sexta-feira, 1 de julho de 2022

"Cobra Norato" (de Raul Bopp)


O curta-metragem apresenta fragmentos do poema "Cobra Norato", de Raul Bopp (Itaara, RS, 1898 - Rio de Janeiro, RJ, 1984), publicado em 1931, que se tornou uma das melhores produções do Movimento Antropofágico. Trata-se de uma homenagem à Semana de Arte Moderna de 1922. O filme conta com a direção de João Pedro Bonfim, a fotografia de Jocivaldo do Vale, a atuação de Carmen San Thiago, e a produção de Caio Dantas, Guilherme Fernandes e Paccelli M. Zahler.

OS MALEFÍCIOS DA NOVELA

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)


" Na Carta de Guia", escreve D. Francisco Manuel de Melo, que viajando por terras de Espanha, foi parar a hospedaria, onde a dona e suas filhas, tão elevadas estavam numa novela, que não foram capazes de o receber.

Não encontrou melhor remédio, se não procurar outra estalagem.

De regresso de viajem, perguntou pela leitora e ouvintes. Disseram-lhe: " Que poucos dias depois, a novela foi tanto adiante, que cada uma das filhas daquela estalajadeira fizeram sua novela, fugindo com seu mancebo do lugar, como boa aprendizes da doutrina, que tão bem estudaram."

O mesmo vai acontecendo com as telenovelas – versão moderna das novelas de outrora, – imbuídas das mesmas peçonhas, que incutem, na juventude, o desejo de passarem da ficção à realidade.

Os enredos, em geral, não são planeados, apenas para divertir; mas, no firme propósito de inculcar: ideologias ou condutas perversas.

O nosso genial Eça, costumava – talvez a pedido do editor, – " apimentar" a prosa, para aumentar as vendas. Todavia conhecedor da perversidade, não queria que os filhos lessem os textos, mormente a querida Maria.

Asseveram – não sei se é com sinceridade, – cineastas e produtores da TV, que somente mostram a sociedade, tal qual é.

Para eles, o cinema e novelas, apresentadas pela TV, são o espelho da sociedade. Mas – digo eu, – não será a comunidade, o espelho da TV e do cinema?

O que se passa na má fadada TV, ocorre, igualmente, com obras literárias – algumas de soberbo estilo, – mas abordando temas asquerosos e torpes, rebaixando a dignidade humana, ofendendo a mulher – mãe, irmã e esposa.

Refiro-me a obras de valor, porque escritas em elevado estilo, tornam-se ainda mais perigosas do que as outras.

Bem avisa o bom Heitor Pinto in: " Imagem de Vida Cristã: " Como a espada, quanto mais excelente, tanto é mais perigosa na mão do furioso; assim a linguagem quanto mais elegante, tanto mais perigo traz consigo."

Não é de admirar, portanto, com tantas imundices, tanta telenovela e livros perversos, convidando à voluptuosidade, a nossa terra seja infestada de - estupros, violações e porca pornografia, vendida sem o menor pejo.

GINETE POR ACASO (1º Lugar FESTILENDA)

 Por Severino Moreira (Bagé, RS)

 

À tardinha, daquele quase final de dezembro ainda guardava o mormaço que ficara depois de um “solaço véio” bagual que deixara a gauchada assoleada durante todo o dia. São Pedro apesar de padroeiro do Rio Grande do Sul, ao que parece, não estava colaborando muito com aquela festa artística e campeira que acontecia na Chácara Bela Vista, em mais uma grande promoção do Grupo de Artes Nativas Campo Aberto.

 Eu, nessa ocasião dava andamento às atividades artísticas com um festival de intérpretes amadores que arremataria em uma apresentação do cantor Cristiano Quevedo, que na época estava em início de carreira, pois essa era uma das atividades que sempre cabiam a mim e aos amigos do Departamento Cultural organizar e, por consequência apresentar ao público que, diga-se de passagem, já era numeroso e por ser uma apresentação ao ar livre, essa gauchada se espalhava a campo fora, sentado no pasto, em pelegos, nos troncos das árvores e até mesmo pelos alambrados.

Estava no palco improvisado o terceiro ou quarto concorrente, daquela tarde, quando ouvi anunciarem nos alto-falantes da campeira o início de um concurso de tiro de laço, onde o prêmio ao vencedor seria uma novilha gorda e eu resolvi, de “supetão”, que ia ganhar essa novilha, afinal me criei na lida de campo, embora haja algum tempo arrinconado aqui pelo povo, ainda, sei atirar o laço e não sou dos mais maturrengos no lombo de um cavalo.

