domingo, 1 de março de 2026

EDITORIAL

 Por Paccelli José Maracci Zahler, editor-chefe (Brasília, DF)


A edição de março da Revista Cerrado Cultural reafirma o compromisso da publicação com a difusão da produção artística e intelectual que emerge do Cerrado e dialoga com o cenário cultural brasileiro contemporâneo. Em um período marcado por transformações sociais e pela necessidade de fortalecer espaços de expressão, esta edição reúne conteúdos que valorizam a diversidade, a memória e a criação como pilares de cidadania.

Os autores e artistas presentes nesta edição contribuem para ampliar o entendimento sobre o papel da cultura na construção de identidades e na preservação de territórios. Suas vozes reforçam a relevância de iniciativas que promovem reflexão crítica, circulação de ideias e acesso democrático à arte.

Março inaugura um novo ciclo editorial, guiado pela responsabilidade de informar, registrar e inspirar. Que esta edição acompanhe o leitor com rigor, sensibilidade e propósito.

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AMOREIRA


Por  Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

 

No solo seco

Cresceu o pé de amora

E agora

O sol se levanta entre suas ramas,

Mais uma vez

Ele vem

Sem demora.

 

As folhas são dentadas,

Pilosas,

Gotejam hormônios,

Sangue da flora,

Fibra da seda

E têm formato de coração.

 

Quando uma amora cai

É chuva preta

Espalhada pelo chão.

 

Senhora da sabedoria

E da intuição,

Sou o pássaro pousado

No mais alto galho,

Aquele que a adora

Que suga seus licores

A cada aurora.


Sobre a autora: 

Raquel Naveira é escritora, comunicadora, conferencista, militante cultural, pesquisadora e professora. Pertence à Academia Cristã de Letras - ACL (Cadeira nº 07, patrono Castro Alves); à Academia Sul-Matogrossense de Letras, ao PEN Clube do Brasil e à Academia Paulista Evangélica de Letras - APEL. 

BOMBA

Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

 

Ouço o barulho das bombas e dos mísseis todos os dias. Os gritos dos alcançados a esmo pelas balas e fagulhas. Não importa que eu não esteja no epicentro dos fatos. A questão de hora e de lugar não conta mais. Os meios de comunicação cancelaram as diferenças. Qualquer lugar do mundo é seu centro. Fui atingida em cheio, bem no peito, pela energia contida no núcleo atômico.

O Japão não estava longe da derrota naquele mês de agosto de 1945. A Força Aérea  deixara de existir, os navios haviam afundado, a esplanada das ilhas protetoras fora perdida. A partir de suas bases, as esquadras de bombardeiros americanos devastavam as cidades. Até que duas bombas de um tipo novo, desenvolvidas pelo cientista que revolucionou a Física,  Robert Oppenheimer (1904-1967), foram lançadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki. Cidades que eram verdadeiras joias, portos militares, onde, quatro séculos antes, europeus e japoneses pela primeira vez estabeleceram contato. Os resultados foram terríveis e o imperador decidiu salvar o seu país por meio de rendição. A Segunda Guerra Mundial chegara ao fim.

As armas nucleares são consideradas armas de destruição em massa. Os incêndios e a radiação produzem danos e ferimentos irreversíveis. O uso e o controle dessas armas têm sido um dos principais focos da política de relações internacionais. O Prêmio Nobel da Paz de 2024 será entregue à “Confederação Japonesa de Organizações de Vítimas de Bombas A e H”. Depoimentos de testemunhas tocam os corações e as mentes para a necessidade do desarmamento nuclear. O perigo é iminente. Várias nações possuem a bomba: Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte, Israel. O mundo está sobre uma imensa bomba prestes a explodir pelos ares.

No livro “Os Sobreviventes”, Cassiano Ricardo (1895-1974), poeta, ensaísta, jornalista, um dos líderes da Semana de Arte Moderna em São Paulo (1922), afirma   que a palavra “sobrevivente” adquiriu uma nova acepção depois da bomba atômica. Somos todos meros sobreviventes à morte nuclear. Ao acordar, devemos nos perguntar se ainda estamos vivos. E nem é preciso que estejamos no meio do mar agarrados a um salva-vidas, nem que tenhamos sobrado de um terremoto, das lavas de um vulcão ou fugido de um acidente numa mina de carvão, ou que estejamos dentro de um submarino desaparecido para sermos sobreviventes. Somos sobreviventes fazendo de tudo para não parecer.

