domingo, 1 de fevereiro de 2026

EDITORIAL


Fevereiro chega como um sopro quente sobre o Cerrado, trazendo consigo a força das palavras que insistem em permanecer. Nesta edição, a Revista Cerrado Cultural reafirma seu compromisso com a pluralidade: atravessamos o íntimo e o político, o cotidiano e o mítico, o humano e o digital.

Os textos que compõem este número revelam um Brasil que pensa, sente e se reinventa. Há crônicas que iluminam as esquinas anônimas das cidades, reflexões que confrontam nossos impasses morais, diálogos que atravessam o tempo, e a presença vibrante da arte digital — prova de que a criação continua a expandir fronteiras.

Entre memórias, inquietações e epifanias, cada autor oferece um fragmento de mundo, e juntos formam um mosaico que convida à pausa e ao pensamento. Em tempos de mudanças aceleradas, a palavra permanece como território de resistência, beleza e encontro.

Que esta edição inspire, provoque e acompanhe o leitor na travessia de mais um mês. A cultura, afinal, é o que nos ancora e nos impulsiona.


Paccelli M. Zahler

Editor-Chefe

SEM DIPLOMA NÃO SE PASSA DE HABILIDOSO

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal) 

 

A semana passada recebi a inesperada visita de amigo. Daquele que escrevem pelo Natal e telefonam pelo aniversário. Recebi-o na sala de visitas, que é, igualmente sala de jantar, já que o apartamento é pequeno.

Vivia nos arredores, mas a idade, e a dificuldade de movimentação, obrigaram-me a morar no centro, em prédio de Esquerdo – Direito, com vizinhos, felizmente, educados, pelo menos no meu andar.

Enquanto conversamos e petiscávamos biscoitos da velhíssima fábrica de Valongo, acompanhados a Vinho do Porto, meu amigo reparava nos quadros que brilham pelas paredes, principalmente para o óleo, que mostra natureza morta. Sabendo que era de meu pai, elogiou-o:

- Dou-lhe os meus parabéns! Seu pai tem muita habilidade! Pensava que só escrevia...

Respondi-lhe que expôs poucas vezes, mas, mesmo assim, está representado em várias pinacotecas. Então, acercou-se da tela, para melhor apreciá-la, e:

- Como aprendeu a pintar?

- Tinha o curso das Belas – Artes. Foi discípulo de Acácio Lino, e Joaquim Lopes, e recebeu noções de escultura do Mestre Teixeira Lopes.

Meu amigo, melhor diria – conhecido, – escancarou a boca de espanto, e continuou:

-Logo vi, que era artista!...

Era artista, porque frequentara as Belas – Artes.

 -Disse, com razão, Marden, in: Poder da Vontade": "Dá-se mais importância ao diploma, que representa sabedoria fictícia, que a verdadeira sabedoria, sem a garantia de diploma".

Eis o motivo de Erasmo, após ter obtido o grau de doutor, resolveu ir a Itália:" Porque ninguém, mesmo as pessoas sensatas, acreditam no nosso mérito, se não atravessarem o oceano", disse Léon E Halkin, no livro: "Erasmo".

O mesmo acontece a muitos, no nosso tempo, que procuram obter o doutoramento em Universidades estrangeiras... para que lhes deem valor à sua sabedoria.

Escreveu Silva Pinto, sobre Cesário Verde: " Matriculou-se no Curso, em homenagem às Letras, como se as Letras lá estivessem no curso."

MUDAM-SE OS TEMPOS; MUDAM-SE OS CONCEITOS

 Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal) 

 

No mês de dezembro, mês húmido e sombrio, aproveitei os raros dias de céu lavado e, de amena temperatura, para almoçar num centro comercial.

Após suculento repasto, juntamente com minha mulher, percorri pausadamente vários estabelecimentos, e estaquei, por fim, numa livraria – das poucas que conseguiram sobreviver à falência da leitura.

