segunda-feira, 1 de junho de 2026

PONTO NULO NO CÉU: O QUINTO ELEMENTO

 


Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC) 

     A escuridão imperava na pequena estrada vicinal. A viela estava tomada por policiais militares e policiais civis. Ao longe, jornalistas tentavam, em vão, tirar fotografias e produzir os seus vídeos, pois as máquinas digitais não funcionavam na plenitude — a bem da verdade, poucos aparelhos eletrônicos respondiam naquela localidade.

  Aquele trecho da viela era uma estranha ilha mal iluminada e de escuridão tecnológica, a poucos metros de uma avenida movimentada e bem iluminada, com as suas de lojas de departamentos, consultórios e escritórios. A viela em si era uma rua residencial bem tranquila; ao final dela, havia um pequeno rio e, nas duas margens opostas, pequenos atracadouros para embarcações de menor porte e lanchas.

— Tu engoliste o papinho escabroso daquela gótica esquisita? — perguntou o investigador Mattos Gama, sem olhar para o tenente Bastos, pois o policial civil estava com os olhos ocupados na cena do crime.

— Claro que não. Tu viste o tal vídeo da madame bruxa? Aliás, qual gótico ou gótica que não é esquisito? — disse o tenente Bastos.

— Assisti sim, e já está na perícia sendo analisado. Fiz uma cópia pra ti, é claro! — falou o investigador, emendando uma pergunta: — Adivinha quem é a subcelebridade que figura no filmete da madame bruxa?

— Lucas Ribeiro, vulgo Luquinhas das Dunas, vulgo Liquinho, vulgo Rato e por aí vai! — respondeu o tenente da Polícia Militar.

— Espertinho, ligou os pontos então! Começamos a reconhecer um padrão aí: o marginalzinho local encontrado morto, com o pescoço quebrado, depois de um ousado e curto voo solo no submundo do crime! — concluiu Mattos Gama, ainda com o olhar perdido na cena do crime.

— Mas deixemos isto para depois. Me diz: olhando esse quarteto aí em cima, meu amigo investigador da Polícia Civil, qual é o teu olhar? — perguntou o tenente da PM, encarando os corpos sem vida.

— Posso dividir em múltiplos olhares, meu caro Sherlock. No meu olhar, a princípio, eu vejo a simetria, a equidistância perfeita... o vocabulário dos poetas clássicos e dos engenheiros civis — respondeu o investigador da Civil, continuando logo em seguida: — Estão distantes um do outro e com os braços em posição de Cristo e simetricamente equidistantes entre si. Os corpos ainda estão quentes, na verdade, em chamas. E aposto os fios da minha barba — que já estão embranquecendo — que os relógios que os nossos presuntos estão usando pararam há três horas. Mas isso tudo pode ser medido e analisado agora mesmo. O relatório do legista vai dizer que eles foram atingidos por uma onda de deslocamento de ar, devido à explosão de uma bomba que os projetou contra a parede. Mesmo não havendo uma explosão na cena do crime. É isto. Mas o que não se vê, meu querido amigo tenente Bastos? O que nem eu, nem o legista e mais ninguém pode ver agora?

— Diante desses palhaços neonazistas mortos, eu posso te dizer algumas coisas. Concordo contigo em gênero, número e grau. Só posso dizer que eles foram interrompidos inesperadamente, pois vejo sangue nos coturnos e hematomas nos nós dos dedos. Foram interrompidos quando massacravam alguém, um pequeno coletivo de raça inferior, aposto. E, com muita sorte, é bem possível que as vítimas estejam em algum pronto atendimento não muito distante daqui, com as roupas cheias de evidências dos crimes desses caras aí em cima. Mas o que nem eu, nem o legista e mais ninguém pode ver agora? Simples, meu querido! Para onde eles estão olhando? E eu te respondo: para o quinto elemento, meu querido Sherlock Holmes!

O tenente Bastos chamou um policial militar com as mãos, já que os rádios não estavam funcionando. O subalterno aproximou-se rápido. Bastos falou ao pé do ouvido do homem; o soldado saiu e voltou logo com uma escada portátil de metal, retrátil e pequena, de quatro degraus. O enorme tenente armou a escada e subiu até o último degrau. Tomando cuidado para não tocar nas grades do muro, o militar ficou na altura dos corpos, que estavam presos a lanças galvanizadas. E o tenente os encarou os corpos sem vida com desprezo; eles estavam com os olhos vidrados. Com dificuldade, ele se virou, tirou do colete uma caneta laser vermelha e apontou para a direção onde as vítimas miravam. O tenente teve, então, a exata linha de visão dos homens mortos.

