, nossas súplicas no

apuros, mas livra-nos do perigo, o única e pura, e Bendita.


Poema a pedido de: Apoio aos Romeiros Três Marias,

Link do Instagram:

https://www.instagram.com/apoioaosromeiros_tresmarias?

igsh=MXhuNXRramN4NmVkcA=

EDITORIAL

 Por Paccelli M. Zahler (Editor, Brasília, DF)

Junho chega como quem pousa devagar. Traz um frio leve, um silêncio bom, uma vontade de recolher o que sentimos e deixar que a vida fale por entre as frestas.

As matérias desta edição caminham nesse mesmo ritmo: poemas que acendem lembranças, textos que tocam o íntimo sem alarde, imagens que parecem respirar junto com a gente. Há algo de delicado no ar — e é essa delicadeza que queremos partilhar.

A Revista Cerrado Cultural segue sendo esse espaço onde a arte encontra abrigo e onde cada leitor pode descansar um pouco do mundo. Aqui, a palavra não precisa correr. Ela pode apenas existir, inteira, simples, verdadeira.

Que esta edição de junho lhe chegue como um gesto de calma. Como um verso que encontra eco. Como uma pequena luz acesa no meio da tarde.

 

UM POEMA QUE ME COMOVEU

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

Acabo de ler o: " Poema do Tio-avô Materno" de António Gedião, que muito me comoveu. Não pela inefável beleza, escrito por mão de Mestre, mas pelo sublime gesto do antepassado, que o poeta não conhecera, mas que lhe servira de - exemplo, carinho e bondade, nobres predicados, que germinaram no coração do menino Gedião.

Não resisto a não o transcrever, na esperança dos leitores mais sensíveis, também se enterneçam, e certifiquem - que a educação e os bons exemplos não se transmitem só pelos livros, mas sim pelo procedimento de familiares, mesmo falecidos:

POEMA DO TIO-AVÔ MATERNO

 

"Num dia sufocante, e intensíssimo calor,

Encontrei, ao regressar da escola,

um passarinho quase sem vida, caído na rua,

 

Levantei-o do chão, perante olhares indiferentes,

anichei-o nas mãos em concha,

e trouxe-o para casa. 

 

Meti-lhe, pela goela, gotas de água, com a pepita dum frasco de remédio,

dirigi-lhe palavras carinhosas que ele pareceu entender,

e mal o achei melhor, abri-lhe as mãos e dei-lhe a liberdade.

 

Todos me cumprimentaram, pelo bom coração que assim revelei,

Todos cumprimentaram a minha mãe, pela boa educação que me soube dar.                             

todas as visitas me deram palmadinhas no rosto,

e fui apontado aos meninos maus das visitas,

como um exemplo edificante que todos deviam seguir.

 

Eu sorria-me, porque me lembrava de ter ouvido contar

que meu tio-avô materno, que não cheguei a conhecer,

também um dia encontrara passarinho na rua,

e fizera o mesmo que eu fiz.

 

António Gedião, in" Poemas Póstumos"

 

 

A verdadeira educação é a da alma; que não vem nos livros de psicologia, e menos ainda em manuais de etiqueta. Mas no exemplo, que os pais, ao longo da vida, inculcam – pela correta conduta quotidiana.

Palavras grosseiras e torpes; deploráveis gestos; ausências de respeito; violência inclassificável, que as famílias imputam à coletividade, é quantas vezes, falta de atitudes sublimes: de educadores, e mormente, da classe política e jornalística, pela relaxação, que patenteiam, através dos órgãos de informação, em que são responsáveis, e de pais, indignos de tal nome, que não sabem ou não querem transmitir, bons e sadios hábitos.

Pelo desregramento voluntário ou involuntário, que alguns jornalistas divulgam, em textos e fotos, ainda que não o desejem, podem se tornar " filhos da geeme"

CADA TERRA COM SEU USO

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal) 

Estando no Brasil numa cervejaria, a conversar com amigos, escutei entre pareceres desfavoráveis ao nosso país – que era comum antes do euro circular em Portugal – que roubamos o ouro, e enviamos durante décadas (séculos?) para Terras de Santa Cruz, perigosos criminosos. Razão porque ainda há tantos crimes na Pindorana...

