Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
Para o contra-almirante Araquem Maximus
Ribakov, de todas as células de infiltração com as quais mantinha relações,
aquela que inspecionaria naquele exato momento era a mais controversa. O homem
do mar era um cidadão de duas nações e uma única causa. Do lado materno,
passara parte da primeira infância ouvindo a mãe e a avó materna contarem do
tempo em que a máfia norte-americana e latifundiários cruéis mandavam na ilha
caribenha. Na adolescência, vieram as histórias de seu pai e avô paterno, ambos
militares do exército soviético, que falavam sobre a Grande Guerra Patriótica —
quando o nazifascismo e aliados locais cobriram de sangue a grande mãe pátria —
e recordavam a época em que os czares escravizavam o povo pobre, que morria de
fome.
Naquela noite fria e chuvosa, ao deixar
o porto e subir na luxuosa e antiquada limusine, ladeado por seu ajudante de
ordens, o contra-almirante relembrou a infância distante entre palmeiras, o
infinito oceano azul e o sol escaldante. Recordou-se, em especial, da cena em
que a idosa avó, de forma terna, mandara o neto buscar um charuto que ela mesma
havia enrolado, guardado no aparador de café. Ele preferia não lembrar — na
verdade, deletar da memória — do momento em que Emanuela Sánchez comunicara à
filha que ela só poderia levar o pequeno neto embora da ilha quando ela mesma
estivesse morta. E, de fato, assim ocorreu: o pequeno Maximus só deixou as
Antilhas no ano seguinte.
Ao entrar no prédio imponente e
pós-modernista, o militar ficou curioso sobre o triunfo da Condessa Rodriguez
Butler sobre cinco neofascistas, cujo relatório detalhado sobre o caso lhe
seria entregue. Um pequeno espetáculo de horror o aguardava; ele bem sabia
disso e não esperava outra coisa da controversa anfitriã. O oficial de alta
patente gostaria de ter visto a queda dos elementos nefastos desenrolar-se
diante de seus olhos. Eliminar uma célula neonazifascista fora um bom momento,
pensava a porção latina e caribenha do militar, mas o seu rijo e frio lado
eslavo alertava para outra coisa. Como homem prático, precisava adiantar-se ao
comitê central e reportar o feito histriônico da condessa. O Conselho do
Comissariado do Povo exigiria do contra-almirante respostas imediatas e
pragmáticas, diante a estes desvios. As células deveriam operar e permanecer
nas sombras. Nada de espetáculos públicos; nada de chamar a atenção de quem
quer que fosse.
Percorrendo o sorumbático e frio hall dos
edifícios conjugados das duas Torres, Fiote e Xoclengue, o militar dirigiu-se à
Torre Fiote e tomou o velho elevador, cumprimentando o jovem ascensorista
elegantemente trajado, que olhou para o militar e apertou o botão do último
andar. O homem do mar decidiu que, dessa vez, não mediria palavras com a
Condessa. Seria uma conversa franca e direta; já bastavam as quebras dos
rígidos protocolos na entrega dos relatórios criptografados. Os relatórios sempre
eram entregues na cabine privativa do contra-almirante, a bordo do
submarino-escola Classe Yasen, sempre em total silêncio. Entre as visitas de
civis nos portos e estaleiros de reparos, sempre nos mundos hispânico e
lusófono, e sempre em silêncio absoluto. Maximus nunca deveria fazer perguntas
ou trocar palavras com os infiltrados; limitava-se a recolher os relatórios
quando o comitê central ordenava.
Na situação atual, com as entregas dos
relatórios da condessa, os protocolos eram omissos. Situações extremas exigiam reações
extremas. Era assim nas profundezas do alto-mar, onde os imprevistos e os
inesperados sempre imperavam. Araquem Maximus Ribakov não era um simples
controlador de agentes — não tinha esse perfil — e, como no caso das outras
células infiltradas, o militar dos mares sequer sabia quem controlava a
controversa Condessa.
Ao deixarem o elevador, acompanhado pelo
imediato e ajudante de ordens Boris Orlov, o seu tenente-coronel sênior,
dirigiram-se à entrada do salão de festas. Os dois marinheiros tiveram uma
prévia do que viria. Duas estátuas vivas, cobertas de pó branco e envoltas em
véus cor de gelo, ladeavam ao final do corredor estreito em mal iluminado. A
expressão de desespero genuíno na face dos artistas revirou o estômago do
contra-almirante e causou náuseas e dores de cabeça no ajudante de ordens.
