EDITORIAL

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)



Por Paccelli M. Zahler, editor (Brasília, DF)

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A edição de outubro da Revista Cerrado Cultural apresenta um conjunto consistente de produções literárias e artísticas que reafirmam a missão da revista: promover circulação cultural qualificada, valorizar novas vozes e fortalecer o diálogo entre leitores, autores e colaboradores. Em um ambiente digital cada vez mais competitivo, seguimos investindo em conteúdo que combina rigor editorial, diversidade temática e estratégias que ampliam alcance e engajamento.

Neste mês, reunimos poemas, narrativas, reflexões, perfis culturais e trabalhos visuais que dialogam com temas relevantes da contemporaneidade. A pluralidade de abordagens — nacionais e internacionais — consolida a revista como espaço de referência para quem busca literatura, arte e pensamento crítico.

É uma edição marcada pela força da palavra e pela expansão da presença digital da revista. Convidamos leitores e criadores a explorar, compartilhar e participar. A Revista Cerrado Cultural segue aberta a novas vozes, novas ideias e novas parcerias.

Seguimos adiante com responsabilidade editorial, respeito ao leitor e dedicação à cultura em todas as suas formas.

ANGOLA

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)



Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)


      Angola, país no sul da África, é fascinante. As praias tropicais do Atlântico; o labirinto de rios e desertos; as florestas onde brotam imensas cachoeiras, parques coalhados de elefantes, girafas, impalas, búfalos selvagens. Lagoas cercadas de capim de fogo, labaredas verdes, sob um sol carrasco.

      A história de Angola atravessou séculos de reinos como o do Congo e de Ndongo. Depois, um longo período de colonização portuguesa, iniciado com a chegada do navegador Diogo Cão, em 1482. O tráfico intenso de mão de obra escravizada para o Brasil. O avanço militar para o interior do território. A transição para a independência (1861-1974) com lutas armadas, sustentadas por movimentos nacionalistas ora de base marxista, ora apoiados pelos Estados Unidos, ora pelos maoístas. Por toda parte, sangue, explosão de minas terrestres, mutilações. A Independência só foi alcançada em 1975, após a Revolução dos Cravos em Portugal, que derrubou a ditadura de Salazar. Centenas de portugueses que viviam em Angola retornaram a Portugal. Angola mergulhou numa violenta guerra civil. Um caminho difícil de democratização, descolonização e desenvolvimento.

      Estou impactada pela leitura do romance “Os Cus de Judas”, do escritor português António Lobo Antunes (1942-2026). O livro que quebrou silêncios, que consolidou o autor, que descobriu a face de um massacre insano e sem sentido, como são todas as guerras.

      Comecemos pelo título: “Os Cus de Judas” é uma expressão para indicar lugares longínquos, isolados, abandonados por Deus. Algo como: “Lá, onde Judas perdeu as botas.”

      Trata-se de um romance autobiográfico narrando os horrores da Guerra Colonial em Angola. A história de um médico, ex-militar, que é o protagonista, um alter-ego do próprio autor. Lobo Antunes serviu em Angola entre 1971 e 1973. Vinte sete meses curando corpos para matarem ou morrerem. Voltou traumatizado, destruído psicologicamente. As trincheiras habitando sua mente. Sem conseguir se adaptar com a vida em Lisboa. Sem conseguir se comunicar com a mulher e a filha de olhos verdes. Abismo no lar. Laços rompidos. Olhar distante.

      Numa noite, o médico entra num bar e entre goles de conhaque, conversa com uma mulher silenciosa, que acabou de conhecer. Despeja memórias, amarguras, crueldades presenciadas. Tudo numa linguagem densa, poética, nostálgica. Há inúmeras citações a pintores como Salvador Dalí, Mondrian, Vermeer; a poetas como Fernando Pessoa e Antero de Quental; a filmes de Buñel e de Chaplin. A mulher interlocutora representa a própria sociedade portuguesa forçada a ouvir o relato cheio de verdade. O livro é dividido em 23 capítulos que recebem, cada um, uma letra do alfabeto. Um dicionário de fragmentos e dores.

 

      Veio forte a lembrança do meu encontro em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no ano de 1980, com o português Octávio Canhão Bernardes (1923-2010). Canhão Bernardes era engenheiro, arquiteto, escultor autodidata. Deixou uma marca profunda no urbanismo e na arte de Angola, especialmente em Lobito, onde viveu e trabalhou intensamente entre 1960 e 1970. Foi ali que esculpiu “A Sereia”, às margens do Lobito; a estátua “Caminhando” e o “Monumento à Aviação”, perto do aeroporto. Tudo no nível do chão e das águas, pois detestava os pedestais.

