Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Escolho o pecado! Encolho-me! Fujo!
Traio! Minto para mim mesma!
Já não sei quem sou...
Estou
viva? Pelo menos penso que existo...
Em outra dimensão...
Para Francisco
Gomes Wambar e Anderson Luis Jamaica da Silva
Adérito
Muteia mantinha hábitos discretos, regulares e simples. Como refugiado e
dissidente político que era, preferia passar despercebido aos olhos da maioria.
Todas as manhãs, seguia a mesma rotina rígida: acordava bem cedo, antes de o
sol raiar, e saía da cama ainda de pijamas. Com os pés descalços, ainda
sonolento, arrastava-se até a cozinha e ia à cafeteira para tomar uma xícara de
café preto — frio, forte e sem açúcar — feito na noite anterior.
Desperto,
dirigia-se ao toalete, escovava os dentes alvíssimos e tomava um demorado
banho. Fazia a barba de forma mecânica e lenta, com uma lâmina de aço antiga e
bem afiada. Saía devagar da pequena casa de banho, vestido apenas com um roupão
gasto pelo tempo. Ainda com os pés desnudos, caminhava pausadamente até o
pequeno vestíbulo. No guarda-roupa, separava as peças que pretendia usar e
vestia-se sem pressa alguma: a camisa gola polo branca, o paletó cinza puído e
a calça gasta pelo longo tempo de uso.
Sentado
em uma cadeira de madeira, Adérito calçava as meias brancas de algodão puro e
os velhos sapatos sociais, cuidadosamente engraxados no dia anterior. Por fim,
levantava-se, ia até um compartimento do vestíbulo, abria uma gaveta e tirava
dali diacrônicos óculos de aro de tartaruga que um dia pertenceram ao seu avô
materno. Levava-os ao rosto! O cabelo preto e ralo, à moda militar, não
necessitava do crivo de escovas ou pentes. Voltava ao banheiro e,
cuidadosamente, escovava os dentes brancos como marfim para, depois, borrifar
um leve e popular perfume almiscarado no pescoço.
Finalmente,
percorria os cômodos e parava em um cabideiro ao lado da porta do quarto.
Munido de uma barata bolsa de couro sintético, estava pronto para sair, como se
fosse dar aulas. Talvez agir assim fosse uma forma de Muteia recriar a rotina
que deixara para trás. Uma rotina diária da outra vida que um dia tivera no
velho mundo; um passado remoto, distante e diáfano, tempos em que vivia em paz
e sem medos.
Após
esse ritual matinal, o professor Adérito Muteia considerava-se pronto para
ganhar as ruas e enfrentar um novo dia no novo mundo. Não sem antes, claro,
voltar-se e parar diante da cama vazia, pensando por uns instantes na mulher
que morrera no velho mundo e nos filhos que planejara ter com ela. Filhos
desejados que nunca nasceram e nunca nasceriam.
Adérito
abandonava o minúsculo apartamento em um prédio de três andares. Descia os
degraus da escada do edifício modesto onde vivia, na zona periférica da cidade
praiana, fugindo do antigo elevador barulhento. Descia as escadarias como se
fosse enfrentar um pelotão de fuzilamento. Muteia descia as escadarias de forma
ritmada, cheio de culpas, remorsos e mágoas atrozes. Nesse momento, o professor
pensava no turbilhão de tempos atrás, quando tudo parecia querer explodir.
Quando a correnteza arrastava tudo e a todos, não deixando nada no devido
lugar. Quando ninguém era poupado das mais severas privações e punições de um
carrasco implacável que alguns chamavam de destino.
Outros
o nomeavam das mais variadas formas, materiais e imateriais. Adérito Muteia,
africano, professor por profissão e por fé, preferia chamar de ganância e fome
pelo poder! Aquela eviterna vontade de subjugar os mais fracos. O desejo de
transformar os outros à sua imagem e semelhança pela força bruta ou,
simplesmente, destruí-los. Algo bem comum, em todos os tempos e em todas as
partes do mundo, tudo fartamente documentado pelas mãos da historiografia da
humanidade.
Adérito
pensava no passado um tempo morto em uma terra remota, mas que pulsava forte em
sua cabeça em todas aquelas manhãs solitárias de agonia no sul do novo mundo.
Invariavelmente, era assim que começavam as manhãs do professor doutor Adérito
Muteia. O outrora emérito acadêmico, respeitado pela comunidade escolar, agora
vivia escondido, protegido pela mediocridade da imutável rotina de uma vida
comum. Uma vida cotidiana de quem fora forçado a habitar, clandestinamente, a
periferia de um distante país estrangeiro. Mas o passado sempre vinha forte
todas as manhãs, como se cobrasse uma dívida impagável, incontestável e
intransferível.
Uma
dívida que, cedo ou tarde, o carrasco, o algoz implacável, viria cobrar. O
professor Adérito Muteia tinha contas a acertar consigo mesmo e com os outros,
com os vivos e com os mortos. Esse sentimento angustiante vinha vivo todas as
manhãs para, depois, dissipar-se com os raios de sol de um dia que não lhe
pertencia, em um país que também não era seu. Vinha para lembrá-lo de quem ele
era de fato, em quem se tornara e onde se encontrava naquele momento.
Fragmento
do livro: A casa de teto verde. Texto de Samuel da Costa, contista,
cronista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

Nenhum comentário:
Postar um comentário