Ambos eram comunistas convictos, ambos detestavam as afetações artísticas
burguesas. Ambos deram a impressão de ignorar por complete a cena das artistas,
quando passaram por elas.
A grandiosa porta dupla, branco marfim do
salão de festas, abriram-se automaticamente à aproximação dos oficiais. Maximus
recordou-se de quando a porta traseira da limusine fizera o mesmo, momentos
antes ele sentiu falta de sentir o peso de uma pistola Tokarev carregada na
cintura. Ao avistar o vasto salão de festa, com o seu clima soturno e burlesco
do ambiente fez o velho lobo do mar desejar o apoio de um esquadrão fortemente
armado. Garçonetes em trajes sumários carregavam bandejas de prata em um
bailado coreografado que emulava um desfile. Demorou para o contra-almirante
perceber o detalhe: eram vários pares de trigêmeas idênticas. Cabelos pretos
reluzentes e muito curtos, gravatas-borboleta, uma pinta negra no lado esquerdo
do rosto, o torso nu, calças pretas e sapatilhas negras lustrados. O mal-estar
dos militares se acentuava em cada detalhe da cena frente dele
Poucos convidados ocupavam o salão,
apesar do adiantado da hora. Homens de sofisticados ternos e mulheres elegantes
trajadas com vestidos de festas postavam-se diante de um pequeno palco, como
expectantes ávidos. Quando as pequenas cortinas azul-celeste se abriram, um
ator trajado como cantor de ópera italiana surgiu em meio ao nevoeiro
artificial. A plateia soltou um viva em uníssono.
O mestre cerimonia deu passos lentos à
frente e recitou: — Eu não sou como as outras pessoas! Prefiro enlouquecer em
horas marcadas. Em datas pré-agendadas. Para evitar certos olhares tortos,
comentários maldosos e constrangimentos afins! Completamente só! Em perdidas
horas nevoentas!
Fortes aplausos brotaram enquanto ele
avançava. Um jogo de luzes circulares o perseguia. Com um tom mais forte, o
declamador esbravejou: — Eu prefiro enlouquecer em dias previamente marcados!
Em horas remotas. Em dias remotos. Sem que ninguém perceba!
A plateia explodiu em palmas e vivas. O
ator postou-se à beira do proscênio, dando a impressão de que se jogaria do
palco. Uma luz violeta o recobriu, e ele gritou a plenos pulmões, com furor: —
Prefiro enlouquecer aos poucos. De forma bem lenta. E completamente sozinho!
O mestre de cerimônias curvou-se,
ergueu-se e recuou apressadamente e as cortinas se fecharam. A audiência
satisfeita com o curto monólogo, o público sorvia bebidas enquanto pedia
canapés aos trios de garçonetes. Calados estavam esperando o segundo ato.
Maximus estranhou a demora da anfitriã
da festa, considerando o público reduzido, mas sabia o quanto ela prezava o tom
teatral em tudo que fazia. Fazê-lo esperar era parte do espetáculo particular
da Condessa Rodriguez. Ao longe, o contra-almirante avistou a mulher
elegantemente vestida com um espanhol traje negro de baile festa, acompanhada
por um homem de pele morena, barbado, de baixa estatura de meia-idade, que
usava um espalhafatoso terno branco. Maximus reconheceu-o imediatamente pelas
fotografias do dossiê que memorizara.
— Condessa Fá Rodriguez Butler, já disse
antes e volto a dizer agora: a senhora me faz lembrar a minha querida abuelita
quando jovem, que via nas fotografias antigas! — bradou o contra-almirante,
quebrando o protocolo.
— Contra-almirante! Não me chame de
Condessa. É indelicado, e bem sabes que não gosto desse título decadente —
respondeu Fá.
Maximus fixou os seus profundos olhos
verdes no Senador Marcius, o social-democrata que permanecia estático ao lado
de Fá, ele parecendo um cão de guarda. O militar queria medir a reação do
político à pilhéria que acabara de desferir. O velho lobo do mar agia assim
sempre que pisava em solo latino: a porção eslava herdada do pai sumia por
completo, dando vazão à verve latina e caribenha da linhagem materna.