Segundo o poeta, um dia, todos os sobreviventes se reunirão em praça pública: os de Hiroshima e Nagasaki, os mutilados de guerra, os que escaparam do terrorismo e dos conflitos raciais, os suicidas enforcados, os mendigos esfarrapados e miseráveis, os que usam máscaras pretas nos velórios, os que se escondem nos túneis, no subsolo, os que sobem ao solo. Haverá uma promoção sangrenta dos subvivos a vivos, dos sobreviventes a viventes, dos viventes a novos entes. Assim o poeta imagina: “Ao amanhecer/ lugar ao sol dos vivos/ Eles estarão no futuro”. E ainda questiona: “Há quanto tempo/nos chamamos irmãos/ sem o sermos./ Uns matando os outros/ (já imemorialmente)/ por cidades e ermos.”

Ouvindo o barulho das bombas e mísseis sobre minha cabeça, escrevi o poema “Bomba”:

 

A bomba explode,

Tomba em forma de chuva,

Fungo

Cheio de estilhaços,

Energia,

Átomos

E farelos.

 

A bomba explode,

Zomba dos homens

Que derretem

Na pele,

No solo,

Na vertigem

Do imenso flagelo.

 

A bomba explode,

Arromba cercos,

Muralhas

E castelos,

Voam pedras,

Árvores,

Ossos

Na fumaça,

Na massa do cogumelo.

 

A bomba explode

Arrancando lascas,

Faíscas,

Cintilações de um grande martelo.

 

É força cega,

Calamidade,

Ardor e cólera,

Choque em ondas,

Destruição sem paralelo.

 

Sobrevivente,

Cadáver adiado,

Apelo apenas

Por um lugar ao sol,

Sem sede,

Sem fome,

Neste planeta amarelo.

MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA

Por  Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

 

Johannes Vermeer (1629-1675) foi um pintor holandês, da Idade de Ouro Holandesa, época cheia de espantosas conquistas culturais e artísticas, naquele país. Foi funcionário da Guilda de São Lucas, uma associação medieval que agrupava negociantes e artesãos, em sua cidade natal, Delf. Em 1653 casou-se com uma jovem de família rica, Catharina Bolenes. Vermeer morreu com apenas quarenta e três anos, deixando sua esposa e onze filhos com enormes dívidas. A viúva foi obrigada a vender todos os quadros ao conselho municipal em troca de uma pequena pensão.

Vermeer ficou esquecido por muito tempo, sendo “redescoberto” pelo historiador Théophile Thoré,  em meados do século XIX. Hoje é reconhecido como um dos maiores mestres da pintura holandesa de interiores. É típico de Vermeer o olhar íntimo sobre a cena, a luz meticulosa, a manipulação das cores, criando obras sedutoras. Retrata mulheres em cenas cotidianas como “A Leitora”, “Mulher com Balança”, “Leitora à Janela”, “Mulher de azul, lendo uma carta”, “A Rendeira”, entre outros quadros. Nessas mulheres de corpo presente há uma calma e uma profunda consciência espiritual. Sensação de quietude nessas camponesas absortas em suas tarefas domésticas. Mas o quadro mais famoso é, com certeza, “Moça com brinco de pérola”, também chamado de “A Mona Lisa do Norte”. Essa moça representa a beleza e a serenidade femininas, capturadas num momento silencioso por um observador encantado por aquele rosto delicado. Um rosto enigmático, que transmite, ao mesmo tempo, amor, tristeza e desprezo. Talvez um certo desdém pelo pintor.

O quadro inspirou o filme “Moça com Brinco de Pérola” (2003), do diretor Peter Webber. O roteiro conta a história da camponesa Griet (Scarlett Johansson) que é obrigada, por questões de falência da família, a trabalhar na casa do pintor Vermeer (Colin Firth). Aos poucos Vermeer presta atenção na moça e faz dela sua musa, nutrindo uma paixão secreta e contida, jamais manifestada em palavras. Vermeer percebe que ela é sensível, inteligente, curiosa para conhecer as técnicas da pintura, a textura das tintas, as combinações das cores. Tão diferente de sua esposa, que tem até medo de entrar no ateliê, que deseja apenas vender suas obras rapidamente para a sobrevivência. É um filme lacônico. Os sentimentos são passados por gestos, olhares que se cruzam em jogos de dor e cumplicidade. Os amores não realizados são intensos.

O quadro e o filme levaram-me a escrever “Moça com Brinco de Pérola”:

Como é bela a moça

Com brinco de pérola!

A pele alva,

O pescoço de cisne,

O olhar leitoso,

O cabelo oculto

Sob um turbante azul-noite.

A face brilha como lua nas águas,

De   sua orelha pende

Uma gota de orvalho

Que se cristalizou

Numa concha madrepérola.

