EDITORIAL

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)



Por Paccelli M. Zahler, editor (Brasília, DF)

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A edição de setembro da Revista Cerrado Cultural apresenta ao leitor um conjunto sólido de produções que refletem a vitalidade da criação artística e literária no Brasil e no exterior. Mantemos nossa linha editorial baseada na credibilidade, na diversidade temática e na valorização de autores que contribuem para o fortalecimento da cultura contemporânea.

Neste mês, reunimos textos que ampliam o debate sobre identidade, sensibilidade, espiritualidade, convivência e expressão artística. A presença de diferentes vozes — incluindo produções em espanhol, narrativas breves, poemas, reflexões sociais e perfis de artistas — reforça o papel da revista como espaço de circulação cultural e diálogo permanente com o leitor.

TÔNIA CARRERO E RUBEM BRAGA: UM AMOR EM PARIS

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)



                     Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

Paris é uma cidade de tirar o fôlego: os jardins clássicos, a água furta-cor do rio Sena, as margens fluviais charmosas com bancas de livros e flores, as catedrais góticas, as galerias com imensos quadros impressionistas.

O filme “Casablanca” é um ícone romântico, cheio de ação, espionagem, aventura. Um triângulo amoroso que exige sacrifício e renúncia. Inesquecível o diálogo entre Rick (Humphrey Boagart) e Ilsa (Ingrid Bergman), que foram amantes em Paris. Ela pergunta na despedida: “- E quanto a nós?”. Ele responde: “- Nós sempre teremos Paris.” É a aceitação da separação. A maturidade. O foco na beleza do que foi vivido. Todos sonham em viver algo maravilhoso, fascinante, em Paris. E vivem.

Foi lá que aconteceu a paixão desmedida, intensa, atribulada entre a bela e sedutora atriz, Tônia Carrero (1922-2018) e o diplomata e cronista Rubem Braga (1913-1990). Flanavam juntos, de mãos dadas, pelas ruas de Paris. Corria o ano de 1947. Os dois eram casados. Ela, com o artista plástico Carlos Thiré, com quem tinha um filho, Cecil. Ele, com a dramaturga mineira Zora Seljan, mãe de Roberto Braga. O casal se encontrava às escondidas num pequeno hotel. Ao redor deles: o ciúme, a fúria, o flagrante moral e as luzes estonteantes de Paris.

Ao voltarem para o Rio de Janeiro, os casamentos de ambos terminaram.

Tônia decide romper também com o instável e mulherengo Rubem Braga. O escritor reage de forma dramática, ameaça atirar-se sob os carros ou se jogar no mar. Persegue os passos de Tônia. Envia rosas vermelhas para o camarim do teatro onde ela se apresentava. Mas ela o trata com desdém. Era o encerramento definitivo. Ele nunca a esqueceu. Manteve admiração pela atriz ao longo de toda a vida. Escreveu por décadas poemas, crônicas e cartas endereçadas a ela, como este soneto “Tarde”:

 

E quando nós saímos era a Lua,

era o vento caído e o mar sereno

azul e cinza-azul anoitecendo

a tarde ruiva das amendoeiras.

 

E respiramos, livres das ardências

do sol, que nos levara à sombra cauta

tangidos pelo canto das cigarras

dentro e fora de nós exasperadas.

 

Andamos em silêncio pela praia.

Nos corpos leves e lavados ia

o sentimento do prazer cumprido.

 

Se mágoa me ficou da despedida

não fez mal que ficasse, nem doesse:

- Era bem doce, perto das antigas.

 

Quem me enviou o poema e me fez relembrar desse caso amoroso foi Danilo Gomes (1914), o jornalista e crítico literário, que pertence à Academia Mineira de Letras. Danilo conhece profundamente a história urbana e literária do Brasil. É um grande memorialista. Escreveu o estudo “Em torno de Rubem Braga: ensaio e homenagem ao estilo do mestre”. Danilo foi assessor de imprensa da Presidência de República (1985-2004), nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Em mensagem, Danilo descreveu: “Encontrei-me com Tônia uma vez, no Palácio do Planalto, numa homenagem a Fernanda Montenegro. Dei a Tônia o meu livrinho sobre Rubem Braga. Ela ficou surpresa. E, segurando minhas mãos, olhos marejando, ela me disse o soneto que Rubem Braga lhe dedicara.” E acrescentou: “Emotiva, franca, verdadeira, amável e adorável. Assim era Tônia Carrero, carioca da gema. (Não quero dizer que todas as cariocas sejam assim). E aquele poema do Rubem é antológico, como você captou logo.”