Estava eu a ver as novidades livreiras, quando acidentalmente, escutei diálogo travado entre senhora, e jovem de pouco mais de doze anos, logo presumi que era sua filha.

- Preciso de comprar os "Maias" – disse a menina. O professor de português recomendou a leitura desse livro, que é próprio para a nossa idade.

Inclinando pudicamente os olhos, a mãe murmurou, quase segredando:

-Já o li. Parece incrível que menina da tua idade o leia. Como é possível, que professor diga – que esse livro é próprio para a tua idade!...

Tagarelando afetuosamente, encaminharam-se para a saída de mãos enlaçadas. A menina saltitava de contentamento, levando na mão o grosso volume.

O diálogo entre mãe e filha, fez-me lembrar o que Dona Emília Cabral, me contou, quase à puridade: a cena ocorrida entre a Marquesa do Ficalho e a nora, Dona Maria das Dores, neta (como ela,) de Eça de Queiroz.

Certa ocasião a Marquesa encontrou-a enterrada no macio sofá da biblioteca, lendo, sofregamente, livro do avô. Qual? Já não me recordo:

- “Menina! - Bradou irada a respeitada fidalga. Esse livro não é indicado para jovens da sua idade!...”

Devo revelar o leitor, se ainda não conhece, que o escritor não queria que os filhos, principalmente a Maria, lessem as suas obras.

A filha querida do grande estilista, só conheceu as obras do pai, em Portugal, em Tornes, com avançada idade!

Tive oportunidade de conhecer as netas do genial escritor, que me revelaram os escrúpulos de Dona Emília de Castro Pamplona (Resende), sentia quando tinha que abordar livros do marido.

No tempo do Eça, mesmo décadas depois da morte, a 16 de agosto de 1900, as meninas, mormente senhoras, consideradas da boa sociedade, eram bastante recatadas; e se o aguilhão da curiosidade as acicatasse a lerem livros do Eça, faziam no decoro do quarto. E nunca revelavam que as conheciam, porque o pejo não lhas permitia.

Agora, em plena liberdade, na decadência da civilização, as nossas donzelas: leem, conversam e debatem, temas mais apimentados, que as cenas escabrosas, descritas pelo romancista.

Não admira, portanto, que os professores as recomendem, até as incentivem, essas, e outras, moralmente mais reprováveis.

Não estamos no século XXI, onde tudo deve ser lido, provado e incentivado?

Não estamos num " Mundo em Chamas", interessante obra de Billy Graham ?

IMPASSES

 Por Catarina Osoegawa (Florianópolis, SC)

 

Como um cinturão que não se amarra na cintura, mas na região do tórax, Elvira esforçava-se por prendê-lo e fechar a fivela, que seguia após um pequeno retrato de um casal preso a uma das pontas do cinturão. E dizia repetidamente através de gestos e murmúrios: Esta foto deve ser distribuída a todos para ajudar a disseminar o DNA!!

Esta cena ocorreu após a busca por Elvira, em uma das trilhas que estávamos percorrendo ao sul da Ilha de Florianópolis em Santa Catarina em uma viagem de final de semana. Elvira havia se perdido. Após muito procurar, nossa amiga Eliane pode encontrá-la em uma das grutas que havíamos passado por ocasião de um outro passeio nesta mesma trilha.  Elvira encontrava-se em posição fetal e já não conseguia falar. Eliane olhou para as mãos dela, havia um anel com a fotografia de um casal, seria ela e o namorado? Elvira não conseguia articular as palavras, não podia elaborar uma frase sequer, sua expressão verbal tornara-se totalmente ininteligível, seu semblante refletia algo como se estivesse vivendo uma cena de horror, a qual não conseguíamos compreender e não sabíamos como lidar.

