Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)
Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)
Em
entrevista à revista Manchete, publicada em outubro de 1953, Cecília Meireles
declarou: “O meu interesse pelos livros transformou-se numa vocação de magistério”.
Essa vocação levou-a a fazer o curso da Escola Normal (Instituto de Educação),
diplomando-se como professora em 1917 e passando a exercer o magistério. Educadora,
preocupou-se com os problemas da infância. Em 1930, houve no Brasil um surto de
esperança em torno da educação. Ela se empenhou nesse movimento de renovação,
participando das reformas e dirigindo, no Diário de Notícias, uma página dedicada
aos assuntos de ensino. Criou em 1934 uma Biblioteca Infantil especializada, em
Botafogo, a primeira do gênero. Folheando a antologia “Flor de Poemas”,
encontrei e reli o seu poema “Aluna”, do qual transcrevo as duas primeiras
estrofes:
“Conservo-te o
meu sorriso
para, quando me
encontrares,
veres que ainda
tenho uns ares
de aluna do
paraíso...
Leva sempre a
minha imagem
A submissa
rebeldia
Dos que estudam
todo o dia
Sem chegar à
aprendizagem...
Cora
Coralina, a poeta e doceira goiana, professora de vida e resistência, tem em seus
poemas uma postura pedagógica, de mestra de todos nós. Livre, receptiva, sábia,
cultivadamente rude, ela, que se tornou escritora, relembra aquela que lhe
ensinou a escrever, no poema “A escola de Mestra Silvina”:
“Minha escola
primária...
escola antiga
de antiga mestra.
Repartida em
dois períodos
Para a mesma
meninada,
Das 8 às 11, da
1 às 4.
Nem recreio,
nem exames.
Nem notas, nem
férias.
Sem cântico,
sem merenda...
Digo mal –
sempre havia
Distribuídos
Alguns bolos de
palmatória...
A granel?
Não, que a
Mestra
Era boa, velha,
cansada, aposentada.
Tinha já
ensinado a uma geração
Antes da minha.
A gente chegava
“-Bença, Mestra.”
Sentava em
bancos compridos,
Escorridos, sem
encosto.
Lia alto lições
de rotina:
O velho
abecedário,
Lição sorteada,
Aprendia a
soletrar.
...............................................
e a Mestra?
Está no céu.
Tem nas mãos um
grande livro de ouro
E ensina a
soletrar
Aos anjos”.
Cora
Coralina é da estirpe de Gabriela Mistral, a poetisa chilena, expressão intelectual
da América Latina, autora de “Desolação”, agraciada com o prêmio Nobel da
Literatura em 1940. Técnica em educação escolar, consagrou aos filhos de outras
mulheres todo seu instinto maternal, ela que nunca teve filhos. É dela a
célebre “A oração da mestra”:
“Senhor, tu que
ensinaste, perdoa que eu ensine; que leve o nome de Mestra, que pela terra
levaste.
Mestre, faze-me
duradouro o fervor e passageiro o desencanto.
Dá-me o ser mãe
mais do que as mães, para poder amar e defender como elas o que não é carne da
minha carne. Alcance fazer das minhas crianças meu verso perfeito e a deixar
nelas gravada minha mais penetrante melodia, para quando meus lábios já não
mais cantarem.
Mostre-me teu
Evangelho em meu tempo, para que não renuncie à batalha de cada hora por ele.
Põe na minha
escola democrática o resplendor de mulher e de mulher pobre; faze-me desdenhosa
de todo poder que não seja puro, de toda pressão que não seja a tua vontade
ardente sobre minha vida.
Dá-me
simplicidade e profundeza; livra-me de ser complicada e banal em minha lição cotidiana.
Que eu levante
os olhos de meu peito ferido ao entrar, em cada manhã, na minha escola.
Que não leve à
minha mesa de trabalho meus pequenos afãs materiais, meus sofrimentos
insignificantes.
Permite-me
transformar em espírito a minha escola de argila. Que meu coração seja a coluna
mais forte e minha boa vontade o ouro mais puro” ...
Adélia
Prado, mística poeta mineira, tem todo seu trabalho fundamentado em suas aulas
de Teologia e Filosofia. Encontro referências a escolas e educação em trechos de
poemas como “Ensinamento”:
“Minha mãe
achava estudo
a coisa mais
fina do mundo.
Não é.
A coisa mais
fina do mundo é o sentimento” .
Em “Códigos”:
“O perfume das
bananas é escolar e pacífico.
Quando a mãe
disse: filha, vovô morreu, pode falhar aula,
Eu achei morrer
muito violoncelírico”.
“Abriam-se as
pastas no começo da aula,
os lápis de
ponta fresca recendiam”.
E, para
finalizar, em “O alfabeto no parque”:
“Eu sei
escrever.
Escrevo cartas,
bilhetes, lista de compras,
Composição
escolar
Narrando o belo
passeio
À fazenda de
minha avó que nunca existiu
Porque ela era
pobre feito Jó”.
Cecília,
Cora, Gabriela, Adélia, como amo vocês, minhas irmãzinhas de fé e de luta.
Poesia, magistério, duas vocações profundamente unidas, interligadas, nascidas na
área mágica do silêncio e da solidão, onde os livros se abrem e deixam sair
suas realidades e seus sonhos.
Volto
à minha infância. Vejo-me dando aula para minha classe de bonecas; o pátio da
escola, onde estudei em São Paulo; os corredores e a capela do Colégio Auxiliadora,
onde lecionei por tantos anos; os rostos de mestres, colegas, acadêmicos de Letras.
Poesia e magistério, uma escolha. Um caminho difícil num país onde a cultura e a
educação não são valorizadas, onde recebemos salários indignos, onde o
cotidiano do mundo moderno se torna cada vez mais absurdo e caótico. Neste
século XXI, ensinar tornou-se tarefa complexa. Significa lidar com
transformações tecnológicas. Concorrer com telas e Inteligência Artificial.
Enfrentar desafios emocionais. A perda da autoridade do professor causa
desgaste na sua saúde mental. Apesar das dificuldades, da crise da leitura e da
escrita, a docência continua sendo uma das profissões de maior importância
social. A formação intelectual exige orientação, diálogo, aquisição de repertório.
Qual Dom Quixote, continuo assumindo essa aspiração idealista. Que o sonho
dessas vocações, ser poeta e professor, não morra nunca.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
CORA CORALINA. Poemas
dos becos de Goiás e estórias mais. 4 ed. São Paulo: Global, 1983.
MEIRELES,
Cecília. Flor de poemas. 2. ed. Rio de Janeiro: Cia. José de Aguilar,
1972. p. 88 (Biblioteca Manancial).
MISTRAL,
Gabriela. Poesias escolhidas. Tradução por Henriqueta Lisboa. Rio de Janeiro:
Ópera Mundi, 1973. p. 205.