segunda-feira, 1 de junho de 2026

SOB A SOMBRA DA ÁRVORE YGGDRASIL

 


Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

De longe, Elias Grael parecia viver com a cabeça nas brancas nuvens. Isto para um desavisado qualquer, era assim que o pequeno comerciante passava os seus dias e as suas noites na praça dos cachorros, em frente ao porto: flanando, alienado do que ocorria ao seu redor. A memória eidética do dono do trailer de cachorro-quente, no entanto, contava outra história. Mattos Gama era um dos poucos que sabiam do dom inusitado do proprietário.

O detetive Mattos Gama ia até Elias por vários motivos. Um deles era fugir da cozinha sofisticada de Sofia, a sua amada esposa. Outro era colher nacos de informações e rumores que corriam nos subterrâneos do submundo local, do crime organizado na cidade portuária. O terceiro era contemplar o mutismo, bem comum a um sábio de idade avançada, que em poucas palavras, gestos ou olhares dizia muito. No caso de Elias, eram qualificações demais para um mero vendedor ambulante. Assim pensava o detetive Mattos Gama da polícia civil.

— Elias, meu bom e velho amigo, quero saber quais são os segredos do teu molho ao vinagrete, para ser tão bom! — disse o policial, apoiando as mãos sobre o frio balcão de aço inox do trailer.

— Não mesmo! Não repasso o meu segredo bem guardado, que recebi da minha falecida mãe, que por sua vez o recebeu da saudosa mãe dela. Também faço isto por causa da Sofia, meu bom e jovem amigo. Nem a conheço pessoalmente, mas sei da luta da mulher para te prender pelo estômago, como toda boa esposa deve fazer. E ela o faz muito bem, aliás meu bom amigo! — Elias tinha acabado de passar o cachorro-quente para um freguês ocasional. O merceeiro estava falante e com um elevado bom humor naquela noite fria de outono.

— Ainda fico abismado com as tuas tiradas, amigo velho. Como sabe que a minha amada Sofia cozinha bem? Anda me fazendo umas visitinhas quando não estou em casa, por acaso? — fez troça o policial civil.

Elias ficou um tempo parado, olhando para Mattos Gama com profundidade. Parecia que o estava medindo por inteiro, escolhendo as palavras certas para responder à pergunta fatídica. Para Elias, aquele homem parado bem na sua frente era um mistério em si, mas o merceeiro se divertia com os joguinhos infantis que o policial vivia fazendo.

— Simples, meu bom amigo e bom freguês: a vossa cintura não nega, cresce sem parar, dia a dia! — respondeu o merceeiro de ascendência hispânica.

O policial civil lembrou-se que, quando lhe perguntavam de onde ele era, Elias dizia que as famílias materna e paterna eram oriundas de La Gran España, de gente guapa que cruzava o oceano Atlântico, indo e vindo da velha Espanha para a América espanhola, ao longo do tempo. E ele, Elias Grael, ao contrário de seus antepassados, havia se alojado na América portuguesa porque não gostava de sofrer as andanças, as desventuras e as aventuras mambembes dos familiares, em terras de línguas espanhola.

— Tens coragem, meu amigo! Pois se ela soubesse que tu andas falando de mim assim, ia me mandar te prender! E me mandar fazer academia depois. Como não te quero ver preso e nem puxar ferro em um lugar cheio de gente suada, a nossa conversa nasce e morre aqui — devolveu Mattos Gama, rindo.

Ambos riram muito, como se fossem crianças travessas em dia feliz primaveril, chamando a atenção dos transeuntes que passavam ao largo. Elias deu as costas para o policial civil, buscou o azeite de oliva e o colocou na fritadeira elétrica. O alarme interno do já calejado policial civil disparou naquela hora.

— Outro mistério, Elias? Como tu bem sabes que o tenente Bastos adora este prato? Ele raramente vem aqui! — disse, alarmado, o policial civil.

— Sei que é da tua profissão, mas tu fazes perguntas demais, meu bom amigo. Eu sento de longe o cheiro da colônia barata que ele gosta de usar. É o mesmo que usam os brutamontes quando não estão fardados; ficam assim mais humanos, e é por isso que vou fazer o que ele mais gosta de comer — falou o merceeiro, enfático.

— Como tu sabes que ele não está de serviço hoje? — perguntou Mattos Gama, curioso.

— Mais uma pergunta? Que coisa! Olha, meu bom amigo detetive, às vezes se extraem confissões dos piores facínoras fazendo simples colocações. Mas é bom o amigo ir até a mesa de costume, pois o teu primo policial militar não demora a vir por aí. Deixa que eu o sirvo quando ele chegar — respondeu Elias, esquivando-se à moda de um político experiente.

— Um dia desses, vou trocar um bom e longo papo contigo, lá na minha delegacia, amigo merceeiro. Um bom e longo papo amigável — falou Mattos Gama, com um tom cínico.

— Isto é uma ameaça velada, meu bom amigo policial? — falou Elias de forma hirta, sem olhar para trás, enquanto untava a frigideira.

— Que nada! É um convite amigável para tomarmos juntos um bom café estatal mal passado. Não me arrisco a ficar sem as minhas fugas dos fogões sofisticados da minha amada Sofia. Eu não ouso te tirar a vossa liberdade. Não vou nem pedir, pois creio que a minha lata supergelada de refrigerante de lima-limão já deve estar ao alcance da tua mão.

Elias colocou, de fato, na bandeja de vime a lata gelada de refrigerante de lima-limão, junto com um copo de uísque com duas pedras de gelo. O merceeiro se virou, andou e pegou a bandeja que estava debaixo do balcão, fora do alcance dos clientes.

O detetive pegou a pequena bandeja e partiu para a cadeira, não muito longe do pequeno trailer. Mattos Gama calculou que teria poucos minutos para ficar sozinho e refletir. Não tardaria muito a chegada do tenente Bastos, que morava em um apartamento funcional a poucos metros dali. O policial civil puxou da memória como a praça era antes do dia fatídico da mais que estranhíssima morte do marginal de baixo escalão, Otto Kürten Wagner Van Petter. Como tudo mudou naquele lugar, outrora sombrio e nada convidativo! Agora irradiava luz e paz; a fauna e a flora do submundo do crime, que estavam em cada canto escuro do lugar, agora ficavam bem longe dali.

Naquela noite as inocentes crianças, acompanhadas de seus jovens pais e avós felizes, brincavam alegremente no parquinho. Vorazes morcegos em sobrevoo atrás de insetos nas copas das árvores deram lugar a aves noturnas mais amenas. Decrépitos cães caramelos de rua deram lugar a cães de raça e vira-latas bem cuidados, que guiavam casais naquele começo de noite outonal. Namorados caminhavam tranquilamente, de mãos dadas, não muito longe de Mattos Gama.

Mas um casal chamou a atenção do policial civil. Por mais mente aberta que tivesse, achou aquilo inconcebível àquela hora e naquele lugar: duas mulheres que se beijavam lascivamente. Uma era uma mulher indo para a meia-idade, loira, de cabelos curtos, vestida como uma professora universitária. O policial esticou o olhar e leu o nome tatuado no braço da jovem senhora: Agnes. A outra era a antítese: no começo da vida adulta, usava roupas leves e coloridas, mantendo solto o cabelo longo e negro, que reluzia. De fato, não transpareciam amor ou mesmo paixão, e sim o mais despudorado desejo carnal, puro e simples. Mattos Gama também notou que as pessoas em volta pareciam não se importar com a cena descabida; mais que isso, pareciam ignorar a existência de ambas. Era como se elas não existissem.

O policial civil voltou a si, para as coisas mais práticas e prementes: o amigo e primo, o policial militar Bastos, estava para chegar, e provavelmente ia demorar um pouco mais por causa da esposa, Sumiko Yamaguchi. Ela era como uma flor rara e delicada nascida no Extremo Oriente, que necessita de cuidados mais que especiais, para além das pressas, das imperfeições e das improvisações do Ocidente.

Indo para além das coisas práticas, Mattos Gama teve que buscar um longínquo elemento remissivo para se localizar naquele momento exato. Foi encontrar a resposta nas lendas do folclore escandinavo, na mitologia nórdica dos Ascomani do frio norte europeu: na Bifrost, a ponte que estabelecia a ligação entre o domínio dos deuses e o domínio dos mortais, entre os reinos de Asgard e Midgard. A ponte arco-íris e seu guardião, Heimdall. Naquele momento, era o vendeiro Elias Grael o único elemento intacto e presente, um elo de ligação entre o passado sombrio da praça dos cachorros e os floridos e amenos dias atuais. O dono do trailer era o próprio Heimdall encarnado na alusão fantástica do policial civil, por mais estapafúrdia que fosse a ideia. As duas mulheres desconhecidas, que se beijavam se comportavam como se vivessem em outra dimensão, muito distante em tempo e espaço. Pareciam, no imaginário de Mattos Gama, ter atravessado a ponte arco-íris somente para afrontá-lo e assombrá-lo. Quando ele fixou um olhar mais atento nelas, percebeu que as duas tinham desaparecido por completo, como se jamais tivessem existido.

— Me atrasei muito, Gilberto? — O enorme policial militar estava atrás de Mattos Gama quando proferiu a pergunta. Adiantou-se e sentou-se diante do amigo.

— Claro que não, Jorge! Mas imagino a tua preocupação. A delicada flor do Extremo Oriente deve ter-te dado aqueles chás digestivos para tomar, pois ela sabe que tu vais comer porcarias ocidentais na rua. Pelo que vejo, a senhora Yamaguchi andou riscando os teus enormes braços de novo! — disse Gilberto Mattos Gama.

Os longos e musculosos braços de Jorge Bastos eram todos fechados com o Horimono, o estilo tradicional japonês de tatuagem. Gilberto Mattos Gama notou o inchaço no antebraço esquerdo do primo. Era uma tatuagem recente de um dragão que serpenteava o membro do policial militar. A ágil biqueira de aço de Sumiko trabalhara ali, delicadamente, por umas duas horas ou mais, calculou Gilberto.

— Acomoda-te direito aí, homem de Deus! Ainda não sei como tu te submetes a essas torturas orientais dessa mulher. Tu deves amar muito a tua esposa. Olha que ela tem a metade da tua altura, esse vaso de porcelana japonesa! Ela te dobra direitinho, meu estimado primo!

— Da minha mulher cuido eu, meu parceiro! — disse o policial militar, recompondo-se na cadeira abruptamente. — E eu nem sei como tu sobrevives com a Sofia naquele frio cemitério europeu pós-modernista e sem graça. Chego a ter pesadelos horríveis com a decoração Bauhaus correndo atrás de mim. Mas chega de conversa fútil sobre decoração e vamos em frente. Temos assuntos mais graves para resolver.

— Concordo! Vamos ao que interessa! — falou Mattos Gama.

— Mas antes! — Jorge virou o dorso e levantou a mão direita.

E lá estava Elias atrás dele. O merceeiro trazia uma bandeja nas mãos com o pedido exato que o policial militar iria fazer: uma pequena tina oriental com uma porção de batatas fritas, um copo médio de cristal com refrigerante mate e duas pedras de gelo, e um segundo copo com uísque sem gelo.

— Chegou o nosso Heimdall trazendo o nosso delicioso hidromel! — falou de forma solene Gilberto Mattos Gama.

— Bruxo! Como tu sabias o que eu ia pedir? — disse Jorge, o policial militar, encarando o velho.

— Simplesmente coma, beba e, acima de tudo, aproveite a viagem, pois a vida é curta — curta demais, aliás — disse Grael, que tirou cada item da bandeja de forma solene e depois se retirou silenciosamente, como um velho mordomo de uma enorme mansão do século XIX.

— Parei de tentar entender o Grael faz tempo, Jorge. Não fiques olhando para o relógio; aqui ele não funciona. Aliás, nenhum funciona de fato aqui! — falou Gilberto.

— Então vamos logo começar. A pauta não era esta, mas vamos começar. Ainda não compreendo o porquê de nada funcionar aqui. Nada elétrico, mecânico ou eletrônico funciona nesta praça dos infernos — disse Jorge, olhando para cima, para a iluminação pública. — Somente estas lâmpadas funcionam. E não vejo nenhum inseto em volta delas.

— O primeiro ponto nulo no céu, meu caro. O marco zero, dizem. O obscuro Otto Kürten Wagner Van Petter foi a primeira vítima fatal destes pulsos magnéticos. — Gilberto levou a mão direita ao queixo barbudo, como um velho sábio que procurava o que dizer, e então veio a resposta em um instante: — Vamos sair daqui, Jorge. Vamos lá para a minha casa, sinto arrepios neste lugar! — sugeriu Gilberto.

— Mas tu nunca fazes reuniões de trabalho na tua casa, estimado! — ponderou Jorge.

— A Sofia não está em casa, saiu com as meninas. Foram ver a minha estimada sogra, que anda um pouco doente. Vou me juntar a elas amanhã, ao cair da noite! — disse Gilberto.

— Aposto que tu vieste caminhando da tua casa até aqui. Não respondas. Como também não posso perguntar como o táxi, que vem chegando logo ali, veio nos servir sem que a gente o peça. O teu amigo Heimdall é mesmo o máximo, um dia descubro qual é a desse cara! — disse Jorge, o policial militar, calculando que o merceeiro tinha pedido o carro de aluguel. Ele costumava fazer isso para os clientes, chamando os carros pelo celular, pois somente o aparelho dele parecia ignorar a anomalia magnética naquele lugar.

— Chega destas inutilidades! Vamos embora, o tempo urge! — disse Gilberto.

E foram até o trailer de Grael pagar a conta. Os policiais sacaram os seus respectivos cartões magnéticos, pagaram sem problemas e não cansavam de estranhar como a única coisa eletrônica que operava ali era o sistema de comércio de Grael. Depois foram até o táxi que estava estacionado a poucos metros da praça, esperando por eles. Gilberto Mattos Gama sentiu um alívio ao evadir da praça e dos olhos famintos de Elias Grael. O policial civil tinha a estranha impressão de que mil olhos digitais funestos o vigiavam quando estava na presença do velho merceeiro da praça.

Não por menos, Jorge Bastos estava com o alarme ligado ao máximo quando saía ladeado pelo primo. Ele ainda tinha muitas dúvidas a respeito do que realmente aconteceu — e que ainda acontece — na praça, e a ligação disso com o merceeiro ambulante. Outra coisa que o policial militar não entendia eram as longas caminhadas do primo, sempre desarmado. Um sentimento também tomava conta do militar: algumas das dúvidas iriam se dissipar naquela mesma noite.

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.

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