quarta-feira, 1 de junho de 2022

UM GRANDE JORNALISTA PORTUGUÊS: PEDRO CORREIA MARQUES

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

 

Na primeira metade do século XX, floriram, em Portugal, vários jornais, muitos de carácter ideológico; com eles, notáveis jornalistas, que deram brado e ficaram na História do Jornalismo português. Entre eles, destaca-se Pedro Correia Marques, que foi redator de: "A Época" e chefe da redação de: " A Voz", e editor do mesmo jornal.

No final do século passado, pedi a Dona Maria Helena Moreira, que falasse de seu pai. Não da atividade profissional – que é sobejamente conhecida, – mas a sua personalidade, modo de conduta e carácter.

A filha mais nova do jornalista (a caçulinha, como dizem carinhosamente os brasileiros,) moradora em Londrina, narrou-me curiosas e inéditas facetas desse grande jornalista, estimado e respeitado na sua época, principalmente em Lisboa.

Era discreto e humilde. Orava, normalmente, em privado. Nas horas das refeições, rezava em latim.

Era devoto de Nossa Senhora e S. Pedro apóstolo. Gostava muito de Santo António. Chegou a escrever um livro. "Vida Maravilhosa de Santo António", ilustrado por Tom (D. Tomás Maria da Camara - filho der D. João da Camara e de sua mulher Dona Eugénia de Mello Breyner, - director do Colégio Padre António Vieira, no Rio de Janeiro, - de quem minha querida amiga Dona Maria Eugénia, sua sobrinha e afilhada, falava-me com muito carinho e admiração.

Pedro Correia Marques, segunda sua filha, gostava de brincar com as crianças, principalmente as da família.

A caçulinha recordou, algumas cenas tocantes, que assistiu ou que escutou a seus irmãos. Entre elas, lembrou-se que quando tinha dez anos, o pai ,a levava às matinés de Carnaval, no cinema. Pedia à mulher para a mascarar. Nessa época tinha sessenta anos. Sentava-se na plateia, com chapéu " à diplomata". Acabada a sessão, dirigia-se para a redacção de: " A Voz". Antes, porém, ia-a a confeitaria, e enchia a menina, de bolos.

A mulher, quando a filha chegava a casa, ralhava-lhe, por ter comido alimento impróprio para crianças. Esta defendia-se energicamente: " Eu não pedi. O pai é que me deu!..." A mãe ria-se, sacudindo a cabeça.

Levava-a, muitas vezes, para o seu gabinete no jornal. Fazia-lhe caminha improvisada com jornais e cobria-a com sobretudo. Durante a 2ª Grande Guerra, ajudava ternurosamente os refugiados, que procuravam auxílio na redação do jornal.

Nessa ocasião – ele e a mulher – tomavam as refeições antes, na cozinha (pão e couves cozidas com água e sal.) Os avós e os cinco filhos comiam depois refeição mais suculenta.

Quando ia de férias à terra natal, sempre visitava pobríssima mulher, cega e velhinha, a "tia" Maria Gaia, que fora sua catequista. Quando esta o pressentia, dizia alegremente: "És tu Pedro?". Deixava-lhe farta esmola.

Certa manhã apareceu, na redação, estagiário, estudante universitário, muito pobre, que trabalhava para auxiliar a família, chamado Marcelo Caetano (mais tarde Prof. e primeiro-ministro).

Nos dias de serão, como não tinha dinheiro para regressar a casa de táxi, ia a pé, se perdia o último jornal.

Pedro Correia Marques, sabedor disso, andava-o embora mais cedo, e ficava a fazer o seu trabalho – rever, corrigir textos. Era nesse tempo, já o editor do jornal!

Se me permitem vou, agora, apresentar, resumidamente, a biografia desse homem, que subiu a pulso, e chegou a ser nome sonante na vida intelectual portuguesa:

Nasceu a 26 de abril de 1890, em S. Pedro de Rates – Póvoa do Varzim.

O pai de Pedro Correia Marques era viúvo, quando casou com a mãe. Tinha cinquenta e cinco anos; a mãe contou aos pais o namoro e seu desejo de se casar. Estes não concordaram e meteram-na num convento. Ao fim de dois anos, atingindo a maioridade, casou contra a vontade dos pais, e do filho mais velho do viúvo, que foi para o seminário – mais tarde, Padre Marques, vigário de Cousel.