 

No meio de tudo isso, pegou-me, de surpresa, a pergunta de uma amiga que se preparava para viajar a Paris: “- O que você quer que lhe traga de presente de Paris?”

Respondi em forma de poema:

 

- O que você quer de Paris?

- Uma folha da borda do Sena,

Uma folha de castanheira,

Ressequida e amarela.

 

Bastará uma folha

E me virão à lembrança

Os beijos,

Os barcos,

As abadias;

 

Atravessarei pontes,

Arcos,

Águas ancestrais

E ficarei presa ao passado,

Às torres

E ao cais.

 

Uma folha só,

Da árvore mais velha

Ou da mais alta

E sorverei magia,

Gotas de chuva,

Pingos de luz.

 

Uma folha arrancada pelo vento

Como a que caiu

Sobre meu casaco de veludo

Naquela tarde bordô.

 

Uma folha do Sena

Armazena todo meu sonho

De ser feliz.

 

Uma folha da borda do Sena

É o que quero de Paris.

A BARONESA DO FORTE COIMBRA

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)




                       Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

Minha filha, Letícia, questionou-me o porquê de somente ela ter sido registrada com um dos sobrenomes da família de seu pai, o Portocarrero. É mesmo belo esse Portocarrero de origem espanhola, ligado às regiões de Castela e da Estremadura. Significa algo como “porto”: passagem e “carrero”: carreiro, caminho de carros. As rodas das carroças sulcando as antigas estradas ibéricas.

Em Mato Grosso do Sul, Portocarrero lembra um episódio da Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior conflito armado da América Latina. O Paraguai se opôs à Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai, num confronto mortífero, de dor e destruição. Combates, fome, doenças. Países esgotados espiritual e financeiramente. Esse foi o saldo da cruenta guerra.

O tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero (1818-1893) foi enviado para inspecionar o Forte Coimbra, localizado às margens do rio Paraguai, município de Corumbá. Esse forte foi construído em 1775, no período colonial, pelos portugueses, para proteger a fronteira oeste e controlar a navegação. Todo branco, imponente, cercado por grossas muralhas, onde pousam garças e tuiuiús. Dos mirantes avista-se a paisagem pantaneira. As ilhas de camalotes com flores roxas que descem o rio. É patrimônio histórico e destino turístico.

Era o princípio da guerra. Ao anoitecer do dia 26 de dezembro de 1864, surgiu a poderosa esquadra do coronel paraguaio, Vicente Bárrios: 11 navios de guerra, 29 peças de artilharia, 3200 homens. No forte, a guarnição brasileira possuía dois canhões, 250 pessoas, entre elas, 115 soldados e civis, 70 mulheres, crianças e 10 indígenas guaicurus. Portocarrero assume a defesa. Quando recebeu um ultimato para render o forte, recusou-se a capitular e declarou que resistiria “até o último cartucho”. Seguiram-se dois dias de intenso bombardeio. Foi nesse momento que se levantou a liderança de sua esposa, a uruguaiana Ludovina Portocarrero (1825-1912). Ludovina organizou parte das mulheres para fabricarem buchas de munição com pedaços de suas saias. Algumas cozinhavam. Outras escalavam na escuridão da noite as íngremes barrancas para buscar água em latas. Outras ainda prestavam assistência aos feridos. Nenhuma gritava. Nenhuma chorava. Mantinham, firmes, o moral dos soldados. Entre as heroínas, a maioria anônimas, destacaram-se duas mulheres do povo, as negras Aninha Cangalha e Maria Fuzil.

Ludovina, cheia de fé (e a fé move os obstáculos), retirou a faixa de comandante do uniforme do marido e a colocou aos pés da imagem de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do forte. Confiou simbolicamente o governo daquelas vidas a algo sobrenatural, extraordinário. Depois, deu ordem ao soldado músico, o Verdeixas, para subir no ponto mais alto da muralha e mostrar a imagem. O gesto abalou a sensibilidade religiosa dos paraguaios. Todos aplaudiam, deliravam, bradavam vivas. Uma verdadeira comoção.

