sexta-feira, 1 de maio de 2026

EDITORIAL

Por Paccelli José Maracci Zahler - Editor (Brasília, DF)

Nesta edição, a Revista Cerrado Cultural reafirma seu compromisso com aquilo que nos move desde o início: dar espaço ao que pulsa, ao que nasce da sensibilidade, da inquietação e da coragem de quem escreve, pinta, canta, fotografa, traduz e reinventa o mundo. Somos, antes de tudo, um território de encontros — e maio nos lembra que os encontros verdadeiros florescem quando há escuta, generosidade e abertura.

Vivemos tempos em que a cultura precisa ser defendida com firmeza. Não apenas como patrimônio, mas como direito. A arte não é ornamento: é ferramenta de consciência, de memória e de futuro. Por isso, cada poema, cada conto, cada ensaio, cada obra visual que compõe esta edição é também um gesto de resistência. Um lembrete de que a criação humana continua sendo uma das formas mais potentes de liberdade.

Que esta edição de maio inspire você a desacelerar, a olhar de novo, a sentir o que talvez tenha ficado adormecido. Que desperte perguntas, provoque reflexões e, quem sabe, acenda aquela centelha que só a arte é capaz de reacender.

Seguimos juntos — leitores, autores, colaboradores e sonhadores — cultivando este Cerrado simbólico onde a cultura floresce apesar de tudo, e justamente por isso.


COMO É GOSTOSO SER ENGANADO

Por Roberto Minadeo (Brasília, DF)

            Fake News são as mais graves ações do momento. Mas, há muito fingimento por trás disso.

Todos os erros e problemas do mundo são creditados a elas e ampliados devido à onipresença da internet. Pérfida imprensa, que não mais cumpre seu papel de informar à incauta sociedade, que tanto nela confia! As Fake News são democráticas, atingem dos incultos aos catedráticos. A possibilidade de qualquer pessoa ser enganada é a mais abrangente, ilimitada e incondicional possível.

            Assisti a um filme horrível? Culpa do jornal que disse tratar-se de uma nova linguagem cinematográfica! Adquiri um carro que trouxe problemas de motor? Culpa das Fake News que disseram tratar-se de um design inovador!

            O filme informado pode ser uma nova linguagem – porém, isso não é certeza de agradar a todos. A compra de um carro é tão importante que merece mais do que ler uma nota em um jornal, que foi verídico sobre o inovador design do modelo.

            Um cidadão diz que a mortadela é feita de carne de cavalo. Questionado em sua ignorância, consultou a internet, para se aperceber de que vivia no erro, devido a seu preconceito contra o maravilhoso e popular embutido tão querido no país.

Há quem sustente conversas de botequim sobre economia, história, política, sociologia ou arte. São assuntos sobre os quais muitos não possui qualquer formação. É difícil admitir isso, sendo preferível culpar as Fake News.

            Será mesmo que todos os órgãos da imprensa apenas vivem para desinformar? Qual a motivação de instituições centenárias estarem desviadas dos propósitos que nortearam seus bons serviços? Será razoável supor que após a internet os jornais só propalam mentiras? Será que os blogs surgidos aos milhares são melhores do que a imprensa?

            Um argumento elementar desmonta os furibundos ataques à mídia: se é ela quem nos informa, como distinguir as matérias verdadeiras das falsas?

A realidade é outra. Devido à internet, milhares de jornais fecharam as portas. Mas isso não significa que os sobreviventes ficaram fracos, se fortaleceram, pois graças à mesma internet, atingem milhões de assinantes mundo afora – algo impensável décadas atrás, quando eram apenas baseados na versão impressa. Assim, precisam manter ingentes equipes para zelarem por seus nomes, pois competem com outros veículos informativos de grande porte. Por incrível que pareça, a concorrência aumentou, pois ocorre entre gigantes.

As Fake News são armadilhas nas quais gostamos de cair, quais macios colchões, bons para dormir e depois atribuir a culpa ao cansaço. Há enganos gostosos que mexem e cutucam muitos – como a mortadela.

            O que são os golpes que tantos incautos sofrem? Após alguém ser enganado é fácil dizer que ladrões inescrupulosos se apropriaram do fruto do trabalho. Porém, qual o motivo de alguém acreditar em esquemas de pirâmide, senão o fato de se buscar a eterna promessa do dinheiro fácil? Não teria faltado o primário raciocínio: se alguém ganha, é porque muitos perdem? E se tantos perdem, qual o motivo para que justamente eu venha a ganhar?

            Certa leitora de cartas foi denunciada pela imprensa. Pessoas gastavam fortunas para conhecerem o seu futuro e se arrependiam. A acusada fechou as portas e foi a um endereço mais nobre, para atender uma classe superior. A imprensa voltou a denunciar, mas há quem acredite em promessas de trazer de volta a pessoa amada em três dias. Culpa da imprensa? Claro que não, fez seu papel, porém em vão. Aliás, apesar de sua boa vontade, a mídia fez o papel contrário ao de alertar: alardeou gratuitamente os serviços daquela cartomante.