Elvira ria e chorava ao mesmo tempo, acenava com a cabeça ao concordar com algumas hipóteses que tecíamos sobre o que haveria acontecido, expressava-se com grunhidos e gestos fortes e impositivos, às vezes gritava, em meio à uma grande agitação psicomotora. O cinturão com o retrato do casal passou a ser o nosso guia de orientação e tentativas de interpretação. Tudo era muito estranho naquela cena que aludia a um ideal alucinatório de casamento e à transmissão de um DNA que a deixava aflita, tensa e agitada. O que haveria ocorrido com a nossa amiga neste lapso de tempo em que se perdera pelo caminho? Sabíamos que o seu sonho de casamento com um ex-namorado de olhos verdes e cabelos loiros tingidos pelo sol e pelas ondas das marés onde se embalava diariamente, não havia se realizado por trágico destino do rapaz. Sabíamos que Elvira sonhava reencontrá-lo a qualquer custo, não importando por onde tivesse que procurá-lo e por quais obstáculos tivesse que transpor!



Era como se a cena do casamento carregasse no oportuno imaginário a potência de se materializar no real, e o DNA, marcado e disseminado através da fotografia, nos indicasse algo da força do desejo sexual e da memória que não se dissolve ao longo dos dias, mas se perpetua no imaginário da fuga de limites, assim como se disseminam as sementes dos ideais construídos ao vento, que se materializam em imagens nítidas a seu criador. Como se a ficção que deixa de ser fantasiosa pudesse acessar uma verdade que a tornasse capaz de ser compartilhada, de tão real que se apresentava à mente de Elvira. Ao mesmo tempo, partilhando uma realidade tão particular, somente a sua subjetividade podia trilhar uma linha simbólica de significados e coerência a partir de uma lógica que não era racional, mas própria da invasão do inconsciente no seu funcionamento mental.

Podemos não ter reconhecido os protagonistas que Elvira nos indicava, a fotografia se mostrava desgastada pelo tempo, estava craquelada, quase não identificávamos os seus detalhes, e chegamos a pensar que seria uma foto antiga dos pais ou mesmo dos avós de Elvira, uma imagem se personalizando como um testemunho vivo de desejos na busca de uma identidade na história familiar, uma memória esfumaçada e fugidia articulando presente e passado, real e fantasia revelando em delírios e alucinações os devaneios oníricos da nossa querida amiga.



Havia um desconforto incomensurável, como poderíamos ajudá-la neste momento de impasse de uma crise psicótica, em meio a uma trilha longe de quaisquer recursos de saúde? Como poderíamos acalmá-la em meio àquele turbilhão de ideias e sentimentos aparentemente desconexos e irracionais? Estar diante de alguém em surto psicótico leva-nos a dimensões jamais imaginadas de um sentimento de impotência radical e uma impossibilidade de compreensão que eleva o estresse e o sentimento de solidão a uma potência extrema. Sentíamos a dor da solidão como se estivéssemos em outro país tentando nos comunicar com alguém que fala uma língua completamente estranha e incompreensível. Não sabíamos o que fazer diante daquela situação de agitação de Elvira, e sem recursos, a não ser a nossa presença, decidimos simplesmente escutá-la, e manter o foco naquilo que poderíamos acolher diante da sua angústia, tranquilizando-a quanto àquele cinturão que houvera subtraído a sua voz peremptoriamente.

Havia um conflito bem nítido entre fechar o cinturão e se calar ou destravá-lo e libertar-se de um aprisionamento profundo de passagens traumáticas. Bem sabíamos que os dramas que a aprisionavam faziam-na permanecer em estado de melancolia e impediam-na de tecer novas oportunidades e novos laços amorosos. Elvira acreditava naquela fotografia como a grande determinação e germinação de um DNA que pudesse salvá-la daquela cena de horror que estava vivendo alucinatoriamente, provavelmente na tentativa de libertar-se de um trauma mais antigo. O protagonista agora se transformara em imagem, vivenciado como um ser vivo que, ao mesmo tempo que a libertava, a comprimia em sua fragilidade emocional, atacava a sua estrutura e desagregava uma possibilidade de reorganização mental.



