EDITORIAL

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)


Por Paccelli M. Zahler, editor (Brasília, DF)

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A cultura acontece quando ideias se encontram. E é exatamente isso que você encontrará nesta edição da Revista Cerrado Cultural: diferentes olhares, experiências e expressões reunidos pelo prazer de compartilhar conhecimento, arte e reflexão.

Cada texto publicado aqui amplia a conversa e reforça nossa convicção de que a cultura se constrói de forma coletiva, plural e aberta. Por isso, além de convidarmos você à leitura, fazemos também um convite à participação.

Se você escreve, pesquisa, fotografa, cria ou simplesmente tem uma boa história para contar, a Revista Cerrado Cultural está de portas abertas para novas vozes e novas perspectivas.

Boa leitura! E quem sabe, na próxima edição, sua contribuição também esteja por aqui.




ABORTOS

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)

 


Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

 

Houve muitos abortos na família Figueira, eu sei. Sacrifícios humanos ao deus do ego. Crianças passadas pelo fogo sem piedade. Flores cortadas. Asas cortadas. Rosas mortas. Abortar nunca é um ato inócuo. Há uma vida humana a desenvolver-se no ventre da mãe: um pequeno ser como cada um de nós já foi. Parece tão óbvio, mesmo assim caímos fundo. Fetos foram sugados, salgados, dilatados, curetados.

Mulheres de minha família viveram com sentimentos de depressão, de autodesprezo, de ansiedade, de raiva, num verdadeiro colapso emocional. Mulheres de minha família enfraqueceram o seu instinto materno e destruíram laços afetivos com seus outros filhos. Mulheres de minha família tiveram essa experiência traumática esmagadora. Bem que procuraram banir o fato de suas mentes, fugir, se esconder, reprimir. Mas há uma tensão constante entre a necessidade de esconder e de expor o trauma. Misto de culpa e vergonha. Não há como uma mulher esquecer um filho, mesmo aquele que ela jogou num poço, mesmo aquele que ela abortou. Ela sempre o conta entre os seus filhos. Repulsa e fantasias intrusivas perseguiram sempre as pobres mulheres de minha família.

Imagino agora um mar de sangue formado pelos Figueiras que não vieram ao mundo, que nunca viram a luz do sol: são placentas, pernas, braços, corações, cérebros, zigotos, que borbulham num imenso caldeirão. Fecho os olhos e os batizo: João Figueira, Pedro Figueira, Henrique Figueira, Madalena Figueira. Desfio nomes, nomes e nomes: eu os batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Eu os batizo, personagens que não chegaram a nascer. Exausta, imploro paz para nossa árvore bendita.

Ouço uma voz que me consola: “- A figueira já deu os seus figuinhos, e as vides em flor exalam o seu aroma. Levanta-te, amiga minha, formosa minha, e vem.”

 

 

(Capítulo extraído do meu romance ÁLBUNS DA LUSITÂNIA, Campo Grande/MS: Alvorada, 2012, p.159)

POESIA E MAGISTÉRIO

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)




                                                 Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

Em entrevista à revista Manchete, publicada em outubro de 1953, Cecília Meireles declarou: “O meu interesse pelos livros transformou-se numa vocação de magistério”. Essa vocação levou-a a fazer o curso da Escola Normal (Instituto de Educação), diplomando-se como professora em 1917 e passando a exercer o magistério. Educadora, preocupou-se com os problemas da infância. Em 1930, houve no Brasil um surto de esperança em torno da educação. Ela se empenhou nesse movimento de renovação, participando das reformas e dirigindo, no Diário de Notícias, uma página dedicada aos assuntos de ensino. Criou em 1934 uma Biblioteca Infantil especializada, em Botafogo, a primeira do gênero. Folheando a antologia “Flor de Poemas”, encontrei e reli o seu poema “Aluna”, do qual transcrevo as duas primeiras estrofes:

 

“Conservo-te o meu sorriso

para, quando me encontrares,

veres que ainda tenho uns ares

de aluna do paraíso...

 

Leva sempre a minha imagem

A submissa rebeldia

Dos que estudam todo o dia

Sem chegar à aprendizagem...

 

Cora Coralina, a poeta e doceira goiana, professora de vida e resistência, tem em seus poemas uma postura pedagógica, de mestra de todos nós. Livre, receptiva, sábia, cultivadamente rude, ela, que se tornou escritora, relembra aquela que lhe ensinou a escrever, no poema “A escola de Mestra Silvina”:

 

“Minha escola primária...

escola antiga de antiga mestra.

Repartida em dois períodos

Para a mesma meninada,

Das 8 às 11, da 1 às 4.

Nem recreio, nem exames.

 

Nem notas, nem férias.

Sem cântico, sem merenda...

Digo mal – sempre havia

Distribuídos

Alguns bolos de palmatória...

A granel?

Não, que a Mestra

Era boa, velha, cansada, aposentada.

Tinha já ensinado a uma geração

Antes da minha.

A gente chegava “-Bença, Mestra.”

Sentava em bancos compridos,

Escorridos, sem encosto.

Lia alto lições de rotina:

O velho abecedário,

Lição sorteada,

Aprendia a soletrar.

...............................................

e a Mestra?

Está no céu.

Tem nas mãos um grande livro de ouro

E ensina a soletrar

Aos anjos”.