Enquanto isso, a população de Corumbá, em pânico, fugia pelas matas. Muitos foram massacrados. Portocarrero ordena a retirada durante a noite, numa embarcação chamada “Amambaí”. Ninguém ficou para trás. O barco não fez barulho, não soltou faíscas, não bateu remos nas pedras. Envolto na bruma, sumiu na correnteza do rio.

Anos mais tarde, Ludovina e Portocarrero receberam das mãos de Dom Pedro II os títulos de Barão e Baronesa do Forte Coimbra. Era 1889, final melancólico do império. Ludovina ficou viúva aos 68 anos. Perdeu oito de seus 15 filhos. Mergulhou em sua digna velhice. Faleceu aos 87 anos, no Rio de Janeiro.

Descendente direta do casal foi Tônia Carrero (1922-2018), Maria Antonieta Portocarrero Thedim, a sedutora atriz, filha do neto, general Hermenegildo Portocarrero e de Dona Zilda. A estrela de tantos filmes, peças teatrais e novelas. Mais de seis décadas de dedicação à dramaturgia. Morreu de hidrocefalia, aos 95 anos, cercada por filho e netos. Seu brilho permanece. Era azul, divino, de diva.

Por que coloquei o sobrenome Portocarrero em você, filha? Tornei-a LP, Letícia Portocarrero, como era ela, Ludovina Portocarrero. O anagrama LP bordado no linho do enxoval que se encontra até hoje no Forte Coimbra. Uma coincidência? Um chamado? Uma sugestão? Um augúrio? Um legado? Não sei, mas desejo que você tenha a mesma coragem dela para enfrentar as guerras.

 

COMO ESCOLHER BOAS COMPANHIAS

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)

 

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

 

Disse Fulton Sheen, que: " Livros, revistas e jornais, são: "Como as numerosas pessoas que encontramos no carro elétrico, nos cinemas, nas feiras e nas festas mundanas, como nos é, evidentemente impossível, travar relações com essa gente toda, procedemos a uma seleção – "Os Problemas da Vida"

Da mesma forma devemos escolher na " floresta" humana, dentro do possível, os amigos de semelhança à nossa.

Montaigne, nos " Ensaios", diz-nos – que apreciava a boa companhia, mormente quando tomava refeições. Algumas vezes, recusava sentar-se à mesa, quando receava encontrar desagradáveis.

A Arte de Conversar parece que passou de moda, e pena é que assim seja. Prosear, em boa cavaqueira, é forma simples de se aprender, principalmente, se soubermos escutar, com atenção o intelectual – autodidata.

Moura Sá, escreveu, que: " O convívio é indispensável ao homem, como o respirar e o comer. E termina, lamentando que: "A decadência da tertúlia, e falta de reunião para conversar, é um dos fenómenos mais alarmantes da nossa época."

Aprende-se, cultiva-se, do mesmo jeito, como a abelha fabrica o mel – colhendo, de flor em flor, o que precisamos para estimular e alimentar o nosso cérebro.

Jovem leitor, que me lê, por certo, me dirá: O que escreve é exato, mas não me serve, porque não conheço, nem tenho acesso a intelectual de valor.

Sertillanges, em: " A Vida Intelectual", diz-nos, que por vezes conhecemos professor ou autodidata, de grande cultura e: " Não lhe prestamos atenção, e não o interrogamos; só discutimos com ele, cortando-lhe a palavra, para proferirmos bagatelas."

Mas, qualquer um pode, se quiser, dialogar com conhecidos ensaístas, pensadores e filósofos de renome, lendo as suas obras e dialogando com eles. Concordando ou não, o que escreveram, de jeito a conhecê-los a fundo, mormente os Mestres, assimilando-lhes o pensamento.

Se me permitem, gostaria de aconselhar a leitura de livrinho, escrito por um dos maiores intelectuais de França, André Mourois, intitulado: " Carta Aberta a Um Jovem", nele encontrará tudo que necessitas para escolher livros e autores. 

