Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
‘’Sufocante, escuro e pesado, minha alma
carece de paz,
Mantê-la em lugar arejado,
Meu corpo úmido não é salubre ao meu
ser.’’
Giordano Zaguini Furtado
Para David Souza Maia e Delta Souza Maia (em
memória)
O professor Adérito Muteia caminhava sem
muita pressa pelo passeio público destinado a ciclistas e pedestres; tomava a
direção do Bar-café Garibaldi. O local não era muito distante da residência do,
outrora, emérito professor doutor Adérito Muteia. Era lá que ele,
invariavelmente, passava as suas manhãs tediosas e nevoentas do sul do mundo.
Ali, o professor fazia o seu pequeno-almoço. Era para ser mais um dia lento e
sonolento de puro tédio, mais um dia vago, nevoento e desesperado em sua vida.
Em suma, era mais um dia rotineiro onde
Adérito se abrigava no claustro, na segurança da mediocridade da vida
cotidiana. Mas, no seu íntimo, o professor africano queria fugir dessa prisão
sem muros, sair dali correndo e não parar nunca mais, simplesmente desaparecer
em meio ao infinito, sem olhar para trás. Porém, Adérito sabia que isso era
impossível e impraticável naquela altura da vida. O professor era prisioneiro
de si mesmo e das juras e promessas que fizera no passado. Fora assim que
aquele homem alto e portentoso — de andar grave, cabelo rente à moda militar,
olhos castanhos e perdidos e pele cor de ébano que reluzia ao sol de outono —
vivia a sua vida de dissidente político. Era, então, somente mais um mero
exilado, vivendo uma vida vazia de propósito em um país estrangeiro.
Na mente de Muteia, a saudade de casa
bateu fundo quando um carro passou lentamente ao seu lado, com os vidros
escuros semifechados e um som ligado nas alturas; era uma música moderna e
barulhenta. O veículo era antigo e restaurado, verde-prateado, com calotas
chamativas e cheias de pequenas luzes multicoloridas que piscavam como uma
árvore de Natal. Na outra pista, em sentido oposto, uma carroça de cor
verde-musgo e caindo aos pedaços descia a via rápida com muita pressa. Um
equino decrépito vinha conduzido por um carroceiro maltrapilho de pele
amendoada, em uma marcha acelerada, apesar de a carroça em frangalhos estar
abarrotada de resíduos domésticos para reciclagem. O chicote do condutor descia
e subia no ar, em um ritmo cadenciado por gritos impróprios desferidos contra o
animal em voz bem alta. E, sem pena alguma, o açoite estalava nas costas do
equino, exigindo mais e mais velocidade do pobre animal que, apesar da
aparência decadente, ainda mantinha um porte aristocrático, principalmente no
trote.
Enquanto isso, na caçamba da carroça
decadente, repousavam as sobras do consumismo imediatista e materialista do
capitalismo contemporâneo — sobras inúteis e efêmeras, descartadas pela massa
vazia. Rejeitos que o próprio capitalismo moderno se encarrega de reaproveitar.
Era esse o pensamento particular do professor Adérito Muteia naquela hora
extrema do ocaso, naquela hora extrema de dor e solidão. Muteia notou que o
condutor da carroça estava com os olhos vidrados; estava embriagado ou drogado,
com toda a certeza.
Foi em meio a essa balbúrdia urbana
pós-moderna e aos devaneios de Muteia que um carro-patrulha decidiu parar bem
ao seu lado. Velhas lembranças adormecidas tomaram Adérito de assalto naquele
instante; eram memórias amargas que ele queria esquecer a qualquer custo.
— Documentos, oh negão! — O grito do
policial militar foi em um tom raivoso e metalizado. Ele tinha o biótipo de um
teuto típico: cabelo louro, pele alvíssima, olhos azuis e frios. A ordem soou
como um soco na cara do professor. O teuto deu a ordem sem tirar as mãos do
volante.
— O senhor bem poderia ser mais educado,
seu guarda, opá! E me dizer bom dia em primeiro lugar, ora pois! — A voz do
professor africano era firme, indignada e cheia de sotaque lusitano.
Os outros policiais militares deram
enormes e altas gargalhadas. Um tinha aparência italiana: era baixo e acima do
peso para um militar, com pele de marfim, rosto comprido, sobrancelhas grossas,
olhos e cabelos negros e nariz adunco. O ítalo ocupava o lado do carona e
segurava uma submetralhadora com mira a laser. Muteia percebeu que a arma
semiautomática estava destravada, carregada e pronta para disparar a qualquer
momento. O outro policial ocupava o banco de trás; tinha aparência eslava, era
alto, musculoso, com a pele tostada pelo sol, cabelo cor de cobre e olhos
verdes e vazios. Segurava, com ambas as mãos, uma pistola 7.65 no meio das
pernas. Adérito, preocupado, notou que a arma também estava destravada. Pôde
notar ainda, após uma olhada rápida, que os uniformes dos três militares
estavam rotos e que o rádio do carro-patrulha, assim como os comunicadores interpessoais
acoplados aos uniformes, estavam desligados.