 Passei minhas atividades de apresentador ao meu amigo Sérgio Pires, e enveredei no rumo das mangueiras, decidido a ganhar a prova.

Acontece que, na verdade, eu não viera “aprecatado” para tal atividade, tanto que nem meu ruano trouxera, de maneira que consegui uma égua emprestada com Eron Torales, na época o capataz da Invernada campeira da entidade promotora da festa.

 Era uma égua bueníssima, bicho flor de campeiro, mas chegadinha a dar cria o pobre animal. Lhes digo, estava amojadinha, e era para aqueles dias que o índio estaria aumentando a sua cavalhada.

O dono ainda me gritou. Vai com jeito, a égua esta “prenha” e é uma eguínha mimosa.

Me orquetei nessa égua, preparei o laço e esperei na saída do brete, mas não sei se por maturrengueada de quem largou ou se por simples picardia, o que refugou do brete, não foi nenhum terneirote e sim, um touro mocho que de tão “munaia” que era, quando largava a pata no chão, sumiam os tuco-tuco a uma légua em da volta e o pior é que por “brabo” já saiu atropelando.

   A égua, conforme eu disse, era flor de campeira, nem bem o touro refugou já saiu pateando no lado.

Galopeou não mais que uns vinte metros e depois abriu para a direita e foi no justo momento que atirei o laço: Atirei e “pescociei o bicho” e para ficar mais linda a pataquada chamei na cincha.

Meu Deus do céu... Foi só um estouro.

O laço aguentou, porque era do Deponti, mas a pobre égua partiu ao meio e se foi o touro a campo fora, errando cabeça nas pessoas, pulando cerca e levando de arrasto os arreios com pedaços da égua, enquanto o resto do animal se debatia ali no pasto, deixando a gauchada de olhos arregalados com tudo o que acontecia.

Mas eu não me apertei. Fiquei a cavalo no potrilho e “comendo na espora”.

Não ganhei a tal novilha, mas tirei primeiro lugar em gineteada.     

Notaram que estou de bombacha nova?

Bueno. Eu explico, é que minha bombacha velha se inutilizou com os restos da placenta daquele potro.

 

 

APESAR DO TEMPO, PAI!

Por Leandro Bertoldo Silva (Padre Paraíso, MG)

Desculpe, pai, mas desconfio que não lhe obedeci. Nem ao senhor nem à mãe. Lembra aquele dia quando eu tinha 5 anos? Tudo bem, faz muito tempo, mas o senhor há de lembrar. Foi aquele dia que eu vi outras crianças pegando papel na rua e colocando dentro de um saco para levá-lo a um depósito, onde era pesado e o seu peso pago em moedas. Pai do céu! O senhor não imagina como os meus olhos brilharam. Não sei se pela oportunidade de ganhar dinheiro, pois era muito bom quando o moço do depósito nos entregava as moedas, ou pela própria ação de juntar-me às outras crianças no trabalho de vender papéis. Acredito que eram as duas coisas, acrescido de ainda poder levar recursos para casa, afinal eu já estava me tornando um homem!  Lembro-me bem da sensação… “Uau! Ganhar dinheiro é tão fácil e tão gostoso!” O senhor não me reconheceu na rua. Tudo bem, pai, não há nenhum mal nisso. Não tinha mesmo como me reconhecer, eu estava todo sujo. Lembra como foi? O senhor estava a voltar do trabalho quando em uma das inúmeras idas e vindas minhas com o saco às costas cheio de papel a caminhar até o depósito,  passou por mim.

— Oi, pai.

— Oi, filho. Oi, filho?!