Quando o menino nasceu, fizeram as pazes, e os avós foram convidados para padrinhos. Escolheram o nome do santo do dia do nascimento: S. Pedro de Rates. Mais tarde, após a morte do marido, a mãe casou novamente.

Frequentou a escola Luís de Camões. Ao perfazer dez anos, foi para a Escola Claustral de Singeverga. Foi oblato de S. Bento, sob o nome denominado de fr. Hildbrand (usou esse pseudónimo, algumas vezes, na vida literária:)

Aos dezanove anos, não querendo ser sacerdote, ofereceu-se para o exército. Apresentou-se em Infantaria 20 – Guimarães. Seguindo para Lisboa – Infantaria 16.

A 4 de outubro de 1910, participou na revolução republicana, ao lado das tropas fiéis ao Rei.

Mais tarde aliciou colegas do quartel para realizarem uma revolução monárquica. Foi descoberto e preso no Castelo de S. Jorge, junto com presos comuns. Decorrido um ano foi absolvido e libertado. Na prisão tornou-se amigo de Tom, que era conhecido na cadeia pelo número 2099.

Amigos apresentaram-no ao Padre O'Sullivan, diretor de: "O Rosário", que o contratou como contínuo (ganhava 5 reis ao mês), até que, o Padre, reconhecendo seus conhecimentos excecionais, confiou-lhe missões jornalísticas.

Um dia, o Padre Alves Terças, administrador de:"A Época", convidou-o para trabalhar na redação do jornal, que era do Conselheiro Fernando Sousa.

Faleceu a 8 de agosto de 1972.

O COMPLEXO DE INFERIORIDADE DO PORTUGUÊS

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

 

Na nossa terra, neste bonito jardinzinho plantado junto ao Atlântico, varanda florida sobre o mar azul, o povo é hospitaleiro e subserviente, acocorando-se diante de quem vem de fora, mormente de carteira recheada.

Quando faleceu Rebelo da Silva, Ramalho, referindo-se ao seu Portugal, escreveu:

" (...) " Sabes agora ò pátria qual é a diferença característica que te distingue de todos os países do mundo, e que vivamente te retrata na tua inépcia? É que se um homem que deixasse em Madrid, em Paris, em Londres, em Florença, em Berlim ou em Bruxelas, lá vinte mil homens a pé, levando no coração o luto nacional, o teriam acompanhado à derradeira morada. Tu mandaste um coche da Casa Real!" – " As Farpas”

Era assim como a nação respeitava os ilustres. E agora?

Em 2 de Abril de 2003, "O Público", publicou longa entrevista a António José Saraiva, onde este analisou o âmago do sentimento nacional:

"Os portugueses são acomodativos. Perdem facilmente o sentimento...Por exemplo, os filhos de portugueses, em Paris, quase todos decidem ser franceses. Uma coisa que a me entristece.... Um português acha sempre que o estrangeiro é melhor. Tem razão para achar, quando olha para um pais desenvolvido. Mas a gente vê um país, como o basco, a lutar pela sua personalidade e percebe o que é nacionalismo, o que é o patriotismo."

Na mesma entrevista acrescenta:

" Um castelhano só fala castelhano em qualquer parte do mundo. A gente ouve, mesmo em Paris, e apercebe logo que ele é castelhano. Não fala francês direito. O português, coitadinho, adapta-se, fala português pretendendo falar francês, e quando chega, vem cheio de "pirres", " à gouche"..."

Assim continua na década vinte, no nosso século, a mentalidade de muitos. Nos últimos anos, inesperadamente surgiu onda saudosista dos descendentes de portugueses, que mal conhecem a língua de Camões, desconhecem a História e muitos, os usos e costumes, garantindo, todavia, a sua verdadeira nacionalidade... obtendo assim as regalias – não os deveres, – dos cidadãos europeus...

Afortunadamente o atual Presidente da República, tudo tem feito para inverter o complexo que tantos: políticos, desportistas, artistas e figuras públicas, sofrem, considerando que é seu dever exprimirem-se no idioma do país que visitam.

Estando na Foz de Iguaçu, visitei a Argentina, num grupo de brasileiros. Todos ou quase todos, falavam castelhano apalhaçado. Apenas eu falei português. Fui compreendido perfeitamente e até louvado!