O policial condutor engatou a primeira
marcha e acelerou, sem dar sinal de luz. Antes, porém, fuzilou o professor
africano com os seus olhos gélidos. O carro-patrulha e os seus ocupantes
sumiram da vista e da vida de Adérito tão rápido quanto surgiram, levantando
sérias suspeitas e dúvidas atrozes na cabeça treinada do professor.
Muteia, então, retomou a dolorosa
caminhada como se nada tivesse acontecido, pois tinha que seguir a marcha, como
o bom soldado que era. O sol outonal brilhava absoluto no céu sem nuvens.
Naquele momento, pensou que, ao seu modo, fizera a diferença naquele dia
atípico, pois não baixou a cabeça diante da truculência de quem se julgava
superior. Não se calou diante do excesso de poder autoritário de uma pessoa
uniformizada e virulenta.
Olhando para frente, deu-se conta de
outra figura improvável a cruzar-lhe o caminho. Uma figura típica das
Cordilheiras dos Andes: um andino caminhava a poucos metros dele, com suas
roupas multicoloridas e uma flauta de madeira pendurada no pescoço. Era um
indígena Aymara, com toda a certeza; Muteia o reconheceu pelas vestes e pelo
andar cadenciado. Adérito Muteia sobressaltou-se quando o homem, alto demais
para um Aymara, veio em sua direção com um sorriso largo e, sobretudo, sincero,
como só um originário ameríndio poderia ser.
— Qué compra um CD, meu hermano? — disse
o andino com um sorriso nos lábios.
Ouvir a voz cheia de sotaque hispânico
andino do indígena Aymara era angustiante para Adérito. Fez o professor
questionar se não estaria dormindo e sonhando o improvável no conforto de sua
cama, em seu quarto suburbano. Estava mesmo acordado? Ou perdido em uma nova e
angustiante realidade, para além da sua refugiante rotina? Sua prisão sem muros
e sem guardas.
As cores vivas e fortes das roupas do
Aymara fizeram Adérito, em um abrupto, recordar-se de uma pergunta
descontextualizada de um aluno arrogante em tempos remotos, na sua outra vida,
bem longe dali no tempo e no espaço. Um aluno de ascendência europeia e filho
da elite colonialista local vivia medindo forças com ele, querendo
constrangê-lo diante dos demais alunos. Não poupava esforços para humilhar
Muteia; parecia em guerra intelectual e pessoal contra o professor negro de
sangue nativo. Em um dia específico, o jovem aluno quis saber por que
africanos, indígenas e povos da floresta tinham preferência por cores tão
fortes em suas roupas e adornos.
Muteia lembrou-se perfeitamente da
resposta que dera, com uma clareza de detalhes que o espantava: — Os povos que
habitam as florestas estão mais que habituados a conviver com as cores vivas
que a própria natureza lhes impõe. Nas densas matas, as cores fortes e vívidas
dão a tônica e estão em toda parte, em uma explosão de vida que se renova a
cada dia, em cada instante. Enquanto isso, nos desertos áridos ou de gelo, a
cor branca e as suas variantes parecem estáticas, movendo-se ao sabor apático
dos ventos. Já nas grandes metrópoles urbanas, as cores industrializadas vagam
em um ritmo mecanizado e sem vida. Nas cinzentas vidas urbanas contemporâneas,
as cores são multiplicadas pelo ritmo fabril, sintéticas e artificiais. Sem
tempo para si mesmo ou para os outros!
O discurso eloquente e academicista,
porém forte, deu-lhe uma certa folga por algum tempo. Tempo suficiente para o
professor se sentir livre daquele aluno boçal e recarregar as forças para
abraçar a profissão de vez — isso antes de a tormenta o arrastar para o abismo
da luta armada.
— Quero sim, meu bom amigo, meu irmão
querido! — respondeu Muteia em espanhol, mas com um forte acento europeu que
desconcertou o músico.
Adérito pagou ao Aymara um valor acima
do habitual. O homem era todo sorrisos ao entregar o CD e pegar a nota. O
indígena, então, retornou para os demais músicos que estavam sentados no chão,
não muito longe, próximos a um ponto de ônibus intermunicipal. Adérito Muteia
teve a breve impressão de que estavam em um conclave, em plena luz do dia, aos
olhos de todos. Achou estranha a atitude dos músicos andinos.
Muteia, então, retomou sua marcha,
desejando o conforto da rotina sem sobressaltos. Mas, após poucos passos, um
sentimento angustiante o fez olhar para trás: os músicos andinos já não estavam
mais lá. Desapareceram sem deixar rastro algum, como por encanto, como se
jamais tivessem existido de fato. Sumiram como se fossem fantasmas. Muteia, um
ateu convicto, temeu estar enlouquecendo. Era mesmo um dia atípico na vida
programática de Adérito Muteia.
Fragmento do livro: A casa de teto
verde. Texto de Samuel
da Costa, contista, cronista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.