Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)
Por Pedro Silva (Portugal)
Era
uma vez um ursinho muito feio. Era tão feio que se assustava com a sua própria
imagem reflectida no espelho. Mas Deus, na sua sabedoria, dera a esse urso um
bom coração, tornando-o bonito por dentro. Porém, a vida desse urso era tudo
menos simples. Sentia-se triste e sozinho, qual sem-abrigo abandonado à sorte.
E sofria! Muito, mesmo. Os seus dias eram monótonos e vazios, visto que o seu
interior, ainda que bonito, ansiava por algo mais. Como todos os ursos da sua
idade ele queria encontrar alguém a quem oferecer o seu interior, alguém com
quem partilhar os seus sentimentos. Mas os seus horizontes eram muito amplos e,
quiçá por isso mesmo, ou por ser feio por fora, a dificuldade em encontrar a
ursinha especial fez-se sentir de tal forma que, cansado de esperar, decidiu
desistir. E como desistiu!
A
pouco e pouco o seu interior deixou de ser tão especial e o sofrimento foi-se
apoderando da sua alma. Todos aqueles que lidavam com ele notaram a diferença,
mas deixaram o urso entregue a si próprio. E porquê? Porque todos se
consideravam tristonhos e infelizes, pelo que aquele urso não deveria receber
nenhum tratamento especial. Mas estavam todos enganados – aquele urso era
especial pelo que, obrigatoriamente, deveria merecer um tratamento diferente.
Quanto mais não fosse porque quando eles precisavam aquele urso estava sempre
pronto a ajudar. Só que a ingratidão do mundo, aliada à indiferença natural que
reinava entre os ursos, fazia com que fosse mil vezes mais fácil ignorar. E,
enquanto isso acontecia, o urso feio por fora ia-se tornando menos bonito por
dentro. E esse ursito, ainda que infeliz, arranjava sempre um bocadinho de
ânimo ou de boa vontade para ajudar um seu próximo que sofresse. Era sempre o
primeiro a acorrer a um urso em apuros, sempre o primeiro a dirigir uma palavra
de reconforto a um urso sofredor, enfim, o seu interior continuava a demonstrar
preocupação, carinho, amor...
Entretanto,
ao seu redor, o mundo dos ursos não parava – implacável e imparável. Tal como
todos os outros ursos, aquele urso especial tinha de cumprir a sua obrigação –
arranjar comida para sobreviver. Foi num certo dia, ao desempenhar a sua
função, que encontra uma ursa muito bonita, que irradiava uma luz muito
especial, mas ao mesmo tempo com o semblante mais triste que jamais vira. O
urso feio sentiu algo de tão forte que na altura não conseguiu explicar. Mas
Deus, do alto do seu trono, sabia bem o que era e a definição correcta não era
amor! Era algo de mais forte, muito mais forte!
O
urso feio sentiu necessidade de acorrer em auxílio da pobre ursa bonita, mas
infeliz, só que embateu num muro de frieza. Não havia dúvida nenhuma que aquela
ursa havia sofrido muito na sua escassa vida – e o urso feio era, devido ao seu
interior especial, o único urso no mundo capaz de compreender, aceitar e tentar
modificar o rumo dos acontecimentos, ou seja, o mesmo é dizer, fazer aquela
ursa feliz. Porque o urso feio sentia que era capaz e porque estava dentro de
si a noção de que todos os ursos tinham direito a ser felizes. Acima de tudo,
acreditava que Deus o iria ajudar a concretizar os seus intentos.
Tentou
uma aproximação suave – a ursa recuou, como num instinto de sobrevivência que,
notava-se, havia sido alcançado à custa de muito sofrimento. E nesse primeiro
encontro nada de muito especial surgiu, a não ser a tomada de conhecimento da
existência, para ambos, do outro no mundo. O urso feio, porém, sentiu algo no
seu interior que o deixava algo apreensivo – parecia que o seu corpo estava
inteiramente descontrolado e que deixara de ser propriamente seu. Quem passara
a ser o dono é que não sabia. Mas no dia seguinte, o certo é que voltou àquele
lugar e, ainda que pelo caminho fosse bastante incrédulo em relação ao facto de
voltar a encontrar aquela ursa bonita, o certo é que sentia que tinha de ir.