      Canhão Bernardes lera um poema meu no jornal Correio do Estado e quis me conhecer pessoalmente. Ele e sua esposa, Dona Odete, nos receberam em sua casa, com doces amarelos, os papos de anjo e vinho do Porto. Era um filósofo, um teórico original. Escrevera o livreto: “Em busca do paraíso perdido: arqueologia da arte.” Ele afirmava em sua investigação sobre os impulsos humanos primordiais voltados à criação artística, que as raízes puras e ancestrais jamais são anuladas. Ao contrário, são reinventadas. Esses impulsos, segundo ele, levam à transcendência, à busca do sagrado e do eterno; à territorialização estética do espaço através dos símbolos; à projeção catártica dos sonhos e dos conflitos internos e à ânsia de comunicação e conexão coletiva.

      Aprendi muito com ele. Ouvia suas explicações com sede de conhecimento. Eu era tão jovem. Depois, o casal partiu para o Rio de Janeiro e os perdemos de vista. Foram ao encontro dos filhos, Viviana, que tinha nome de fada e Nuno, uma homenagem ao herói Nuno Álvares Pereira, o nobre general condestável, cantado por Camões nos “Lusíadas”.

      Uma noite, entre lágrimas, contou-nos sobre os últimos e tensos momentos vividos em Angola. A fuga, o medo da guerra, da sanha revolucionária contra os portugueses. Havia escondido uma arma no quintal, caso houvesse necessidade de se matar para não cair nas mãos de torturadores. O alívio que sentiram quando entraram no avião rumo a Lisboa. E as aventuras em solo brasileiro até chegarem ao nosso distante Mato Grosso do Sul, como gerente de armazenamento de grãos.

      A partir desse relato, escrevi o poema “Visão de Angola”:

 

Vejo Angola

Da janela do avião:

Uma barcarola

No mar de Benguela,

A água lilás,

Guardiã da sabedoria,

Divide em ondas-

 

A guerra de um lado

E de outro, a harmonia.

 

Vejo Angola

Da janela do avião:

Uma casinhola,

A amoreira gigante

Onde enterrei a pistola

Com a qual me mataria.

 

Vejo Angola

Da janela do avião:

Tão verde,

Tão sagrada,

Nem parece que presenciei a degola,

O combate,

A afirmação de nacionalidade,

O canto dos poetas

Exigindo liberdade

Nas cordas da viola.

 

Vejo Angola

Da janela do avião:

Angola, minha escola,

Meu espaço de luta,

Minha infância crioula,

Mestiça,

 

Filho de português e africana.

 

Não pintarei mais meu corpo de tacula,

Não ouvirei mais o tam-tam dos tambores,

Não tocarei a pele dos antílopes,

Não comemorarei ritos de passagem,

Não seguirei as abelhas do dia,

Nem penetrarei nas florestas de lianas.

 

Angola,

Da janela do avião,

Rola

Como um filme

No fundo das minhas retinas.

 

       Sim, caro amigo Canhão Bernardes, não há bem maior, maior que a própria vida, do que a liberdade.

PODE HAVER LEIGOS NA IGREJA?

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)


Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

  

Quando se reconhece que pouco ou nada se sabe de certo assunto, é costume dizer: " Sou leigo nessa matéria!"

Na Igreja não deve haver fiéis que sejam leigos. Todos os cristãos, devem ser evangelizadores – por palavras, ações e conduta de vida.

Evangelizar, é trazer alguém a Cristo. Não é angariar prosélitos para que a Igreja cresça, em quantidade; pouco se preocupando com a qualidade.

O neófito, uma vez convertido, precisa de integrar-se num grupo de crentes, que pode ser ou não, o mesmo do evangelizador.

Billy Graham, um dia, disse: “O convertido ou reconvertido, após haver corrido várias comunidades, inclinasse para a de seus pais e avós”. -Cito de cor.

Na Igreja há muitas tarefas. O sacerdote pode indicar, conhecendo a capacidade, educação, e conhecimentos adquiridos por cada um.

Uma, é tarefa de todos: evangelizar; mas, para o fazer, precisa de estar preparado, para enfrentar o mundo.

Na Bíblia existem passagens obscuras, que só se percebe devidamente, depois de bem esclarecidas. É recomendável frequentar, com assiduidade a catequese para adultos ou a aula dominical. Se o catecúmeno escolhe a Católica, pode integrar-se na – Igreja diocesana ou comunidade, com poucas diferenças. Exemplo: Franciscanos; Beneditinos; Dominicanos etc., etc. Ou a mais recente, semelhante às pentecostais, que atualmente encontra-se em grande expansão. Possui canais de TV, e emissoras de rádio, a: "Canção Nova"" A escolha depende do temperamento de cada um, já que todas ensinam a mesma doutrina bíblica e obedecem a Sua Santidade o Papa.