Dizia Eça que no seu tempo os casquilhos falavam francês, agora fala-se inglês. É bonito, é chique, e dá status.

E os bacocos nacionais, escancaram a boca de espanto, e pensam estupefactos: Como é culto!... Como é inteligente!...

CRÔNICA-TESTAMENTO

 Por Leandro Bertoldo Silva (Padre Paraíso, MG)


Existem algumas pessoas que têm verdadeira aversão quando o assunto é morte ou velório. Para muitas há qualquer coisa de mórbido ou mesmo um extremo mau gosto, embora não exista quem não tenha uma história engraçada para contar desses momentos sorumbáticos, o que causa uma das maiores controvérsias da vida ou falta dela. Não raras vezes aparece um bêbado vindo não se sabe de onde sem ninguém igualmente saber quem é — talvez amigo do finado que não pode mais prestar explicações — frente a palavras e casos desconexos proferidos aleatoriamente a causar risadas em uns e pulgas atrás da orelha de outros.

Há também os casos que viram lendas. Soube uma vez pela boca de todos os moradores de uma cidadezinha do interior de Minas que por anos não se falava em outra coisa a não ser da história de D. Etelvina, senhora de seus oitenta e poucos anos, morta, coitada, dentro do caixão e sendo velada em casa com os braços amarrados forçando-os a permanecerem na clássica posição cruzada no peito devido ter sido encontrada com eles para cima. O porquê de ter sido assim havia muitas versões e não menos controvérsias, mas foi fato necessário atar as duas mãos com barbante. Madrugada adentro entre um prato de sopa aqui outro ali, uma conversa lá outra cá, eis que D. Etelvina foi inchando devagarinho. Parece até ter escolhido o momento certo, pois quando as pessoas se reuniram para a oração final, já de manhazinha, o barbante não resistiu à pressão dos braços de velha senhora e veio a arrebentar. Os braços, antes amarrados, como uma mola voltaram à posição vertical de uma só vez e fez espalhar flores para tudo que era lado junto com gente, cachorro, homens, mulheres, novos, idosos, até o padre e o sacristão aos gritos de misericórdia, latidos e palavrões, ao disputarem, todos, a pequena janela da sala, pois na porta já não passava ninguém. Nessas horas até os mais corajosos se revelam e não há quem mantenha posturas.

Há ainda os fatos poéticos, como aconteceu com um tio meu ao se despedir em um dos almoços de família, como eram costume todos os domingos. Depois de cantar e tocar suas modas de viola como ninguém e finda a comilança com uma generosa quantidade de gordura de porco que ele sempre colocava em seu prato e a tradicional pinguinha, ele se sentou em sua poltrona demonstrando total tranquilidade, enrolou um cigarrinho de palha, pitou calmamente e aí recostou confortavelmente, colocou o seu inseparável chapéu italiano no rosto e disse a todos: “É, está na hora de subir o morro”. O que todos pensavam ser uma sesta era o seu desenlace, assim mesmo com discrição e sem sofrimento. Morreu como viveu: feliz e rodeado de pessoas, cantando, comendo, fumando e tomando cachaça. Foi-se o “Zé do Mato”, como era conhecido, para mim o poeta da alegria e uma grande inspiração.

Quero aproveitar o ensejo da leveza e usar a mesma pergunta de um narrador de futebol ao se referir aos títulos do meu time do coração, porém direcionando-me a esses momentos derradeiros difíceis para muitos: “por que é que tem que ser tão sofrido assim?” Pois é! Não tem. Pelo menos para mim. E já que ainda estou aqui para falar sobre isso, não deixarei que me roubem a mínima oportunidade de opinar sobre um evento cuja atração principal será eu. Nada mais justo. Até mesmo porque devo elucidar aos mais supersticiosos que é fato consumado passarmos todos por esse momento e, se assim é, a única pessoa a dar informações precisas de como pensa ser este instante sou eu mais uma vez. Portanto, desejo jogar luz a essa situação e criar um evento poético, por que não? Dúvida?  Vai vendo.