            Por trás das Fake News pode haver alguém querendo acreditar em algo por interesse. A verdade possui aspectos contrários aos interesses pessoais, por isso nem sempre é levada a sério – abrindo um amplo espaço à doce mentira.

            Há mentirosos e sempre existirão. Todavia, ao se compreender o aspecto “como é gostoso ser enganado” que se esconde por trás de tantas Fake News, menos pessoas reclamarão após terem sido escalpeladas por ofertas inescrupulosas. E, mais importante, surgirá espaço a uma sadia busca pelos fatos – tarefa árdua, que jamais se realiza de forma rápida, tranquila e descompromissada.

Sobre o autor:

Roberto Minadeo vive em Brasília; publicou obras em Marketing e Estratégia. Lançou as antologias oníricas “Sonhos Fulgurantes” e “A Rainha da Lua e Outros Contos”; o romance “Na Casa da Avó”; o drama “Duas Irmãs”; e “O Talismã Oculto” – baseado na mitologia chinesa. Participa de antologias de diversas editoras. É membro do Instituto Histórico e Geográfico do DF.

Teve três contos premiados:

·    “Libertação da Perfídia” (Secr. Cultura/200 Anos da Independência).

·    “O Clã” (VIII Concurso Cidade do Penedo de Poesia e Conto).

·     “A Maldição da Mansão” (Blog A Última Página).

Também recebeu prêmio pela crônica “A Irritação de Macunaíma”, no Concurso de Itapema/SC.

Email: rminadeo@gmail.com

Rede social: https://www.youtube.com/@robertominadeo

NO LOCAL DE TRABALHO

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

  

Na empresa onde trabalhei quase quarenta anos, havia centenas de trabalhadores. Cada qual com sua função:

Uns, eram ateus; outros – em pequeno número: crentes; outros ainda: católicos de estatística.

Entre os crentes, havia um, que frequentara o seminário, mas foi constrangido a sair, porque sofria deficiência física: corcovava. Chamava-se Anselmo. Dirigente que tratava todos, com paciência e extrema bondade.

Nunca se envergonhou de se declarar cristão. Quem tivesse problemas de trabalho ou necessidade de apoio e conselho espiritual, dirigia-se a ele.

Era catequista, e todas as semanas deslocava-se à terra natal para cumprir a obrigação. Certa vez confessou-me: " Se pudesse, e ainda me quisessem, gostava de ser padre"...

Outro, era evangelista ferrenho, e gostava de conversar comigo. Contou-me - certa ocasião teve forte vontade e dizer, perante enfermo grave: " Em nome de Jesus, levanta-te!".

Nunca o fez, embora estivesse convicto que seria atendido, mas se tivesse enganado? Cairia no ridículo, e seria alcunhado de lunático ou coisa pior.

Ainda havia outro, que era católico praticante – não gosto do termo, porque quem não cumpre o que Jesus ensinou, não é cristão – o católico, cumpre ou tenta cumprir os Mandamentos.

Tinha aspeto provinciano, caipira. Nos intervalos das refeições, assistia à missa. Se não havia, rezava e orava no templo.

Agnósticos e ateus eram poucos, – Havia um que pretendia batizar o filho. Não que acreditasse; mas, a mulher queria.

Foi falar ao Padre Faria. Este perguntou-lhe?

- " É casado na Igreja? Respondeu-lhe:

-" Não! Nem acredito. Minha mulher quer, porque diz que é bom..."

-" Então leve o menino para casa, quando tiver idade, traga-o para a catequese."

" Mas eu pago! Respondeu-lhe, irado. "                                                

                                                     ***

Acabo de escutar, num canal de TV, interessante entrevista a figura pública, bastante conhecida.

Ao perguntar-lhe se concordava com o que o Papa dissera sobre determinado assunto, declarou:

- "Por ser católico não me impede de dizer: que discordo muitas vezes, quando Ele fala de temas profanos, sem se basear na Bíblia ou dogma da Igreja". Para ser católico, basta cumprir o que Jesus ensinou; mas, infelizmente., nem sempre os crentes conhecem o Evangelho…

Em meados deste século, ouvi famoso ator declarar na televisão: "Globo": - " Tenho muita fé na Senhora Aparecida, mas para mim, a Santa Forte, é a Santa de Fátima!"...Como há tanta ignorância em matéria religiosa, mesmo em pessoas inteligentes e cultas!?... É inacreditável!...


CON LOS OJOS DE UN NIÑO

Por Irma Kurti (Albânia)

 

(Tradução de Javier Prieto, enviado por Germain Droogenbroodt)

 

Quiero ver el mundo con los ojos de un niño,

almendrados, claros, limpios e inocentes:

un prado donde crecen personas, flores y sonrisas,

donde no hay hambre, pobreza ni maldad.

