segunda-feira, 1 de junho de 2026

EDITORIAL

 Por Paccelli M. Zahler (Editor, Brasília, DF)

Junho chega como quem pousa devagar. Traz um frio leve, um silêncio bom, uma vontade de recolher o que sentimos e deixar que a vida fale por entre as frestas.

As matérias desta edição caminham nesse mesmo ritmo: poemas que acendem lembranças, textos que tocam o íntimo sem alarde, imagens que parecem respirar junto com a gente. Há algo de delicado no ar — e é essa delicadeza que queremos partilhar.

A Revista Cerrado Cultural segue sendo esse espaço onde a arte encontra abrigo e onde cada leitor pode descansar um pouco do mundo. Aqui, a palavra não precisa correr. Ela pode apenas existir, inteira, simples, verdadeira.

Que esta edição de junho lhe chegue como um gesto de calma. Como um verso que encontra eco. Como uma pequena luz acesa no meio da tarde.

 

UM POEMA QUE ME COMOVEU

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

Acabo de ler o: " Poema do Tio-avô Materno" de António Gedião, que muito me comoveu. Não pela inefável beleza, escrito por mão de Mestre, mas pelo sublime gesto do antepassado, que o poeta não conhecera, mas que lhe servira de - exemplo, carinho e bondade, nobres predicados, que germinaram no coração do menino Gedião.

Não resisto a não o transcrever, na esperança dos leitores mais sensíveis, também se enterneçam, e certifiquem - que a educação e os bons exemplos não se transmitem só pelos livros, mas sim pelo procedimento de familiares, mesmo falecidos:

POEMA DO TIO-AVÔ MATERNO

 

"Num dia sufocante, e intensíssimo calor,

Encontrei, ao regressar da escola,

um passarinho quase sem vida, caído na rua,

 

Levantei-o do chão, perante olhares indiferentes,

anichei-o nas mãos em concha,

e trouxe-o para casa. 

 

Meti-lhe, pela goela, gotas de água, com a pepita dum frasco de remédio,

dirigi-lhe palavras carinhosas que ele pareceu entender,

e mal o achei melhor, abri-lhe as mãos e dei-lhe a liberdade.

 

Todos me cumprimentaram, pelo bom coração que assim revelei,

Todos cumprimentaram a minha mãe, pela boa educação que me soube dar.                             

todas as visitas me deram palmadinhas no rosto,

e fui apontado aos meninos maus das visitas,

como um exemplo edificante que todos deviam seguir.

 

Eu sorria-me, porque me lembrava de ter ouvido contar

que meu tio-avô materno, que não cheguei a conhecer,

também um dia encontrara passarinho na rua,

e fizera o mesmo que eu fiz.

 

António Gedião, in" Poemas Póstumos"

 

 

A verdadeira educação é a da alma; que não vem nos livros de psicologia, e menos ainda em manuais de etiqueta. Mas no exemplo, que os pais, ao longo da vida, inculcam – pela correta conduta quotidiana.

Palavras grosseiras e torpes; deploráveis gestos; ausências de respeito; violência inclassificável, que as famílias imputam à coletividade, é quantas vezes, falta de atitudes sublimes: de educadores, e mormente, da classe política e jornalística, pela relaxação, que patenteiam, através dos órgãos de informação, em que são responsáveis, e de pais, indignos de tal nome, que não sabem ou não querem transmitir, bons e sadios hábitos.

Pelo desregramento voluntário ou involuntário, que alguns jornalistas divulgam, em textos e fotos, ainda que não o desejem, podem se tornar " filhos da geeme"

CADA TERRA COM SEU USO

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal) 

Estando no Brasil numa cervejaria, a conversar com amigos, escutei entre pareceres desfavoráveis ao nosso país – que era comum antes do euro circular em Portugal – que roubamos o ouro, e enviamos durante décadas (séculos?) para Terras de Santa Cruz, perigosos criminosos. Razão porque ainda há tantos crimes na Pindorana...

Já se passaram largas décadas (mais de cinquenta,) desde que desembarquei, pela primeira vez no Galeão; mas, ainda recordo:  deparar homens descalços, a trabalharem na baixa histórica do Rio; e admirei-me ver acasteladas e degradadas favelas, mirando, banhadas de sol escaldante, a turística e encantadora cidade.

Reparei igualmente, enquanto tomava as refeições, que a maioria dos comensais, utilizavam, apenas o garfo, e a mão esquerda caída ao longo do tronco.

Recordei-me disso, porque ao folhear: “Símbolos & Mitos" de Fidelino de Figueiredo, li, que seu filho ao visitar os Estados Unidos, verificou que os americanos se riam dele, da forma como comia.