Já se passaram largas décadas (mais de cinquenta,) desde que desembarquei, pela primeira vez no Galeão; mas, ainda recordo:  deparar homens descalços, a trabalharem na baixa histórica do Rio; e admirei-me ver acasteladas e degradadas favelas, mirando, banhadas de sol escaldante, a turística e encantadora cidade.

Reparei igualmente, enquanto tomava as refeições, que a maioria dos comensais, utilizavam, apenas o garfo, e a mão esquerda caída ao longo do tronco.

Recordei-me disso, porque ao folhear: “Símbolos & Mitos" de Fidelino de Figueiredo, li, que seu filho ao visitar os Estados Unidos, verificou que os americanos se riam dele, da forma como comia.

 Escreveu Fidelino: " Nos Estados Unidos fazia-o rir aquela maneira de comer tudo com o garfo destramente manejado, enquanto o antebraço caia ao longo da cadeira. No mesmo instante, os ianques ririam dele, a comer com as duas mãos e os braços um pouco abertos, com os pulsos contra o rebordo da mesa. Uma vez surpreendeu dois criados negros a observá-lo com curiosidade por uma porta."

Certa ocasião, conversando com pastor luterano, que se deslocara aos USA, para angariar donativos, disse-me:

“Ao entrar em casa do empresário, encontrei a família descalça, estirada no chão, a ver TV.

“Contei-lhes ao que vinha. O chefe da família, sem se levantar, ergueu a voz:

- " Vai ao escritório. Na primeira gaveta da secretária, encontrarás dinheiro. Tira o combinado.

Ao abrir a gaveta verifiquei, estupefacto, que estava repleta de dinheiro!...

No Brasil e em Portugal – concluiu o pastor, – quem acreditaria na honradez de sacerdote, a ponto de deixá-lo mexer numa gaveta com milhares de dólares”!?...

Tomás Aquino, ainda menino, foi enganado por frade, com mentirinha inocente; troçando da inocência do rapazinho. Retrucou magoado, Aquino:

- " O que me admira, é que um frade minta!"

Na América, ainda há quem pense, que o sacerdote, que acredita em Deus e no Seu Filho, Jesus Cristo, não mente, nem rouba!...

O RESTO É HISTÓRIA


Por Roberto Minadeo (Brasília, DF)

            Essa frase se repete incansavelmente.

     É daquelas poucas que sempre possuem validade, desde que bem empregadas.

          Steve Jobs se associou a Steve Wozniack em uma garagem, com a visão de proporcionar um computador pessoal a “todos os trabalhadores do conhecimento”. Poderia ter dado errado. Mil problemas poderiam ter surgido e impedido que a Apple viesse a ser maior do que a IBM – algo impensável à época. A Apple superou a IBM. Estava preparada. O Resto é História.

          Um famosíssimo artista está em uma festa e convida uma jovem para dançar. Ela fica nervosa, diz que vai retocar a maquiagem e se demora por uns cinco minutos. Ao retornar, vê o cidadão iniciando uma infindável dança com outra jovem. A pobre que havia retocado sua maquiagem tão cuidadosamente soube que perdeu a oportunidade de sua vida. O resto é história: após a festa se iniciou um romance entre o artista – cada dia mais bem-sucedido – com aquela com quem dançou, e que viria a ser a sua esposa e mãe de um de filho seu.

          Havia certa vez um bom presidente da empresa, com bons resultados. Não era propriamente um gênio, mas estava na média. Um fulminante câncer o levou. Foi uma pena. Chegou-se a temer pelo futuro do negócio, pois ninguém havia previsto substitutos. Foi necessário improvisar. Entrou em cena um garoto que mexeu com tudo, revolucionou o negócio. O resto é história.

          O Palmeiras acreditou em um jovem talento de dezesseis anos, revelado em Brasília – que não é propriamente o coração do futebol brasileiro. Todos já adivinharam que se trata do Endrick. O investimento não foi elevado, todavia é o que se espera de um time: analisar jogadores desde que começam suas carreiras. Um contrato foi feito. Mil problemas poderiam ter ocorrido. O talento de Brasília poderia ter ficado timidamente oculto, escondido, camuflado lá na grande capital – que não se destaca propriamente por sua pujança esportiva. O menino deslanchou. Centenas de milhões de reais coroaram a visão de acreditar nesse talento. Esperamos vê-lo na Copa do Mundo fazendo sucesso. O resto é história.