Com a globalização, a cada passo, somos abordados por quem pretende difundir religiões – africanas, asiáticas ou do médio -oriente.

Se não se sente preparado a dialogar, não o faça: diga-lhes: que já aderiu a Cristo e À Sua Igreja, e pretende viver e morrer, na crença dos pais.

Compete às Igrejas cristãs, de todas as confissões, tentar evangelizar s pessoas, que surgem no nosso país, devido à globalização e mormente. à imigração, originária de nações onde o cristianismo não é dominante.

A INVEJA ENTRE OS INTELECTUAIS

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

 

Quem vive muitos anos, facilmente verifica que, o parecer dos homens de Letras e não só, - variam consoante a posição que ocupam no xadrez da vida.

Basta escrever critica desfavorável ou pouca lisonjeira, para o poema ou texto, escrito por Fulano, passe de bom a mau.

 Moura e Sá, no interessante ensaio: " Vida e Literatura", escreveu: "Quando dizemos: Este poema é mau, queremos muitas vezes, afirmar que o autor pensa em matéria política, de maneira diferente da nossa".

Em 1604, Lopes de Vega, despeitado, escreveu missiva a amigo, referindo-se a Cervantes, por este haver depreciado seu teatro: " De poetas não digo, que esteja bom ano (...), mas nenhum há tão mau como Cervantes, nem tão néscio, que seja capaz de Gabar o D. Quixote."

É conhecidíssima a carta, que Voltaire escreveu a Quinault, lamentando-se:" Só se ganha (com os escritos,) inimigos, desprezo, quando não se vence, e ódios quando se triunfa.".

Também Ramalho, “Em Paris" se lamenta:

"Os homens predestinados pelo talento de escrever, criam às vezes prosélitos, mas não criam amigos; conquistam inteligências, mas não corações; tornam-se célebres, mas não se tornam amados."

Já que pretendo reunir apanhado de opiniões de homens de Letras, sobre a inveja, cito o que declarou ao " Diário de Notícias" Helena Sacadura Cabral: " Os valores, raramente são conhecidos, e os mais inteligentes constituem o repasto ideal para a calúnia."

É sabido que a crítica é, em geral, fruto de "capelinhas". Se são de esquerda, elevam ao Olimpo, os correligionários; se são de direita comportam-se como diz Cruz Malpique: "Agora é que vais saber de quem sou filho!", e desandam sem dó e piedade. Álvaro Lins, em " Literatura e Vida Literária" afirma:" Alguns me advertem que não estou agradando inteiramente com a minha crítica, porque não me coloquei ao serviço de um partido ou de grupo, que por sua vez, me apoiaria"

O defunto suplemento literário, do "Jornal de Notícias", foi encerrado por não ter louvado o romance de Paços d'Arcos, segundo, Manuel António Pina, ("JN”, de 26/O1/2012, pág. 48.).

Disse. por graça, Júlio Dantas, sobre a inveja entre intelectuais, que era - A "Formiga branca das literaturas".

Por sua vez, algumas editoras preferem publicar só os da sua ideologia política. Certo jovem, no início da carreira, lembrou-se de enviar o original, a escritor consagrado. Este deu-lhe parecer favorável – O que é raro! Acrescentando que seu editor talvez pudesse publicá-lo. Mas, teria de se inscrever no partido de Sicrano, se o queria vê-lo em letra de forma!....

Infelizmente quem não tem posses ou mecenas, se quer singrar, tem que se tornar Bonifácio de "importante", e pensar, e agir, como ele quer.

Assim foi e assim será – em todas as profissões....

 

O HOMEM QUE TECIA BOLSAS

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)


Por Leandro Bertoldo Silva (Padre Paraíso, MG)

 

Ele havia aprendido com a sua mãe que as bolsas servem para guardar histórias.

Elena aprendera desde cedo a arte da costura. Menina ainda e, naquele tempo, trabalhou em uma fábrica de sapatos. Como era muito pequena, era colocada pelos adultos dentro de uma caixa, onde separava os pares entre pequenos, médios e grandes.

Mas não eram os sapatos a ser a razão do que a acompanharia pelo resto de sua vida.

Com o tempo aprendera a cortar, e aqueles pedaços de retalhos de couro que diziam não servirem para nada, eram emendados um no outro com desenvoltura pela menina que fez nascer de suas mãos de criança uma linda e encantadora bolsa.