 Escreveu Fidelino: " Nos Estados Unidos fazia-o rir aquela maneira de comer tudo com o garfo destramente manejado, enquanto o antebraço caia ao longo da cadeira. No mesmo instante, os ianques ririam dele, a comer com as duas mãos e os braços um pouco abertos, com os pulsos contra o rebordo da mesa. Uma vez surpreendeu dois criados negros a observá-lo com curiosidade por uma porta."

Certa ocasião, conversando com pastor luterano, que se deslocara aos USA, para angariar donativos, disse-me:

“Ao entrar em casa do empresário, encontrei a família descalça, estirada no chão, a ver TV.

“Contei-lhes ao que vinha. O chefe da família, sem se levantar, ergueu a voz:

- " Vai ao escritório. Na primeira gaveta da secretária, encontrarás dinheiro. Tira o combinado.

Ao abrir a gaveta verifiquei, estupefacto, que estava repleta de dinheiro!...

No Brasil e em Portugal – concluiu o pastor, – quem acreditaria na honradez de sacerdote, a ponto de deixá-lo mexer numa gaveta com milhares de dólares”!?...

Tomás Aquino, ainda menino, foi enganado por frade, com mentirinha inocente; troçando da inocência do rapazinho. Retrucou magoado, Aquino:

- " O que me admira, é que um frade minta!"

Na América, ainda há quem pense, que o sacerdote, que acredita em Deus e no Seu Filho, Jesus Cristo, não mente, nem rouba!...

O RESTO É HISTÓRIA


Por Roberto Minadeo (Brasília, DF)

            Essa frase se repete incansavelmente.

     É daquelas poucas que sempre possuem validade, desde que bem empregadas.

          Steve Jobs se associou a Steve Wozniack em uma garagem, com a visão de proporcionar um computador pessoal a “todos os trabalhadores do conhecimento”. Poderia ter dado errado. Mil problemas poderiam ter surgido e impedido que a Apple viesse a ser maior do que a IBM – algo impensável à época. A Apple superou a IBM. Estava preparada. O Resto é História.

          Um famosíssimo artista está em uma festa e convida uma jovem para dançar. Ela fica nervosa, diz que vai retocar a maquiagem e se demora por uns cinco minutos. Ao retornar, vê o cidadão iniciando uma infindável dança com outra jovem. A pobre que havia retocado sua maquiagem tão cuidadosamente soube que perdeu a oportunidade de sua vida. O resto é história: após a festa se iniciou um romance entre o artista – cada dia mais bem-sucedido – com aquela com quem dançou, e que viria a ser a sua esposa e mãe de um de filho seu.

          Havia certa vez um bom presidente da empresa, com bons resultados. Não era propriamente um gênio, mas estava na média. Um fulminante câncer o levou. Foi uma pena. Chegou-se a temer pelo futuro do negócio, pois ninguém havia previsto substitutos. Foi necessário improvisar. Entrou em cena um garoto que mexeu com tudo, revolucionou o negócio. O resto é história.

          O Palmeiras acreditou em um jovem talento de dezesseis anos, revelado em Brasília – que não é propriamente o coração do futebol brasileiro. Todos já adivinharam que se trata do Endrick. O investimento não foi elevado, todavia é o que se espera de um time: analisar jogadores desde que começam suas carreiras. Um contrato foi feito. Mil problemas poderiam ter ocorrido. O talento de Brasília poderia ter ficado timidamente oculto, escondido, camuflado lá na grande capital – que não se destaca propriamente por sua pujança esportiva. O menino deslanchou. Centenas de milhões de reais coroaram a visão de acreditar nesse talento. Esperamos vê-lo na Copa do Mundo fazendo sucesso. O resto é história.

 

A FILA ANDOU



Por Roberto Minadeo (Brasília, DF)

Em certa ocasião, me vi bloqueado em uma rua vazia por alguém que dirige muito devagar, mesmo sem sinais de trânsito ou outros carros. Devido à dificuldade de ultrapassá-lo, perdi uns três minutos a uma velocidade de tartaruga – durante os quais rememorei a frase que nomeia a presente crônica.

Ao conseguirmos matar um mosquito que nos inferniza a vida, é inevitável o desejo de gritarmos a plenos pulmões o título desta crônica.

Todos se recordam da afirmação: “— Os diamantes são eternos!” Cinismo dizer que apenas tais objetos brilhantes, raros e caros carreguem tal adjetivo. Existem tantas eternidades, mais ou menos valiosas, mais ou menos importantes – ao gosto do freguês.

Inúmeras situações virão a representar apenas uma parte do passado. Enfim, a “fila anda”.

Além de coisas que não se corrompem, quais diamantes, há outras nas quais o leitor investe. Constituem o futuro, avidamente esperado. Concluir o curso, obter um emprego, encontrar o amor esperado por toda uma vida.

