Por Rogério
Salgado * (Belo Horizonte, MG)
Conheci Eduardo Waack na
década de 1980; na época eu, Wagner Torres e Virgínia Reis éramos editores da
Revista Arte Quintal, uma referência nacional naqueles anos pós ditadura
militar e trocávamos (nós e ele) notícias através de correspondências postais.
São, portanto mais de 40 anos de atividades minhas e dele. Recebo agora seu
último livro “Alma Brasileira” o qual li num só gole, como quem se delicia com
um bom vinho.
“Alma Brasileira” traz um
poeta desnudo de todos seus sentimentos nessa vivência cotidiana em que ele
caminha, jurado e abraçado com a arte, principalmente com a poesia. Seus poemas
doem quando fala de si e de suas lembranças, como em “Barretos 2017” onde
revela sua experiência dentro de um hospital, mas sem nunca perder as
esperanças: “Voltando ao Hospital / para uma
nova consulta. / O murmurinho de sempre. / Alguns estão, outros não. / (...) / Entrei
na fila do lanche: / Tomei o café e comi o pão. / Passeei pelos corredores
silenciosos, / Embora apressados, da Hematologia. / (...) / Aguardo
o resultado do hemograma / Assisto a televisão desfocada / Depoimentos
de canalhas e corruptos / As mesmas tragédias de sempre / O Brasil está nesta
sala / A recepção é acolhedora / A estrada estava movimentada / Gratidão por
mais este dia.”
Mais à frente, num
outro poema, o poeta observador que é, se diz assustado com “o uníssono das
vozes ressentidas nos grupos de oração e a fingida contrição dos beatos de
plantão”, uma realidade nesses tempos atuais, onde a fé é vendida não a preço
de banana, mas a preço de ouro. E segue... “Sinfonia Incendiária” revela o
mundo de hoje, que muito das vezes passa despercebido dos que tem algo mais
importante pela frente, como por exemplo, crescer seus dividendos. Aqui, o
autor não faz concessões e se joga numa verdade que em alguns poemas serve como
uma porrada na cara de quem vive de ilusões e creio que a poesia nos dias de
hoje, merece ser uma bandeira desfraldada, não em posições politicamente
partidárias, mas sim humanamente humanas e a função do poema é dizer em
denúncias, por mais lírico ou não que os poetas possam ser, pois omitir-se
seria estar concordando com os erros que cometemos nesta vida. Exemplo é o
romântico Vinícius de Morais que delatou verdades em seus poemas “O operário em
construção” e “Rosa de Hiroshima”, Ferreira Gullar em “Não cabe no poema” e
Manuel Bandeira em “O bicho”.
E nesse emaranhado
de versos diretos ao leitor, fala de saudades com um lirismo de rara beleza,
como quando diz: “Eu tive uma mãe um dia / Que me acarinhou, tomou nos braços, /
Protegeu na noite escura. / Essa mulher valente, bela e sorridente, / Permanece
comigo
nas fotografias / Que trago na mente e no coração. / (...)
/ E essa mulher que atravessa os anos e pergunta quem sou / E adentra como uma
catedral o esfraldar do tempo / E ressurge das cinzas revigorada é a mãe que eu
tive / De mãos macias, cálidos olhos, cantando / As minhas cantigas de ninar
com uma boneca no colo / Sem roupa e amassada, cabelos de plástico / Muda como
o breu profundo.”
“Alma Brasileira” como revela
seu autor, é um livro sofrido, pois registra fatos e acontecimentos reais na
vida de quem o escreveu. São momentos marcantes, desabafos e tudo o que habita
o coração do poeta. Mas apesar de tudo, há momentos para o romantismo, o amor,
quando diz para quem se ama: “Quero partir antes de ti / Na imensidão de uma manhã de inverno / Deixar a casa cheia de lembranças e um livro aberto. / Eu
te mostrei o caminho / Tu me ensinaste a caminhar. / Eu te contei uma história
sem nexo / E em ti os sonhos se realizaram. / (...) / Em ti deitei e fiz meu
ninho / Quero partir como as alegres andorinhas / Que voltam no verão seguinte /
Te encontrar na imensidão ensolarada / À beira do oceano de nós dois entregues /
Sem rumo, horário ou permissão. / Quero morrer em teus braços / Num abraço
firme, meigo, encorajador / E, ao dormir um sono eterno / Ser teu companheiro
noutra morada / Noutro cais, habitar um navio fantasma / Singrando os mares da
paixão e da loucura.” Por fim, poeta de coração aberto, faz uma bela, sensível
e emocionante homenagem ao bailarino e coreógrafo
Igor Xavier (1972-2002), artista de Montes Claros (MG) cuja vida foi
tragicamente interrompida aos 29 anos, num caso de homofobia que mexeu com o
país: “Nesta cidade aconteceu um crime / Que tornou
cinza o céu de então / E as luzes apagadas em meu coração / São apenas dor,
luto e solidão. / Uma mãe chorou desesperadamente / O seu brado, sua ira e
cantochão / E se no palco uma luz desvaneceu / No imenso firmamento uma estrela
fulgurou. / (...)”