— Deixe nossa anfitriã em paz,
contra-almirante, ora bolas! Não é sempre que estamos irmanados em um momento
tão especial igual a este. Aproveite a festa, seu canalha vermelho — desdenhou
o senador.
Os olhos verdes do contra-almirante
faiscaram, emoldurados pelo contraste de seu uniforme de gala e luvas brancas.
O submarino-escola Nikolai Kuznetsov estava ancorado no cais a poucos
quilômetros dali, em meio a uma longa jornada pela América Latina. O oficial
dispunha de poucas horas em terra firme antes de partir rumo ao Mare
Germanicum. Pensou no tom que daria ao relatório, a depender do que veria a
seguir.
— Madame Rodriguez, temos assuntos
pendentes a tratar e a senhora bem sabe disso — esbravejou Maximus em russo. O
tom severo do militar divertiu a Fá.
— Maxine, por favor, traga-me as pastas
— chamou ela, encarando os dois oficiais, ambos muito mais altos que ela.
Uma jovem secretária em uniforme
funcional surgiu por trás de Fá carregando duas pastas amarelas ouro,
entregando-as ao ajudante de ordens. Boris Orlov olhou para o superior, que
assentiu com a cabeça. Em russo, Maximus ordenou que recolhesse os documentos e
voltasse para a limusine. A dona da festa sustentou o olhar com olhos gélidos.
— Está aí, criptografado nos três
idiomas que o camarada domina tão bem. Todos os dados estão atualizados e
completos. Agora, diga ao seu ajudante para guardá-los bem longe daqui. Vamos
acabar com isso e passar para a diversão. A vida é curta, caros senhores.
O contra-almirante ergueu a mão
esquerda. O tenente-sênior Boris Orlov bateu os calcanhares, girou e recuou. O
adito militar se afastou em passos rápidos e firmes rumo ao elevador,
desaparecendo como se nunca estivesse. Como se fosse um alferes qualquer, foi
abrigar-se na segurança na limusine, protegido por seu passaporte diplomático.
O Senador Marcius, que parecera gravitar
à margem da cena, decidiu intervir com o pragmatismo de um político.
— Então contra-almirante, gosta de
visitar o nosso país? — indagou, desfazendo-se em sorrisos.
O homem do mar nada respondeu. Olhou o
pequeno político de cima a baixo, recordando-se dos motivos pelos quais
mantinha distância segura dos parlamentares e políticos ocidentais,
especialmente os dos Novo Mundo.
Um estampido ecoou pelo salão. Os
convidados não se alarmaram. O militar identificou imediatamente o estampido de
uma antiga arma de fogo.
— Alguém tentando fugir da sua prisão,
madame Rodriguez? — inquiriu.
— Não seja ridículo, camarada
contra-almirante Ribakov. É o desfecho do monólogo de há pouco. Acaba sempre da
mesma forma: o ator se mata no final, longo dos olhos da audiência. Simples
assim — respondeu a anfitriã.
— Tenho que ir, o mais rápida possível,
madame, mas antes de partir...
— O camarada Ribakov não deseja saborear
o grande triunfo final? — perguntou a Condessa Rodriguez Butler, com um sorriso
enigmático.
— Na verdade, desejo sim. Mas antes da
diversão, temos dois assuntos pendentes para resolver com a senhora.
Geralmente, assuntos assim desdobram-se em muitos outros — pontuou o militar de
alta patente. — Muteia e Agnes. A senhora terá que se entender com Sibelly
Lopez e os demais sobre esses dois elementos. O Conselho do Comissariado do
Povo não tem envolvimento com as suas querelas locais. Contudo...
— Contudo o quê, camarada
contra-almirante Ribakov? — interrompeu a Condessa, intrigada.
— Os seus espetáculos públicos estão
formalmente desaprovados, madame Rodriguez. Mas eu, particularmente — e falo
por mim —, adorei esta sua última encenação. Agora, quero ver de perto este
grande triunfo final.
— O camarada Ribakov vai adorar. Vamos
ao grande triunfo! — desconversou Fá.
Fá Rodriguez Butler girou de forma
intempestiva e apontou para o palco. As cortinas abriram-se novamente,
revelando cinco homens ajoelhados em formação triangular. Estavam encapuzados,
com as mãos amarradas às costas, vestindo calças rotas; os torsos nus exibiam
físicos atléticos cobertos de tatuagens teutas. Permaneciam estáticos, como
corpos sem vida, até que um tambor ruflou alto. A marcha militar La Coqueta
começou a ser entoada.