Para investir em um curso é preciso deixar o passado de lado, é preciso abraçar algo. Sem cindir com o passado, sem romper as amarras, sem deixar que a fila ande, não se conseguem amores, casas ou cursos!

E o passado carrega tantas coisas que devem ser abandonadas! O tempo trancafiado em casa devido à pandemia, à espera de uma incerta vacina e aprendendo a trabalhar e a viver com mil e um aplicativos, sem vida social. Foi bom enquanto durou ou foi péssimo enquanto tivemos que aguentar! Nem saberia dizer como acabou. Mas acabou! Ufa! Felizmente, como tantas outras coisas que passam. A linguagem comum criou a rica e contundente expressão: “— A fila andou!”

Parece que estou sendo duro ou cínico ao invocar o título desta crônica. Nada disso. Burrice seria insistir em algo que não mais existe.

É a pedra de gelo no uísque – está lá para que se derreta ao tornar a bebida gelada, ninguém quer o gelo pelo gelo. O passado existe. Ficar preso a ele é um erro. É preciso aprender a conjugar os verbos desse tempo.

Qual o papel do passado? É parte da vida, é parte de nossa própria identidade.

O fusca foi o seu primeiro carro? Ótimo, parabéns, isso indica que décadas atrás você já estava motorizado, muito antes da maioria dos brasileiros. Portanto, você já era da classe média ou alta e que provavelmente o seu carro de hoje é mais moderno, econômico e seguro. Nem todos podem se dar ao luxo de colecionar carros antigos. Aquele saudoso carrinho é parte do seu passado!

As garagens são raras e de espaço limitado. Conservar o fusca tal como saiu da fábrica requer um investimento não desprezível e que se revela inútil para a imensa maioria das pessoas. Todos já tivemos notícias de mais de uma séria briga de família em relação ao início de coleções caras na qual o argumento decisivo foi: “— Ou isso aí ou eu; você vai precisar escolher!”

Talvez o seu médico tenha dito algo desagradável e que o fez xingá-lo com profunda raiva. Pode ter sido algo como parar de beber – que irá afetar sua forma de viver, eliminando o bar de sua vida. A saúde é importante, seguir o conselho médico ou não, é um problema seu – interceirizável e indelegável.

Algo é tranquilizador: a bebida é parte do passado para milhões de pessoas. Alguns dos bebedores mais contumazes se refugiaram nas ofertas zero álcool: pode-se dizer que não tem muita graça, mas o que passou já não volta mais.

O tempo é implacável. As coisas mudam de modo acelerado, prender-se ao ontem é hipotecar o presente e arriscar o futuro em nome de algo inútil. Afinal, os bons dividendos que o passado deveria ou poderia trazer já devem ter vindo e já devem ter sido reaplicados para facilitar as coisas no presente e atapetar o caminho que leva ao futuro.

 

LIDIA E JOANA: DUAS GUERREIRAS


 

  Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

      Joana D’Arc (1412-1431) é uma das pessoas mais estudadas da Idade Média. Camponesa, heroína e salvadora da França, ícone de liberdade e independência, destacou-se durante a Guerra dos Cem Anos.

      A adolescente Joana fiava lã, ajudava seu pai no plantio e nas colheitas, cuidava dos animais. Nutria o sentimento profundo de que os ingleses precisavam ser banidos do território francês. Corria uma lenda, uma profecia atribuída ao mago Merlin: uma virgem carregando um estandarte acabaria com o sofrimento da França. Joana entendeu que ela era essa donzela prometida. Começou a ter visões místicas: São Miguel Arcanjo apareceu no jardim de sua casa, ladeado por Margarida e Catarina, santas torturadas por suas crenças. Teria sido imaginação descontrolada? Alucinações? Transtorno mental? Fé exagerada? O fato é que, aos dezessete anos, Joana, escoltada por soldados, vestindo roupas masculinas, encontrou o Delfim Carlos VII e lhe disse que havia vindo para encerrar o cerco de Orleães e levá-lo a Reims para sua coroação: “- Senhor, vim conduzir seus exércitos à vitória e fazê-lo legítimo rei.” E lá se foi Joana à frente do exército, com armadura e espada, montada em seu cavalo. A sua forte personalidade levantou o ânimo dos soldados. Ela inspirava, insuflava, abençoava as tropas, aconselhava, instruía, atacava, posicionava a artilharia, assaltava, tomava fortalezas, regia ofensivas, alimentava o fervor patriótico do povo. Após sete dias de ação, a batalha terminou com um resultado favorável aos franceses. Orleães foi libertada, elevando a reputação de Joana. Mas Joana não parou. Nunca parou. Resolveu cercar Paris e ali fracassou. Sua popularidade despencou dentre a nobreza que desejava uma saída diplomática. Foi capturada, traída e entregue nas mãos do governo da Inglaterra. O julgamento pelo bispo Pierre Cauchon foi político, travestido de religioso.