Pois é, naquele momento o senhor me levou embora e junto com a mãe, depois dela ter me dado um banho daqueles, sentaram para conversar comigo. Nossa! Como me lembro dos olhos da minha mãe, olhos de ternura. Os do senhor também. Só não entendi muito bem o sorrisinho que estava junto deles quando eu disse estar trabalhando para ajudar nas despesas da casa. O quê? Eu não disse isso a vocês? Mas eu deveria. Então digo agora, mais de 40 anos depois. Engraçado, eu sempre achei que tinha dito isso… Porque lembro bem o senhor e a mãe — ah, os olhos da minha mãe… —, dizerem que eu não precisava fazer aquilo, que nesse ponto eu era diferente das outras crianças. Diferente como, pai? Porque elas eram pobres e a gente não? Sabe de uma coisa, pai, descobri que na vida existem vários tipos de pobreza e de riqueza, e aquelas crianças eram muito ricas. Puxa vida, como eram ricas em liberdade e alegria. O senhor precisava ver como ficávamos alegres no meio da rua, quando encontrávamos um papelão mais grosso que ia render boas moedas. As risadas, pai… Quanta riqueza naquelas risadas! Mas o senhor tem razão em um ponto… Pai, eu vou te contar um segredo que eu nunca contei para ninguém. Eu fiz uma coisa errada. Senti-me tão mal, pai! Era como se o senhor e a mãe nunca fossem me perdoar. Sabe, essa sensação era muito pior do que pensar no castigo de Deus que falavam nas igrejas. Nesse ponto eu fui mesmo diferente das outras crianças. Sabe o que elas faziam? Elas pegavam uma pedra bem grande e colocavam dentro do saco no meio dos papéis que era para pesar mais na hora da balança. Então… Eu fiz isso também. Mas foi uma tentativa só. Foi muito esquisito. Porque enquanto os meninos riam lá fora eu achava que aquilo não estava certo. Mas eles me chamavam de bobo. Ah, isso não! Aí fui provar que eu não era bobo. Peguei uma pedra bem pesada e coloquei no saco. Ela era tão pesada que foi parar lá no fundo. Bem, o moço do depósito logo achou algo estranho, porque eu mal conseguia carregar o saco. Além disso, eu tremia igual vara verde, e os meus olhos faltavam saltar do rosto de tanto medo. O meu coração batia de um jeito que dava para ver no peito sem camisa. O moço fez uma cara desconfiada, pegou o saco e pôs na balança. Pois é, deu para ouvir um “pléim” bem alto, o barulho da pedra no fundo ao bater no ferro. Que vergonha! Ele pegou a pedra, olhou e disse: “Ah, seu moleque…”. Ser chamado de moleque foi a pior coisa que já me aconteceu na vida. Os meninos tinham razão. Eu fui mesmo muito bobo, mas não por ter colocado a pedra no fundo e não no meio dos papéis, como eles disseram, mas por ter cedido àquela manobra. Não se preocupe, pai, o senhor e a mãe ensinaram direitinho, o erro foi todo meu. Mas valeu. Só não valeu o fato de não ter lhe obedecido, e aí voltamos ao início. Sabe o que é, pai? O tempo passou, não foi? E por mais que eu tenha estudado e formado no almejado curso superior, graças a vocês, com tanto sacrifício, eu queria mesmo era vender papéis. Desculpe, pai, mas aquele menino de 5 anos sempre cresceu dentro de mim. Ou melhor, eu crescia e ele vinha junto. Aí, no lugar do saco fiz uma prensa de madeira e nela colo e costuro papéis transformados em livros, que são pesados em uma balança um tanto diferente daquela de antigamente e enviados pelo Correio às pessoas. Está assim confessada a minha desobediência. Pois é, pai, precisava dizer isso ao senhor. Apesar de tudo, sou um vendedor de papéis. A diferença é que eles são escritos. Só não uso pedras; prefiro a poesia.

 

RIGOLBOCHE

Por Dias Campos (São Paulo, SP)

 

            No prefácio à 5ª edição do seu Amor de perdição, Camilo Castelo Branco mostrou-se um visionário, visto que assim se manifestou, referindo-se ao século 21: “Como a honestidade é a alma da vida civil, e o decoro é o nó dos liames que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo tempo por defeito de uma grande evolução-rigolboche. A lógica diz isto; mas a Providência, que usa mais da metafísica que da lógica, provavelmente fará outra coisa.”

            Ora, se relembrarmos que, segundo o dicionário, rigolboche significa devassidão no comportamento, e se olharmos rapidamente para um passado pouco distante, é inevitável a conclusão de que os alicerces sociais brasileiros foram bastante abalados.

            Isso me faz lembrar a velha luta entre o bem e o mal, das virtudes contra os vícios, o “‘Tudo me é permitido’, mas nem tudo convém”, conforme afirmou o apóstolo Paulo.

            Com efeito, até Ulisses seria classificado como café pequeno se comparássemos os seus mil ardis com a variedade dos meios utilizados pelas legiões rigolboches!

            É claro que, faço questão de frisar, não se trata, aqui, de policiamento, de puritanismo, ou de coisa que o valha. Mas como o que está em jogo é a base social, a família, o que de fato importa será a nossa firmeza de posicionamento, a escolha de um lado.

Neste sentido, se é verdade que “Imaginar uma sociedade impenetrável às transformações das épocas é imaginar um corpo sem porosidade.”, como registrou Joaquim Nabuco, não menos exata é a afirmação de Lacordaire, para quem “A sociedade não é mais do que o desenvolvimento da família; se o homem sai da família corrupto, corrupto entrará na sociedade.”