 

“Moça com brinco de pérola”

É um retrato,

Um pintor fascinado por um rosto,

Ele a amava...

E nesse momento

Deve tê-la pedido em casamento.

 

"LIGAÇÕES PERIGOSAS"

Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)


 “Ligações Perigosas” é o título daquele que foi considerado o melhor romance francês do século XVIII, uma obra-prima da literatura erótica ocidental. O autor, Choderlos de Laclos (1741-1803), foi militar e filósofo, que viveu a tensão de uma monarquia aristocrática decadente, antes da Revolução Francesa. Conseguiu ser reintegrado ao exército como general, sob o comando de Napoleão Bonaparte. Escreveu sobre a necessidade de educação das mulheres que deveriam, segundo ele, ter uma rotina leve, com repouso, mas ativas, sem excessos, com controle emocional dos desejos que levam à frustração.

“Ligações Perigosas” (1782) escandalizou a sociedade francesa. Trata-se de um romance epistolar. São 175 cartas trocadas entre personagens da alta burguesia com pontos de vista diferentes, vozes que se opõem, expondo as vísceras de ligações políticas e amorosas, cheias de ambição, sedução e corrupção moral.

A trama foca na Marquesa de Merteuil e no Visconde de Valmont, ex-amantes, libertinos e cínicos, que manipulam e arruínam reputações por pura diversão e vingança. A Marquesa é enigmática, inteligente, calculista. O Visconde é inescrupuloso e conquistador. Quando os dois se unem é para destruir a vida deles mesmos e das pessoas que os rodeiam.

A Marquesa propõe ao Visconde que corrompa Cécile de Volanges, uma jovem saída do convento. O Visconde tem novo alvo: Madame de Tourvel, uma mulher bela, casada, fiel e virtuosa. O marido de Madame viaja. O Visconde começa a tecer uma teia de fingimentos, artimanhas e intrigas, para que ela caia em seus braços. Ataca para abalar suas convicções morais. Os planos cruéis fogem do controle. O Visconde se apaixona perdidamente por Madame de Tourvel. Caminha-se para a tragédia completa: a Marquesa e o Visconde desmascarados publicamente; Cécile desonrada; Madame Tourvel, corroída pela culpa, caindo gravemente doente. Todos devastados, dilacerados, diante de uma corte hipócrita e extravagante. Fim de uma era.

O livro foi adaptado inúmeras vezes para peças teatrais e filmes, tendo sido o mais recente o filme de 1998, dirigido por Stephen Frears, com Glenn Close no papel da Marquesa de Merteuil, Uma Thurman como Cécile, Michelle Pfeiffer como Madame de Tourvel e John Malcovich no papel de Visconde de Valmont. Que atuação impressionante a de Malkovich! No jogo de sedução, ora ele se assemelha a um anjo, ora a um lagarto. Escrevi o poema “Anjo e Lagarto”:


Meu amante é mistura de anjo e lagarto,

De lagarto tem um ar rastejante,

Serpente que ganhou pés, mãos

E língua bífida;

De anjo tem um par de asas

Que se abrem sobre mim

Como cisne no lago.

 

De lagarto tem o olhar contemplativo

De quem fica horas imóvel

Sob o sol;

De anjo tem o poder

De conduzir astros,

De executar leis,

De tornar-me rainha.

 

Quando lagarto

Posso feri-lo,

Cortar-lhe a cauda

Que se regenera;

Quando anjo

Posso derramar azeite quente

Em suas costas

E traí-lo.

 

O lagarto

Foi um pássaro gigante,

O anjo,

Uma aspiração impossível.

 

Meu amante é mistura de lagarto e anjo,

De anjo e lagarto,

Sou mulher

E temo a raça dos demônios.

  

Assistimos há pouco a uma tragédia familiar. A família é palco de amor, proteção e de traumas e conflitos. Uma mulher trai o marido. Traição é fraqueza da vontade, uma escolha. O marido, num colapso emocional, tira a vida dos próprios filhos e se mata. São batalhas espirituais movidas a paixões, a erros. Paixões que queimam, que levam a mil desordens, que enlouquecem. Misto de carência, rejeição, dependência e egoísmo. A cegueira. O momento fatal. O combustível da raiva, da tristeza, da confusão mental transformadas em lenha e fúria. Uma imensidão de sentimentos negativos que se levantaram como labaredas.

Sou movida por paixões: o desejo de amar, que me consome; a busca do meu ideal, sempre distante, nas estrelas e a compaixão terrível pelo sofrimento de todos os seres viventes.

 

PRECAUÇÃO

 Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)




AS MONTANHAS DE BOGOTÁ

 Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)