Os ingleses viam a capacidade de uma jovem derrotar seus exércitos como prova de que estava possuída pelo Diabo. Joana não recuou diante do tribunal. Respondeu a todas as perguntas com controle emocional e prudência. Tentou fugir da cela tenebrosa. Pulou da janela de uma torre. Caiu no fosso do castelo. Foi presa em correntes até a sentença final: morte na fogueira. Seu corpo ardeu amarrado num poste revestido de gesso. As cinzas foram atiradas no rio Sena. Diante de seu martírio, a tristeza, a raiva e a indignação tomaram conta dos franceses. Somente vinte e dois anos depois, os ingleses foram expulsos da França.

      Lídia Baís (1900-1985), a pintora, desenhista, precursora das artes plásticas no Mato Grosso do Sul, pioneira à frente de seu tempo, identificou-se com Joana D’Arc. Pintou-a num afresco emblemático localizado na casa de sua família, à beira dos trilhos da Avenida Afonso Pena, hoje museu Morada dos Baís. Um autorretrato, seu próprio rosto no rosto da guerreira Joana. Símbolo de sua luta contra o conformismo e as opressões sociais. Lídia estudou pintura no Rio de Janeiro, com mestres como Osvaldo Teixeira e Henrique Bernardelli. Viajou pela Europa, Berlim e Paris, recebendo influências do expressionismo e do surrealismo. Perdulária e generosa, gastava sem medidas de sua fortuna pessoal até ser interditada pela família. Supostamente virgem, aos trinta e oito anos, aceitou casar-se com o advogado paulista Arthur Vasconcelos. Dizem que, na lua de mel, ele a deixou num quarto de hotel e foi jogar num cassino. Ela voltou à sua cidade. O casamento foi desfeito, anulado pelo Vaticano. Ela continuou pintando suas obras enigmáticas, ferindo os padrões estéticos da época e se dedicando a pesquisas filosóficas. Ingressou na Ordem Terceira de São Francisco adotando o nome de Irmã Trindade e passou a se vestir com o hábito marrom dos franciscanos. Faleceu de um tombo que a enfraqueceu. De um longo poema que escrevi, intitulado “Casarão dos Baís”, pinço este trecho:

 

Antes de ser abatido pelo trem,

Corro em direção a casarão,

Abro a porta,

Um raio de sol entra pelo vão.

Vejo Lídia no centro da sala,

Lídia moça,

De cabelos cacheados

Sob a boina,

Saia plissada,

Pele rosada,

Indiferente,

(Sou eu o fantasma)

Continua pintando

A imagem de uma mulher guerreira,

Joana D’Arc em seu cavalo.

 

      Joana e Lídia: duas guerreiras que sofreram ataques de inimigos reais e espirituais. Abriram brechas nos muros de seus castelos; saltaram de altas torres psíquicas; fizeram escolhas boas e fatídicas; receberam flechas incendiárias no peito; passaram por zombarias, tribunais, conspirações, falsidades, difamações, bombardeios. Brilharam embaixo de suas armaduras, no meio das batalhas.

NABUCODONOSOR



Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

Que personagem trágico foi Nabucodonosor (642 a.C.- 562 a. C.), rei e
governador do Império Babilônico. Um tirano que exerceu o poder de forma cruel, injusta e autoritária, colocando sua vontade e sua sede de vingança acima das leis. Demonstrou, com seus atos de ferro, desdém e indiferença ao sofrimento alheio. Perseguiu, censurou, cometeu excessos. Tudo com a frieza de um cérebro gangrenado. Levou o povo de Deus ao cativeiro, às dores do exílio; destruiu Jerusalém, o Templo de Salomão, algo extremamente devastador para o exercício livre da fé. Humilhou e oprimiu. Por outro lado, Nabucodonosor foi administrador eficiente, estrategista militar e amava a arquitetura. Os Jardins Suspensos da Babilônia, atual Iraque, foram uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. A “Porta de Ishtar”, dedicada à deusa arcádia Ishtar, era suntuosa. Toda decorada com dragões e touros dourados.
Nabucodonosor aprendeu duramente sobre humildade. Contemplando a beleza de seu reino, proferiu a frase: “Não é esta a grande Babilônia que eu construí?” Nesse momento, perdeu tudo. Enlouqueceu. A soberba conduz à queda. O seu sonho com uma gigantesca árvore derrubada tornou-se realidade. Ele perdeu a razão. Passou a viver como um boi, uma vaca. Andava de quatro, mugia, comia capim, num surto psicótico chamado “boantropia”. O fenômeno dos “therians” de hoje, pessoas que têm forte identificação com um animal, percebendo-se como um animal em um corpo humano, numa grave crise de identidade, remete a esse transtorno mental. Ao se afastarem da premissa de que somos feitos à imagem e semelhança de Deus, perdem a humanidade. Triste ver jovens se aproximando dos deuses zoomórficos, metade homem, metade animal. Nabucodonosor, depois desse sofrimento intenso, num momento de lucidez, proclamou a soberania de Deus, quebrou o orgulho e recuperou seu trono. Abraçou o arrependimento e a restauração. Pensando nessa história, escrevi:


