segunda-feira, 1 de junho de 2026

A FILA ANDOU



Por Roberto Minadeo (Brasília, DF)

Em certa ocasião, me vi bloqueado em uma rua vazia por alguém que dirige muito devagar, mesmo sem sinais de trânsito ou outros carros. Devido à dificuldade de ultrapassá-lo, perdi uns três minutos a uma velocidade de tartaruga – durante os quais rememorei a frase que nomeia a presente crônica.

Ao conseguirmos matar um mosquito que nos inferniza a vida, é inevitável o desejo de gritarmos a plenos pulmões o título desta crônica.

Todos se recordam da afirmação: “— Os diamantes são eternos!” Cinismo dizer que apenas tais objetos brilhantes, raros e caros carreguem tal adjetivo. Existem tantas eternidades, mais ou menos valiosas, mais ou menos importantes – ao gosto do freguês.

Inúmeras situações virão a representar apenas uma parte do passado. Enfim, a “fila anda”.

Além de coisas que não se corrompem, quais diamantes, há outras nas quais o leitor investe. Constituem o futuro, avidamente esperado. Concluir o curso, obter um emprego, encontrar o amor esperado por toda uma vida.

Para investir em um curso é preciso deixar o passado de lado, é preciso abraçar algo. Sem cindir com o passado, sem romper as amarras, sem deixar que a fila ande, não se conseguem amores, casas ou cursos!

E o passado carrega tantas coisas que devem ser abandonadas! O tempo trancafiado em casa devido à pandemia, à espera de uma incerta vacina e aprendendo a trabalhar e a viver com mil e um aplicativos, sem vida social. Foi bom enquanto durou ou foi péssimo enquanto tivemos que aguentar! Nem saberia dizer como acabou. Mas acabou! Ufa! Felizmente, como tantas outras coisas que passam. A linguagem comum criou a rica e contundente expressão: “— A fila andou!”

Parece que estou sendo duro ou cínico ao invocar o título desta crônica. Nada disso. Burrice seria insistir em algo que não mais existe.

É a pedra de gelo no uísque – está lá para que se derreta ao tornar a bebida gelada, ninguém quer o gelo pelo gelo. O passado existe. Ficar preso a ele é um erro. É preciso aprender a conjugar os verbos desse tempo.

Qual o papel do passado? É parte da vida, é parte de nossa própria identidade.

O fusca foi o seu primeiro carro? Ótimo, parabéns, isso indica que décadas atrás você já estava motorizado, muito antes da maioria dos brasileiros. Portanto, você já era da classe média ou alta e que provavelmente o seu carro de hoje é mais moderno, econômico e seguro. Nem todos podem se dar ao luxo de colecionar carros antigos. Aquele saudoso carrinho é parte do seu passado!

As garagens são raras e de espaço limitado. Conservar o fusca tal como saiu da fábrica requer um investimento não desprezível e que se revela inútil para a imensa maioria das pessoas. Todos já tivemos notícias de mais de uma séria briga de família em relação ao início de coleções caras na qual o argumento decisivo foi: “— Ou isso aí ou eu; você vai precisar escolher!”

Talvez o seu médico tenha dito algo desagradável e que o fez xingá-lo com profunda raiva. Pode ter sido algo como parar de beber – que irá afetar sua forma de viver, eliminando o bar de sua vida. A saúde é importante, seguir o conselho médico ou não, é um problema seu – interceirizável e indelegável.

Algo é tranquilizador: a bebida é parte do passado para milhões de pessoas. Alguns dos bebedores mais contumazes se refugiaram nas ofertas zero álcool: pode-se dizer que não tem muita graça, mas o que passou já não volta mais.

O tempo é implacável. As coisas mudam de modo acelerado, prender-se ao ontem é hipotecar o presente e arriscar o futuro em nome de algo inútil. Afinal, os bons dividendos que o passado deveria ou poderia trazer já devem ter vindo e já devem ter sido reaplicados para facilitar as coisas no presente e atapetar o caminho que leva ao futuro.

 

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