Por Roberto Minadeo (Brasília, DF)
Em certa ocasião, me vi bloqueado em uma rua
vazia por alguém que dirige muito devagar, mesmo sem sinais de trânsito ou
outros carros. Devido à dificuldade de ultrapassá-lo, perdi uns três minutos a
uma velocidade de tartaruga – durante os quais rememorei a frase que nomeia a
presente crônica.
Ao conseguirmos matar um mosquito que nos
inferniza a vida, é inevitável o desejo de gritarmos a plenos pulmões o título
desta crônica.
Todos se recordam da afirmação: “— Os diamantes
são eternos!” Cinismo dizer que apenas tais objetos brilhantes, raros e caros
carreguem tal adjetivo. Existem tantas eternidades, mais ou menos valiosas,
mais ou menos importantes – ao gosto do freguês.
Inúmeras situações virão a representar apenas
uma parte do passado. Enfim, a “fila anda”.
Além de coisas que não se corrompem, quais
diamantes, há outras nas quais o leitor investe. Constituem o futuro, avidamente
esperado. Concluir o curso, obter um emprego, encontrar o amor esperado por
toda uma vida.
Para investir em um curso é preciso deixar o
passado de lado, é preciso abraçar algo. Sem cindir com o passado, sem romper
as amarras, sem deixar que a fila ande, não se conseguem amores, casas ou
cursos!
E o passado carrega tantas coisas que devem ser
abandonadas! O tempo trancafiado em casa devido à pandemia, à espera de uma
incerta vacina e aprendendo a trabalhar e a viver com mil e um aplicativos, sem
vida social. Foi bom enquanto durou ou foi péssimo enquanto tivemos que
aguentar! Nem saberia dizer como acabou. Mas acabou! Ufa! Felizmente, como
tantas outras coisas que passam. A linguagem comum criou a rica e contundente expressão:
“— A fila andou!”
Parece que estou sendo duro ou cínico ao
invocar o título desta crônica. Nada disso. Burrice seria insistir em algo que
não mais existe.
É a pedra de gelo no uísque – está lá para que
se derreta ao tornar a bebida gelada, ninguém quer o gelo pelo gelo. O passado
existe. Ficar preso a ele é um erro. É preciso aprender a conjugar os verbos desse
tempo.
Qual o papel do passado? É parte da vida, é
parte de nossa própria identidade.
O fusca foi o seu primeiro carro? Ótimo,
parabéns, isso indica que décadas atrás você já estava motorizado, muito antes
da maioria dos brasileiros. Portanto, você já era da classe média ou alta e que
provavelmente o seu carro de hoje é mais moderno, econômico e seguro. Nem todos
podem se dar ao luxo de colecionar carros antigos. Aquele saudoso carrinho é
parte do seu passado!
As garagens são raras e de espaço limitado.
Conservar o fusca tal como saiu da fábrica requer um investimento não
desprezível e que se revela inútil para a imensa maioria das pessoas. Todos já
tivemos notícias de mais de uma séria briga de família em relação ao início de
coleções caras na qual o argumento decisivo foi: “— Ou isso aí ou eu; você vai
precisar escolher!”
Talvez o seu médico tenha dito algo
desagradável e que o fez xingá-lo com profunda raiva. Pode ter sido algo como
parar de beber – que irá afetar sua forma de viver, eliminando o bar de sua
vida. A saúde é importante, seguir o conselho médico ou não, é um problema seu
– interceirizável e indelegável.
Algo é tranquilizador: a bebida é parte do
passado para milhões de pessoas. Alguns dos bebedores mais contumazes se
refugiaram nas ofertas zero álcool: pode-se dizer que não tem muita graça, mas
o que passou já não volta mais.
O tempo é implacável. As coisas mudam de modo
acelerado, prender-se ao ontem é hipotecar o presente e arriscar o futuro em
nome de algo inútil. Afinal, os bons dividendos que o passado deveria ou
poderia trazer já devem ter vindo e já devem ter sido reaplicados para
facilitar as coisas no presente e atapetar o caminho que leva ao futuro.
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