A propósito, o leitor atento deve ter percebido o título dessa crônica e visto lá a palavra “testamento”. Segundo o dicionário etimológico da língua portuguesa, testamento é o ato pelo qual alguém, com observância da lei, dispõe de seu patrimônio para depois de sua morte. Pois bem, segundo a iminência a observância aqui não é a lei, mas a poesia. E a disposição trata-se da declaração das minhas últimas vontades. Sendo assim, atesto:

Eu, escritor dessa crônica, brasileiro, casado, inscrito em todas as leis do desejo de romantizar a vida e a morte que me cabem, estando em perfeito juízo e em pleno gozo de minhas faculdades intelectuais, sem nenhuma interdição, na presença de (03) três testemunhas a seguir qualificadas: a literatura, o amor e a gratidão, residentes e domiciliados nas Ruas dos que Escrevem, dos que nos Move e dos que me Permitiram Estar Neste Mundo, livre de qualquer instrumento ou coação, resolvo publicar a presente crônica-testamento na qual exaro minhas últimas vontades, pela forma e maneira seguinte: PRIMEIRO: Não quero choro, se possível, prefiro os sorrisos. Afinal, passei por essa vida e venci, embora esteja a passar e a vencer neste exato momento da escrita. SEGUNDO: Não quero flores. Por que matar e enterrar as pobrezinhas? Acredito que um ser, no caso eu nessa condição no momento, seja o bastante. Além do mais, perfume de flores com vela é muito característico de defunto, Deus me livre! Estar morto já é suficiente. No lugar delas prefiro bolinhas de papel. Estar coberto por elas me é muito mais agradável e mais condizente com a minha profissão. TERCEIRO: Quero papéis avulsos na entrada do recinto e também um pote de lápis para as pessoas escreverem, se desejarem, uma mensagem, um poema, a letra de uma música ou outra coisa sugerida pelo coração, fazer uma bolinha com o papel e colocá-la junto às outras. Maledicências não serão fiscalizadas, mas eu saberei e prometo transmutá-las do lado de lá. QUARTO: Quero um evento agradável. Para isso, peço que a partir de então a palavra “velório” seja modificada por “sarau” para que todos possam se divertir. A palavra “capela” se houver não precisa ser substituída na grafia, mas ressignificada, isto é, apenas caso alguém queira cantar sem o acompanhamento de instrumento, o que será maravilhoso. Caso tenha algum, que sejam violão e flauta transversal, meus preferidos. Violino é lindo, mas aumenta a tristeza e não há esse sentimento em saraus. QUINTO: Ainda sobre a música, fica valendo a popular brasileira. Chorinho não combina com o meu momento, muito menos sofrência. Essa nem morto quero ouvir. SEXTO: Como grand finale, em seu sentido literal, desejo ser conduzido ao último berço ao som de “Canon em Ré maior”, de Pachelbel. E no momento exato do plantio, para dar um ar mais poético e galante, que alguém leia em alto e bom som a poesia “Hora Eterna”, de Henriqueta Lisboa. Não lhes furtarei o prazer da procura, mas transcrevo aqui alguns versos:

[…] Vida que esplendes por que passas!

Quero viver, sentir num turbilhão

dentro do pensamento a certeza deste eu.

Sofra, embora – que importa? – O corpo

fatigado.

Quero vida, mais vida, alma, renovação,

força para reter tudo o que o céu me deu,

capacidade para amar o que foi  criado!

Vida que esplendes porque passas,

e que és amada porque findas! […]

Bem a propósito, não é mesmo?

E dito isso dou por encerrada a presente crônica-testamento na existência das (03) três testemunhas acima descritas, para as quais dedico a minha vida e que a confirmará em juízo no cartório do céu, de conformidade com a lei da arte e da natureza.

EM TEMPO: Não quero enfeites, nem placas, nem mármores frios; a terra me basta. E nela, bem perto de mim, que se plante um pé de ameixa. Dele nasci e nele eternizo. Não quero virar estrela, prefiro ser árvore. Bem viva.

 

A XERENGA DO CAMARGUINHO ("O FURO DA FACA")

 Por Severino Moreira (Bagé, RS)

 

João Simões Lopes Neto, falecido em 1916, deixou entre os seus escritos os famosos “CAUSOS DO ROMUALDO” de Abreu e Silva, onde num desses causos o Romualdo falava de “UM TALHO”, dado pela faca de seu já falecido compadre Mingote Pereira, em uma galinha assada, que segundo descreveu Simões Lopes, era quase da idade da sogra do Mingote, de tão velha e dura a dita cuja. Pois, vejam só quê, a faca cortara a galinha, o prato, a mesa, e ainda atorou o joelho do vizinho da esquerda e a tábua do assoalho com barrote e tudo.

