EDITORIAL


Por Paccelli M. Zahler, editor (Brasília, DF)


Julho chega como um clarão no meio do caminho.

Um mês que não pede licença: apenas abre a porta e deixa entrar tudo o que somos — luz, sombra, memória, desejo, fé, espanto, poesia.

Nesta edição, a Revista Cerrado Cultural se permite ir mais fundo.
As matérias que você encontrará aqui não apenas contam histórias: elas desafiam, provocam, despertam. São textos que atravessam o corpo e a alma, que caminham entre o sagrado e o profano, entre o gesto artístico e o abismo interior. Há poesia que acende, há arte que inquieta, há reflexões que nos puxam para dentro — e para além.

Há poemas que conversam com o invisível, há narrativas que tocam o espiritual com a mesma naturalidade com que tocam o humano. Há textos que brincam com a realidade, que a torcem, que a iluminam. E há, sobretudo, uma força criativa que não se explica — apenas se sente.

Julho é isso: um convite à intensidade. A olhar o mundo com mais coragem. A sentir sem pedir desculpas. A reconhecer que a arte, quando verdadeira, não se contenta em ser vista — ela quer ser vivida.

Que esta edição lhe encontre desperto. Que lhe provoque um arrepio, um sorriso, uma pergunta. Que lhe lembre que a cultura é, sim, um território de liberdade — e que aqui, neste Cerrado simbólico que construímos juntos, cada palavra é uma semente de resistência.

Boa leitura!

FLORES RARAS

 


Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)


Há flores raras. Raríssimas. Como a edelvais, que cresce nas regiões dos Alpes suíços, em locais altos, à beira dos abismos. Muitos escalaram perigosamente as montanhas, arriscando a própria existência para colhê-la e oferecê-la à pessoa amada. Devoção e gelo nas palmas das mãos.
No deserto árido, entre areia e escorpiões, nasce a rosa-do-deserto, com pétalas em tons de rosa e vermelho. Também lírios e margaridas silvestres. Sementes ocultas, que dormiram durante anos, de repente, explodem ao primeiro orvalho, em tapetes coloridos sobre as dunas.
O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) escreveu o poema “A Flor e a Náusea”: “Uma flor nasceu na rua! / Passem de longe, bondes,/ ônibus, rio de aço do tráfego.” Que bela imagem. A flor brotando no asfalto. O caule que buscou uma fissura no concreto até romper em miolo e corola. Símbolo da vida que insiste em resistir, mesmo em condições adversas, mesmo num mundo duro e áspero, encapado de cimento.
Famosa a flor de lótus, que nasce no lodo, nos pântanos podres. E ela emerge limpa, pura. Estrela transcendental. No negrume das florestas, algumas orquídeas flutuam como fantasmas no ar. Mistério e luxo pelos bulbos grudados nos troncos das árvores.
Há mulheres assim. Flores raras. Raríssimas. Sofreram violência física, abandono, agressões, espancamentos, lesões, ameaças, humilhações, chantagens, perseguições, assédios, abusos, calúnias, ameaças, mas conseguiram sobreviver. Floresceram à beira do abismo, no deserto, no pó das ruas, na lama. Saíram de situações difíceis com beleza e dignidade.
Perto da casa da minha infância, na rua 13 de maio, vivia uma mulher chamada Edelvais. (É bonito uma mulher com nome de flor.) Diziam que viera do Rio de Janeiro. Que o marido era crooner e ela, corista de cassinos. Quando os cassinos fecharam, a família perdeu seu principal meio de sustento. Recorreram a parentes na distante cidade do centro-oeste. Ela agora vendia roupas, lenços de seda e colchas de vicunha. O filho moço, que depois se tornou ator, ficava sentado no muro da varanda, tragando um cigarro, enovelado na fumaça. Uma lembrança intensa e, não sei por que, dolorida.

Para ela escrevi:

Edelvais é um nome de flor,
Flor alva,
Que dá na neve,
Densa e inatingível
Como uma estrela da paz.