Fui rei,
Tinha um palácio de ouro
E, modelados no alabastro,
Ídolos cegos e impassíveis;
Andei sobre jardins suspensos
À sombra de ciprestes,
Amoreiras,
Pistaceiras,
Entre desenhos recortados de zimbro e buxo;
Com sangue, meus escravos

Construíram imensa escadaria,
Rival do céu,
Pedestal de um deus
Que baixaria à terra
Com veste de púrpura;
Arrasei templos,
Arranquei vasos sagrados
Para neles beber vinho
Com minhas amantes;
Levei povos ao cativeiro,
Iam arrastados e lentos
Como fantasmas no deserto;
Sonhos me perseguiam:
Estátuas partidas,
Árvores desfolhadas,
Enigmas que nem magos,
Feiticeiros
E astrólogos decifravam;
Terá sido visão?
Homens no meio do fogo
Louvando seu Senhor?
Haveria poder maior que o meu?
Desde esse dia
Vivo pelo campo,
Pastando como boi,
O corpo recoberto de penas de águia,
As unhas crescidas como garras,
Só o orvalho molha minha febre
Enquanto deliro.

Que bela é a virtude da humildade. Base de todo edifício espiritual.
Reconhecer nossas limitações e fraquezas. É libertador termos consciência de que não somos superiores a ninguém. Largar a capa da ostentação e da empáfia pelas escadas. Respeitar o próximo. Sempre há algo a aprender com o outro. Ainda que a fascinante Babilônia continue a brilhar diante de nossos olhos, com seus tijolos de vidro azul.

 

NUNCA TE VI


Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

Já fui a um lugar distante chamado “Nunca te Vi”. É um bairro da cidade de Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. Uma zona de chácaras simples; primeiro assentamento de reforma agrária, da época de Getúlio Vargas. Casas de madeira afastadas umas das outras, em grandes terrenos com pomares, laranjais perfumados e pés de mandioca. A origem do nome remonta a meados do século XIX. Conta a lenda que um mascate turco atolou sua mula numa poça fumegante de lama, o “olho do boi”. Ao ser questionado se não tinha visto o perigo, respondeu: “Nunca te vi”.  Ali se encontram o monumento “Nhandipá”, palavra guarani que significa “nós chegamos ao fim”, que homenageia os mortos da Retirada da Laguna; uma igrejinha rústica de pedras brutas; lagoas azuis com cachoeiras.

Mais tarde, encantei-me pelo filme “Nunca te vi, sempre te amei” (1987). Esse clássico do cinema narra a amizade de vinte anos entre uma escritora americana, mal humorada e impulsiva, Helene e o gerente de livraria londrino, Frank Doel, um homem cortês, culto e discreto. A princípio, Helene solicita obras inglesas raras. Depois, durante o período de escassez do pós segunda guerra mundial, Helene envia mantimentos para Frank e sua equipe. As cartas, livros e encomendas atravessam os oceanos. Há carinho, solidariedade, respeito mútuo. Prova que a conexão humana está acima do contato físico. Após o falecimento de Frank, Helene visita a livraria. É um drama inspirador e aconchegante. Nunca te vi... sempre te amei.

As coisas que vemos são materiais, temporais. As invisíveis são eternas. Marcante o relato de Tomé, um dos apóstolos, que não estava presente na primeira aparição de Jesus e exigiu tocar nas feridas do Mestre para crer. Oito dias depois, Jesus apareceu e permitiu o toque, levando Tomé a confessar: “_Senhor meu, e Deus meu”. Tomé tornou-se símbolo da fé que precisa ver para crer. Das dúvidas e fraquezas que acompanham o ser humano. Mesmo as dúvidas podem nos levar a um relacionamento mais profundo com o espiritual. Não vi, não vi, mas sempre amei...

Esse valor da potência do invisível, daquilo que é chamado para se tornar visível, já estava lá, na Teoria das Ideias de Platão (428/427 a. C. -348/347 a. C.). É o núcleo central de sua filosofia: o mundo sensível, físico, mutável, percebido pelos sentidos e o mundo inteligível, imutável, acessível  apenas pela razão. Essência e Realidade. Pensamentos que geram formas. O mundo que habitamos é pálida cópia, reflexo de sombras. Há diferença profunda entre o ser e o parecer. Apalpamos meras carnes, superfícies e aparências. 