O livro abre com o
poema “Alma” e encerra com o poema “Brasileira”, poemas esses que falam em
metáforas, de uma vida e de um país o qual vivemos, apesar de tantos dissabores
de quem deveria cuidar melhor dele. “Alma Brasileira” teve
lançamento nacional em maio deste ano na Biblioteca Municipal “Maria de Lourdes
Lian”, em Matão (SP), cidade onde o autor reside. Também neste mesmo mês, o
livro foi apresentado na Escola Técnica “Sylvio de Mattos Carvalho / Etec e em
junho, completando o lançamento e integrando o Projeto “Seara das Palavras”, será
apresentado na Associação dos Deficientes Visuais de Matão (Adevima). Sua
edição foi patrocinada pelo Ministério da Cultura, em projeto realizado com
suporte do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) através da Lei Federal
de Incentivo à Cultura / Lei Rouanet e contou com fotografias de Simone Detoni
e prefácio de Marlene Xavier, da Associação Sociocultural Igor Vive.
Segundo relato do autor:
“Havia pensado em fazer a capa como uma referência e uma homenagem ao disco
London Calling (1979), do The Clash, que por si já era uma homenagem ao
primeiro LP de Elvis Presley (1956).” A imagem da capa é de autoria da
fotógrafa paranaense radicada em São Paulo, Simone Detoni. Eduardo explica: “Ela
registra um momento controvertido da história contemporânea brasileira, pois
foi realizada no dia da decretação do lockdown em São Paulo, 21 de março de
2021, referente à pandemia de covid-19. Foi um dia de intensa movimentação, as
pessoas sendo retiradas... Ela foi feita a partir da Catedral da Sé, com duas
pessoas observando. Um homem e uma mulher que representam a própria nação
brasileira, observando os acontecimentos... Esta foto possui várias camadas de
interpretações. Vemos ao centro da capa, o Marco Zero de São Paulo, local de
grande simbologia e significado.”
Nascido em 1964, ano fatídico
do acontecimento de um golpe militar neste país, Eduardo Waack publicou seu
primeiro livro individual de poemas “Canções do Front” em 1986, porém desde
1979 tem seus textos impressos em revistas, jornais e antologias literárias no
Brasil e no exterior. É o criador do jornal O Boêmio (cultura popular
independente & evolucionária). Tem publicado, entre outros: “A gota de
orvalho suspensa na flor reflete o universo” (2013), ”Os guerreiros medievais
têm medo de automóvel e liquidificador” (2014), “Daquilo que se pode dizer”
(2017), “Caderno de Viagem” (parceria com José Roberto Garbim, 2020), “O Rei e
Eu” (2021), ”Os Povos Nativos” (com Nimuendaju Oliveira, Ipojucã Vilas Boas e Marluí
Miranda, 2022), “Essência Poética” (com Chico Silva, 2022), “Somos filhos dessa
terra” (também com o artista-plástico Chico Silva, 2023) e “Reunião” (2024).
“Alma brasileira” é um livro
forte e terno ao mesmo tempo, desses que a gente lê e busca refletir. Seu autor
não faz concessões ao escrever o que lhe vem no íntimo, por isso é sim, um
livro autêntico em sua essência e que merece ser lido por todos que ainda tem
alguma sensibilidade na alma. “Alma Brasileira”: um livro sensível e verdadeiro
como a poesia deve ser.
* Poeta com 51 anos de carreira literária, Rogério
Salgado reside em Belo Horizonte (MG). Seu mais recente livro é “Antes que
a Lua enfarte”, lançado em janeiro de 2024.