Daí a nossa excessiva preocupação com os temas espinhosos que volta e meia são oferecidos para as nossas crianças sob a forma de irresistíveis maçãs do amor, mas cujo caramelo, reluzente e sedutor, só tem a função de encobrir a ameaça contida nessa fruta podre.

E tanto isso é verdade, tão perigosa pode ser uma única mordida, que este ensinamento de Richter deveria ser impresso, emoldurado e colocado sobre os criados-mudos de cada pai e mãe do nosso Brasil: “A época mais importante da vida é a infância, quando a criança começa a modelar-se por aqueles em cuja companhia vive.”

Sendo assim, as perguntas que não podem ficar sem respostas são estas: Que exemplos passamos para os nossos filhos? temos consciência de que, dependendo da nossa conduta, eles caminharão sob o aconchego do sol ou se arrastarão na gelidez das sombras?

De nossa parte, e graças a Deus, estamos tranquilos quanto à qualidade do alimento moral que oferecemos todos os dias para o nosso herdeiro, o que nos permite deitar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos.

Mas, e quanto aos pais que deram ouvidos às fascinantes melodias rigolboches? Devem necessariamente colher o que plantaram ou será que ainda há esperanças no horizonte?

Apesar da legislação permissiva, da linguagem cativante, dos raciocínios enganosos, e de uma infinidade de artimanhas utilizadas por aquela “evolução” para destruir a família, é certo que a Providência não se calou diante de tantas investidas.

E como é sabido que Ela também age por nosso intermédio, muitas vozes se levantaram e outras tantas se erguem na defesa dos bons valores e na recondução de quem ainda se acha desorientado.

Uma, em especial, faço questão de recomendar. É a do conhecido e carismático Divaldo Pereira Franco, que no 34º Congresso Espírita do Estado de Goiás, em 2018, abordou, entre outros temas, a ideologia de gênero, e indicou os meios mais eficazes para nos imunizarmos e aos nossos filhos. – esta e muitas outras palestras constam no YouTube.

Para aqueles, porém, que não comprometeriam, sequer por curiosidade, alguns minutos de suas vidas para ouvirem o citado médium baiano, saibam do nosso respeito e fiquem com o nosso fraternal abraço.

No entanto, para finalizarmos esta crônica serão necessárias uma advertência e uma interrogação: Se “Em matéria social é o rótulo impresso na garrafa que determina a qualidade e o sabor do vinho.”, segundo escreveu Eça de Queiroz, pensando em nossos filhos e na sociedade em que viverão, você realmente teria coragem de beber uma taça do tinto Rigolboche?

SÃO PEDRO CRUCIFICADO!

 Por Marcelo de Oliveira Souza, IWA (Salvador, BA)

 

Nossos dias atribulados

Vêm os anjos e os santificados

Os amigos iluminados,

Todos eles ao nosso lado. 


Cada dia tem a sua provação 

Para isso temos que ter superação 

Cada dia tem a sua comemoração 

 Deus sempre ao nosso lado! 

 

Nessas provações Divinas 

Nós meros humanos temos passado,

 As grandes almas tiveram sua missão 

Todas elas com problemas superados.

 

 Pedro também teve seus problemas

 Perdendo seu líder crucificado 

Ficou totalmente atormentado 

Na hora da pressão, Jesus foi negado. 

 

Mas isso não o desabonou

Depois do arrependimento

Sua fé frutificou,

 Sendo um grande líder do passado.

 

 Foi perseguido, arguido 

Como Cristo foi crucificado 

De ponta a cabeça, pendurado 

Hoje virou Santo forte com dia comemorado!

 

 

ONDE O BEM NECESSITAR!

Por Marcelo de Oliveira Souza, IWA (Salvador, BA)

 

De repente estou no centro

Muita coisa a informar

Pessoas novas  no evento

A querer acompanhar.

 

Na fila, um lamento

Entidades agressivas estavam lá,

Mudei de ambiente

Vendo a sala de outro lugar.

 

Todo mundo mais  outro elemento,

Obsessores  a reinar

Sendo chamado no intento

De liberar a maldade do lugar.

 

Em nome do amigo Santo

E de Jesus que  veio amparar,

Torno-me forte no intento,

Com as palmas da mão

Um luz sai e tudo faz clarear.

 

Uma paz reina

Naquele assustador lugar,

Voltando a tranquilidade

E o aprendizado ganha um lar.

 

Quando a noite vem novamente,

E está todo mundo ciente

Que a contribuição da gente

É sempre presente

Onde o bem necessitar.