Eu relato um trecho desse causo, acontecido, talvez, há quase cem anos atrás pra mode de dizer que, embora, o autor da façanha já não seja vivo para escutar, eu tenho um causo, que se não é igual é pelo menos parecido com o referido. Como isso embora pareça impossível, eu afirmo que periga ser, e é pura verdade.

Pois “hora vejam”, que eu estava no galpão em um domingo de manhãzita n´uma peleia encarniçada para cortar um pedaço de costela gorda, que pelo visto devia ter sido de um boi com no mínimo meia dúzia de anéis nas aspas de tão velho, pois não havia dente e nem faca que entrasse sequer na graxa da costela, o quanto mais na carne. “de modos que eu” enfrentava uma peleia desigual. Era a fome e a vontade de comer, contra a resistência do tempo, que diga-se de passagem ia levando uma larga vantagem.

Foi quando chegou o meu amigo José Tristão Camargo, que vinha com a incumbência de me convidar para aparecer no programa “Reculutando Raízes”, que produzia e apresentava na Rádio Cultura de Bagé, todas as terças-feiras. Tarefa difícil porque de cordas e maneadores eu sou vaqueano, mas de microfones, sou mais sestroso do que gato do mato acuado de cachorro.

O Camarguinho como é conhecido, compadecido com o meu sacrifício, levou a mão a cintura e puxou uma "xerenguita", que até não inspirava muita confiança. Já meio dentuda e sem ponta, mas segundo me afirmou, cortava até o fio do pensamento à léguas de distância, e que normalmente usava a tal faca para se "afeitar".

O amigo merecia crédito, e então peguei a bendita faca e levantei para largar um talho... Nem gosto de me lembrar, me preocupa até hoje, pois me escapou a xerenga da mão e caiu de bico em cima da costela, partindo ela ao meio, furando junto a caçarola de ferro batido que me servia de prato, a mesa feita com um tronco de tarumã, e ainda atravessou a barriga do meu cachorro que dormia em baixo, rompendo três costelas de cada lado.

Mas, o pior, ainda, não foi isso, o azar é que a faca se afundou chão adentro, a ponto de brotar uma vertente no piso do galpão, e olhem que nem anda longe o tempo, que fizera uma “seca das braba” e eu andara procurando água e pelo que vi na forquilha de pessegueiro o veio "tava" a mais de cem metros de fundura.

Alguns meses depois, ouvindo um programa de jornalismo no meu radinho de pilhas, fiquei sabendo que um conhecido político japonês havia morrido degolado por uma faca que estranhamente havia brotado do chão, como se uma mola empurrasse para fora da terra, atingindo a goela do pobre homem.

Não posso afirmar nada, e na verdade nem quero pensar nisso, mas sinceramente, às vezes penso que a faca do meu amigo possa ter varado o mundo e com isso me sinto indiretamente responsável pela morte desse notável político. Fato trágico e inexplicável que teve repercussão em quase todo o planeta.

Deus me livre que tenha sido, mas me preocupo tanto que até me dói na consciência.

Se alguém duvidar, do que digo, a cacimba que fiz, donde brotou a vertente, ainda está lá num canto do galpão com a água mais cristalina e fresquinha que um dia já bebi.

 

NOITE DO REENCONTRO

Por Dias Campos (São Paulo, SP)

 

            Se com Viagens na minha terra, Almeida Garrett talvez tenha escrito o romance mais importante do Romantismo português, esta sua afirmação foi, de certo, o pensamento mais sublime que ele um dia ousou conceber – “A mãe é a mais bela obra de Deus.”

            E como tudo em Deus é perfeição absoluta, outro não poderia ser o resultado da Sua soberana vontade, qual seja, a mãe representa o exemplo máximo de amor-abnegação.

            Mas se esse sentimento é incomensurável, e não há quem dele discorde, nem por isso o amor de filho seria de pouca monta. E tanto isso é verdade que a norte-americana Anna Maria Jarvis pelejou pela institucionalização de uma data que enaltecesse a memória de sua mãe, bem como a de todas as mães, o que fez com que fosse considerada a idealizadora do Dia das Mães.