Edelvais é um nome de mulher,
Lembra baú,
Estola de pele,
Ficaria bem numa amiga,
Numa amante,
Numa filha morta,
Numa recordação antiga,
Tanto faz...

Edelvais...
Escalei tantas montanhas,
Não te alcancei jamais...

 

FACE A FACE

 


Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

A beleza é um trunfo incontestável. Fascina. “Como um pedaço de romã, assim são as tuas faces entre os teus cabelos”, cantou o rei Salomão à sua amada. E a alegria tornava o rosto dela ainda mais formoso. O mais interessante é que não podemos ver a nossa própria face. Somente através do espelho, de vidro ou de água, um mero reflexo. O rosto nos olha do fundo mágico. Sentimo-nos questionados: onde estaria escondida a nossa alma? A poeta Cecília Meireles (1901-1964), à beira da velhice, contemplando o seu rosto emurchecido, confessou: “Eu não tinha este rosto de hoje,/ Assim calmo, assim triste, /Assim magro,/ Nem estes olhos tão vazios,/ Nem o lábio amargo.// Em que espelho ficou perdida a minha face?”

Ficar face a face, frente a frente, significa estar diante de alguém olhos nos olhos. A coragem, o desafio de encarar o outro sem véus, sem disfarces. Nossa identidade desnudada. A crença interior aflorada. A pura expressão de nossas mais fundas emoções. Buscar a Deus face a face é um risco, uma impossibilidade real. Falar face a face com o Senhor é ter intimidade com ele, conversar como se conversa com um amigo. Mas, aparentemente, pareceremos loucos, clamando diante de um arbusto ardendo em labaredas ou de um punhado de estrelas fincadas no céu. Nosso rosto ficará brilhante dentro do fogo e da poeira do espaço.

Tenho esperança de conhecer esse mistério plenamente, no futuro, sem limitações. Volto meu rosto na direção do sol. Só a morte revelará minha verdadeira face. Por enquanto, neste baile de máscaras que é a vida, danço a última valsa. Escrevi estes versos:

 

O espírito se manifesta

Através do rosto:

Bondade,

Ira,

Desgosto,

Tudo vem à tona,

Como no vinho

Fermenta o mosto.

 

Queria absorver a personalidade divina,

A tal ponto

 

Que meu rosto

Refletisse o Dele,

Que meu olhar tivesse

Laivos de mel e compaixão

E meus lábios

Gosto de sal e sangue.

 

Como num espelho,

Numa foto,

Prendo a alma,

Só de ver o roso.

 

Caminho

Observando semblantes,

Fisionomias,

Rostos anônimos

Pelas esquinas

De sol posto;

A cada passo

Meus olhos te procuram,

Busco teu rosto,

Não ocultes teu rosto de mim,

Quando estaremos face a face?

INTELIGENCIA ARTIFICIAL

Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha) 



POEMAS DE GERMAIN DROOGENBROODT (ALTEA, ESPANHA)

 











"ALMA BRASILEIRA": UM LIVRO SENSÍVEL E VERDADEIRO COMO A POESIA DEVE SER



Por Rogério Salgado * (Belo Horizonte, MG)

 

Conheci Eduardo Waack na década de 1980; na época eu, Wagner Torres e Virgínia Reis éramos editores da Revista Arte Quintal, uma referência nacional naqueles anos pós ditadura militar e trocávamos (nós e ele) notícias através de correspondências postais. São, portanto mais de 40 anos de atividades minhas e dele. Recebo agora seu último livro “Alma Brasileira” o qual li num só gole, como quem se delicia com um bom vinho.