O contra-almirante manteve a linha
impassível. Fazia parte de seu treinamento militar de não demonstrar emoções
sob quaisquer circunstâncias, um esforço hercúleo enquanto calculava o
desfecho. Uma coluna de cinco soldados surgiu pela lateral esquerda do palco,
marchando até estancar diante dos prisioneiros. O rufar cessou. Os soldados
bateram os calcanhares e apontaram as armas. O marinheiro reconheceu os
uniformes cossacos de imediato, embora empunhassem fuzis FN FAL. Cabelos e
barbas negras e compridas, peles crestadas pelo sol caribenho. Um sexto
militar, com a patente de major, surgiu à retaguarda dos cossacos. Ergueu uma
afiada espada russa czarina e comandou em seu idioma natal do contra-almirante:
— ¡Preparen! ¡Apunten...! — O esquadrão obedeceu prontamente a oderdem
unida. Em seguida, o oficial bradou em espanhol: — ¡Fuego!
Os estampidos secos ecoaram violentos.
Os corpos foram projetados para trás pela força do impacto. O cheiro de pólvora
e carne queimada empestou o salão de festas. Aplausos explodiram por toda
parte. Os seis militares se viraram, curvaram-se diante da plateia e
retiraram-se de cena. No palco, os cinco condenados levantaram-se aturdidos,
soltaram as mãos, arrancaram os capuzes e os lançaram ao chão com força. Não
havia peitos dilacerados por projéteis; os homens abaixaram-se e reverenciaram
a audiência e partiram.
O contra-almirante fitou Fá Rodriguez
Butler com um olhar vítreo.
— Então, madame Rodriguez... Um
fuzilamento perpétuo? Será assim todas as noites, para todo o sempre? — Um
sorriso tétrico esboçou-se na face do oficial. — Apenas não me agradou a
miscelânea cultural. Fosse eu o diretor ou produtor, dedicaria cada noite a uma
cultura específica.
— É que hoje sabíamos da vinda do
contra-almirante, e decidimos lhe prestar uma homenagem...
— Preciso partir, madame Rodriguez
Butler. Já estendi a minha permanência além do permitido aqui neste belo país.
Vim para lhe avisar que o africano Muteia nos pertence; Agnes é um problema
estritamente vosso. Não misture as coisas em demasia, madame Butler; é um
terreno perigoso para a senhora trilhar. Terminamos por aqui. Repito:
mantenha-se longe do major Muteia. E mande minhas lembranças à senhora sua mãe
— disse o contra-almirante.
O militar de alta patente bateu os
calcanhares, deu meia-volta e marchou em direção à saída. Não se deu ao
trabalho de olhar ao redor; para ele, aquele ambiente era a quintessência do
tédio burguês decadente — aliar-se a uma casta rica, fútil e desprovida de
propósito era algo momentâneo e mesmo assim doloroso. Todavia, de uma coisa o
contra-almirante tinha certeza absoluta: ao deixar claras as diretrizes para a
madame Rodriguez Butler, ambos sabiam o que viria a seguir. Ela cruzara a linha
com os seus espetáculos tétricos, perpetrados na calada da noite e expostos à
luz do dia. A elegante senhora sabia que estava condenada a viver nas sombras;
a luz do dia não lhe pertencia. Cruzar a linha era uma condenação à morte ou
algo pior.
Ao adentrar o elevador, o militar
desejou retornar o quanto antes para a hirta realidade onde mantinha a sua
lógica racional: o interior de seu submarino, abaixo do alto-mar e a
funcionalidade fria do seu ofício. Quando cruzou o hall de entrada do edifício,
o tenente-sênior Boris Orlov o aguardava junto à limusine. O ajudante abriu a
porta do veículo luxuoso; o contra-almirante entrou, seguido por seu
subordinado. Mudos e com olhares absortos pelos horrores que testemunharam,
mantiveram o silêncio enquanto o veículo ganhava as ruas em direção ao porto.
Fragmento
do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestade e frio. Texto de
Clarisse Cristal — poetisa, contista, novelista e bibliotecária de Balneário
Camboriú, Santa Catarina.
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