O
urso feio desconhecia por completo que fora Deus que o colocara no caminho
daquela ursa e que aquela força que o impelia a dirigir-se de novo àquele local
era-lhe superior. Foi só quando, ao chegar ao lugar exacto, viu a ursa de novo
ali sentada, que o urso feio sentiu que algo de muito especial estava a
passar-se. E mais intrigado ficou quando, numa tentativa de aproximação mais
forte, a ursa decidiu começar a falar. Trocaram nomes próprios e pouco mais,
mas a ursa bonita já não parecia a mesma – ainda que se fosse notando cada vez
mais o sofrimento que possuía, o certo é que o à vontade, que aumentava a cada
instante, fazia acreditar que aquilo a que o urso feio se propusera podia
realmente acontecer – assim Deus o ajudasse.
Nos
dias seguintes, e como a ursa bonita sempre ali se encontrava, cada vez mais
deliberadamente à espera do urso feio, as conversas foram-se tornando cada vez
mais profundas – a ursa sofrera de terríveis acometimentos que a fizeram
sentir-se a ursa mais infeliz de toda a comunidade. Incapaz de sentir-se
inteiramente livre, mercê de um asfixiar inconsciente por parte dos seus
progenitores, tentara a fuga para a frente, ou seja, decidira abandonar aquela
comunidade para viver noutra. Porém, desde cedo entendeu que embora todos lhe
achassem muita graça, à medida que foi crescendo entendeu que o Mundo era todo
igual e não havia, em lado algum, alguém interessado em ouvi-la. E o seu
desencanto era de tal forma que a sua aprendizagem de vida, ainda que bastante
intensa, foi de tal forma angustiante de chegara à triste conclusão que a
liberdade em sofrimento era pior que a prisão com algum descanso.
A sua
vida tornou-se mais pacata durante algum tempo, mas havia dentro de si algo que
a atrofiava – o seu interior pedia sempre mais, mas do quê nem ela própria
sabia. A vida em comunidade era muito pouco para ela e de novo sentiu-se
demasiado apertada para o seu gosto. Sentindo, tal como todas as outras ursas
da sua idade, o apelo do contrário, deixou-se enlear por uma necessidade e
conheceu um urso garboso que lhe parecia de todo inofensivo em termos pessoais,
mas que a levaria a concretizar todos os seus desejos e ambições – uma vida
louca pelas florestas, livre das amarras super-protectoras dos pais ursos. E o
certo é que a relação com esse urso garboso a fazia sentir-se, pelo menos,
solta.
Só
que a visão provocada pela ansiedade de liberdade cedo esfumou-se. Sem saber
como, o certo é que a sensação positiva se deteriorou – eram ursos de feitios
diferentes e, ainda que tivessem alguns gostos semelhantes, o certo é que a
relação se assemelhava a uma laranja seca: por mais que espremesse não saia uma
única gota de sumo. A pouco e pouco a ursa foi-se desvanecendo da vida o urso
garboso, mas, no entanto, e apesar de sentir vontade de ser feliz, afirmava que
era uma vergonha, perante a comunidade dos ursos, o expor de uma situação
dessas. Afinal de contas, nunca nada semelhante tinha acontecido.
O
urso feio tudo ouvia e registava. Tentou, do fundo do coração, ajudar aqueles
dois ursos a fim de que não sofressem do mesmo mal que ele – de solidão. Tentou
ajudar a ursa a levar as más palavras ao bom sentido, aproveitando tudo aquilo
que de bom o urso garboso tinha. Mas a ursa bonita era demasiado livre para ser
aprisionada, demasiado ela própria para ser o que os outros ursos queriam que
ela fosse. E sentiu-se tentada a avançar em frente. Mas o urso feio,
desconhecedor da situação, continuou na mesma toada de reconciliação,
insistindo no continuar da relação entre os ursos.
