Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
O que são os outros?
Nada mais que um mero detalhe,
Alheio a nós mesmos,
Às nossas existências liquefeitas!
Parada
diante do estúdio de tatuagens, na Avenida Atlântica — tendo ao fundo o barulho
das ondas que quebravam na orla da praia —, Clarisse Cristal tomou fôlego por
alguns segundos. Então decidiu entrar! Os medos, as dúvidas e os receios agora
eram resquícios de um passado sombrio e remoto que se desvanecia no clarão
daquele dia outonal. O temor eviterno de sentir as dores e carregar as marcas
indeléveis, no corpo e na alma, já não existia.
— Tu
vais ficar aí parada por muito tempo, guria? Espantando a minha querida e fiel
clientela! — A voz fluiu melodiosa, flanando pelo ar apesar do tom grave. As
palavras proferidas do interior do estúdio, atingiram a bibliotecária em cheio,
trazendo-a para a hirta realidade.
Clarisse
Cristal adentrou a antessala com firmeza e sentiu uma estranha nostalgia
percorrer-lhe o corpo ao ser tragada pela penumbra do ambiente. Esqueceu-se por
completo do celular de último modelo, presente da mãe no aniversário recente da
filha. O aparelho moderno agora jazia em mil pedaços em algum ponto da
movimentada Avenida do Estado. A culpa, de fato, não fora da jovem
bibliotecária; o dispositivo vibrara e tocara alto, cada vez mais alto, assim
que ela saíra de forma intempestiva da livraria e editora independente onde
trabalhava.
Clarisse
logo calculou o melodrama barato em que fora envolvida de forma involuntária: a
companheira de trabalho, Anna Victória, vendedora sênior da livraria, ligando
em prantos para a própria mãe, seguida por uma breve conversa chorosa, ríspida
e rápida entre ambas. Na sequência, a mãe de Anna Victória ligaria para a mãe
de Clarisse, que por sua vez ligaria fula da vida para a filhotinha rebelde. Ao
olhar para a tela do telemóvel e ler com melancolia o nome da progenitora — que
quase nunca ligava para ela —, Clarisse pôs fim ao teatro bufo. Espatifou o
aparelho eletrônico no asfalto da rua apoplética, com força, sem sequer
atender. O círculo tragicômico quebrou-se com o impacto do dispositivo contra o
chão, destruindo a engrenagem da opereta barata. A bibliotecária calculou que a
sua mãe e a de Anna Victória provavelmente eram amigas de academia e de salão
de beleza — ou de qualquer outro reduto fútil que ambas frequentam, onde as
fofocas e conversas trivialidades rolam soltas entre risinhos e mãos na boca.
Ao
passar por um curto corredor estreito e escuro, Clarisse deparou-se com o salão
principal: amplo, moderno e bem iluminado. O ambiente dividia-se por nichos de
formados por biombos de bambu que davam um tom oriental ao lugar, criando
miniestúdios integrados por portas frontais e laterais. Ao fundo, destacava-se
uma grande lousa digital cercada por uma horda de cavaletes de madeira de Palo
Santo, de vários tamanhos. À frente deles, duas longas bancadas de vidro
verde-fosco temperado exibiam notebooks, pendrives, canetas touch de
modelos e cores variadas, cartões de memória e HDs externos de capacidades e
marcas diversas, além de tablets de múltiplos modelos, eram aparelhos recém
lançados no mercado. Alinhavam-se também câmeras digitais e analógicas, estojos
de lápis aquarelável Supracolor, latas de spray, pincéis de várias
marcas e quadros inacabados de diferentes movimentos artísticos. Era uma
algaravia pós-modernista, milimetricamente organizada. Ali funcionava uma
estranha simbiose entre ateliê de belas artes e estúdio de tatuagem, deduziu
Clarisse em uma leitura fria. Naquele espaço a nostalgia analógica convivia bem
com a avalanche digital na pôs-modernidade fluida.
—
Então! O que te traz ao meu humilde comércio? — perguntou a responsável pelo
lugar, surgindo do nada. A abordagem foi afável, como a de uma vendedora bem
treinada de uma loja de varejo num bairro popular distante.
Clarisse
examinou a moça de cima a baixo com curiosidade. Já vira figuras assim antes em
revistas, programas televisivos, livros ou vagando aos bandos pelas ruas e
vielas da cidade-balneário. A silhueta andrógina postava-se afrontosa diante da
bibliotecária: alta, pele amendoada, olhos rasgados e castanhos brilhantes.
Longos cabelos lisos, negros e reluzentes, que passavam da cintura,
contrastavam com a camiseta regata preta como carvão, sem estampas. Esmalte
escuro cintilava nas unhas curtas e bem-feitas. Vestia uma calça preta, larga e
exclusiva, e tênis personalizado da moda, trajes típicos de um skatista
profissional de uma cidade interiorana patrocinado por uma loja de artigos
esportivos local. Parecia estar na casa dos vinte anos. Contudo, a voz melodiosa,
o gloss labial rosa cintilante, a pele sedosa e o sorriso delicado a
denunciavam, em definitivo, como mulher. O fato de corpo da mulher,
visivelmente não possuir tatuagem alguma ou mesmo não haver ali piercing,
brincos ou mesmo anéis. Para uma possível tatuadora e dona de um estúdio de
tatuagem a bibliotecária achou estranho.
— Quero
fazer uns riscos e furar as orelhas, minha querida. Só isso. Um tanto óbvio,
não? Tu aceitas cartão? Ou queres dinheiro vivo? — Clarisse Cristal riu sozinha
da própria tentativa patética de soar espontânea. Clarisse voltou-se para a
parede direita e leu em voz alta, de forma imponente, a frase pintada com
fontes manuscritas e cores distintas: — "O que são os outros? Nada mais
que um mero detalhe, alheio a nós mesmos, às nossas existências
liquefeitas!" Texto longo... Coisa de marqueteiro medíocre metido a poeta
frustrado, me parece. Qual é a tua graça, afinal de contas? — disparou a
bibliotecária, em tom desafiador.
— Podes
me chamar de Cris...
— Já
sei: "a sua humilde criada, pronta para lhe servir!" — cortou
Clarisse, com empáfia.
— Mais
ou menos isto. Começa a falar logo, menina, seja específica. O que queres de
facto? O que pensas em fazer neste corpinho lindo de fada gótica alquebrada que
Deus te deu? — rebateu Cris, descontraída.
— Quero
uma grande tatuagem tribal de dragão no braço direito, um piercing na
sobrancelha e outro no umbigo — determinou a bibliotecária, com firmeza.
Cris
soltou uma risada teatral e longa; Clarisse a acompanhou. O riso compartilhado
das duas mulheres estendeu-se por quase um minuto. Cris caminhou até a entrada,
virou a placa da porta de "aberto" para "fechado" e fez uma
chamada rápida ao telefone fixo do balcão. Levou a mão ao bolso, tirou o
celular dali e o desligou; em seguida, fez o mesmo com o tablet que estava
sobre a bancada. Virando-se para Clarisse Cristal, apontou para um grande
biombo de bambu — o ateliê particular da tatuadora, intuiu a bibliotecária.
Clarisse
sorriu ao ver a cena que se desenrolou. Estava encantada por ter, finalmente,
um momento só seu, mesmo que fosse um instante roubado — um instante caótico e
recoberto de infinitos mistérios, bem longe da segurança mais que tranquila e
rotineira de sua torre de marfim, no terceiro piso da livraria e editora
independente.
Fragmento
do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de
Samuel da Costa, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.
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