 

Na hora que todos parecem dormir

A gente vai atrás

No lugar onde ninguém pensa ir

 A gente resgata almas e expurga o mal, vem o bem liderar.

 

Nas graças da divindade

Paz e bem é só amar

Na nossa existência e na existência espiritual.

A noite também é dia

Com o amigo santo vou trabalhar.


Corpus Christi

Por Marcelo de Oliveira Souza, IWA (Salvador, BA)


 Um dia para refletirmos

Para onde caminha a humanidade

Se existe humanidade...

 

Ela existe?

Um passando a perna no outro

Pernada para tudo quanto é lado,

Outro vai para a igreja rezar.

 

Depois de tanta maldade

Até que merece ...

Mas o dia de farra continua

Bebidas para todos os poros

Trânsito em todas as estradas...

 

O corpo está li estagnado

Ninguém lembra que o corpo existiu

A consciência ruiu

O povo ruim domina

A humanidade caiu...

 

Corpos nas estradas

A curiosidade reina

O acidente causado,

Coitado!

Não resistiu,

Mas o parceiro de viagem

Gravou e divulgou na “cidade”.

 

O corpo fez sucesso

Mas dois minutos depois,

Tem outro mal sucedido

Que foi agredido e vencido

pelas drogas e pelo crime.

 

Mais um corpo esquecido

Que será comido pelos bichos

Diferente do corpo de Cristo

Iluminado e bendito,

Virou tema de feriado

Onde tudo vai recomeçar.

Em prol do seu nome iluminado

Onde muitos irão novamente

v i a j a r...

E não voltam mais!

CLARISSE CRISTAL, A CIDADÃ DAS NUVENS

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

                       

Eu prefiro frases feitas...

Adoro lê-las… E pensar que são minhas!

Dizer: - Vou te amar para todo o sempre!

Usando velhos clichés.

***

Finjo ser poeta! Às vezes contista...

Nessas horas uso velhos clichés.

Porque dizer: - Eu te amo, não é dizer bom dia!

***

Às vezes leio velhas poesias.

Mas só às vezes! E penso que são meus...

Aqueles idílios de saudade...

***

Às vezes penso ser poeta!

Na pós-modernidade liquefeita!

A usar velhos clichés!

Para poder ousar dizer:

  ˗Te amo, não é bom dia!

           

           

            Agora é oficial Clarisse Cristal é a mais nova, das cidadã das nuvens, pois ela resolveu passar o começo daquela manhã, o que seria para ela, uma chata fria manhã cinzenta e nevoenta, de um outono sem sol, com a cabeça flanando em brancas nuvens. Àquela hora de evasão, extrema dor e puro desespero, o pensamento de Clarisse Cristal pairava, na relapsa jovem mãe dela que acabara de se se matricular, em uma academia de musculação, somente para mulheres, era a novíssima moda da jovem mulher naquele exato momento. Como o clube do livro, fora no mês passado, a redecoração completa da casa no mês anterior e outros objetos de desejos efêmeros de quem não tem preocupações mais sérias na vida.

Sempre foi assim, a mãe de Clarisse Cristal sempre tinha uma novidade premente e mais que urgente para resolver. Ede tempos em tempos, que nasciam e ardiam em chamas, sempre no início do mês e dificilmente chegavam vivas, ao fim do mesmo. E a cada, uma das efemeridades, sempre prementes e sempre mais que urgentes, tinham em comum é que traziam junto de si, como subproduto, o pouco tempo para se dedicar à filha única.            

Quanto ao jovem pai de Clarisse Cristal, ele era todo e somente entregue ao trabalho e mais nada. O alto executivo, de meia idade, regozijava ao discursar a toda hora, em qualquer lugar e para qualquer um, fosse quem fosse, gostasse ou não de escutar sobre planilhas de custos, relatórios financeiros, projeções futuras do mercado internacional de commodities, flutuações cambiais. E para não esquecer das retrações e expansões das bolsas de valores mundo a fora, bolhas inflacionárias, equilíbrios e desequilíbrios fiscais. Era um arsenal sem fim de palavrórios burocratizados e entediantes para a grande maioria dos meros mortais alheios ao mundo corporativo.           