 

A FILA ANDOU



Por Roberto Minadeo (Brasília, DF)

Em certa ocasião, me vi bloqueado em uma rua vazia por alguém que dirige muito devagar, mesmo sem sinais de trânsito ou outros carros. Devido à dificuldade de ultrapassá-lo, perdi uns três minutos a uma velocidade de tartaruga – durante os quais rememorei a frase que nomeia a presente crônica.

Ao conseguirmos matar um mosquito que nos inferniza a vida, é inevitável o desejo de gritarmos a plenos pulmões o título desta crônica.

Todos se recordam da afirmação: “— Os diamantes são eternos!” Cinismo dizer que apenas tais objetos brilhantes, raros e caros carreguem tal adjetivo. Existem tantas eternidades, mais ou menos valiosas, mais ou menos importantes – ao gosto do freguês.

Inúmeras situações virão a representar apenas uma parte do passado. Enfim, a “fila anda”.

Além de coisas que não se corrompem, quais diamantes, há outras nas quais o leitor investe. Constituem o futuro, avidamente esperado. Concluir o curso, obter um emprego, encontrar o amor esperado por toda uma vida.

Para investir em um curso é preciso deixar o passado de lado, é preciso abraçar algo. Sem cindir com o passado, sem romper as amarras, sem deixar que a fila ande, não se conseguem amores, casas ou cursos!

E o passado carrega tantas coisas que devem ser abandonadas! O tempo trancafiado em casa devido à pandemia, à espera de uma incerta vacina e aprendendo a trabalhar e a viver com mil e um aplicativos, sem vida social. Foi bom enquanto durou ou foi péssimo enquanto tivemos que aguentar! Nem saberia dizer como acabou. Mas acabou! Ufa! Felizmente, como tantas outras coisas que passam. A linguagem comum criou a rica e contundente expressão: “— A fila andou!”

Parece que estou sendo duro ou cínico ao invocar o título desta crônica. Nada disso. Burrice seria insistir em algo que não mais existe.

É a pedra de gelo no uísque – está lá para que se derreta ao tornar a bebida gelada, ninguém quer o gelo pelo gelo. O passado existe. Ficar preso a ele é um erro. É preciso aprender a conjugar os verbos desse tempo.

Qual o papel do passado? É parte da vida, é parte de nossa própria identidade.

O fusca foi o seu primeiro carro? Ótimo, parabéns, isso indica que décadas atrás você já estava motorizado, muito antes da maioria dos brasileiros. Portanto, você já era da classe média ou alta e que provavelmente o seu carro de hoje é mais moderno, econômico e seguro. Nem todos podem se dar ao luxo de colecionar carros antigos. Aquele saudoso carrinho é parte do seu passado!

As garagens são raras e de espaço limitado. Conservar o fusca tal como saiu da fábrica requer um investimento não desprezível e que se revela inútil para a imensa maioria das pessoas. Todos já tivemos notícias de mais de uma séria briga de família em relação ao início de coleções caras na qual o argumento decisivo foi: “— Ou isso aí ou eu; você vai precisar escolher!”

Talvez o seu médico tenha dito algo desagradável e que o fez xingá-lo com profunda raiva. Pode ter sido algo como parar de beber – que irá afetar sua forma de viver, eliminando o bar de sua vida. A saúde é importante, seguir o conselho médico ou não, é um problema seu – interceirizável e indelegável.

Algo é tranquilizador: a bebida é parte do passado para milhões de pessoas. Alguns dos bebedores mais contumazes se refugiaram nas ofertas zero álcool: pode-se dizer que não tem muita graça, mas o que passou já não volta mais.

O tempo é implacável. As coisas mudam de modo acelerado, prender-se ao ontem é hipotecar o presente e arriscar o futuro em nome de algo inútil. Afinal, os bons dividendos que o passado deveria ou poderia trazer já devem ter vindo e já devem ter sido reaplicados para facilitar as coisas no presente e atapetar o caminho que leva ao futuro.