— Bastos, meu caro, creio que tu acabaste de enxergar o que nem eu, o médico legista ou mais ninguém poderia ver com precisão: para onde esses bastardos estão olhando. Passe, por favor, o binóculo de visão noturna para o tenente Bastos — falou Mattos Gama para um policial militar que estava logo atrás.

O praça, sem se mover muito, jogou o objeto para o superior que ainda estava na escada. Bastos se curvou, pegou o binóculo no ar, levou-o aos olhos e ajustou o aparelho, que funcionava precariamente.

— Mattos Gama, meu caro, eu acabo de encontrar o quinto elemento, por assim dizer — proferiu o policial, sem tirar os binóculos dos olhos, enquanto ajustava o foco e dava o máximo de zoom que o aparelho suportava.

Não longe dali, alto da Torre Xoclengue, o vento álgido soprava. Um pequeno bando de exóticas aves negras e vagas circundava um corpo sem vida. Mais tarde, soube-se que era o corpo de Oskar Boere, vulgo Polaco, o líder local do grupo neonazista Misanthropic Division, da seção local do Batalhão Azov. Preso em posição de cruz preso por tiras feitas de suas próprias roupas, jazia com o pescoço quebrado. O rosto estava voltado para o chão, com os olhos abertos, como quem apreciava a cena que se desenrolava lá embaixo.

O policial militar desceu da escada retrátil, salvou uma das imagens no cartão de memória auxiliar do binóculo, retirou o cartão e o guardou num compartimento no lado esquerdo do uniforme, quebrando o protocolo militar. Chamou Mattos Gama, que estava a poucos metros dali; o policial civil notou o gesto, mas nem se importou. Os dois agentes da lei foram até uma viatura da Civil, longe dos olhares atentos dos outros policiais.

— Vamos ver o que temos para hoje, meu amigo Sherlock Holmes! — falou o tenente Bastos. O oficial militar pegou um tablet no porta-luvas da viatura e depois conectou o cabo USB ao binóculo. — O campo magnético está passando, se dissipando lentamente, como sempre acontece. Soube disso assim que ajustei a Betty para ver a fuça do cretino lá em cima.

— Betty? Ora, tenente! O que é isso? Se apegando a essas novas tecnologias digitais, por fim? — brincou o investigador Mattos Gama.

— Não enche, Mattos! Tu sabes que sou um homem carente de amor e carinho! — respondeu o tenente Bastos.

O policial militar demorou para ajustar os filtros do aparelho; os chuviscos na tela de cristal líquido pareciam os de uma velha TV de tubo em preto e branco. Para tentar dar total nitidez, o militar levou a mão à tela para aumentar o foco. Mattos Gama antecipou-se, meteu a mão no aparelho e focalizou o rosto do cadáver. Era uma batalha de mãos e dedos para ver quem mexia melhor no pequeno dispositivo digital pousado no capô da viatura.

— Quase isso, soldado... Opa, tenente! — disse, de forma irônica, o policial civil.

— Pensei que queria ver o rosto do elemento, não me atrapalhe! — devolveu o tenente da PM.

— Quase lá, quero ver o pescoço somente. Quero ver as lesões de esganadura no pescoço do meliante. Veja, tenente Bastos: as mãos leves e os dedos finos e delicados de uma mulher — falou Mattos Gama, apontando para o pescoço de Oskar.

O aparelho automaticamente mediu e gerou o molde de uma mão feminina, que havia deixado gravíssimas lesões no pescoço do homem no alto da torre. Das muitas inconsistências tabeladas pelo dispositivo, o que mais chamou a atenção dos dois experientes policiais foi o formato das mãos versus a pressão exercida no pescoço da vítima. Outras inconsistências mais precisas surgiriam depois, com as necropsias e os laudos do legista, mas aquilo já era o esperado pela dupla.

— De uma certa florista gótica, eu suponho! — disse o tenente Bastos.

— Não suponha nada, caro amigo e irmão de combate ao crime! Vamos nos ater aos fatos e deixar as suposições de lado, pelo menos no momento presente. Nada de supor e imaginar; vamos aos fatos para depois entender como esse cara seminu foi parar lá em cima e como ganhou essas marcas no pescoço. E por aí afora, meu irmão de luta — disse Mattos Gama, com pesar.

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

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