 

Quiero ver el mundo con los ojos de un niño,

sentirme acariciada por el hechizo de los sueños,

alcanzar las estrellas con solo una escalera

y luego poder tocar el horizonte con una mano.

 

No, no quiero ver el mundo con mis ojos,

oh, han visto demasiado, se sienten sumergidos

en lágrimas que nunca se secan y, tras

una permanente bruma, distinguen el universo.

 

 

LA SEMILLA DE LA POESÍA

Por Yang Geum-Hee  (Coréia do Sul)

(Traducción de Germain Droogenbroodt e Rafael Carcelén)

 

Un poema es una pequeña semilla,

una vida que respira mientras espera la luz.

Donde descansan los ojos y la mente,

brota con alegría, con amor, en el tiempo y el espacio.

 

¿Dónde se plantará? ¿Dónde crecerá?

En el momento que elijas, sus raíces se extenderán.

 

Al igual que un cactus florece incluso en el desierto,

un poema vive en cualquier lugar.

Flota como una pluma ligera

y fluye con una suave brisa.

Incluso en un diminuto grano de arena,

puede llegar a echar raíces firmes.

 

Cierra los ojos e intenta respirar,

el susurro de la poesía se filtrará en ti.

En el jardín de tu alma,

lo verás florecer con esplendor.

 

El poder está en ti, la elección es clara;

si simplemente plantas la semilla, el poema florecerá.

 

 

 


 

 


A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 








OPERA MUNDI: ALIEN DICTATORS, GOTTVERLASSENEN (PARTE 4)


 

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

Um silêncio astral se abateu na sala de interrogatório, que estava na semiescuridão. O capitão interino Alejandro Contreras esperou a pergunta que redefiniria não somente o seu destino, mas se a compreensão da realidade dos juízes corregedores e da juíza corregedora — os aclamados deuses cibernéticos — alcançaria a gravidade do estado das coisas. Os três avatares digitais flutuavam no meio da sala, e Alejandro Contreras estava de pé na frente deles.

— Após a prisão do conhecido hacker estrangeiro Erik Thomas de Haas, o senhor fez a perícia prévia da residência deste referido senhor? E o que o senhor encontrou na busca prévia? — perguntou a juíza corregedora oriental.

O capitão interino Alejandro Contreras recorreu ao seu palácio das memórias e se reviu abrindo a palma da mão direita enluvada e ativando as três esferas periciais que fizeram a minuciosa varredura digital do amplo apartamento funcional de Erik Thomas de Haas.

— Recolhemos as digitais no apartamento de Erik Thomas de Haas, mapeamos vestígios de DNA e listamos o que ali havia. Sabemos como os dois grupos criminosos, Alien Dictators e Gottverlassenen, operam. Esperávamos encontrar os dados físicos das atividades criminosas deste senhor de Haas. Sim, encontrei os manuscritos do fluxo de caixa e breves relatórios das atividades criminosas deste referido senhor de Haas. Descobrimos que a função de Erik Thomas de Haas era fornecer e fazer a manutenção dos drones que eram usados na rede criminosa de comercialização e distribuição de drogas. O senhor Erik Thomas de Haas fornecia os drones para a distribuição de drogas, dinheiro e recursos da pequena operação criminosa, lucrativa e eficiente. Em pen drives e cartões de memória acoplados nos drones, era feita a distribuição de valores através de criptomoedas. Eram listas manuscritas de próprio punho, de nomes de agentes públicos e entes privados, físicos e jurídicos, envolvidos nesta pequena operação criminosa. — O capitão interino Alejandro Contreras parou de relatar e esperou a pergunta subsequente.

— Discorra sobre as detenções e as prisões posteriores, subsequentes a estas suas descobertas! — perguntou o juiz corregedor negro. A luz azul-celeste que emanava dos avatares se intensificou e inundou a sala de interrogatório.

— Senhora magistrada e senhores magistrados, quanto às referidas detenções e prisões subsequentes, nas quais eu pessoalmente não me envolvi — eu estava conduzindo uma investigação interna, focada somente no aparato de segurança e seus possíveis tentáculos na sociedade civil —, soube a posteriori, e acompanhei à distância, as detenções para averiguações e posteriores prisões feitas pela guarda municipal armada, pela polícia rodoviária federal e pela polícia federal. Os agentes de segurança pública de médio e baixo escalão faziam a segurança pessoal da conhecida advogada Luara Gutierrez. A proeminente e respeitada advogada tributarista, atrelada às nossas investigações internas, era o braço financeiro da organização criminosa. Organização criminosa que se infiltrara no aparato de segurança pública que começamos a investigar. Os agentes públicos de segurança estavam trabalhando de forma irregular para esta referida senhora advogada tributarista; estes agentes também portavam armas e comunicadores não registrados. Os quatro agentes de segurança pública e a referida senhora advogada estavam saindo de uma casa de apostas, e os cinco referidos foram conduzidos à delegacia central para prestar informações.