 

LIDIA E JOANA: DUAS GUERREIRAS


 

  Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

      Joana D’Arc (1412-1431) é uma das pessoas mais estudadas da Idade Média. Camponesa, heroína e salvadora da França, ícone de liberdade e independência, destacou-se durante a Guerra dos Cem Anos.

      A adolescente Joana fiava lã, ajudava seu pai no plantio e nas colheitas, cuidava dos animais. Nutria o sentimento profundo de que os ingleses precisavam ser banidos do território francês. Corria uma lenda, uma profecia atribuída ao mago Merlin: uma virgem carregando um estandarte acabaria com o sofrimento da França. Joana entendeu que ela era essa donzela prometida. Começou a ter visões místicas: São Miguel Arcanjo apareceu no jardim de sua casa, ladeado por Margarida e Catarina, santas torturadas por suas crenças. Teria sido imaginação descontrolada? Alucinações? Transtorno mental? Fé exagerada? O fato é que, aos dezessete anos, Joana, escoltada por soldados, vestindo roupas masculinas, encontrou o Delfim Carlos VII e lhe disse que havia vindo para encerrar o cerco de Orleães e levá-lo a Reims para sua coroação: “- Senhor, vim conduzir seus exércitos à vitória e fazê-lo legítimo rei.” E lá se foi Joana à frente do exército, com armadura e espada, montada em seu cavalo. A sua forte personalidade levantou o ânimo dos soldados. Ela inspirava, insuflava, abençoava as tropas, aconselhava, instruía, atacava, posicionava a artilharia, assaltava, tomava fortalezas, regia ofensivas, alimentava o fervor patriótico do povo. Após sete dias de ação, a batalha terminou com um resultado favorável aos franceses. Orleães foi libertada, elevando a reputação de Joana. Mas Joana não parou. Nunca parou. Resolveu cercar Paris e ali fracassou. Sua popularidade despencou dentre a nobreza que desejava uma saída diplomática. Foi capturada, traída e entregue nas mãos do governo da Inglaterra. O julgamento pelo bispo Pierre Cauchon foi político, travestido de religioso.

Os ingleses viam a capacidade de uma jovem derrotar seus exércitos como prova de que estava possuída pelo Diabo. Joana não recuou diante do tribunal. Respondeu a todas as perguntas com controle emocional e prudência. Tentou fugir da cela tenebrosa. Pulou da janela de uma torre. Caiu no fosso do castelo. Foi presa em correntes até a sentença final: morte na fogueira. Seu corpo ardeu amarrado num poste revestido de gesso. As cinzas foram atiradas no rio Sena. Diante de seu martírio, a tristeza, a raiva e a indignação tomaram conta dos franceses. Somente vinte e dois anos depois, os ingleses foram expulsos da França.

      Lídia Baís (1900-1985), a pintora, desenhista, precursora das artes plásticas no Mato Grosso do Sul, pioneira à frente de seu tempo, identificou-se com Joana D’Arc. Pintou-a num afresco emblemático localizado na casa de sua família, à beira dos trilhos da Avenida Afonso Pena, hoje museu Morada dos Baís. Um autorretrato, seu próprio rosto no rosto da guerreira Joana. Símbolo de sua luta contra o conformismo e as opressões sociais. Lídia estudou pintura no Rio de Janeiro, com mestres como Osvaldo Teixeira e Henrique Bernardelli. Viajou pela Europa, Berlim e Paris, recebendo influências do expressionismo e do surrealismo. Perdulária e generosa, gastava sem medidas de sua fortuna pessoal até ser interditada pela família. Supostamente virgem, aos trinta e oito anos, aceitou casar-se com o advogado paulista Arthur Vasconcelos. Dizem que, na lua de mel, ele a deixou num quarto de hotel e foi jogar num cassino. Ela voltou à sua cidade. O casamento foi desfeito, anulado pelo Vaticano. Ela continuou pintando suas obras enigmáticas, ferindo os padrões estéticos da época e se dedicando a pesquisas filosóficas. Ingressou na Ordem Terceira de São Francisco adotando o nome de Irmã Trindade e passou a se vestir com o hábito marrom dos franciscanos. Faleceu de um tombo que a enfraqueceu. De um longo poema que escrevi, intitulado “Casarão dos Baís”, pinço este trecho:

 

Antes de ser abatido pelo trem,

Corro em direção a casarão,

Abro a porta,

Um raio de sol entra pelo vão.

