sexta-feira, 1 de maio de 2026

NAS MANHÃS DO SUL DO MUNDO (2ª PARTE)

 


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

‘’Sufocante, escuro e pesado, minha alma carece de paz,

Mantê-la em lugar arejado,

Meu corpo úmido não é salubre ao meu ser.’’

Giordano Zaguini Furtado

 

Para David Souza Maia e Delta Souza Maia (em memória)

 

O professor Adérito Muteia caminhava sem muita pressa pelo passeio público destinado a ciclistas e pedestres; tomava a direção do Bar-café Garibaldi. O local não era muito distante da residência do, outrora, emérito professor doutor Adérito Muteia. Era lá que ele, invariavelmente, passava as suas manhãs tediosas e nevoentas do sul do mundo. Ali, o professor fazia o seu pequeno-almoço. Era para ser mais um dia lento e sonolento de puro tédio, mais um dia vago, nevoento e desesperado em sua vida.

Em suma, era mais um dia rotineiro onde Adérito se abrigava no claustro, na segurança da mediocridade da vida cotidiana. Mas, no seu íntimo, o professor africano queria fugir dessa prisão sem muros, sair dali correndo e não parar nunca mais, simplesmente desaparecer em meio ao infinito, sem olhar para trás. Porém, Adérito sabia que isso era impossível e impraticável naquela altura da vida. O professor era prisioneiro de si mesmo e das juras e promessas que fizera no passado. Fora assim que aquele homem alto e portentoso — de andar grave, cabelo rente à moda militar, olhos castanhos e perdidos e pele cor de ébano que reluzia ao sol de outono — vivia a sua vida de dissidente político. Era, então, somente mais um mero exilado, vivendo uma vida vazia de propósito em um país estrangeiro.

Na mente de Muteia, a saudade de casa bateu fundo quando um carro passou lentamente ao seu lado, com os vidros escuros semifechados e um som ligado nas alturas; era uma música moderna e barulhenta. O veículo era antigo e restaurado, verde-prateado, com calotas chamativas e cheias de pequenas luzes multicoloridas que piscavam como uma árvore de Natal. Na outra pista, em sentido oposto, uma carroça de cor verde-musgo e caindo aos pedaços descia a via rápida com muita pressa. Um equino decrépito vinha conduzido por um carroceiro maltrapilho de pele amendoada, em uma marcha acelerada, apesar de a carroça em frangalhos estar abarrotada de resíduos domésticos para reciclagem. O chicote do condutor descia e subia no ar, em um ritmo cadenciado por gritos impróprios desferidos contra o animal em voz bem alta. E, sem pena alguma, o açoite estalava nas costas do equino, exigindo mais e mais velocidade do pobre animal que, apesar da aparência decadente, ainda mantinha um porte aristocrático, principalmente no trote.

Enquanto isso, na caçamba da carroça decadente, repousavam as sobras do consumismo imediatista e materialista do capitalismo contemporâneo — sobras inúteis e efêmeras, descartadas pela massa vazia. Rejeitos que o próprio capitalismo moderno se encarrega de reaproveitar. Era esse o pensamento particular do professor Adérito Muteia naquela hora extrema do ocaso, naquela hora extrema de dor e solidão. Muteia notou que o condutor da carroça estava com os olhos vidrados; estava embriagado ou drogado, com toda a certeza.

Foi em meio a essa balbúrdia urbana pós-moderna e aos devaneios de Muteia que um carro-patrulha decidiu parar bem ao seu lado. Velhas lembranças adormecidas tomaram Adérito de assalto naquele instante; eram memórias amargas que ele queria esquecer a qualquer custo.

— Documentos, oh negão! — O grito do policial militar foi em um tom raivoso e metalizado. Ele tinha o biótipo de um teuto típico: cabelo louro, pele alvíssima, olhos azuis e frios. A ordem soou como um soco na cara do professor. O teuto deu a ordem sem tirar as mãos do volante.

— O senhor bem poderia ser mais educado, seu guarda, opá! E me dizer bom dia em primeiro lugar, ora pois! — A voz do professor africano era firme, indignada e cheia de sotaque lusitano.

Os outros policiais militares deram enormes e altas gargalhadas. Um tinha aparência italiana: era baixo e acima do peso para um militar, com pele de marfim, rosto comprido, sobrancelhas grossas, olhos e cabelos negros e nariz adunco. O ítalo ocupava o lado do carona e segurava uma submetralhadora com mira a laser. Muteia percebeu que a arma semiautomática estava destravada, carregada e pronta para disparar a qualquer momento. O outro policial ocupava o banco de trás; tinha aparência eslava, era alto, musculoso, com a pele tostada pelo sol, cabelo cor de cobre e olhos verdes e vazios. Segurava, com ambas as mãos, uma pistola 7.65 no meio das pernas. Adérito, preocupado, notou que a arma também estava destravada. Pôde notar ainda, após uma olhada rápida, que os uniformes dos três militares estavam rotos e que o rádio do carro-patrulha, assim como os comunicadores interpessoais acoplados aos uniformes, estavam desligados.