Agora estática e diante de uma estante de livros, usando um pesado avental de couro cru, usando pesadas vestes negras, como a mais escura da noite mais negra, a bota cano alto ornamentadas com as cinco fivelas cromadas, a veste nascia na palma dos pés e ia esvanecer  nos joelhos. Também tinha a saia preta crazy-in-love, vinda diretamente de Portugal. Um crucifixo que já tinha visto dias melhores, artesanalmente entalhado em madeira Paolo Santo, envernizada, estava nada discreto no pescoço. Uma elegante e diáfana blusa Lace de mangas compridas à moda do renascimento vitoriano, com espartilho cor de vinho que emoldurava o tronco. E ela estática diante da estante de madeira, repleta de livros antigos, caros e raros, a mais nova cidadã das nuvens pensou profundamente em tudo e em todos e por fim indo parar de forma intempestiva no seu amor platônico pelo motoboy da livraria. Talvez, e somente talvez, o estilo de vida livre do moço fosse de fato a real paixão derradeira de Clarisse. Ele corajosamente desafia o apoplético trânsito das vias hiper- congestionadas em duas rodas. As idas e vindas, com o vento beijando-lhe o rosto, sem horários pré-definidos ou mesmo itinerários pré-estabelecidos por quem quer que fosse.            

  Foi em uma olhada rápida nas redes sociais digitais do jovem rapaz proletário, que Clarisse Cristal pôde se deliciar e passar a amá-lo ainda mais, aquela figura surreal. Com os gostos daquele homem recoberto de doces mistérios, aquele homem, um pouco mais velho que ela. A paixão dele pela fotografia, paisagismo, viagens sem destino certo em duas rodas, tatuagens tribais, música romântica francesa e poesia renascentista por fim. Logo ele, uma pessoa tão calada no ambiente de trabalho, ser uma pessoa tão extrovertida e tão complexa na vida pessoal. Isso tudo passou em um instante, pela cabeça sonhadora da bibliotecária Clarisse Cristal, a mais nova cidadã das nuvens. Até uma voz estridente a trazê-la de volta para a hirta realidade em que vivia: — Adeus mundo das brancas e leves nuvens, ou melhor, até breve! — Falou uma voz sonolenta e distante dentro dela, que Clarisse reconheceu sendo dela mesma, mas com muitas dificuldades.           

— Astride... Astride… Astride desce daí guria... Vem cá, sua sonsa, sua tapada, pata cega, cambacica de Deus. Olha…olha pra mim mulher!           

Não tinha jeito, fingir estar ocupada já não dava mais tempo, agora era descer da pequena escada de madeira, se virar e sorrir docilmente, escutar aquela criatura enfadonha e fútil, como se importasse com a vida vazia de objetivos concretos, que ela levava. E apalavra cavalgadura brotou instantaneamente na mente da jovem bibliotecária, deforma natural e mais que espontânea. Ela pensou no fato de trabalhar, no lugar, há mais de um ano e de usar um enorme e um chamativo crachá em seu peito, escrito com letras garrafais a nome Clarisse Cristal, não fazia diferença para a anencéfala. E foi quase vinte minutos, de um relato monocórdio, sem sal, sem açúcar e muito chato, onde Anna Victória contou, em minúcias atômicas, do fim de semana festivo dela em família, que teve a grandiosa felicidade de conhecer o mais novo namorado da própria Anna Victória.            

 — Nossa amiga, que interessante! Meu Deus, que bom pra tu amiga! Simplesmente fantástico mesmo! — Falava Clarisse em intervalos em um monólogo e outro da colega de trabalho.           

E a vontade de sair dali correndo, é outro clichê que Clarisse tentava evitar, mas em vão, pois os sentimentos vinham sem perguntar se poderia vir ou não. E se jogar do alto do terraço, mais próximo, era uma outra opção fatídica a ser considerada, em momentos como aquele, era outro clichê a bem da verdade, que também chegava sibilante e sem ela o querer. E a cena insólita, de ver do alto, de um prédio qualquer, o próprio corpo espatifado no asfalto quente e as pessoas simplesmente passando ao lado do seu corpo sem vida e em pedaços, sem se importarem com ela, a deixou com dor de cabeça.           

  E entre a família problema e ausente, subemprego e vazios colegas de trabalho, a paixonite adolescente pelo motoboy e repetidos clichês. Sim, ela vivia a vida na espera de algo novo, não melhor, mas algo novo e totalmente diferente daquela rotina claustrofóbica e mais que angustiante em que vivenciava.  

Samuel da Costa é contador e funcionário público em Itajaí, Santa Catarina.

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NO CONTRATEMPO DA HISTÓRIA

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

 

Eu conheço o medo

De não se entregar,

De se esconder através 

De um sorriso,

De ficar ausente,

Preso em papéis velhos.

A vida até parece

Uma travessia difícil.

Eu vi os olhos de um homem

Desabar em lágrimas,

As palavras de amor

Voando na direção do vento

E no contratempo da história

A irônica forma de amar

Sem estarem juntos.


Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, Santa Catarina. 

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

PARALELO 30

 Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

Submergir nas turvas águas

Do Rio Rudson em pleno dezembro

Como quem furtivamente

Vai encontrar

Um amante clandestino

No meio da tarde

No meio da semana

***

Submerge in the murky waters

From the Rudson River

In the middle of December

Like who sneaked

You will find

A clandestine lover

In the afternoon

In the middle of the week

***

Sim!  Eu assisti ao longe

Na segurança mais que tranquila

Do alto da minha torre de marfim

O povo apoplético

Passar em marcha no meio da rua

Com cartazes

E a bradar palavras de ordem

***

Eu emergi das águas poluídas

Do Rio Rudson em pleno dezembro

Como quem escapa

Em fuga desesperada do cárcere

De uma gaiola dourada

***

Hey! Morgan Lander

Take your crazy electric guitar

And play something

Only for me

***

Sim! Tenho o péssimo hábito

De sofre na solitude

Da Turris ebúrnea

E na completa escuridão

***

Eu não acredito no sofre coletivo

Eu não acredito

Na sofridão na coletividade.


Clarisse Cristal é poetisa e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

 

ARROGÂNCIA...

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Viramos pedra, já não temos mais vozes! Sabíamos da verdade, mas por vaidade nos calamos, pois sempre somos os donos das verdades. E o que nos restou? Apenas se silenciar diante do real, da realidade!

Engana-se, aquele que vive fantasiando! Perde-se as razões, e o tempo, que é o senhor de todas as razões, ele corre veloz e urge feroz. Resta-nos apenas esperar, nos remendar, remendar os estilhaços caídos e lançados ao chão duro e frio.

Hoje calados, intactos, cessamos os nossos sonhos e as nossas fantasias e tudo virou piada. Resta-nos a verdade, mas a verdade não, pois a verdade hoje gera a morte certa.

E agora? Agora é esperar o tempo passar, esperar sem contradições. Pois cair em contradições, sobre o que defende é o maior ataque a mim mesmo é pura arrogância....!

 

Fabiane Braga Lima é poetisa e contista em Rio claro São Paulo

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

SOLTA E LEVE

Por Clarisse da Costa  (Biguaçu, SC)


Eu que tanto quis

Estar junto,

Agora quero estar solta,

Leve.

Na mesma leveza

Dos cabelos ao vento,

Das ondas batendo nas pedras,

Do sorriso frouxo

Ao ler o livro "Marley e Eu".

Acho até que

Eu nasci para ser flor,

Para sempre florescer na dor

E com sorrisos enfrentar a vida.

Eu escolhi me refazer

Olhar para mim

E sobreviver

Nesse caos dentro de mim.

Não me peça para ficar

Numa história de faz de conta,

Os fracos se prendem às fantasias

E fogem da realidade.


Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, Santa Catarina. 

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

IN BLACK (ASHES OF THE HOURS)

 Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

In the sunny morning I caught the ashes of the hours

On a sunny Monday morning I went to get my holy grail.

 I went to fetch the book the ashes of hours

 

Na renascença no novo mundo

No término do baixo medievo

No meu encontrar comigo mesma

No meu abrigo seguro

Na volátil torres de marfim

Onde tudo fazia sentido

Até a pouco

***

O eu recoberta de negras vestes

O eu noturna ave rara

O eu rutila monja neurastênica

O eu a assídua do campo santo

Em desoladas em noites soturnas

Que em tediosas horas

Entre estridentes Evoés

Profundas lágrimas, intensos prantos

E sorumbáticas companhias outonais  

Eu quase morri uma noite por vez

***

Agora és tu

A minha mítica quimera

Meu etéreo mestre Adérito Muteia

Eu teu saúdo na alvorada

No início da minha manhã primaveril

És tu o meu idílico poema pastoril

O meu luminar ficcionista africano

O catedrático de ébano

Oriundo da sacrossanta mãe África 

***

Eu te saúdo

Eu te saúdo festivamente

No inverossímil texto meu

No meu santificado altar imaginativo

E sensacionalista

No meu abrigo mais que seguro 

Eu te saúdo

Imagético afro-literato Adérito Muteia.


Clarisse Cristal é poetisa e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.   

 

 

 

OCEANO DE INCERTEZAS

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

 

Esqueci das cores vivas

Das flores e suas vidas intensas.

Fechei olhos e fiquei pensando

Numa história que às vezes

Ecoa num vazio de palavras

Sem ações e reações.

São tantas histórias nessa vida…

Muitas histórias não são escritas

Nem sequer vividas,

Algumas são como um oceano

De incertezas.