Vejo Lídia no centro da sala,

Lídia moça,

De cabelos cacheados

Sob a boina,

Saia plissada,

Pele rosada,

Indiferente,

(Sou eu o fantasma)

Continua pintando

A imagem de uma mulher guerreira,

Joana D’Arc em seu cavalo.

 

      Joana e Lídia: duas guerreiras que sofreram ataques de inimigos reais e espirituais. Abriram brechas nos muros de seus castelos; saltaram de altas torres psíquicas; fizeram escolhas boas e fatídicas; receberam flechas incendiárias no peito; passaram por zombarias, tribunais, conspirações, falsidades, difamações, bombardeios. Brilharam embaixo de suas armaduras, no meio das batalhas.

NABUCODONOSOR



Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

Que personagem trágico foi Nabucodonosor (642 a.C.- 562 a. C.), rei e
governador do Império Babilônico. Um tirano que exerceu o poder de forma cruel, injusta e autoritária, colocando sua vontade e sua sede de vingança acima das leis. Demonstrou, com seus atos de ferro, desdém e indiferença ao sofrimento alheio. Perseguiu, censurou, cometeu excessos. Tudo com a frieza de um cérebro gangrenado. Levou o povo de Deus ao cativeiro, às dores do exílio; destruiu Jerusalém, o Templo de Salomão, algo extremamente devastador para o exercício livre da fé. Humilhou e oprimiu. Por outro lado, Nabucodonosor foi administrador eficiente, estrategista militar e amava a arquitetura. Os Jardins Suspensos da Babilônia, atual Iraque, foram uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. A “Porta de Ishtar”, dedicada à deusa arcádia Ishtar, era suntuosa. Toda decorada com dragões e touros dourados.
Nabucodonosor aprendeu duramente sobre humildade. Contemplando a beleza de seu reino, proferiu a frase: “Não é esta a grande Babilônia que eu construí?” Nesse momento, perdeu tudo. Enlouqueceu. A soberba conduz à queda. O seu sonho com uma gigantesca árvore derrubada tornou-se realidade. Ele perdeu a razão. Passou a viver como um boi, uma vaca. Andava de quatro, mugia, comia capim, num surto psicótico chamado “boantropia”. O fenômeno dos “therians” de hoje, pessoas que têm forte identificação com um animal, percebendo-se como um animal em um corpo humano, numa grave crise de identidade, remete a esse transtorno mental. Ao se afastarem da premissa de que somos feitos à imagem e semelhança de Deus, perdem a humanidade. Triste ver jovens se aproximando dos deuses zoomórficos, metade homem, metade animal. Nabucodonosor, depois desse sofrimento intenso, num momento de lucidez, proclamou a soberania de Deus, quebrou o orgulho e recuperou seu trono. Abraçou o arrependimento e a restauração. Pensando nessa história, escrevi:


Fui rei,
Tinha um palácio de ouro
E, modelados no alabastro,
Ídolos cegos e impassíveis;
Andei sobre jardins suspensos
À sombra de ciprestes,
Amoreiras,
Pistaceiras,
Entre desenhos recortados de zimbro e buxo;
Com sangue, meus escravos

Construíram imensa escadaria,
Rival do céu,
Pedestal de um deus
Que baixaria à terra
Com veste de púrpura;
Arrasei templos,
Arranquei vasos sagrados
Para neles beber vinho
Com minhas amantes;
Levei povos ao cativeiro,
Iam arrastados e lentos
Como fantasmas no deserto;
Sonhos me perseguiam:
Estátuas partidas,
Árvores desfolhadas,
Enigmas que nem magos,
Feiticeiros
E astrólogos decifravam;
Terá sido visão?
Homens no meio do fogo
Louvando seu Senhor?
Haveria poder maior que o meu?
Desde esse dia
Vivo pelo campo,
Pastando como boi,
O corpo recoberto de penas de águia,
As unhas crescidas como garras,
Só o orvalho molha minha febre
Enquanto deliro.