 

Cora Coralina é da estirpe de Gabriela Mistral, a poetisa chilena, expressão intelectual da América Latina, autora de “Desolação”, agraciada com o prêmio Nobel da Literatura em 1940. Técnica em educação escolar, consagrou aos filhos de outras mulheres todo seu instinto maternal, ela que nunca teve filhos. É dela a célebre “A oração da mestra”:

 

“Senhor, tu que ensinaste, perdoa que eu ensine; que leve o nome de Mestra, que pela terra levaste.

Mestre, faze-me duradouro o fervor e passageiro o desencanto.

Dá-me o ser mãe mais do que as mães, para poder amar e defender como elas o que não é carne da minha carne. Alcance fazer das minhas crianças meu verso perfeito e a deixar nelas gravada minha mais penetrante melodia, para quando meus lábios já não mais cantarem.

Mostre-me teu Evangelho em meu tempo, para que não renuncie à batalha de cada hora por ele.

Põe na minha escola democrática o resplendor de mulher e de mulher pobre; faze-me desdenhosa de todo poder que não seja puro, de toda pressão que não seja a tua vontade ardente sobre minha vida.

Dá-me simplicidade e profundeza; livra-me de ser complicada e banal em minha lição cotidiana.

Que eu levante os olhos de meu peito ferido ao entrar, em cada manhã, na minha escola.

Que não leve à minha mesa de trabalho meus pequenos afãs materiais, meus sofrimentos insignificantes.

Permite-me transformar em espírito a minha escola de argila. Que meu coração seja a coluna mais forte e minha boa vontade o ouro mais puro” ...

 

Adélia Prado, mística poeta mineira, tem todo seu trabalho fundamentado em suas aulas de Teologia e Filosofia. Encontro referências a escolas e educação em trechos de poemas como “Ensinamento”:

 

“Minha mãe achava estudo

a coisa mais fina do mundo.

Não é.

A coisa mais fina do mundo é o sentimento” .

 

Em “Códigos”:

 

“O perfume das bananas é escolar e pacífico.

Quando a mãe disse: filha, vovô morreu, pode falhar aula,

Eu achei morrer muito violoncelírico”.

 

“Abriam-se as pastas no começo da aula,

os lápis de ponta fresca recendiam”.

 

E, para finalizar, em “O alfabeto no parque”:

 

“Eu sei escrever.

Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,

Composição escolar

Narrando o belo passeio

À fazenda de minha avó que nunca existiu

Porque ela era pobre feito Jó”.

 

Cecília, Cora, Gabriela, Adélia, como amo vocês, minhas irmãzinhas de fé e de luta. Poesia, magistério, duas vocações profundamente unidas, interligadas, nascidas na área mágica do silêncio e da solidão, onde os livros se abrem e deixam sair suas realidades e seus sonhos.

Volto à minha infância. Vejo-me dando aula para minha classe de bonecas; o pátio da escola, onde estudei em São Paulo; os corredores e a capela do Colégio Auxiliadora, onde lecionei por tantos anos; os rostos de mestres, colegas, acadêmicos de Letras. Poesia e magistério, uma escolha. Um caminho difícil num país onde a cultura e a educação não são valorizadas, onde recebemos salários indignos, onde o cotidiano do mundo moderno se torna cada vez mais absurdo e caótico. Neste século XXI, ensinar tornou-se tarefa complexa. Significa lidar com transformações tecnológicas. Concorrer com telas e Inteligência Artificial. Enfrentar desafios emocionais. A perda da autoridade do professor causa desgaste na sua saúde mental. Apesar das dificuldades, da crise da leitura e da escrita, a docência continua sendo uma das profissões de maior importância social. A formação intelectual exige orientação, diálogo, aquisição de repertório. Qual Dom Quixote, continuo assumindo essa aspiração idealista. Que o sonho dessas vocações, ser poeta e professor, não morra nunca.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORA CORALINA. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. 4 ed. São Paulo: Global, 1983.

MEIRELES, Cecília. Flor de poemas. 2. ed. Rio de Janeiro: Cia. José de Aguilar, 1972. p. 88 (Biblioteca Manancial).

MISTRAL, Gabriela. Poesias escolhidas. Tradução por Henriqueta Lisboa. Rio de Janeiro: Ópera Mundi, 1973. p. 205.

POEMA 1

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)





Por Fernando Baggio (Purus, AM)

plantei um saco inteiro
de sementes de expectativas
nasceram dois pés de encantos surpreendentes
e uma árvore de bolhas de sabão

adubei com poesia
reguei com sonhos, noite e dia
logo, ervas saudosistas
floresceram no quintal

avó das expectativas
a saudade é mãe dos encantos surpreendentes
e vive dentro da mais curiosa bolha de sabão
aquela, de cílios incandescentes
prestes a estourar-se em prantos de alegria
lacrimejando sorrisos
em sementes de euforia
semeadas pelo chão


POEMA 2

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)



Por Fernando Baggio (Purus, AM)


do jasmim
a flor é branca
e o cheiro é colorido

das nuvens
as gotas dançam
feito moças de vestido

das sementes
agigantam-se
universos contraídos

das bolhas
os sonhos voam nus
e distraem a rima final da poesia

POEMA 3

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)






Por Fernando Baggio (Purus, AM)


o movimento das bolhas sem sabão

reivindica a estatização
de todas as fábricas de sabonetes líricos
e detergentes poéticos

além da urgente realização
de reforma agrária dos campos semânticos

caso contrário, haverá retaliação
ataremos a linha narrativa ao vento
e cortaremos as raízes morfológicas
das palavras desprovidas de afeição

A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

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