Você se vê no espelho das águas

Quase que perdido,

Sem rumo, preso

Em um sentimento tóxico.

Se libertar de tudo isso

Às vezes parece difícil,

Mas a vida te conduz.


Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, Santa Catarina. 

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

SÃO FLORES NO ASFALTO

Por Samuel da Costa ( Itajaí, SC)

 

            De frente para a praia de São Miguel da Boa Vista, a poetisa olha com esplendor a vastidão oceânica como se fosse a última vez que a apreciava ou como se fosse pela primeira. De uns dois anos passados para até aquele momento, as coisas mudaram por completo na vida dela. A bem da verdade, tudo mudou de forma radical na vida das jovens artesãs das belas-letras. Um renascer depois de anos, de sobrevida, na pequena cidade interiorana e praieira. As correntes por fim se quebraram e mil pedaços, depois de há muito enferrujam. E aquela velha vida limitada, de marasmos não cabia mais nela. Um novo livro iniciado e, ainda com muitas páginas em brancos a serem preenchidas em negras linhas.

          O olhar perdido de Clarisse Cristal, para a infinitude do oceano a faz ignorar o enorme estrando das ondas quebrando, com fúria titânica, na orla na praia e as aves marinhas que gorjeiam estridentemente a poucos metros acima da cabeça efervescente da jovem escritora.

            — Vamos embora amor! Está passando da hora — Antônio tinha colocado a mão no ombro esquerdo da namorada, com terno carinho, na vã esperança de trazê-la de volta para a realidade, em que ambos vivem, pois o tempo urge e ruge para o jovem casal.

            — Mais um pouco amor, mais um pouquinho e já vamos embora! Pode ir amorzinho! Eu te encontro lá em cima, não demoro. Vai ligar a moto que eu já vou indo.

            O rapaz assim o fez, deixou a jovem namorada sozinha na orla da praia. A moça foi para mais próximo de onde as ondas quebram, se abaixa e pega um punhado de grãos de areia. Olha para a areia molhada, aperta bem forte e jogo a areia de volta para o mar.     Era hora de voltar para a realidade e enfrentar o mundo real na realidade liquefeita. Ao cruzar a areia morna da praia, naquele começo da manhã, subir o pequeno elevado e encontrar o namorado. Antônio a espera em cima da motocicleta e com os dois capacetes nas mãos esperando por ela com um sorriso nos lábios. E ela não pensou duas vezes ao ver cena e se adiantar e dar um beijo ardente no namorado para depois subir no veículo, mas Clarisse excitou e desembarca lentamente da motocicleta importada último modelo.     
            — Toninho, quem vai pilotar a tua lata velha hoje vai ser eu mesmíssima da silva!

            Antônio não gostava quando a namorada chamava a novíssima motocicleta dele de lata velha.  Espantado, o jovem músico estranha o inusitado pedido da namorada, que aliás não se cansava das muitas surpresas que ela vinha trazendo em turbilhões para a monótona vida dele.

            — Desde quando tu tens habilitação, para dirigir motos, minha querida lady Cristal?

            — Desde da semana passada, tirei carteira de moto e carro, agora é oficial, tu não és mais o meu chofer pessoal, meu querido!

            De fato, Antônio era o motorista oficial do jovem casal. Quando o jovem, branco e classe média alta apareceu na luz do dia com a namorada negra e pobre, foi um choque para ambas as alas da cidade. A elite, branca e teuta e para a empobrecida e negra ala, não isto já não tenha acontecido antes, não há luz do dia.

          Jovens rebeldes faziam isso vez ou outra, para chocar a sociedade local, mas geralmente são breves enlaces, pequenos flertes que não sobreviviam mais poucas horas, ou um dia ou dois. Mas aquele encontro de jovens almas, livres e leves que romperam as barreiras das horas e dos dois dias, desfilavam pelas ruas da cidade como um casal, que apesar de ainda jovem, se comporta de forma madura, integrado e mais que interligado.

            — Não me olhe assim, meu vampirão lindo, me dá logo a chave da lata velha e vamos correr as estradas, tenho fome de vida, temos muito o que fazer antes que o dia termine!  

            O jovem Toninho não teve alternativa, senão repassar a chave do veículo para a esfuziante Clarisse Cristal. Ele sai da possível de condutor da motocicleta para dar espaço para ela. Dali foram os dois a ganharem as estradas para ver as provas do livro Flores no asfalto, o mais novo Clarisse Cristal. 

 

Samuel da Costa é contador e funcionário público em Itajaí, Santa Catarina.

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br