Que bela é a virtude da humildade. Base de todo edifício espiritual.
Reconhecer nossas limitações e fraquezas. É libertador termos consciência de que não somos superiores a ninguém. Largar a capa da ostentação e da empáfia pelas escadas. Respeitar o próximo. Sempre há algo a aprender com o outro. Ainda que a fascinante Babilônia continue a brilhar diante de nossos olhos, com seus tijolos de vidro azul.

 

NUNCA TE VI


Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

Já fui a um lugar distante chamado “Nunca te Vi”. É um bairro da cidade de Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. Uma zona de chácaras simples; primeiro assentamento de reforma agrária, da época de Getúlio Vargas. Casas de madeira afastadas umas das outras, em grandes terrenos com pomares, laranjais perfumados e pés de mandioca. A origem do nome remonta a meados do século XIX. Conta a lenda que um mascate turco atolou sua mula numa poça fumegante de lama, o “olho do boi”. Ao ser questionado se não tinha visto o perigo, respondeu: “Nunca te vi”.  Ali se encontram o monumento “Nhandipá”, palavra guarani que significa “nós chegamos ao fim”, que homenageia os mortos da Retirada da Laguna; uma igrejinha rústica de pedras brutas; lagoas azuis com cachoeiras.

Mais tarde, encantei-me pelo filme “Nunca te vi, sempre te amei” (1987). Esse clássico do cinema narra a amizade de vinte anos entre uma escritora americana, mal humorada e impulsiva, Helene e o gerente de livraria londrino, Frank Doel, um homem cortês, culto e discreto. A princípio, Helene solicita obras inglesas raras. Depois, durante o período de escassez do pós segunda guerra mundial, Helene envia mantimentos para Frank e sua equipe. As cartas, livros e encomendas atravessam os oceanos. Há carinho, solidariedade, respeito mútuo. Prova que a conexão humana está acima do contato físico. Após o falecimento de Frank, Helene visita a livraria. É um drama inspirador e aconchegante. Nunca te vi... sempre te amei.

As coisas que vemos são materiais, temporais. As invisíveis são eternas. Marcante o relato de Tomé, um dos apóstolos, que não estava presente na primeira aparição de Jesus e exigiu tocar nas feridas do Mestre para crer. Oito dias depois, Jesus apareceu e permitiu o toque, levando Tomé a confessar: “_Senhor meu, e Deus meu”. Tomé tornou-se símbolo da fé que precisa ver para crer. Das dúvidas e fraquezas que acompanham o ser humano. Mesmo as dúvidas podem nos levar a um relacionamento mais profundo com o espiritual. Não vi, não vi, mas sempre amei...

Esse valor da potência do invisível, daquilo que é chamado para se tornar visível, já estava lá, na Teoria das Ideias de Platão (428/427 a. C. -348/347 a. C.). É o núcleo central de sua filosofia: o mundo sensível, físico, mutável, percebido pelos sentidos e o mundo inteligível, imutável, acessível  apenas pela razão. Essência e Realidade. Pensamentos que geram formas. O mundo que habitamos é pálida cópia, reflexo de sombras. Há diferença profunda entre o ser e o parecer. Apalpamos meras carnes, superfícies e aparências. 

O céu é real. Não é local físico. É atuação divina que levará a um reino onde haverá paz, justiça e alegria. A sonhada plenitude. Um novo governo superior ao humano que se instalará no cosmos. Podemos senti-lo pulsar em nossos corações. Escrevi:

 

Lá perto da fronteira

Havia um lugar chamado “Nunca-te-vi”.

 

Nunca-te-vi...

Parecia que o passarinho mudara de canto

E agora, quando subisse na amoreira

Ou passasse rasante no telhado,

Deixaria recado muito mais sofrido:

“Nunca-te-vi...”

 

Nunca-te-vi...

Nunca

Nunca tem peso de eternidade,

Tem fatalidade de distância;

Nunca te vi

E, no entanto,

Isso que nunca vi

É a coisa mais importante da minha vida,

É minha essência,

É tudo que me falta.

 

Nunca-te-vi...

Ai, mundão de Deus!

Cheio de mato crespo,

De porteiras rangentes,

De garças longilíneas,

De bois opacos

Balançando as papadas.

 

Conheço tanto mistérios

Que já fui num lugar

Chamado “Nunca-te-vi”.

A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 










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