Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
Um
silêncio astral se abateu na sala de interrogatório, que estava na
semiescuridão. O capitão interino Alejandro Contreras esperou a pergunta que
redefiniria não somente o seu destino, mas se a compreensão da realidade dos
juízes corregedores e da juíza corregedora — os aclamados deuses cibernéticos —
alcançaria a gravidade do estado das coisas. Os três avatares digitais
flutuavam no meio da sala, e Alejandro Contreras estava de pé na frente deles.
— Após
a prisão do conhecido hacker estrangeiro Erik Thomas de Haas, o senhor fez a
perícia prévia da residência deste referido senhor? E o que o senhor encontrou
na busca prévia? — perguntou a juíza corregedora oriental.
O
capitão interino Alejandro Contreras recorreu ao seu palácio das memórias e se
reviu abrindo a palma da mão direita enluvada e ativando as três esferas
periciais que fizeram a minuciosa varredura digital do amplo apartamento
funcional de Erik Thomas de Haas.
—
Recolhemos as digitais no apartamento de Erik Thomas de Haas, mapeamos
vestígios de DNA e listamos o que ali havia. Sabemos como os dois grupos
criminosos, Alien Dictators e Gottverlassenen, operam. Esperávamos encontrar os
dados físicos das atividades criminosas deste senhor de Haas. Sim, encontrei os
manuscritos do fluxo de caixa e breves relatórios das atividades criminosas
deste referido senhor de Haas. Descobrimos que a função de Erik Thomas de Haas
era fornecer e fazer a manutenção dos drones que eram usados na rede criminosa
de comercialização e distribuição de drogas. O senhor Erik Thomas de Haas
fornecia os drones para a distribuição de drogas, dinheiro e recursos da
pequena operação criminosa, lucrativa e eficiente. Em pen drives e cartões de memória
acoplados nos drones, era feita a distribuição de valores através de
criptomoedas. Eram listas manuscritas de próprio punho, de nomes de agentes
públicos e entes privados, físicos e jurídicos, envolvidos nesta pequena
operação criminosa. — O capitão interino Alejandro Contreras parou de relatar e
esperou a pergunta subsequente.
—
Discorra sobre as detenções e as prisões posteriores, subsequentes a estas suas
descobertas! — perguntou o juiz corregedor negro. A luz azul-celeste que
emanava dos avatares se intensificou e inundou a sala de interrogatório.
—
Senhora magistrada e senhores magistrados, quanto às referidas detenções e
prisões subsequentes, nas quais eu pessoalmente não me envolvi — eu estava
conduzindo uma investigação interna, focada somente no aparato de segurança e
seus possíveis tentáculos na sociedade civil —, soube a posteriori, e
acompanhei à distância, as detenções para averiguações e posteriores prisões
feitas pela guarda municipal armada, pela polícia rodoviária federal e pela
polícia federal. Os agentes de segurança pública de médio e baixo escalão
faziam a segurança pessoal da conhecida advogada Luara Gutierrez. A proeminente
e respeitada advogada tributarista, atrelada às nossas investigações internas,
era o braço financeiro da organização criminosa. Organização criminosa que se infiltrara no
aparato de segurança pública que começamos a investigar. Os agentes públicos de
segurança estavam trabalhando de forma irregular para esta referida senhora
advogada tributarista; estes agentes também portavam armas e comunicadores não
registrados. Os quatro agentes de segurança pública e a referida senhora
advogada estavam saindo de uma casa de apostas, e os cinco referidos foram
conduzidos à delegacia central para prestar informações.
— E o
empresário Ernesto García Guzmán foi detido quando circulava pela rodovia
federal; ele também estava com quatro agentes de segurança pública que portavam
armas e comunicadores não registrados. Para além dos referidos agentes de
segurança que prestavam serviço de forma ilegal, o veículo do senhor empresário
Ernesto García Guzmán estava sendo conduzido por uma inteligência artificial
não registrada. E também descobrimos que o referido programa ilegal, instalado
no veículo de Guzmán, era obra do senhor Erik Thomas de Haas. Assim como os
armamentos ilegais dos agentes de segurança foram fornecidos pelo hacker
estrangeiro, Erik Thomas de Haas. Todos foram conduzidos pela polícia federal
para a delegacia regional para serem interrogados! — terminou o relato o
capitão interino Alejandro Contreras.
— O
senhor capitão interino Alejandro Contreras quer nos convencer das
aleatoriedades destas detenções para averiguações e prisões, depois que o
senhor colocou as mãos nos manuscritos do hacker Erik Thomas de Haas? —
perguntou o juiz corregedor branco de idade indeterminada.