— E o empresário Ernesto García Guzmán foi detido quando circulava pela rodovia federal; ele também estava com quatro agentes de segurança pública que portavam armas e comunicadores não registrados. Para além dos referidos agentes de segurança que prestavam serviço de forma ilegal, o veículo do senhor empresário Ernesto García Guzmán estava sendo conduzido por uma inteligência artificial não registrada. E também descobrimos que o referido programa ilegal, instalado no veículo de Guzmán, era obra do senhor Erik Thomas de Haas. Assim como os armamentos ilegais dos agentes de segurança foram fornecidos pelo hacker estrangeiro, Erik Thomas de Haas. Todos foram conduzidos pela polícia federal para a delegacia regional para serem interrogados! — terminou o relato o capitão interino Alejandro Contreras.

— O senhor capitão interino Alejandro Contreras quer nos convencer das aleatoriedades destas detenções para averiguações e prisões, depois que o senhor colocou as mãos nos manuscritos do hacker Erik Thomas de Haas? — perguntou o juiz corregedor branco de idade indeterminada.

— Sim, senhores juízes e senhora juíza! — respondeu o senhor capitão interino Alejandro Contreras.

— Sabemos que não é da alçada de vossa senhoria, mas pode dizer o que aconteceu a posteriori dessas detenções para averiguação e prisões? — perguntou a juíza corregedora.

— Sim! Eu posso! Uma vez que os agentes de segurança pública detidos para averiguação, bem como a senhora advogada Luara Gutierrez e o senhor empresário Ernesto García Guzmán, constavam nas listas manuscritas do hacker Erik Thomas de Haas. Verificou-se que os dois estrangeiros, a senhora Gutierrez e o senhor García Guzmán, tinham várias pendências com vários países do nosso continente. Eles são investigados e procurados, assim como o hacker constava em lista de procurados de várias agências de segurança de países vizinhos. O que eu posso dizer é que, depois da detenção para averiguações e prisões, o que aconteceu? Fugas e detenções do médio e baixo escalão desta organização de tráfico de drogas. Cortou-se a cabeça da cobra e o corpo simplesmente apodreceu. Sobre as apreensões das novas e misteriosas drogas amarelas, drones, dinheiro, criptomoedas, armamentos e farta documentação falsa, ainda estão sendo contabilizadas! — finalizou o capitão interino Alejandro Contreras e aguardou a pergunta derradeira.

— Posso dizer a este comitê que nunca vi tantas ilegalidades dentro da lei por parte de um capitão interino, senhor Alejandro Contreras! — disse o juiz corregedor negro e continuou — Sobre a logística: como as drogas, armas, dinheiro, criptomoedas e documentação falsa circulavam pela via aérea? Como estes referidos drones não registrados circulavam sem serem detectados pelos nossos aparatos de vigilância civil e militar?

— Os tabletes já referidos nesta inquisição são pequenas barras lisas e finas, peças de metal cinza, com variações de tonalidade, espessura e tamanho. Eram acoplados em cima dos drones, pois os aparelhos não possuíam discos rígidos, e o que se pensava serem discos rígidos externos! Como já disse, a assinatura de calor captada pelos nossos sistemas de vigilância civil e militar dava conta de que eram pássaros em voo; claro que esses voos e sobrevoos chamaram as nossas atenções, o que culminou na nossa investigação...

— O que o senhor capitão interino quer dizer com isso? — perguntou o juiz corregedor negro, não escondendo o espanto.

Alejandro Contreras olhou friamente para os avatares e só agora ele se deu conta de como eram patéticos aqueles seres em seus uniformes garbosos.

— Esta tecnologia nunca vista não pertence à nossa realidade! Estes HDs externos não são metálicos, e sim biomecânicos. Pois, nos testes que realizamos até agora, nada se constatou. Senhora juíza e senhores juízes corregedores, o espectrômetro de massa não conseguiu ler estes tabletes. O teste de carbono-14 não conseguiu fazer a leitura; não se conseguiu perfurá-los com lasers; os elementos que compõem estas peças não constam na tabela periódica. Nem sabemos como estes aparelhos funcionam. O hacker Erik Thomas de Haas, interrogado, falou o que sabia: que recebeu estes discos rígidos por um drone e as instruções de como usá-los vieram pelas redes de computadores. A simples instrução era colocar estes discos rígidos em cima dos aparelhos e disse que a sua única função era montar e fazer a manutenção dos drones. Os aparelhos simplesmente voavam sem precisar de programações ou planos de voo. Um drone-mãe abastecia o ateliê do hacker de Haas com drogas e tabletes; as documentações falsas, armamentos e movimentação financeira eram encargo do hacker Erik Thomas de Haas. E já antecipo a próxima pergunta: alguém ou algo que não pertence à nossa realidade estava testando as nossas capacidades de respostas e tecnologias. E ouso dizer que alguém ou algo está somente começando. Este foi somente um pequeno teste.

— O senhor capitão interino Alejandro Contreras está dispensado desta inquisição. Recolha-se à sua residência, fique incomunicável e esperamos que nos envie o relatório final manuscrito, à máquina de escrever, das vossas ações enquanto capitão interino — disse a juíza corregedora.