“Alma Brasileira” traz um poeta desnudo de todos seus sentimentos nessa vivência cotidiana em que ele caminha, jurado e abraçado com a arte, principalmente com a poesia. Seus poemas doem quando fala de si e de suas lembranças, como em “Barretos 2017” onde revela sua experiência dentro de um hospital, mas sem nunca perder as esperanças: “Voltando ao Hospital / para uma nova consulta. / O murmurinho de sempre. / Alguns estão, outros não. / (...) / Entrei na fila do lanche: / Tomei o café e comi o pão. / Passeei pelos corredores silenciosos, / Embora apressados, da Hematologia. / (...) / Aguardo o resultado do hemograma / Assisto a televisão desfocada / Depoimentos de canalhas e corruptos / As mesmas tragédias de sempre / O Brasil está nesta sala / A recepção é acolhedora / A estrada estava movimentada / Gratidão por mais este dia.”

Mais à frente, num outro poema, o poeta observador que é, se diz assustado com “o uníssono das vozes ressentidas nos grupos de oração e a fingida contrição dos beatos de plantão”, uma realidade nesses tempos atuais, onde a fé é vendida não a preço de banana, mas a preço de ouro. E segue... “Sinfonia Incendiária” revela o mundo de hoje, que muito das vezes passa despercebido dos que tem algo mais importante pela frente, como por exemplo, crescer seus dividendos. Aqui, o autor não faz concessões e se joga numa verdade que em alguns poemas serve como uma porrada na cara de quem vive de ilusões e creio que a poesia nos dias de hoje, merece ser uma bandeira desfraldada, não em posições politicamente partidárias, mas sim humanamente humanas e a função do poema é dizer em denúncias, por mais lírico ou não que os poetas possam ser, pois omitir-se seria estar concordando com os erros que cometemos nesta vida. Exemplo é o romântico Vinícius de Morais que delatou verdades em seus poemas “O operário em construção” e “Rosa de Hiroshima”, Ferreira Gullar em “Não cabe no poema” e Manuel Bandeira em “O bicho”.

E nesse emaranhado de versos diretos ao leitor, fala de saudades com um lirismo de rara beleza, como quando diz: “Eu tive uma mãe um dia / Que me acarinhou, tomou nos braços, / Protegeu na noite escura. / Essa mulher valente, bela e sorridente, / Permanece comigo nas fotografias / Que trago na mente e no coração. / (...) / E essa mulher que atravessa os anos e pergunta quem sou / E adentra como uma catedral o esfraldar do tempo / E ressurge das cinzas revigorada é a mãe que eu tive / De mãos macias, cálidos olhos, cantando / As minhas cantigas de ninar com uma boneca no colo / Sem roupa e amassada, cabelos de plástico / Muda como o breu profundo.”

“Alma Brasileira” como revela seu autor, é um livro sofrido, pois registra fatos e acontecimentos reais na vida de quem o escreveu. São momentos marcantes, desabafos e tudo o que habita o coração do poeta. Mas apesar de tudo, há momentos para o romantismo, o amor, quando diz para quem se ama: “Quero partir antes de ti / Na imensidão de uma manhã de inverno / Deixar a casa cheia de lembranças e um livro aberto. / Eu te mostrei o caminho / Tu me ensinaste a caminhar. / Eu te contei uma história sem nexo / E em ti os sonhos se realizaram. / (...) / Em ti deitei e fiz meu ninho / Quero partir como as alegres andorinhas / Que voltam no verão seguinte / Te encontrar na imensidão ensolarada / À beira do oceano de nós dois entregues / Sem rumo, horário ou permissão. / Quero morrer em teus braços / Num abraço firme, meigo, encorajador / E, ao dormir um sono eterno / Ser teu companheiro noutra morada / Noutro cais, habitar um navio fantasma / Singrando os mares da paixão e da loucura.” Por fim, poeta de coração aberto, faz uma bela, sensível e emocionante homenagem ao bailarino e coreógrafo Igor Xavier (1972-2002), artista de Montes Claros (MG) cuja vida foi tragicamente interrompida aos 29 anos, num caso de homofobia que mexeu com o país: “Nesta cidade aconteceu um crime / Que tornou cinza o céu de então / E as luzes apagadas em meu coração / São apenas dor, luto e solidão. / Uma mãe chorou desesperadamente / O seu brado, sua ira e cantochão / E se no palco uma luz desvaneceu / No imenso firmamento uma estrela fulgurou. / (...)”