Como toda imagem visual, algo do real se permite destacar-se e perpetuar-se, mas também algo se oculta entre os jogos de luzes e ângulos de enquadramento, amplificando o que se apresenta em primeiro plano, mantendo em estado latente o que se enxerga em segundo plano. No psiquismo de Elvira, a imagem conflituosa do casamento inicia-se como um retrato de família e termina com a necessidade de composição de um DNA sonhado e desconhecido ao mesmo tempo. Sua disseminação representada pela esperança de recuperar sua potencialidade para a vida, em uma linha muito tênue, apresentava sem dúvida uma lógica que expressava a sua subjetividade entre as crises que diziam de sua essência e verdade interior.

O episódio vivido por Elvira, marcado pela sua súbita mudez e pelo simbolismo do cinturão com o retrato do casal, desenrolou-se como uma sequência de um filme, onde as cenas não necessariamente respeitam uma continuidade linear. Assim, o silêncio de Elvira, que antes parecia insuperável, aos poucos foi se desfazendo, como se o roteiro interno da nossa amiga autorizasse uma transição repentina de estado, e as palavras que antes mal conseguira articular, começaram a ser destravadas. Neste intervalo de tempo que exercitamos o controle da nossa ansiedade, acolhemos a nossa amiga com todas as reservas emocionais que tínhamos guardado, e todo este processo que nos demandou um máximo de equilíbrio e parceria…nos pareceu uma eternidade.



No desenrolar do nosso reencontro, o impasse do silêncio se dissipou e a voz de Elvira voltou a fluir, o cinturão — símbolo de aprisionamento e de conflitos internos — finalmente se abriu. Esse gesto, aparentemente simples, reverberou como uma libertação não apenas do silêncio, mas também das amarras emocionais que a dominavam naquele momento.

Sem questionamentos, nem olhar para trás ou necessidade de revisitar o passado recente, Elvira, Eliane e eu nos empenhamos em buscar o percurso de retorno à nossa trilha. Voltamos a fotografar, e o nosso caminhar se reorganizou como os versos de uma poesia, de um reencontro afetivo entre amigos, fortalecido por elos carregados de cuidados e emoção. Contemplamos paisagens, acolhemos as lembranças de Elvira, e sem que ela pudesse perceber, aceitamos os seus delírios como parte de uma realidade, que, embora não pudéssemos compartilhar, estivemos ao seu lado durante toda a caminhada.

 

    

A APOSTA

Por Dias Campos (São Paulo, SP)

 

            Já fazia um bom tempo que Roberto não ia dormir tão satisfeito. E três foram os motivos que contribuíram para essa sensação: Na manhã de sexta-feira, sua namorada adorou o convite para passarem o próximo feriado em um chalé na montanha; na hora do almoço, assinou um contrato de representação jurídica com uma multinacional para atuar em todo o território nacional; e à noite, ligou para os seus melhores amigos, um delegado de polícia e um promotor de justiça, a fim de relembrá-los da aposta que firmaram há um ano, e cujo prazo terminaria no dia seguinte. – “Ainda está para nascer quem me pregue uma peça”, jactanciava-se o advogado junto a seus contemporâneos de faculdade.

            Sendo assim, mesmo que o sábado amanhecesse chuvoso, ele só o enxergaria ensolarado.

Mas o sol raiou absoluto. E como não houvesse nuvens, o azul do céu tornou-se ainda mais límpido, o que só fez aumentar o seu bem-estar.

Depois de fazer a toalete, e de tomar um lauto café, Roberto resolveu caminhar pelo bairro.

Mas esse estado de espírito começaria a abalar-se assim que ele alcançou o terceiro quarteirão...

Deparou-se com um cadeirante idoso que, de rosto súplice e sem ânimo, aguardava que deitassem esmolas na baciazinha de plástico apoiada sobre as pernas.

Roberto condoeu-se. E aproximou-se dele, e colocou uma nota de vinte Reais.

O deficiente ficou muito surpreso e agradeceu com um sorriso de extrema alegria.