— Sim,
senhores juízes e senhora juíza! — respondeu o senhor capitão interino
Alejandro Contreras.
—
Sabemos que não é da alçada de vossa senhoria, mas pode dizer o que aconteceu a
posteriori dessas detenções para averiguação e prisões? — perguntou a juíza
corregedora.
— Sim!
Eu posso! Uma vez que os agentes de segurança pública detidos para averiguação,
bem como a senhora advogada Luara Gutierrez e o senhor empresário Ernesto
García Guzmán, constavam nas listas manuscritas do hacker Erik Thomas de Haas.
Verificou-se que os dois estrangeiros, a senhora Gutierrez e o senhor García
Guzmán, tinham várias pendências com vários países do nosso continente. Eles
são investigados e procurados, assim como o hacker constava em lista de
procurados de várias agências de segurança de países vizinhos. O que eu posso
dizer é que, depois da detenção para averiguações e prisões, o que aconteceu?
Fugas e detenções do médio e baixo escalão desta organização de tráfico de
drogas. Cortou-se a cabeça da cobra e o corpo simplesmente apodreceu. Sobre as
apreensões das novas e misteriosas drogas amarelas, drones, dinheiro,
criptomoedas, armamentos e farta documentação falsa, ainda estão sendo
contabilizadas! — finalizou o capitão interino Alejandro Contreras e aguardou a
pergunta derradeira.
— Posso
dizer a este comitê que nunca vi tantas ilegalidades dentro da lei por parte de
um capitão interino, senhor Alejandro Contreras! — disse o juiz corregedor
negro e continuou — Sobre a logística: como as drogas, armas, dinheiro,
criptomoedas e documentação falsa circulavam pela via aérea? Como estes
referidos drones não registrados circulavam sem serem detectados pelos nossos
aparatos de vigilância civil e militar?
— Os
tabletes já referidos nesta inquisição são pequenas barras lisas e finas, peças
de metal cinza, com variações de tonalidade, espessura e tamanho. Eram
acoplados em cima dos drones, pois os aparelhos não possuíam discos rígidos, e
o que se pensava serem discos rígidos externos! Como já disse, a assinatura de
calor captada pelos nossos sistemas de vigilância civil e militar dava conta de
que eram pássaros em voo; claro que esses voos e sobrevoos chamaram as nossas
atenções, o que culminou na nossa investigação...
— O que
o senhor capitão interino quer dizer com isso? — perguntou o juiz corregedor
negro, não escondendo o espanto.
Alejandro
Contreras olhou friamente para os avatares e só agora ele se deu conta de como
eram patéticos aqueles seres em seus uniformes garbosos.
— Esta
tecnologia nunca vista não pertence à nossa realidade! Estes HDs externos não
são metálicos, e sim biomecânicos. Pois, nos testes que realizamos até agora,
nada se constatou. Senhora juíza e senhores juízes corregedores, o
espectrômetro de massa não conseguiu ler estes tabletes. O teste de carbono-14
não conseguiu fazer a leitura; não se conseguiu perfurá-los com lasers; os
elementos que compõem estas peças não constam na tabela periódica. Nem sabemos
como estes aparelhos funcionam. O hacker Erik Thomas de Haas, interrogado,
falou o que sabia: que recebeu estes discos rígidos por um drone e as
instruções de como usá-los vieram pelas redes de computadores. A simples
instrução era colocar estes discos rígidos em cima dos aparelhos e disse que a
sua única função era montar e fazer a manutenção dos drones. Os aparelhos
simplesmente voavam sem precisar de programações ou planos de voo. Um drone-mãe
abastecia o ateliê do hacker de Haas com drogas e tabletes; as documentações
falsas, armamentos e movimentação financeira eram encargo do hacker Erik Thomas
de Haas. E já antecipo a próxima pergunta: alguém ou algo que não pertence à
nossa realidade estava testando as nossas capacidades de respostas e
tecnologias. E ouso dizer que alguém ou algo está somente começando. Este foi
somente um pequeno teste.
— O
senhor capitão interino Alejandro Contreras está dispensado desta inquisição.
Recolha-se à sua residência, fique incomunicável e esperamos que nos envie o
relatório final manuscrito, à máquina de escrever, das vossas ações enquanto
capitão interino — disse a juíza corregedora.
A porta
atrás de Contreras se abriu, inundando o lugar com uma luz amarela, e dois
portentosos guardas pretorianos de alta patente adentraram a sala e conduziram
o então senhor capitão interino Alejandro Contreras para fora da sala de
interrogatório.
Texto
de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária de
Balneário Camboriú, Santa Catarina.