A porta atrás de Contreras se abriu, inundando o lugar com uma luz amarela, e dois portentosos guardas pretorianos de alta patente adentraram a sala e conduziram o então senhor capitão interino Alejandro Contreras para fora da sala de interrogatório.

 

Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.

A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 






REFLEXOS



Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Tudo que um dia amei virou lembranças boas, muitas vezes abstratas, mas como amei a cada segundo, enquanto pude. Hoje, olhando para trás, pela janela da vida, vendo as estrelas brilharem no céu das memórias retidas, noto que, bem no fundo da minha alma, todo amor vai se esvaindo.

Preciso me segurar, mas não consigo, porque vejo o dia clareando e tudo se esfumaçando. Nesta hora, penso nos amores prometidos, e eles parecem adormecidos, não querem acordar. Lembro-me dos pactos, marcas no corpo como digitais; tudo desapareceu no ar. E a abstrata e complexa neblina, aos poucos, cobre-os.

Não consigo ver os seus rostos, apenas me lembro de alguns momentos de euforia. Sinto que, há tempos, viraram somente lembranças, nas quais insisto em buscar e nunca os ter aqui.

O amor deve ser isto: poder ver, no espelho da vida, ainda que esfumaçadas, recordações que se partiram ou nunca existiram. Não… talvez o amor seja o reflexo daquilo que imaginamos.

 

Sobre a autora:

 Fabiane Braga Lima, contista, cronista, novelista e poetisa em Rio Claro, São Paulo.     

SONHOS CREPUSCULARES (CUMPLICIDADES E INTIMIDADES)


Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Tentei olhar nas vastidões dos teus olhos

E não consegui poeta de ébano

Tentei ao menos te escutar! Impossível...

Entendi, melhor assim, libertar das sombras

Estava enganada e esquecendo de mim.

***

Nas ausências dos estelares

Intervalos inaudíveis  

Nas nossas cósmicas múlti-plas pausas 

Olhe para dentro das álgidas

 Imensidões dos negros olhos meus

E me diga que serás minha

Para todo o sempre

***

Hoje fui te buscar,

 Vejo-te em todos os lugares

Minha outra metade, minha cumplicidade

E, mesmo se quisesse te ter, seria loucura

Tocar em ti será o evanescer

De todas as infindas incertezas,

 Infinitas e seculares dores....

***

Busco em ti

Como um perdido náufrago

Perdido entre as eviternas

Estrelas da noite

Procura um seguro paraíso insular

***

Então, melhor transbordar de amor e viver,

Viver sem dores, trocando conversas fúteis

Mesmo que tudo se desfaça, tentar seguir.

***

Procuro-te... Encontro-te...

Abrigo-te...

Nos meus dulcíssimos

E nevoentos estribilhos meus 

Que sejam o teu excelso arnês

 Mais que seguro

Sacrossanta ebúrnea ninfeia minha

***

Tu és a poesia que sempre esteve comigo

Fiz de ti o protagonista das minhas prosas

Aparência!? Desconheço! Minha alma gêmea!

 

Fragmento do livro: Duetos poéticos Sul-SudesteTexto e argumento de Fabiane Braga Lima, novelista, poetisa e contista em Rio Claro, São Paulo. Texto e revisão de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 








NAS MANHÃS NO SUL DO MUNDO (1ª PARTE)

 


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

Escolho o pecado! Encolho-me! Fujo!

Traio! Minto para mim mesma!

Já não sei quem sou...

 Estou viva? Pelo menos penso que existo...

Em outra dimensão...

 

Para Francisco Gomes Wambar e Anderson Luis Jamaica da Silva

 

Adérito Muteia mantinha hábitos discretos, regulares e simples. Como refugiado e dissidente político que era, preferia passar despercebido aos olhos da maioria. Todas as manhãs, seguia a mesma rotina rígida: acordava bem cedo, antes de o sol raiar, e saía da cama ainda de pijamas. Com os pés descalços, ainda sonolento, arrastava-se até a cozinha e ia à cafeteira para tomar uma xícara de café preto — frio, forte e sem açúcar — feito na noite anterior.

Desperto, dirigia-se ao toalete, escovava os dentes alvíssimos e tomava um demorado banho. Fazia a barba de forma mecânica e lenta, com uma lâmina de aço antiga e bem afiada. Saía devagar da pequena casa de banho, vestido apenas com um roupão gasto pelo tempo. Ainda com os pés desnudos, caminhava pausadamente até o pequeno vestíbulo. No guarda-roupa, separava as peças que pretendia usar e vestia-se sem pressa alguma: a camisa gola polo branca, o paletó cinza puído e a calça gasta pelo longo tempo de uso.