O céu é real. Não é local físico. É atuação divina que levará a um reino onde haverá paz, justiça e alegria. A sonhada plenitude. Um novo governo superior ao humano que se instalará no cosmos. Podemos senti-lo pulsar em nossos corações. Escrevi:

 

Lá perto da fronteira

Havia um lugar chamado “Nunca-te-vi”.

 

Nunca-te-vi...

Parecia que o passarinho mudara de canto

E agora, quando subisse na amoreira

Ou passasse rasante no telhado,

Deixaria recado muito mais sofrido:

“Nunca-te-vi...”

 

Nunca-te-vi...

Nunca

Nunca tem peso de eternidade,

Tem fatalidade de distância;

Nunca te vi

E, no entanto,

Isso que nunca vi

É a coisa mais importante da minha vida,

É minha essência,

É tudo que me falta.

 

Nunca-te-vi...

Ai, mundão de Deus!

Cheio de mato crespo,

De porteiras rangentes,

De garças longilíneas,

De bois opacos

Balançando as papadas.

 

Conheço tanto mistérios

Que já fui num lugar

Chamado “Nunca-te-vi”.

A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 










A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 








A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 










AL POETA MUERTO DE LA INVISIBILIDAD

 Por Dimitris P. Kraniotis (Larissa, Grécia)



Tradução de António Moreno Jurado

Enviado por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)

RELACIONAMENTO PERFEITO

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Um perfeito amor.

Onde tem mel e flor.

Suas raízes são antigas.

Um relacionamento perfeito.

Sem brigas e desesperos.

 

É assim que funciona:

Quem manda é a mulher.

Que obedece é o amado.

A última palavra vem é da mulher.

 

Assim vocês durarão.

até a morte.

Não haverá brigas.

Nem dissentimentos.

Essa é uma bela cena.

 

Relacionamento perfeito.

Existe para quem quer amar.

A amada com uma só

voz manda no seu amado.

Relacionamento perfeito.

 

INSTAGRAM: @liecifranborgesmartins

UM CASAMENTO PERFEITO

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Um casamento perfeito.

Sem brigas e desesperos.

Para assim no amor florir.

Isso gera mais amor.

Acende a paixão apagada.

 

Cansei de brigar.

Discutir sem parar.

É a vida nossa não mudar.

É por isso que só o amor

não basta para nós.

 

Um casamento perfeito

eu quero para mim.

Vamos nos amar nas

mesmas ideologias.

A perfeição do amor é nós que domina.

 

Vem me incendiar a

perfeição está no ar.

Basta nos amar e

fazer o amor acontecer.

Perfeitos vamos ser.

AQUEL CIRUELO

 Por Antonio Las Heras (Argentina)


(enviado por Germain Droogenbroot, Altea, Espanha)



MAIS UMA VEZ CLARISSE CRISTAL



Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)


Dá-me a tua delicada mão!

 Vamos juntos...

Vagar pelo infinito.

Vem, luz da minha vida!

Quero me perder...

Nos teus olhos verdes infindos!

Mergulhar nos teus trigais cabelos.

 

A nova Clarisse Cristal reapareceu repaginada na livraria e editora independente. O corte curto e o tom vermelho-pitanga nos cabelos davam um adeus definitivo ao longo preto perolado e reluzente. Um pequeno piercing de rubi, em formato de coração, ornamentava a sobrancelha direita, enquanto a enorme tatuagem de um dragão cuspindo fogo, que nascia no ombro esquerdo e serpenteava até o fim do antebraço, ainda exibia a proteção do plástico-filme. A pesada maquiagem noturna desapareceu por completo, substituída por um visual leve, diurno e solar. O pesado sobretudo preto godê de inverno ficou sabe-se lá onde; a peça havia se perdido no tempo e no espaço durante aquela breve digressão aventureira de Clarisse pelo mundo desconhecido da realidade liquefeita.

Contudo, as vestes escuras como a noite mais negra ainda reinavam soberanas no corpo da jovial bibliotecária, embora essas peças também estivessem com os dias contados. O fato de sair e voltar horas depois pela porta da frente, em plena luz do dia, com um sorriso radiante e um brilho provocativo no olhar, denunciava mudanças profundas, drásticas e permanentes. Em suma, Clarisse Cristal, a soturna bibliotecária, era uma típica criatura da noite que decidira invadir e experimentar os sabores radiantes de viver o dia em uma cidade de veraneio. Ela voltara ao ponto de partida, o seu sagrado local de trabalho, com um firme propósito: descobrir o destino do livro A Cinzas das Horas.

— Desculpem-me, minhas mais que queridas crianças perdidas ao leste do Éden! Meus pequenos arcanjos, querubins, querubinas, gnomos e fadas, mas demorei um pouco mais para retornar do meu desjejum matinal no Café Ivory Tower!