COMO OS HOMENS SUAS MEDIDAS

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)

  

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

  

Lembra-nos os "Apólogos Dialogais", de D. Francisco Manuel de Melo, uma grande verdade, mas poucas vezes dita:

Andava em alvoroço e sobressaltada, a gente alojada nas costas do Reino - porque havia misero pirata, que infestava, a costa macedónica, com duas pequenas barcas, movido a remos. Até que janízaros o arrastaram à presença do Grande Alexandre,

Na presença de Sua Majestade, o pobre corsário, tremia e temia, receando severo castigo. Porém, movido de coragem, empertigou-se, e de voz macia e segura, respondeu-lhe às ásperas injurias de Sua Majestade. Transcrevo as próprias palavras do nosso insigne clássico, conservando o sabor e a elegância da sua sublime prosa:

- Tá, tá, senhor Alexandre! Não me trates, que tu e eu, ambos temos um próprio ofício, mas com tal diferença: que a ti, porque roubas o mundo cercado de exércitos, te saúdam as gentes por monarca, e a mim, que com poucos companheiros faço pequenos danos, me infamam de corsário."

E Manuel de Melo, remata: " Eis aqui como os homens fazem suas medidas! "

Este texto merece reflexão ponderada:

Se cai nas teias da justiça, grande senhor, este, apresenta-se aos magistrados, acobertado de juristas experientes, que com presteza, conseguem que saia ileso ou, pena reduzida.

Mas, se o larápio inculto, que nunca topou oportunidade, ou por ser fraco de inteligência e de memória, assalta galinheiro, e não sendo ligeiro, como lebre, foi apanhado nas malhas da justiça.

Este, sofre sentença impiedosa, que sirva de exemplo, para os demais.

Recordo o hábil chefe, que era benévolo para prevaricadores, e validos dos diretores; e cruel, para servidores humildes. E dizia – se lhe pediam razão. - É necessário dar exemplo...

PEQUENÍSSIMA HISTÓRIA INFANTIL...OU TALVEZ NÃO!

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)


Por Pedro Silva (Portugal)

 

Era uma vez um ursinho muito feio. Era tão feio que se assustava com a sua própria imagem reflectida no espelho. Mas Deus, na sua sabedoria, dera a esse urso um bom coração, tornando-o bonito por dentro. Porém, a vida desse urso era tudo menos simples. Sentia-se triste e sozinho, qual sem-abrigo abandonado à sorte. E sofria! Muito, mesmo. Os seus dias eram monótonos e vazios, visto que o seu interior, ainda que bonito, ansiava por algo mais. Como todos os ursos da sua idade ele queria encontrar alguém a quem oferecer o seu interior, alguém com quem partilhar os seus sentimentos. Mas os seus horizontes eram muito amplos e, quiçá por isso mesmo, ou por ser feio por fora, a dificuldade em encontrar a ursinha especial fez-se sentir de tal forma que, cansado de esperar, decidiu desistir. E como desistiu!

A pouco e pouco o seu interior deixou de ser tão especial e o sofrimento foi-se apoderando da sua alma. Todos aqueles que lidavam com ele notaram a diferença, mas deixaram o urso entregue a si próprio. E porquê? Porque todos se consideravam tristonhos e infelizes, pelo que aquele urso não deveria receber nenhum tratamento especial. Mas estavam todos enganados – aquele urso era especial pelo que, obrigatoriamente, deveria merecer um tratamento diferente. Quanto mais não fosse porque quando eles precisavam aquele urso estava sempre pronto a ajudar. Só que a ingratidão do mundo, aliada à indiferença natural que reinava entre os ursos, fazia com que fosse mil vezes mais fácil ignorar. E, enquanto isso acontecia, o urso feio por fora ia-se tornando menos bonito por dentro. E esse ursito, ainda que infeliz, arranjava sempre um bocadinho de ânimo ou de boa vontade para ajudar um seu próximo que sofresse. Era sempre o primeiro a acorrer a um urso em apuros, sempre o primeiro a dirigir uma palavra de reconforto a um urso sofredor, enfim, o seu interior continuava a demonstrar preocupação, carinho, amor...

Entretanto, ao seu redor, o mundo dos ursos não parava – implacável e imparável. Tal como todos os outros ursos, aquele urso especial tinha de cumprir a sua obrigação – arranjar comida para sobreviver. Foi num certo dia, ao desempenhar a sua função, que encontra uma ursa muito bonita, que irradiava uma luz muito especial, mas ao mesmo tempo com o semblante mais triste que jamais vira. O urso feio sentiu algo de tão forte que na altura não conseguiu explicar. Mas Deus, do alto do seu trono, sabia bem o que era e a definição correcta não era amor! Era algo de mais forte, muito mais forte!