Todos ficaram maravilhados com o prodígio de Elena. Mas o que ninguém sabia é que não era o couro a preencher o coração da menina, mas a linha. Era com ela, em laçadas mágicas em pontos e costuras, que o tempo passou para ela, deixando pelo caminho de sua existência centenas de bolsas tecidas de todos os tipos: grandes, pequenas, brancas ou pretas, de adultos e crianças a serem preenchidas com histórias, histórias que nem mesmo ela sabia que tinha, mas continuava, ano após ano, tempo após tempo, linha após linha a tecer, tecer e tecer.

Antes que Elena partisse, as pessoas imploravam: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena não vendia. Seus próprios filhos e netos não entendiam e também pediam. Seus amigos repetiam palavras ao vento: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena não vendia, apenas dizia: “Eu sei o momento”.

Elena passou como o tempo. E o “momento” ninguém sabia, ninguém via. Seus cabelos brancos e finos que um dos seus filhos tão bem conhecia, ficou na lembrança de uma saudade que doía. O filho, agora homem feito, recordava do dia que sua mãe, pouco tempo antes de partir, abrira na cama todas as bolsas e as mostrava uma por uma. E agora lá estavam elas guardadas pela casa: bolsas de todos os tipos e cores, lisas, felpudas, abertas, fechadas, com cascas, almíscar, fechos e presilhas.

Para as pessoas era apenas um tempo perdido, um trabalho em vão. Mas para o filho que aprendeu a observar, cada bolsa era um afago de existência. Ele vira a mãe tecer muitas delas e trouxe à memória de como as suas mãos pareciam não segurar a linha e a agulha, mas a magia do invisível que logo se formava em mais uma reminiscência. Viu a bolsa de linhas azuis e lembrou de quando  ela o apresentou ao mar pela primeira vez; vira-a tantas vezes em volta de linhas amarelas a tecer o sol para aquecer o dia; afagou a bolsa bebê e imaginou como teria sido o dia em que ele mesmo dera os primeiros passos. Cada ponto, cada laço, do primeiro ao último, contava histórias. E ele estava ali com todas elas a sua frente. Mas as mãos de sua mãe não mais teciam, descansavam no silêncio que já não mais existia.

Com o tempo, sempre o tempo, uma aglomeração de vozes foi se formando. Para todos os cantos, para todos os lados, o filho parecia ouvir uma legião de pessoas, colecionadores, curiosos, palpiteiros a clamar: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena, agora ele próprio, não vendia. O que ele fez, porém, ninguém podia imaginar. Ele chamou as pessoas e dispôs todas as centenas de bolsas a frente delas, assim como sua mãe lhe havia feito. E foi aí que o “momento” que Elena tanto esperava, aconteceu.

O homem começou a abrir bolsa por bolsa diante da multidão que se aglomerava como num teatro. Curiosamente, à medida que eram abertas, o lugar se poetizava em afinidades. Ao abrir a primeira bolsa, um som suave de canção de ninar tomou o coração dos filhos que ali se encontravam a lembrar dos pais. A segunda fez surgir o aroma delicioso das manhãs de domingo quando o café coado exalava o gosto de bom dia. Da terceira saiu o barulho da chuva na telha de barro quando o sol dava lugar a outros espetáculos. Lembrou também de um livro que lera, onde o tempo era guardado em uma caixa e as palavras dançavam em sua mente… “Na caixinha iam parar a folha da árvore que caía, a gota da chuva que chovia, o medo que ela escondia, os bilhetes que ela escrevia, os desenhos que ela fazia, um tempo que ela sabia que não perdia, a imensidão dos sentimentos que ela vivia e a história da vida que ela tecia”. Mas ele tinha mais do que caixas; tinha bolsas tecidas à mão, as mãos de Elena, as mãos de sua mãe, que estava certa, afinal.

Que momento sublime ao mostrar que o mundo é efêmero e que os afetos precisam de um lugar para morar. Agora sabia. Elena desde cedo tecia não objetos, mas abrigos seguros para acolher os deslumbramentos de um primeiro beijo, as alegrias das famílias em noites de festa, as dores dos que perdiam seus entes queridos, os medos e descobertas da primeira infância, o perdão entre gerações. Cada bolsa era uma casa; cada casa uma vida na imensidão dos dias.

O homem então convidou um a um a se aproximar, e cada qual, ao abrir pela ressonância a sua bolsa, encontrava suas histórias e o que lhe definia. Saía feliz. Até que ele mesmo abriu a sua, uma bolsa simples lhe dada de presente pela própria mãe. Ao abri-la, encontrou a saudade. Essa apertava tanto! Mas junto dela encontrou também um desejo imenso do amanhã a partir do qual ele também começaria a tecer.