A voz alta e estridente de Clarisse ecoou por todo o ambiente requintado. Ela falou como se ensaiasse uma peça de teatro bufa. Os funcionários e os poucos clientes da livraria pararam para olhar a figura estática na porta. Passado o susto inicial, todos voltaram ao que faziam, sem expressar real surpresa. A senhora idosa que servia o café, vestida com elegância, prosseguiu sua lenta marcha rumo à copa. O operador da máquina fotostática abaixou a cabeça e voltou a tirar cópias de forma mecânica e sonolenta, como sempre fazia. Uma professora universitária de literatura comparada, frequentadora habitual, de cabelos curtos cor de caramelo, tailleur salmão, óculos fundo de garrafa e sorriso de Mona Lisa, processou a cena atípica e pensou em usar aquele monólogo sintético e teatral em suas aulas. Um entregador, com a sua surrada jaqueta de couro e o capacete que já vira dias melhores sob o braço esquerdo, deixou um envelope pardo no balcão da fotocopiadora, olhou profundamente para Clarisse e apressou o passo para ir embora sem olhar para trás. Havia mais envelopes para entregar.

Os demais funcionários e fregueses, afastados da entrada, perderam o ato inicial daquela peça teatral mambembe. O afetado gerente, com seu paletó impecável azul-celeste e uma flor vermelha carmesim artificial na lapela, estava ocupado demais no escritório do piso superior recebendo vendedores e analisando catálogos. Os três vendedores da loja, dignos representantes do varejo livreiro, bem como os estagiários que só trabalhavam pela manhã, perderam o espetáculo matutino. Mais ninguém ali presenciou a cena tragicômica atípica.

Clarisse divisou, a poucos metros de distância, a sua colega de trabalho, Anna Victória. A vendedora sênior exibia um sorriso largo enquanto atendia um garboso e austero casal diante do balcão de embrulhos. Uma jovem balconista, de costas e curvada, ignorava o redor enquanto tateava os compartimentos inferiores da estante de fitas e papéis.

Os olhos vivos de Clarisse se detiveram no casal. A mulher, uma jovem senhora de meia-idade, tinha a pele alvíssima, cabelos louros e curtos, seios fartos e olhos verdes. Uma pequena tatuagem verde-escura repousava em seu pulso esquerdo, ladeada por duas estrelas menores de cinco pontas; aproximando-se um pouco, Clarisse leu o nome manuscrito em itálico: Agnes. Trajava um blazer azul-oceano de corte arredondado com decote em V, mangas três-quartos com pequenas fendas nos punhos e fechamento de três botões, além de uma saia de cós largo com pregas frontais e zíper lateral. Uma delicada e pequena flor branca pregada entre o ombro e o coração quebrava a formalidade do traje. A bolsa a tira cola, os saltos altos e brincos de grife e o sofisticado colar exclusivo eram as peças que davam contam que ela não era uma qualquer.

Pela postura, pelo perfume discreto e pela maquiagem carregada demais para uma executiva, Clarisse deduziu que se tratava de uma estudante estrangeira de pós-graduação, provavelmente graduada em Letras ou belas-artes. Também não lhe passaram despercebidos as olheiras da mulher e o olhar vazio, perdido no nada, direcionado ao homem ao seu lado. O parceiro era um senhor de idade indefinida, de pele negra retinta que brilhava sob a luz, rosto escanhoado e cabelo cortado à moda militar. Trajava um clássico paletó azul-escuro bem cortado, calça da mesma cor, colete e sapatos Oxford pretos de legítimo couro de crocodilo. Clarisse logo concluiu que era outro estrangeiro, um africano, afro-europeu ou afro-caribenho, possivelmente um renomado professor doutor visitante ou um importante adido cultural. O homem era só sorrisos ao ver o pacote passar das mãos da balconista para a promotora sênior.

— Mais uma boa venda, estimadinha do meu coração? — disparou Clarisse, a voz carregada de uma forte dose de ironia direcionada à vendedora sênior de livros estrangeiros.

Era senso comum na livraria, que Anna Victória pouco entendia de literatura, em qualquer ramificação das belas-letras ou da literatura popular. No máximo, lia preguiçosamente as orelhas e os prefácios dos títulos que pretendia empurrar, folheava revistas de moda literária esquecidas nos balcões ou fazia buscas rápidas e superficiais na internet quando o calo apertava. Ainda assim, ali estava ela, atendendo o casal elegante como se fosse uma exímia especialista em clássicos modernos e pós-modernos do mundo literário. Clarisse logo calculou que o livro em questão era justamente A Cinzas das Horas.

"E qual o motivo de a Anna Victória atendê-los pessoalmente e não eu, a especialista em análise e restauro de livros raros?", pensou Clarisse naquela hora derradeira.