O policial condutor engatou a primeira marcha e acelerou, sem dar sinal de luz. Antes, porém, fuzilou o professor africano com os seus olhos gélidos. O carro-patrulha e os seus ocupantes sumiram da vista e da vida de Adérito tão rápido quanto surgiram, levantando sérias suspeitas e dúvidas atrozes na cabeça treinada do professor.

Muteia, então, retomou a dolorosa caminhada como se nada tivesse acontecido, pois tinha que seguir a marcha, como o bom soldado que era. O sol outonal brilhava absoluto no céu sem nuvens. Naquele momento, pensou que, ao seu modo, fizera a diferença naquele dia atípico, pois não baixou a cabeça diante da truculência de quem se julgava superior. Não se calou diante do excesso de poder autoritário de uma pessoa uniformizada e virulenta.

Olhando para frente, deu-se conta de outra figura improvável a cruzar-lhe o caminho. Uma figura típica das Cordilheiras dos Andes: um andino caminhava a poucos metros dele, com suas roupas multicoloridas e uma flauta de madeira pendurada no pescoço. Era um indígena Aymara, com toda a certeza; Muteia o reconheceu pelas vestes e pelo andar cadenciado. Adérito Muteia sobressaltou-se quando o homem, alto demais para um Aymara, veio em sua direção com um sorriso largo e, sobretudo, sincero, como só um originário ameríndio poderia ser.

— Qué compra um CD, meu hermano? — disse o andino com um sorriso nos lábios.

Ouvir a voz cheia de sotaque hispânico andino do indígena Aymara era angustiante para Adérito. Fez o professor questionar se não estaria dormindo e sonhando o improvável no conforto de sua cama, em seu quarto suburbano. Estava mesmo acordado? Ou perdido em uma nova e angustiante realidade, para além da sua refugiante rotina? Sua prisão sem muros e sem guardas.

As cores vivas e fortes das roupas do Aymara fizeram Adérito, em um abrupto, recordar-se de uma pergunta descontextualizada de um aluno arrogante em tempos remotos, na sua outra vida, bem longe dali no tempo e no espaço. Um aluno de ascendência europeia e filho da elite colonialista local vivia medindo forças com ele, querendo constrangê-lo diante dos demais alunos. Não poupava esforços para humilhar Muteia; parecia em guerra intelectual e pessoal contra o professor negro de sangue nativo. Em um dia específico, o jovem aluno quis saber por que africanos, indígenas e povos da floresta tinham preferência por cores tão fortes em suas roupas e adornos.

Muteia lembrou-se perfeitamente da resposta que dera, com uma clareza de detalhes que o espantava: — Os povos que habitam as florestas estão mais que habituados a conviver com as cores vivas que a própria natureza lhes impõe. Nas densas matas, as cores fortes e vívidas dão a tônica e estão em toda parte, em uma explosão de vida que se renova a cada dia, em cada instante. Enquanto isso, nos desertos áridos ou de gelo, a cor branca e as suas variantes parecem estáticas, movendo-se ao sabor apático dos ventos. Já nas grandes metrópoles urbanas, as cores industrializadas vagam em um ritmo mecanizado e sem vida. Nas cinzentas vidas urbanas contemporâneas, as cores são multiplicadas pelo ritmo fabril, sintéticas e artificiais. Sem tempo para si mesmo ou para os outros!

O discurso eloquente e academicista, porém forte, deu-lhe uma certa folga por algum tempo. Tempo suficiente para o professor se sentir livre daquele aluno boçal e recarregar as forças para abraçar a profissão de vez — isso antes de a tormenta o arrastar para o abismo da luta armada.

— Quero sim, meu bom amigo, meu irmão querido! — respondeu Muteia em espanhol, mas com um forte acento europeu que desconcertou o músico.

Adérito pagou ao Aymara um valor acima do habitual. O homem era todo sorrisos ao entregar o CD e pegar a nota. O indígena, então, retornou para os demais músicos que estavam sentados no chão, não muito longe, próximos a um ponto de ônibus intermunicipal. Adérito Muteia teve a breve impressão de que estavam em um conclave, em plena luz do dia, aos olhos de todos. Achou estranha a atitude dos músicos andinos.

Muteia, então, retomou sua marcha, desejando o conforto da rotina sem sobressaltos. Mas, após poucos passos, um sentimento angustiante o fez olhar para trás: os músicos andinos já não estavam mais lá. Desapareceram sem deixar rastro algum, como por encanto, como se jamais tivessem existido de fato. Sumiram como se fossem fantasmas. Muteia, um ateu convicto, temeu estar enlouquecendo. Era mesmo um dia atípico na vida programática de Adérito Muteia.


Fragmento do livro: A casa de teto verde. Texto de Samuel da Costa, contista, cronista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário