segunda-feira, 1 de junho de 2026

CLARISSE CRISTAL NA REALIDADE LIQUEFEITA

 


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

O que são os outros?

Nada mais que um mero detalhe,

Alheio a nós mesmos,

Às nossas existências liquefeitas!

 

Parada diante do estúdio de tatuagens, na Avenida Atlântica — tendo ao fundo o barulho das ondas que quebravam na orla da praia —, Clarisse Cristal tomou fôlego por alguns segundos. Então decidiu entrar! Os medos, as dúvidas e os receios agora eram resquícios de um passado sombrio e remoto que se desvanecia no clarão daquele dia outonal. O temor eviterno de sentir as dores e carregar as marcas indeléveis, no corpo e na alma, já não existia.

— Tu vais ficar aí parada por muito tempo, guria? Espantando a minha querida e fiel clientela! — A voz fluiu melodiosa, flanando pelo ar apesar do tom grave. As palavras proferidas do interior do estúdio, atingiram a bibliotecária em cheio, trazendo-a para a hirta realidade.

Clarisse Cristal adentrou a antessala com firmeza e sentiu uma estranha nostalgia percorrer-lhe o corpo ao ser tragada pela penumbra do ambiente. Esqueceu-se por completo do celular de último modelo, presente da mãe no aniversário recente da filha. O aparelho moderno agora jazia em mil pedaços em algum ponto da movimentada Avenida do Estado. A culpa, de fato, não fora da jovem bibliotecária; o dispositivo vibrara e tocara alto, cada vez mais alto, assim que ela saíra de forma intempestiva da livraria e editora independente onde trabalhava.

Clarisse logo calculou o melodrama barato em que fora envolvida de forma involuntária: a companheira de trabalho, Anna Victória, vendedora sênior da livraria, ligando em prantos para a própria mãe, seguida por uma breve conversa chorosa, ríspida e rápida entre ambas. Na sequência, a mãe de Anna Victória ligaria para a mãe de Clarisse, que por sua vez ligaria fula da vida para a filhotinha rebelde. Ao olhar para a tela do telemóvel e ler com melancolia o nome da progenitora — que quase nunca ligava para ela —, Clarisse pôs fim ao teatro bufo. Espatifou o aparelho eletrônico no asfalto da rua apoplética, com força, sem sequer atender. O círculo tragicômico quebrou-se com o impacto do dispositivo contra o chão, destruindo a engrenagem da opereta barata. A bibliotecária calculou que a sua mãe e a de Anna Victória provavelmente eram amigas de academia e de salão de beleza — ou de qualquer outro reduto fútil que ambas frequentam, onde as fofocas e conversas trivialidades rolam soltas entre risinhos e mãos na boca.

Ao passar por um curto corredor estreito e escuro, Clarisse deparou-se com o salão principal: amplo, moderno e bem iluminado. O ambiente dividia-se por nichos de formados por biombos de bambu que davam um tom oriental ao lugar, criando miniestúdios integrados por portas frontais e laterais. Ao fundo, destacava-se uma grande lousa digital cercada por uma horda de cavaletes de madeira de Palo Santo, de vários tamanhos. À frente deles, duas longas bancadas de vidro verde-fosco temperado exibiam notebooks, pendrives, canetas touch de modelos e cores variadas, cartões de memória e HDs externos de capacidades e marcas diversas, além de tablets de múltiplos modelos, eram aparelhos recém lançados no mercado. Alinhavam-se também câmeras digitais e analógicas, estojos de lápis aquarelável Supracolor, latas de spray, pincéis de várias marcas e quadros inacabados de diferentes movimentos artísticos. Era uma algaravia pós-modernista, milimetricamente organizada. Ali funcionava uma estranha simbiose entre ateliê de belas artes e estúdio de tatuagem, deduziu Clarisse em uma leitura fria. Naquele espaço a nostalgia analógica convivia bem com a avalanche digital na pôs-modernidade fluida.

— Então! O que te traz ao meu humilde comércio? — perguntou a responsável pelo lugar, surgindo do nada. A abordagem foi afável, como a de uma vendedora bem treinada de uma loja de varejo num bairro popular distante.

Clarisse examinou a moça de cima a baixo com curiosidade. Já vira figuras assim antes em revistas, programas televisivos, livros ou vagando aos bandos pelas ruas e vielas da cidade-balneário. A silhueta andrógina postava-se afrontosa diante da bibliotecária: alta, pele amendoada, olhos rasgados e castanhos brilhantes. Longos cabelos lisos, negros e reluzentes, que passavam da cintura, contrastavam com a camiseta regata preta como carvão, sem estampas. Esmalte escuro cintilava nas unhas curtas e bem-feitas. Vestia uma calça preta, larga e exclusiva, e tênis personalizado da moda, trajes típicos de um skatista profissional de uma cidade interiorana patrocinado por uma loja de artigos esportivos local. Parecia estar na casa dos vinte anos. Contudo, a voz melodiosa, o gloss labial rosa cintilante, a pele sedosa e o sorriso delicado a denunciavam, em definitivo, como mulher. O fato de corpo da mulher, visivelmente não possuir tatuagem alguma ou mesmo não haver ali piercing, brincos ou mesmo anéis. Para uma possível tatuadora e dona de um estúdio de tatuagem a bibliotecária achou estranho. 

— Quero fazer uns riscos e furar as orelhas, minha querida. Só isso. Um tanto óbvio, não? Tu aceitas cartão? Ou queres dinheiro vivo? — Clarisse Cristal riu sozinha da própria tentativa patética de soar espontânea. Clarisse voltou-se para a parede direita e leu em voz alta, de forma imponente, a frase pintada com fontes manuscritas e cores distintas: — "O que são os outros? Nada mais que um mero detalhe, alheio a nós mesmos, às nossas existências liquefeitas!" Texto longo... Coisa de marqueteiro medíocre metido a poeta frustrado, me parece. Qual é a tua graça, afinal de contas? — disparou a bibliotecária, em tom desafiador.

— Podes me chamar de Cris...

— Já sei: "a sua humilde criada, pronta para lhe servir!" — cortou Clarisse, com empáfia.

— Mais ou menos isto. Começa a falar logo, menina, seja específica. O que queres de facto? O que pensas em fazer neste corpinho lindo de fada gótica alquebrada que Deus te deu? — rebateu Cris, descontraída.

— Quero uma grande tatuagem tribal de dragão no braço direito, um piercing na sobrancelha e outro no umbigo — determinou a bibliotecária, com firmeza.

Cris soltou uma risada teatral e longa; Clarisse a acompanhou. O riso compartilhado das duas mulheres estendeu-se por quase um minuto. Cris caminhou até a entrada, virou a placa da porta de "aberto" para "fechado" e fez uma chamada rápida ao telefone fixo do balcão. Levou a mão ao bolso, tirou o celular dali e o desligou; em seguida, fez o mesmo com o tablet que estava sobre a bancada. Virando-se para Clarisse Cristal, apontou para um grande biombo de bambu — o ateliê particular da tatuadora, intuiu a bibliotecária.

Clarisse sorriu ao ver a cena que se desenrolou. Estava encantada por ter, finalmente, um momento só seu, mesmo que fosse um instante roubado — um instante caótico e recoberto de infinitos mistérios, bem longe da segurança mais que tranquila e rotineira de sua torre de marfim, no terceiro piso da livraria e editora independente.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de Samuel da Costa, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

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