Mas,
com o passar dos dias, começaram a tornar-se visíveis os sinais de ruptura
total – a ursa afirmava que não gostava de passear com o urso garboso na
floresta e o urso feio sentiu-se tentado a desistir. Mas Deus, sentindo que só
ele poderia ajudar aquela ursa, impeliu-o a continuar com o seu acto de
caridade. Foi então que, com o passar dos dias, ambos se detinham mais em falar
de si próprios do que de outros ursos. Existia algo entre eles – a sua relação
fora feita no Céu e pelo próprio Deus. Só podia ser assim mesmo, dada a alegria
que ambos agora irradiavam, isto apenas e só quando estavam juntos, porque
quando afastados a tristeza voltava e dava lugar à depressão.
Parecia
um lindo conto de fadas e passavam os dias a contar os minutos que os separavam
do encontro – só viviam para isso. Ao fim de algum tempo começaram a sentir que
alguma coisa de realmente especial estava a passar-se – afinal de contas quanto
mais a ursa bonita comparava o urso feio ao garboso mais infeliz se sentia no
espaço de tempo em que não estava com o seu novo confidente. Mas o urso feio
não era diferente e ainda que sentisse um certo remorso ao notar que a ursa
bonita aproveitava aquela oportunidade para criticar o urso garboso, o certo é
que achava que aquele tempo passado com a ursa era como um pedaço de Paraíso na
Terra.
Os
dias foram passando e ambos os ursos sentiam já que aquilo que realmente
desejavam era que aqueles momentos pudessem ser prolongados por todo o dia. Mas
isso era impossível enquanto a ursa bonita não dissesse ao urso garboso o que
não sentia por ele. E, o urso feio, cego de amor, pediu a Deus que a ursa o
conseguisse fazer feliz. Mas Deus ficou triste com aquele pedido – o que ele
lhe estava a pedir era o sofrimento de outro urso. Nem parecia próprio daquele
urso que sempre tanta preocupação revelara com o se próximo. Mas, atendendo ao
sofrimento que ele passara e à felicidade actual da ursa na sua companhia,
decidiu atender ao pedido e, em pouco tempo, o urso garboso soube que a ursa já
não tinha gosto em passear com ele pela floresta. Deus ajudou-o e ele tornou-se
rapidamente feliz com outra ursa, mais simplória, mas que o fez sentir amor
verdadeiro.
Tal
facto abriu portas ao relacionamento entre o urso feio e a ursa bonita. Foi
nessa mesma noite que o urso feio recebeu a visita de Deus na sua caverna,
tendo-lhe pedido que tratasse a ursa bonita da melhor forma que o seu coração
permitisse, de modo a que ela fosse feliz para todo o sempre. Porém, caso o
urso feio falhasse no seu compromisso, seria castigado de uma forma que não
possibilitaria recuo – a ursa deixaria instantaneamente de gostar dele e, em
consequência, iria abandoná-lo de forma definitiva. O certo é que, até hoje
vivem os dois, felizes, na floresta.
(A
história continua... E que assim seja por muitos e bons anos!)
Pedro
Silva
Trilhando o seu
caminho literário alicerçado na serenidade que a independência permite, o
escritor Pedro Silva (1977) possui obras publicadas em vários países,
nomeadamente Portugal, Brasil, Espanha e Chile. Para além disso, colaborou com
órgãos da imprensa escrita em Portugal e Brasil. Licenciado em História e
Pós-Graduado em Estudos Portugueses Multidisciplinares, é ainda Cidadão
Honorário da Cidade Velha (Cabo Verde), Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro
(Tomar – Portugal), Patrono da Biblioteca Municipal Pedro Silva, sita em São
Martinho Grande (Ribeira Grande de Santiago – Cabo Verde) e Medalha de Mérito
do Jornal “Audiência”. https://pt.everybodywiki.com/Pedro_Silva