E seja nas terras do Tio Sam, seja nas do nosso Brasil, esse dia glorioso é comemorado no segundo domingo do mês de maio.

            É claro que o comércio soube muito bem aproveitar essa oportunidade, que, como sabemos, é a mais lucrativa depois do Natal.

            Mas isso é irrelevante. Afinal, qual filho se recusaria a comprar um mimo para sua mãe, mesmo que se autodenominasse o inimigo número um do consumismo?

            Seja como for, além do presente, que julgo indispensável, o que de fato deixa radiante uma mãe é a visita, o contato, o tempo que estiver ao lado do filho. Não por isso que o almoço do Dia das Mães é como que sagrado!

            Mas, e quando os filhos já estão casados? Por óbvio que as sogras não têm uma mais direito que a outra.

Ora, isso é simples de resolver. Em um ano, o casal almoça com uma mãe e janta com a outra. E no ano seguinte, o inverso.

No entanto, bem sabemos que o Dia das Mães se acinzenta quando a homenageada já partiu para o outro plano. E se enegrece quando ela sobrevive ao filho, sobretudo se ele era único.

Nesses casos, é muito comum que um e outro digam para si que não têm mais o que comemorar.

Com efeito, a dor deve ser lancinante; e respeitabilíssima.

Mas se concordo que a comemoração perde o seu brilho, quero apontar uma esperança radiante, que batizei Noite do Reencontro.

E para que este reencontro se concretize, basta nos fiemos no que ensina a farta literatura, que vem a explicar o fenômeno natural da emancipação da alma durante o sono.

Sendo assim, na noite anterior ao Dia das Mães, não deixe de elevar o pensamento a Deus antes de dormir. E, seja com auxílio da oração formal, seja por meio de um simples bate-papo, mas com humildade, sinceridade e fé ardente, peça a Ele para que seja possível a vocês se reencontrarem, mesmo que por um curto período.

E se ao acordar você se perceber em um estado de inexplicável bem-estar, tenha a certeza, amigo leitor, de que esse reencontro aconteceu.

Feliz Dia das Mães.

E feliz Noite do Reencontro.

 

 

CHIMARRÃO

Por Marcelo de Oliveira Souza, IWA (Salvador, BA)


 

MAIO AMARELO

Por Marcelo de Oliveira Souza, IWA (Salvador, BA)

 

Sinal de atenção 

Para quem

Utiliza o trânsito

Como arma na mão.

 

A gente transita

E vê muita confusão,

Os “profissionais”

Tornam nossa vida turbilhão.

 

Estresse na malha viária

É motivo de desunião

“- A  lei não é cumprida

É  papel de bestalhão!”

 

Motoqueiros atrás da sorte

Voam o mundo inteiro

À procura de dinheiro

Não temem nem a morte!

 

Nos transportes

O “grandão” que empurra

Em cima do carro ou do povo

De dor a gente urra...

 

Taxeiro  que virou taxista

É um verdadeiro artista

Não cede nem por decreto,

Se estiver por perto não insista.

 

É todo tipo de caso

Que envolto  ao  acaso

A gente pode sair 

E não voltar mais...

 

Tudo isso misturado

Com assalto contumaz,

A gente fica endividado

Anos e anos, multas atrás.

 

Se  “chupa a cabra” 

Ou vem o “pardal”, 

Fiscalização monitorada

É prejuízo fatal.

 

A lei do trânsito 

É rasgada

Até quem vigia, desagrada..

A destrói  com alegria represada.

 

E o sinal amarelo

Fica piscando em paralelo

Chamando atenção 

De um povo que não olha...

 

O seu olho esta n’outro mundo

Sem cinto e sem atenção

O celular quem manda

Na palma da sua mão.

 

O Maio Amarelo

É sinal de atenção

Uma grande campanha

Vento forte com razão.

 

Com tudo isso 

No mês de maio...

No Pronto Socorro, o desmaio,

De quem piscou sem atenção.

 

Brademos forte

Nesse mês...

Porque um dia vem a morte

De quem a infração, virou freguês!

 

Nesse tumulto do cotidiano

Morre gente ou amputa o fulano

Quer tomar mais cuidado

Ou vais entrar pelo cano?