O urso feio sentiu necessidade de acorrer em auxílio da pobre ursa bonita, mas infeliz, só que embateu num muro de frieza. Não havia dúvida nenhuma que aquela ursa havia sofrido muito na sua escassa vida – e o urso feio era, devido ao seu interior especial, o único urso no mundo capaz de compreender, aceitar e tentar modificar o rumo dos acontecimentos, ou seja, o mesmo é dizer, fazer aquela ursa feliz. Porque o urso feio sentia que era capaz e porque estava dentro de si a noção de que todos os ursos tinham direito a ser felizes. Acima de tudo, acreditava que Deus o iria ajudar a concretizar os seus intentos.

Tentou uma aproximação suave – a ursa recuou, como num instinto de sobrevivência que, notava-se, havia sido alcançado à custa de muito sofrimento. E nesse primeiro encontro nada de muito especial surgiu, a não ser a tomada de conhecimento da existência, para ambos, do outro no mundo. O urso feio, porém, sentiu algo no seu interior que o deixava algo apreensivo – parecia que o seu corpo estava inteiramente descontrolado e que deixara de ser propriamente seu. Quem passara a ser o dono é que não sabia. Mas no dia seguinte, o certo é que voltou àquele lugar e, ainda que pelo caminho fosse bastante incrédulo em relação ao facto de voltar a encontrar aquela ursa bonita, o certo é que sentia que tinha de ir.

O urso feio desconhecia por completo que fora Deus que o colocara no caminho daquela ursa e que aquela força que o impelia a dirigir-se de novo àquele local era-lhe superior. Foi só quando, ao chegar ao lugar exacto, viu a ursa de novo ali sentada, que o urso feio sentiu que algo de muito especial estava a passar-se. E mais intrigado ficou quando, numa tentativa de aproximação mais forte, a ursa decidiu começar a falar. Trocaram nomes próprios e pouco mais, mas a ursa bonita já não parecia a mesma – ainda que se fosse notando cada vez mais o sofrimento que possuía, o certo é que o à vontade, que aumentava a cada instante, fazia acreditar que aquilo a que o urso feio se propusera podia realmente acontecer – assim Deus o ajudasse.

Nos dias seguintes, e como a ursa bonita sempre ali se encontrava, cada vez mais deliberadamente à espera do urso feio, as conversas foram-se tornando cada vez mais profundas – a ursa sofrera de terríveis acometimentos que a fizeram sentir-se a ursa mais infeliz de toda a comunidade. Incapaz de sentir-se inteiramente livre, mercê de um asfixiar inconsciente por parte dos seus progenitores, tentara a fuga para a frente, ou seja, decidira abandonar aquela comunidade para viver noutra. Porém, desde cedo entendeu que embora todos lhe achassem muita graça, à medida que foi crescendo entendeu que o Mundo era todo igual e não havia, em lado algum, alguém interessado em ouvi-la. E o seu desencanto era de tal forma que a sua aprendizagem de vida, ainda que bastante intensa, foi de tal forma angustiante de chegara à triste conclusão que a liberdade em sofrimento era pior que a prisão com algum descanso.

A sua vida tornou-se mais pacata durante algum tempo, mas havia dentro de si algo que a atrofiava – o seu interior pedia sempre mais, mas do quê nem ela própria sabia. A vida em comunidade era muito pouco para ela e de novo sentiu-se demasiado apertada para o seu gosto. Sentindo, tal como todas as outras ursas da sua idade, o apelo do contrário, deixou-se enlear por uma necessidade e conheceu um urso garboso que lhe parecia de todo inofensivo em termos pessoais, mas que a levaria a concretizar todos os seus desejos e ambições – uma vida louca pelas florestas, livre das amarras super-protectoras dos pais ursos. E o certo é que a relação com esse urso garboso a fazia sentir-se, pelo menos, solta.

Só que a visão provocada pela ansiedade de liberdade cedo esfumou-se. Sem saber como, o certo é que a sensação positiva se deteriorou – eram ursos de feitios diferentes e, ainda que tivessem alguns gostos semelhantes, o certo é que a relação se assemelhava a uma laranja seca: por mais que espremesse não saia uma única gota de sumo. A pouco e pouco a ursa foi-se desvanecendo da vida o urso garboso, mas, no entanto, e apesar de sentir vontade de ser feliz, afirmava que era uma vergonha, perante a comunidade dos ursos, o expor de uma situação dessas. Afinal de contas, nunca nada semelhante tinha acontecido.

O urso feio tudo ouvia e registava. Tentou, do fundo do coração, ajudar aqueles dois ursos a fim de que não sofressem do mesmo mal que ele – de solidão. Tentou ajudar a ursa a levar as más palavras ao bom sentido, aproveitando tudo aquilo que de bom o urso garboso tinha. Mas a ursa bonita era demasiado livre para ser aprisionada, demasiado ela própria para ser o que os outros ursos queriam que ela fosse. E sentiu-se tentada a avançar em frente. Mas o urso feio, desconhecedor da situação, continuou na mesma toada de reconciliação, insistindo no continuar da relação entre os ursos.

Mas, com o passar dos dias, começaram a tornar-se visíveis os sinais de ruptura total – a ursa afirmava que não gostava de passear com o urso garboso na floresta e o urso feio sentiu-se tentado a desistir. Mas Deus, sentindo que só ele poderia ajudar aquela ursa, impeliu-o a continuar com o seu acto de caridade. Foi então que, com o passar dos dias, ambos se detinham mais em falar de si próprios do que de outros ursos. Existia algo entre eles – a sua relação fora feita no Céu e pelo próprio Deus. Só podia ser assim mesmo, dada a alegria que ambos agora irradiavam, isto apenas e só quando estavam juntos, porque quando afastados a tristeza voltava e dava lugar à depressão.

Parecia um lindo conto de fadas e passavam os dias a contar os minutos que os separavam do encontro – só viviam para isso. Ao fim de algum tempo começaram a sentir que alguma coisa de realmente especial estava a passar-se – afinal de contas quanto mais a ursa bonita comparava o urso feio ao garboso mais infeliz se sentia no espaço de tempo em que não estava com o seu novo confidente. Mas o urso feio não era diferente e ainda que sentisse um certo remorso ao notar que a ursa bonita aproveitava aquela oportunidade para criticar o urso garboso, o certo é que achava que aquele tempo passado com a ursa era como um pedaço de Paraíso na Terra.

Os dias foram passando e ambos os ursos sentiam já que aquilo que realmente desejavam era que aqueles momentos pudessem ser prolongados por todo o dia. Mas isso era impossível enquanto a ursa bonita não dissesse ao urso garboso o que não sentia por ele. E, o urso feio, cego de amor, pediu a Deus que a ursa o conseguisse fazer feliz. Mas Deus ficou triste com aquele pedido – o que ele lhe estava a pedir era o sofrimento de outro urso. Nem parecia próprio daquele urso que sempre tanta preocupação revelara com o se próximo. Mas, atendendo ao sofrimento que ele passara e à felicidade actual da ursa na sua companhia, decidiu atender ao pedido e, em pouco tempo, o urso garboso soube que a ursa já não tinha gosto em passear com ele pela floresta. Deus ajudou-o e ele tornou-se rapidamente feliz com outra ursa, mais simplória, mas que o fez sentir amor verdadeiro.

Tal facto abriu portas ao relacionamento entre o urso feio e a ursa bonita. Foi nessa mesma noite que o urso feio recebeu a visita de Deus na sua caverna, tendo-lhe pedido que tratasse a ursa bonita da melhor forma que o seu coração permitisse, de modo a que ela fosse feliz para todo o sempre. Porém, caso o urso feio falhasse no seu compromisso, seria castigado de uma forma que não possibilitaria recuo – a ursa deixaria instantaneamente de gostar dele e, em consequência, iria abandoná-lo de forma definitiva. O certo é que, até hoje vivem os dois, felizes, na floresta.

 

(A história continua... E que assim seja por muitos e bons anos!)

 

Pedro Silva

Trilhando o seu caminho literário alicerçado na serenidade que a independência permite, o escritor Pedro Silva (1977) possui obras publicadas em vários países, nomeadamente Portugal, Brasil, Espanha e Chile. Para além disso, colaborou com órgãos da imprensa escrita em Portugal e Brasil. Licenciado em História e Pós-Graduado em Estudos Portugueses Multidisciplinares, é ainda Cidadão Honorário da Cidade Velha (Cabo Verde), Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro (Tomar – Portugal), Patrono da Biblioteca Municipal Pedro Silva, sita em São Martinho Grande (Ribeira Grande de Santiago – Cabo Verde) e Medalha de Mérito do Jornal “Audiência”. https://pt.everybodywiki.com/Pedro_Silva

A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

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