O GRITO

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)


Por Catarina Osoegawa (Florianópolis, SC)

 

O Grito, tela de Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês, revela o que nenhum artista havia conseguido expressar anteriormente, um momento de uma emoção vívida que nos remete a memórias arcaicas de experiências de medo, terror e desamparo, sensações que vivemos em torno  do nascimento. Munch retrata na pintura um momento de profunda ansiedade que descreveu como “um grito infinito que passava pela natureza”.

Viver sem emoção é como dormir com um chocolate delicioso na mão e acordar com ele todo derretido no lençol. Perde-se o sabor daquilo que mais se deseja quando não se degusta no momento certo. Viver exige entregar-se para cada expectativa, marcar o tempo de cada detalhe, celebrar, registrar, fotografar, chorar de alegria ou tristeza, compartilhar entre amigos uma experiência ainda aquecida pela emoção, vibrando com todas as cores do arco-íris, no exato momento em que nos surpreende, pois logo se desfaz e se esconde por entre as nuvens escorregadias do céu.

Nossas redes sociais tão facilitadoras de trocas e comunicação, propõem, ao mesmo tempo, que uma proximidade em velocidade alucinante, se transforme em um distanciamento longínquo e duradouro marcado pela ausência de contato e presença física. Nada é capaz ainda de substituir a emoção que pode ser vivida no contato olho a olho, corpo a corpo, na continuidade de sensações que nos provocam o estar junto com alguém.

Sensações são fenômenos naturais que vivemos a todo momento, que nos provocam todas as formas de emoções. Voam como os pássaros que chegam e se vão, alegram e às vezes assustam o nosso jardim emocional, mas logo permitem que outros se apresentem com um canto e colorido diferenciados, para exercitarmos o olhar e a escuta, e rapidamente tudo se emoldura em um novo retrato na sequência infinita do viver.

Podemos perguntar à IA, que tanto nos acrescenta de competência e praticidade: Seria possível agregar em proporção semelhante algo mais de amor em excelência? Uma era de transformação cultural global exige também um olhar mais respeitoso ao humano, e nós, brasileiros que somos, podemos perder o momento de dizer o que necessitamos verdadeiramente. Desejos diferem de necessidades, e estas precisam ser ouvidas, mesmo que sejam necessários os gritos de todas as vozes reunidas da sociedade, por mais heterogênea que seja.

O trabalho em equipe é algo que aprendemos desde que nascemos. Na família se congregam todos os esforços físicos e mentais para acolher as necessidades de um bebê que acaba de chegar e grita com o seu choro desesperado ansiando por recuperar a paz que vivia no ambiente embalado pela segurança garantida no meio intrauterino.

Planejamento rigoroso, rotina bem estabelecida, sintonia nos cuidados, empatia e afeto, criam para o recém-nascido uma base de sustentação firme para o desenvolvimento pleno e saudável. Somos bebês gritando em uma sociedade de surdos? Como nos fazer ouvir em meio a ruídos de toda sorte? Aproveitar o momento de uma eleição seria uma oportunidade de reunir os gritos de todas as vozes em consonância e harmonia, porém, cada grito tem a sua particularidade e uma interpretação diferenciadas. Qual o trabalho seria exigido para compreender e acolher o grito do desespero e desamparo coletivo?

Perder este momento seria como tentar degustar um pequeno pedaço de chocolate depois que ele estivesse todo derretido no lençol de censuras, ausências e silêncios mortificadores. Somos social e culturalmente marcados pelo Grito de Munch onde podemos observar duas pessoas que caminham ao longo da ponte totalmente indiferentes ao grito de uma outra pessoa em desamparo. Sair deste lugar que demanda algo do outro é desesperador, exige um amadurecimento e um longo tempo de processamento. O pequeno humano é capaz de transformar o seu grito em linguagem e criar formas cada vez mais claras de expressar seus sentimentos e necessidades. Munch, ao tentar processar e elaborar através da sua arte sentimentos profundos e difíceis de lidar, nos ofertou uma possibilidade na cultura criando a linguagem que chamou de expressionismo. Expressar desejos, sentimentos, necessidades e emoções, por todas as formas de linguagem, significa ainda...uma propriedade essencialmente humana.

PERGUNTA

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)


Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)

(Tradução: Carlos Ramos)


Se o ar contaminado

tivesse matado toda a vida,

 

se o calor

tivesse abrasado tudo,

 

ou se a Terra

tivesse sido devastada por um dilúvio,

 

restaria então

— como há tanto tempo —

alguma arca?

 

E, se nada restasse,

haveria um Deus

para criar o novo ser humano?