Mais adiante, topou com uma mulher de meia idade que, sustentada por velhas muletas, pedia dinheiro aos motoristas que paravam no cruzamento.

Sem muito pensar, ele retirou outra nota – desta vez de dez Reais – e a ofereceu à pobre senhora, que agradeceu com um sorriso envergonhado e a guardou com ligeireza.

Depois de dois quarteirões, Roberto avistou um cego maltrapilho que também vivia da caridade alheia.

Preferindo moedas às notas, o bom cidadão pôs as esmolas dentro da caneca de metal que ele sacudia. E como fizessem barulho, o cego agradeceu com um leve sorriso e um “Deus te dê em dobro”. 

Com efeito, o bom ânimo do início do passeio diminuíra vertiginosamente.

Mas Roberto não desistiu da caminhada, pois seguiria em direção à casa onde moravam sua namorada e os futuros sogros. De lá, os casais sairiam para almoçar em um restaurante.

O dia passava ligeiro, como acontece às horas felizes. Por isso, o enamorado até se esqueceu dos coitados que o entristeceram.

Mas como tudo o que é bom tem um fim, era preciso voltar para casa.

Pois bastou pisar na calçada para que a lembrança daquelas criaturas ressurgisse. E perguntou-se se ainda estariam no mesmo lugar, esmolando.

Roberto andava a passos lentos, pensativo.

Ao se aproximar do quarteirão onde vira o cego pela manhã, e um dos achismos confirmou-se. Lá estava ele, parado, apoiado na bengala, contrito de frio, e esperando quem lhe desse moedas.

De repente, porém, notou que uma Kombi parava próxima ao pedinte.

O cego, então, virou o rosto para a direita... depois para a esquerda... E guardou os óculos escuros, e entrou na Kombi.

O fulano nunca fora cego. Era um vigarista!

Roberto ficou chocado. E teve vontade de correr até a Kombi e de falar umas verdades ao pilantra.

Mas mudou de ideia, pois não conseguia ver se dentro do veículo haveria alguém mais forte, ou armado.

Sua revolta, no entanto, só aumentaria. É que a Kombi ainda receberia mais dois passageiros...

A mulher de meia idade e o idoso chegaram em seguida. Este, empurrando a cadeira de rodas; e aquela, segurando as muletas, uma em cada mão.

Roberto estava boquiaberto!

E a Kombi acelerou, e sumiu noite adentro.

O enganado ficou alguns minutos estático, tentando ordenar os pensamentos, que revoluteavam sem parar.

Depois de algum tempo, o frio e o medo de assaltos reconduziram-no à realidade. E ele seguiu apressado rumo ao lar.

Não que fosse alienado e ignorasse a existência dos mendigos de profissão. Ele mesmo já vira mais de um falando ao celular.

Mas as cenas que presenciou revelavam uma esperteza extrema, imprimindo um status empresarial à mendicância, com diversificação de tarefas, transporte de funcionários, rígida carga horária e repartição dos lucros.

Por tudo isso, decidiu desmascarar aquela gangue.

Como era provável que os golpistas continuariam labutando no dia seguinte, Roberto iria filmá-los mendigando e no momento em que a Kombi os recolhesse. Depois, entregaria pessoalmente a filmagem para os seus velhos camaradas, o delegado e o promotor, que, por certo, adorariam colocá-los atrás das grades.

Mas como a filmagem só aconteceria no dia seguinte, à noite, achou melhor denunciar o golpe desde já. Assim, muitos outros não seriam prejudicados.

E postou o que descobriu nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp de que fazia parte.

Em que pese ter dado início à justiça, o que o alegrava, Roberto foi dormir bastante irrequieto. Pudera! A raiva teimava, permeando as suas entranhas.

Mas como os retornos sobre as safadezas que denunciou começaram a pipocar no celular, esses feedbacks acabaram por reconfortá-lo, e isso o ajudou a dormir.

