sexta-feira, 1 de maio de 2026

NAS MANHÃS NO SUL DO MUNDO (1ª PARTE)

 


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

Escolho o pecado! Encolho-me! Fujo!

Traio! Minto para mim mesma!

Já não sei quem sou...

 Estou viva? Pelo menos penso que existo...

Em outra dimensão...

 

Para Francisco Gomes Wambar e Anderson Luis Jamaica da Silva

 

Adérito Muteia mantinha hábitos discretos, regulares e simples. Como refugiado e dissidente político que era, preferia passar despercebido aos olhos da maioria. Todas as manhãs, seguia a mesma rotina rígida: acordava bem cedo, antes de o sol raiar, e saía da cama ainda de pijamas. Com os pés descalços, ainda sonolento, arrastava-se até a cozinha e ia à cafeteira para tomar uma xícara de café preto — frio, forte e sem açúcar — feito na noite anterior.

Desperto, dirigia-se ao toalete, escovava os dentes alvíssimos e tomava um demorado banho. Fazia a barba de forma mecânica e lenta, com uma lâmina de aço antiga e bem afiada. Saía devagar da pequena casa de banho, vestido apenas com um roupão gasto pelo tempo. Ainda com os pés desnudos, caminhava pausadamente até o pequeno vestíbulo. No guarda-roupa, separava as peças que pretendia usar e vestia-se sem pressa alguma: a camisa gola polo branca, o paletó cinza puído e a calça gasta pelo longo tempo de uso.

Sentado em uma cadeira de madeira, Adérito calçava as meias brancas de algodão puro e os velhos sapatos sociais, cuidadosamente engraxados no dia anterior. Por fim, levantava-se, ia até um compartimento do vestíbulo, abria uma gaveta e tirava dali diacrônicos óculos de aro de tartaruga que um dia pertenceram ao seu avô materno. Levava-os ao rosto! O cabelo preto e ralo, à moda militar, não necessitava do crivo de escovas ou pentes. Voltava ao banheiro e, cuidadosamente, escovava os dentes brancos como marfim para, depois, borrifar um leve e popular perfume almiscarado no pescoço.

Finalmente, percorria os cômodos e parava em um cabideiro ao lado da porta do quarto. Munido de uma barata bolsa de couro sintético, estava pronto para sair, como se fosse dar aulas. Talvez agir assim fosse uma forma de Muteia recriar a rotina que deixara para trás. Uma rotina diária da outra vida que um dia tivera no velho mundo; um passado remoto, distante e diáfano, tempos em que vivia em paz e sem medos.

Após esse ritual matinal, o professor Adérito Muteia considerava-se pronto para ganhar as ruas e enfrentar um novo dia no novo mundo. Não sem antes, claro, voltar-se e parar diante da cama vazia, pensando por uns instantes na mulher que morrera no velho mundo e nos filhos que planejara ter com ela. Filhos desejados que nunca nasceram e nunca nasceriam.

Adérito abandonava o minúsculo apartamento em um prédio de três andares. Descia os degraus da escada do edifício modesto onde vivia, na zona periférica da cidade praiana, fugindo do antigo elevador barulhento. Descia as escadarias como se fosse enfrentar um pelotão de fuzilamento. Muteia descia as escadarias de forma ritmada, cheio de culpas, remorsos e mágoas atrozes. Nesse momento, o professor pensava no turbilhão de tempos atrás, quando tudo parecia querer explodir. Quando a correnteza arrastava tudo e a todos, não deixando nada no devido lugar. Quando ninguém era poupado das mais severas privações e punições de um carrasco implacável que alguns chamavam de destino.

Outros o nomeavam das mais variadas formas, materiais e imateriais. Adérito Muteia, africano, professor por profissão e por fé, preferia chamar de ganância e fome pelo poder! Aquela eviterna vontade de subjugar os mais fracos. O desejo de transformar os outros à sua imagem e semelhança pela força bruta ou, simplesmente, destruí-los. Algo bem comum, em todos os tempos e em todas as partes do mundo, tudo fartamente documentado pelas mãos da historiografia da humanidade.

Adérito pensava no passado um tempo morto em uma terra remota, mas que pulsava forte em sua cabeça em todas aquelas manhãs solitárias de agonia no sul do novo mundo. Invariavelmente, era assim que começavam as manhãs do professor doutor Adérito Muteia. O outrora emérito acadêmico, respeitado pela comunidade escolar, agora vivia escondido, protegido pela mediocridade da imutável rotina de uma vida comum. Uma vida cotidiana de quem fora forçado a habitar, clandestinamente, a periferia de um distante país estrangeiro. Mas o passado sempre vinha forte todas as manhãs, como se cobrasse uma dívida impagável, incontestável e intransferível.

Uma dívida que, cedo ou tarde, o carrasco, o algoz implacável, viria cobrar. O professor Adérito Muteia tinha contas a acertar consigo mesmo e com os outros, com os vivos e com os mortos. Esse sentimento angustiante vinha vivo todas as manhãs para, depois, dissipar-se com os raios de sol de um dia que não lhe pertencia, em um país que também não era seu. Vinha para lembrá-lo de quem ele era de fato, em quem se tornara e onde se encontrava naquele momento.



Fragmento do livro: A casa de teto verde. Texto de Samuel da Costa, contista, cronista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

 

 

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