Sentado em uma cadeira de madeira, Adérito calçava as meias brancas de algodão puro e os velhos sapatos sociais, cuidadosamente engraxados no dia anterior. Por fim, levantava-se, ia até um compartimento do vestíbulo, abria uma gaveta e tirava dali diacrônicos óculos de aro de tartaruga que um dia pertenceram ao seu avô materno. Levava-os ao rosto! O cabelo preto e ralo, à moda militar, não necessitava do crivo de escovas ou pentes. Voltava ao banheiro e, cuidadosamente, escovava os dentes brancos como marfim para, depois, borrifar um leve e popular perfume almiscarado no pescoço.

Finalmente, percorria os cômodos e parava em um cabideiro ao lado da porta do quarto. Munido de uma barata bolsa de couro sintético, estava pronto para sair, como se fosse dar aulas. Talvez agir assim fosse uma forma de Muteia recriar a rotina que deixara para trás. Uma rotina diária da outra vida que um dia tivera no velho mundo; um passado remoto, distante e diáfano, tempos em que vivia em paz e sem medos.

Após esse ritual matinal, o professor Adérito Muteia considerava-se pronto para ganhar as ruas e enfrentar um novo dia no novo mundo. Não sem antes, claro, voltar-se e parar diante da cama vazia, pensando por uns instantes na mulher que morrera no velho mundo e nos filhos que planejara ter com ela. Filhos desejados que nunca nasceram e nunca nasceriam.

Adérito abandonava o minúsculo apartamento em um prédio de três andares. Descia os degraus da escada do edifício modesto onde vivia, na zona periférica da cidade praiana, fugindo do antigo elevador barulhento. Descia as escadarias como se fosse enfrentar um pelotão de fuzilamento. Muteia descia as escadarias de forma ritmada, cheio de culpas, remorsos e mágoas atrozes. Nesse momento, o professor pensava no turbilhão de tempos atrás, quando tudo parecia querer explodir. Quando a correnteza arrastava tudo e a todos, não deixando nada no devido lugar. Quando ninguém era poupado das mais severas privações e punições de um carrasco implacável que alguns chamavam de destino.

Outros o nomeavam das mais variadas formas, materiais e imateriais. Adérito Muteia, africano, professor por profissão e por fé, preferia chamar de ganância e fome pelo poder! Aquela eviterna vontade de subjugar os mais fracos. O desejo de transformar os outros à sua imagem e semelhança pela força bruta ou, simplesmente, destruí-los. Algo bem comum, em todos os tempos e em todas as partes do mundo, tudo fartamente documentado pelas mãos da historiografia da humanidade.

Adérito pensava no passado um tempo morto em uma terra remota, mas que pulsava forte em sua cabeça em todas aquelas manhãs solitárias de agonia no sul do novo mundo. Invariavelmente, era assim que começavam as manhãs do professor doutor Adérito Muteia. O outrora emérito acadêmico, respeitado pela comunidade escolar, agora vivia escondido, protegido pela mediocridade da imutável rotina de uma vida comum. Uma vida cotidiana de quem fora forçado a habitar, clandestinamente, a periferia de um distante país estrangeiro. Mas o passado sempre vinha forte todas as manhãs, como se cobrasse uma dívida impagável, incontestável e intransferível.

Uma dívida que, cedo ou tarde, o carrasco, o algoz implacável, viria cobrar. O professor Adérito Muteia tinha contas a acertar consigo mesmo e com os outros, com os vivos e com os mortos. Esse sentimento angustiante vinha vivo todas as manhãs para, depois, dissipar-se com os raios de sol de um dia que não lhe pertencia, em um país que também não era seu. Vinha para lembrá-lo de quem ele era de fato, em quem se tornara e onde se encontrava naquele momento.



Fragmento do livro: A casa de teto verde. Texto de Samuel da Costa, contista, cronista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

 

 

A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 








ENCLAUSURADOS NO TEMPO ATEMPORAL...


Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Mais que de repente vem o tédio; somos nós dois, mudos e calados, postados nas imensidões cósmicas infindas. Então há somente nós dois, ouvindo os estridentes ecos glaciais de um passado distante. Somente os sintéticos e etéreos ecos e mais nada para além disto ecoam e ecoam, histéricos, suspensos no ar. E eu e tu, que fomos outrora tão barulhentos e estridentes, parecemos dois desconhecidos, olvidados, velhos e quedos noctâmbulos amedrontados. Eviternos consortes clandestinos a vagar descalços nas álgidas penumbras astrais.

Pude eu notar, pelas retinas dos nectários castanhos dos teus olhos, que estavam dilatadas. Cessamos as nossas vontades de gritar e gritar bem alto, imortal amor meu. Rasgamos as nossas nevoentas, lânguidas e negras almas que ardem em chamas.

Mas não nos entregamos agora, nem nunca, infanta ninfeia minha. Não! Não é orgulho! São os nossos subconscientes ditando, em tons plangentes e maviosos, in profundis: prossigam irmanados. A esperança há de surgir. Persistimos, lúcidos e celestes, no nosso tempo atemporal...!

 

Fragmento do livro: Dueto de Fabiane Braga Lima, poetisa, cronista, contista e novelista em Rio Claro, São Paulo. E Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 








NAS MANHÃS DO SUL DO MUNDO (2ª PARTE)

 


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

‘’Sufocante, escuro e pesado, minha alma carece de paz,

Mantê-la em lugar arejado,

Meu corpo úmido não é salubre ao meu ser.’’

Giordano Zaguini Furtado

 

Para David Souza Maia e Delta Souza Maia (em memória)

 

O professor Adérito Muteia caminhava sem muita pressa pelo passeio público destinado a ciclistas e pedestres; tomava a direção do Bar-café Garibaldi. O local não era muito distante da residência do, outrora, emérito professor doutor Adérito Muteia. Era lá que ele, invariavelmente, passava as suas manhãs tediosas e nevoentas do sul do mundo. Ali, o professor fazia o seu pequeno-almoço. Era para ser mais um dia lento e sonolento de puro tédio, mais um dia vago, nevoento e desesperado em sua vida.

Em suma, era mais um dia rotineiro onde Adérito se abrigava no claustro, na segurança da mediocridade da vida cotidiana. Mas, no seu íntimo, o professor africano queria fugir dessa prisão sem muros, sair dali correndo e não parar nunca mais, simplesmente desaparecer em meio ao infinito, sem olhar para trás. Porém, Adérito sabia que isso era impossível e impraticável naquela altura da vida. O professor era prisioneiro de si mesmo e das juras e promessas que fizera no passado. Fora assim que aquele homem alto e portentoso — de andar grave, cabelo rente à moda militar, olhos castanhos e perdidos e pele cor de ébano que reluzia ao sol de outono — vivia a sua vida de dissidente político. Era, então, somente mais um mero exilado, vivendo uma vida vazia de propósito em um país estrangeiro.

Na mente de Muteia, a saudade de casa bateu fundo quando um carro passou lentamente ao seu lado, com os vidros escuros semifechados e um som ligado nas alturas; era uma música moderna e barulhenta. O veículo era antigo e restaurado, verde-prateado, com calotas chamativas e cheias de pequenas luzes multicoloridas que piscavam como uma árvore de Natal. Na outra pista, em sentido oposto, uma carroça de cor verde-musgo e caindo aos pedaços descia a via rápida com muita pressa. Um equino decrépito vinha conduzido por um carroceiro maltrapilho de pele amendoada, em uma marcha acelerada, apesar de a carroça em frangalhos estar abarrotada de resíduos domésticos para reciclagem. O chicote do condutor descia e subia no ar, em um ritmo cadenciado por gritos impróprios desferidos contra o animal em voz bem alta. E, sem pena alguma, o açoite estalava nas costas do equino, exigindo mais e mais velocidade do pobre animal que, apesar da aparência decadente, ainda mantinha um porte aristocrático, principalmente no trote.

Enquanto isso, na caçamba da carroça decadente, repousavam as sobras do consumismo imediatista e materialista do capitalismo contemporâneo — sobras inúteis e efêmeras, descartadas pela massa vazia. Rejeitos que o próprio capitalismo moderno se encarrega de reaproveitar. Era esse o pensamento particular do professor Adérito Muteia naquela hora extrema do ocaso, naquela hora extrema de dor e solidão. Muteia notou que o condutor da carroça estava com os olhos vidrados; estava embriagado ou drogado, com toda a certeza.

Foi em meio a essa balbúrdia urbana pós-moderna e aos devaneios de Muteia que um carro-patrulha decidiu parar bem ao seu lado. Velhas lembranças adormecidas tomaram Adérito de assalto naquele instante; eram memórias amargas que ele queria esquecer a qualquer custo.

— Documentos, oh negão! — O grito do policial militar foi em um tom raivoso e metalizado. Ele tinha o biótipo de um teuto típico: cabelo louro, pele alvíssima, olhos azuis e frios. A ordem soou como um soco na cara do professor. O teuto deu a ordem sem tirar as mãos do volante.

— O senhor bem poderia ser mais educado, seu guarda, opá! E me dizer bom dia em primeiro lugar, ora pois! — A voz do professor africano era firme, indignada e cheia de sotaque lusitano.

Os outros policiais militares deram enormes e altas gargalhadas. Um tinha aparência italiana: era baixo e acima do peso para um militar, com pele de marfim, rosto comprido, sobrancelhas grossas, olhos e cabelos negros e nariz adunco. O ítalo ocupava o lado do carona e segurava uma submetralhadora com mira a laser. Muteia percebeu que a arma semiautomática estava destravada, carregada e pronta para disparar a qualquer momento. O outro policial ocupava o banco de trás; tinha aparência eslava, era alto, musculoso, com a pele tostada pelo sol, cabelo cor de cobre e olhos verdes e vazios. Segurava, com ambas as mãos, uma pistola 7.65 no meio das pernas. Adérito, preocupado, notou que a arma também estava destravada. Pôde notar ainda, após uma olhada rápida, que os uniformes dos três militares estavam rotos e que o rádio do carro-patrulha, assim como os comunicadores interpessoais acoplados aos uniformes, estavam desligados.