O livro abre com o poema “Alma” e encerra com o poema “Brasileira”, poemas esses que falam em metáforas, de uma vida e de um país o qual vivemos, apesar de tantos dissabores de quem deveria cuidar melhor dele. “Alma Brasileira” teve lançamento nacional em maio deste ano na Biblioteca Municipal “Maria de Lourdes Lian”, em Matão (SP), cidade onde o autor reside. Também neste mesmo mês, o livro foi apresentado na Escola Técnica “Sylvio de Mattos Carvalho / Etec e em junho, completando o lançamento e integrando o Projeto “Seara das Palavras”, será apresentado na Associação dos Deficientes Visuais de Matão (Adevima). Sua edição foi patrocinada pelo Ministério da Cultura, em projeto realizado com suporte do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) através da Lei Federal de Incentivo à Cultura / Lei Rouanet e contou com fotografias de Simone Detoni e prefácio de Marlene Xavier, da Associação Sociocultural Igor Vive.

Segundo relato do autor: “Havia pensado em fazer a capa como uma referência e uma homenagem ao disco London Calling (1979), do The Clash, que por si já era uma homenagem ao primeiro LP de Elvis Presley (1956).” A imagem da capa é de autoria da fotógrafa paranaense radicada em São Paulo, Simone Detoni. Eduardo explica: “Ela registra um momento controvertido da história contemporânea brasileira, pois foi realizada no dia da decretação do lockdown em São Paulo, 21 de março de 2021, referente à pandemia de covid-19. Foi um dia de intensa movimentação, as pessoas sendo retiradas... Ela foi feita a partir da Catedral da Sé, com duas pessoas observando. Um homem e uma mulher que representam a própria nação brasileira, observando os acontecimentos... Esta foto possui várias camadas de interpretações. Vemos ao centro da capa, o Marco Zero de São Paulo, local de grande simbologia e significado.”

Nascido em 1964, ano fatídico do acontecimento de um golpe militar neste país, Eduardo Waack publicou seu primeiro livro individual de poemas “Canções do Front” em 1986, porém desde 1979 tem seus textos impressos em revistas, jornais e antologias literárias no Brasil e no exterior. É o criador do jornal O Boêmio (cultura popular independente & evolucionária). Tem publicado, entre outros: “A gota de orvalho suspensa na flor reflete o universo” (2013), ”Os guerreiros medievais têm medo de automóvel e liquidificador” (2014), “Daquilo que se pode dizer” (2017), “Caderno de Viagem” (parceria com José Roberto Garbim, 2020), “O Rei e Eu” (2021), ”Os Povos Nativos” (com Nimuendaju Oliveira, Ipojucã Vilas Boas e Marluí Miranda, 2022), “Essência Poética” (com Chico Silva, 2022), “Somos filhos dessa terra” (também com o artista-plástico Chico Silva, 2023) e “Reunião” (2024).

“Alma brasileira” é um livro forte e terno ao mesmo tempo, desses que a gente lê e busca refletir. Seu autor não faz concessões ao escrever o que lhe vem no íntimo, por isso é sim, um livro autêntico em sua essência e que merece ser lido por todos que ainda tem alguma sensibilidade na alma. “Alma Brasileira”: um livro sensível e verdadeiro como a poesia deve ser.

 

 * Poeta com 51 anos de carreira literária, Rogério Salgado reside em Belo Horizonte (MG). Seu mais recente livro é “Antes que a Lua enfarte”, lançado em janeiro de 2024.

  

A ARTE FOTOGRÁFICA DE CATARINA OSOEGAWA (FLORIANÓPOLIS, SC)

 Deserto do Atacama, Chile