No domingo, Roberto decidiu ouvir missa. Era como se buscasse uma confirmação celeste sobre a sua intenção de desmascarar aqueles embusteiros.

Chegou bem na hora em que o padre iniciava a pregação – “Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem.”

O recado, contudo, não conseguiu enraizar-se no coração do devoto.

E ele abandonou a celebração antes da bênção final.

Como o almoço seria macarronada no sobrado da nonna, e como não ficaria bem entrar na igreja carregando uma garrafa de vinho, Roberto teve que buscar em sua casa o tinto que separara.

Mas assim que apanhou a garrafa, a campainha soou estridente.

Ao abrir a porta, quase teve um enfarte, pois reconheceu aqueles mesmos três farsantes que o enganaram no dia anterior.

E foi o cadeirante quem primeiro falou, pedindo esmolas em nome de todos os santos e sendo seguido, em gestos e sorrisos, pela senhora de muletas e pelo cego.

Roberto sentiu o sangue ferver. Depois de ter sido feito de trouxa, os salafrários ainda tiveram a pachorra de irem até a sua casa para pedir mais dinheiro! Era muita desfaçatez!

Pois com o dedo em riste, ele descarregou um rosário de impropérios; e tão cabeludos, que até o cego levantou as sobrancelhas e afastou os óculos.

Prosseguiu dizendo que já avisara uma infinidade de pessoas sobre a fraude que praticavam, bem como o lugar onde estavam atuando, e que se não sumissem para sempre, por certo a polícia e o Ministério Público saberiam encontrá-los e os jogariam na cadeia.

Terminado o desafogo, e um silêncio se impôs...

Súbito, os espertalhões caíram na risada.

De olhos arregalados, ele não acreditava no que presenciava. Os safados, ou eram completamente loucos, ou, os sujeitos mais abusados do planeta!

Fosse como fosse, a afronta ultrapassara todos os limites possíveis, e ele já admitia enxotá-los dali sem se preocupar com futuros processos.

Antes, porém, que partisse para essa opção, Roberto percebia gargalhadas que se superpunham àquelas risadas...

De repente, os seus ex-colegas de classe, o delegado e o promotor de justiça, surgiram radiantes por detrás dos malandros. Ambos queriam falar, mas não conseguiam parar de gargalhar.

Desta vez, os olhos do pobre rapaz esbugalharam-se!

Como ficasse sem reação, as autoridades adiantaram-se e o encararam sorridentes e triunfantes.

E a lembrança da aposta despontou...

Ele ainda tentou esquivar-se, argumentando que só soubera da enganação no dia seguinte ao fato, o que o eximiria de qualquer responsabilidade.

Mas, por dois votos a um, a sua tese foi prontamente rechaçada.

Pois diante de tamanha criatividade, o derrotado não teve alternativa senão a de pagar o que apostaram aos vencedores – um serviço completo de rodízio, em uma famosa churrascaria –, repasto este de que também fizeram parte os três atores que seus amigos tinham contratado.

 

  

ÀS VEZES, ACHO MELHOR MORRER!

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Nossa! Essa vida é difícil.

Tantas ilusões.

O que há de errado?

 

Tento uma coisa.

Busco outra.

Quebrou a cara.

 

Machuco meu coração.

Iludo meus olhos.

Arrebento meu ser.

 

Às vezes acho

melhor morrer.

Tudo é tão dificil.

 

As dificuldades

são enormes.

Só Deus.

 

NÃO BRINCA COM SENTIMENTOS!

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)

Seja maduro, não imaturo.

Seja fiel e não infiel.

Não brinca de namorar.

Nem brinca com os corações.

 

O outro tem sentimentos.

O outro sente por dentro.

Seja responsável.

Livre-se das malandragens.

 

Pega a lealdade.

Prática responsabilidade.

Planta o respeito.

É cresça na confiança.

 

Não brinca com o outro.

Não brinca com sentimentos.

Seja maduro não imaturo.

Seja responsável.