A resposta veio rápido: o homem falava em francês com Anna Victória. O requintado cavalheiro estrangeiro dominava o idioma com a elegância de um diplomata de primeira linha, evocando o sotaque típico de um frequentador do hotel Park Hyatt Vendôme de Paris. Anna Victória, por sua vez, respondia em um francês sofrível e medíocre, com o sotaque latino-americano de quem aprendera a língua em um intercâmbio de classe média baixa no Canadá. Quando a empacotadora finalmente encontrou o que procurava e finalizou o embrulho, passou o pacote para Anna. A empacotadora olhou para Clarisse, como se pedisse desculpas por algum ato falho de uma subalterna.

O homem negro tomou o livro das mãos dela de forma abrupta, mas cortês. Agradeceu a ambas e, eufórico, mostrou a peça para a acompanhante, falando em português luso. A loira deu um sorriso amarelo, que ele ignorou antes de se voltar novamente para Anna Victória.  O estrangeiro entregou um cartão magnético e disparou instruções em um ríspido e rápido português europeu. Anna, por sua vez, repassou as ordens para a balconista em um português sul-americano rasteiro, reproduzindo pausadamente o que o homem acabara de ditar.

Uma chama acendeu dentro de Clarisse Cristal. Foi intenso. Nenhum dos quatro, a poucos metros de distância, havia prestado atenção nela. Ser ignorada era tudo o que Clarisse não queria àquela altura; ela queria mais, queria tudo o que a vida pudesse dar, o bônus e o ônus. Queria ir além do bem e do mal.

Em um segundo ato teatral bufo, Clarisse bateu palmas bem alto, estalando o som pelo ambiente e capturando a atenção do quarteto e de toda a audiência da livraria. O homem negro soltou uma risada farta, num misto de latinidade e africanidade, enquanto os demais permaneciam sem reação. Delicadamente, ele desembrulhou a peça e entregou o livro à acompanhante.

— Sim, opa! Uma excelente venda, fez a vossa amiga, ó miúda! E não poderia ser outra coisa. Bem sei o quanto procurei esta peça única, esta obra de arte na língua de Camões e Pessoa. E sei também, ó raios, que quem restaurou a obra fez um excelente trabalho. Já ia pedir à rapariga aqui ao lado que me apresentasse o artista da restauração...

— O artista? Não mesmo, meu bom senhor gringo! — interrompeu Clarisse, dando alguns passos à frente e erguendo a mão direita. — Fui eu mesma, professor, quem restaurou o livro que está em suas digníssimas mãos! Este tributo à língua de Camões e Fernando.

O homem estrangeiro se aproximou de Clarisse com passos firmes e estendeu a mão. O aperto de mãos foi firma! Ambos sabiam, naquele instante, que eram dois mundos se chocando ao sabor do destino. Dois iguais em essência, dois amantes de literatura em belas-letras, que se reconheciam em trajetórias diferentes. Eles se mediram naquele momento extremo, cientes de que aquele encontro era apenas o primeiro de muitos. De fato, muitas coisas estavam por vir — para ambos, e para além do bem e do mal.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de Samuel da Costa, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 








TESSITURAS ASTRAIS (RÉQUIEM AETERNAM)



                                         Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Na solidão da noite, nada nos restou

Somente este mistério instigante

Amarra-me ao teu corpo despido

Hoje sou a vítima das tuas eloquências

Sombrio! Tu apeteces das minhas nudes...

***

Alva! Do que realmente me apetece

Na negra nebulosa noite sem fim

O que acomete abissalmente 

É ter a voraz fome

E a insaciável sede de ti

Dos divinais celestes

 Toques teus

A beira do álgido abismo alvaresiano  

***

Conduz-me aos mistérios complexos

Leva-me a heresia, acalma o meu sexo

Já não existe palidez no meu corpo

Nem dor que afligia meu coração...

***

Alva! Se se entregue por complexo

E somente para mim

E mais ninguém 

Alva! Ousamos nos amar

Antes que o mundo acabe

***

A tua sedenta língua passei

Pelo meu corpo celeste infindo.

Como serpente pecaminosa que sou.

O teu fruto proibido

Na solidão da noite, insana,

Sou somente tua

***

Alva! Quero a tua boca faminta

A explorar o labiríntico

 Corpo incorpóreo meu

***

Beije com audácia, suga meus seios

Com prazer. Hoje, espero, me aqueça

Faça-me refém dos teus delírios…..!

 

Fragmento do livro: Duetos poéticos Sul-Sudeste. Texto e argumento de Fabiane Braga Lima, novelista, poetisa e contista em Rio Claro, São Paulo.

Texto e revisão de Samuel da Costa, novelista, poeta e contista em Itajaí, Santa Catarina.