O policial condutor engatou a primeira marcha e acelerou, sem dar sinal de luz. Antes, porém, fuzilou o professor africano com os seus olhos gélidos. O carro-patrulha e os seus ocupantes sumiram da vista e da vida de Adérito tão rápido quanto surgiram, levantando sérias suspeitas e dúvidas atrozes na cabeça treinada do professor.

Muteia, então, retomou a dolorosa caminhada como se nada tivesse acontecido, pois tinha que seguir a marcha, como o bom soldado que era. O sol outonal brilhava absoluto no céu sem nuvens. Naquele momento, pensou que, ao seu modo, fizera a diferença naquele dia atípico, pois não baixou a cabeça diante da truculência de quem se julgava superior. Não se calou diante do excesso de poder autoritário de uma pessoa uniformizada e virulenta.

Olhando para frente, deu-se conta de outra figura improvável a cruzar-lhe o caminho. Uma figura típica das Cordilheiras dos Andes: um andino caminhava a poucos metros dele, com suas roupas multicoloridas e uma flauta de madeira pendurada no pescoço. Era um indígena Aymara, com toda a certeza; Muteia o reconheceu pelas vestes e pelo andar cadenciado. Adérito Muteia sobressaltou-se quando o homem, alto demais para um Aymara, veio em sua direção com um sorriso largo e, sobretudo, sincero, como só um originário ameríndio poderia ser.

— Qué compra um CD, meu hermano? — disse o andino com um sorriso nos lábios.

Ouvir a voz cheia de sotaque hispânico andino do indígena Aymara era angustiante para Adérito. Fez o professor questionar se não estaria dormindo e sonhando o improvável no conforto de sua cama, em seu quarto suburbano. Estava mesmo acordado? Ou perdido em uma nova e angustiante realidade, para além da sua refugiante rotina? Sua prisão sem muros e sem guardas.

As cores vivas e fortes das roupas do Aymara fizeram Adérito, em um abrupto, recordar-se de uma pergunta descontextualizada de um aluno arrogante em tempos remotos, na sua outra vida, bem longe dali no tempo e no espaço. Um aluno de ascendência europeia e filho da elite colonialista local vivia medindo forças com ele, querendo constrangê-lo diante dos demais alunos. Não poupava esforços para humilhar Muteia; parecia em guerra intelectual e pessoal contra o professor negro de sangue nativo. Em um dia específico, o jovem aluno quis saber por que africanos, indígenas e povos da floresta tinham preferência por cores tão fortes em suas roupas e adornos.

Muteia lembrou-se perfeitamente da resposta que dera, com uma clareza de detalhes que o espantava: — Os povos que habitam as florestas estão mais que habituados a conviver com as cores vivas que a própria natureza lhes impõe. Nas densas matas, as cores fortes e vívidas dão a tônica e estão em toda parte, em uma explosão de vida que se renova a cada dia, em cada instante. Enquanto isso, nos desertos áridos ou de gelo, a cor branca e as suas variantes parecem estáticas, movendo-se ao sabor apático dos ventos. Já nas grandes metrópoles urbanas, as cores industrializadas vagam em um ritmo mecanizado e sem vida. Nas cinzentas vidas urbanas contemporâneas, as cores são multiplicadas pelo ritmo fabril, sintéticas e artificiais. Sem tempo para si mesmo ou para os outros!

O discurso eloquente e academicista, porém forte, deu-lhe uma certa folga por algum tempo. Tempo suficiente para o professor se sentir livre daquele aluno boçal e recarregar as forças para abraçar a profissão de vez — isso antes de a tormenta o arrastar para o abismo da luta armada.

— Quero sim, meu bom amigo, meu irmão querido! — respondeu Muteia em espanhol, mas com um forte acento europeu que desconcertou o músico.

Adérito pagou ao Aymara um valor acima do habitual. O homem era todo sorrisos ao entregar o CD e pegar a nota. O indígena, então, retornou para os demais músicos que estavam sentados no chão, não muito longe, próximos a um ponto de ônibus intermunicipal. Adérito Muteia teve a breve impressão de que estavam em um conclave, em plena luz do dia, aos olhos de todos. Achou estranha a atitude dos músicos andinos.

Muteia, então, retomou sua marcha, desejando o conforto da rotina sem sobressaltos. Mas, após poucos passos, um sentimento angustiante o fez olhar para trás: os músicos andinos já não estavam mais lá. Desapareceram sem deixar rastro algum, como por encanto, como se jamais tivessem existido de fato. Sumiram como se fossem fantasmas. Muteia, um ateu convicto, temeu estar enlouquecendo. Era mesmo um dia atípico na vida programática de Adérito Muteia.


Fragmento do livro: A casa de teto verde. Texto de Samuel da Costa, contista, cronista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.