quarta-feira, 1 de abril de 2026

EDITORIAL


Abril chega trazendo renovação, e com ela apresentamos mais uma edição da Revista Cerrado Cultural. Este número só existe graças à força coletiva que nos acompanha.

Aos colaboradores, nosso sincero agradecimento pela dedicação, criatividade e generosidade. Cada texto, cada imagem e cada ideia fortalece este espaço que celebra a arte e o pensamento.

Aos leitores, que nos acompanham e dialogam conosco, deixamos a nossa gratidão. Vocês dão sentido ao que fazemos e mantêm viva a circulação da cultura.

E aos incentivadores — parceiros, apoiadores e divulgadores — reconhecemos o valor de cada gesto. Em tempos desafiadores para a cultura, o seu apoio faz uma diferença real.

Seguimos juntos, cultivando o Cerrado como território simbólico e cultural. Que esta edição inspire e acompanhe bem o seu mês.

Boa leitura, e muito obrigado!


Paccelli M. Zahler (Brasília, DF)

Editor

PALHAÇO


Por Frances de Azevedo (São Paulo, SP)

 

Sorrindo, no picadeiro,

Com seus trejeitos, pulando,

Sozinho ou com um parceiro,

Lá se vai ele rolando.

 

Olhos bem arregalados,

Boca grande bem pintada

E os braços desengonçados,

Lá se vai na gargalhada.

 

Mas ninguém pode saber

Do seu mundo, de sua vida...

E, hoje, houve um malquerer,

 

Pois a filha tão querida

Partiu sem qualquer abraço,

Levando a alma do palhaço...

 

Sobre a autora:

Frances de Azevedo é advogada formada pela Faculdades Metropolitanas Unidas em 1975 e especializada em Direito Civil e de Família. É poetisa, trovadora, contista, declamadora, escritora e apresentadora. Ocupa a cadeira nº 39 da Academia Cristã de Letras - ACL, que tem como patrona a Madre Maria Teodora Voiron;  e membro do Movimento Poético Nacional - MPN. 


UMA HISTÓRIA DE AMOR: O MENINO E O CÃO



Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

 

Eu tinha doze a treze anos. Não mais; - quando minha mãe, declarou, em derradeiro dia de julho, com largo e bom sorriso, bailando nos finos lábios encarnados: vermelhos e acetinados como cerejas:

- " Este ano vamos passar o mês de agosto a Trás – os - Montes...

A imaginação infantil excitou-se - pelos meus olhos de criança, logo surgiu a pastoril e singela aldeia de minha mãe, esbraseada de sol acariciador, sob o bom e cálido manto azul, do Vale da Vilariça.

Nessa noite - que me pareceu eterna, - percorri as macadamizadas ruas da aconchegante povoação, aninhada nas fraldas da serra de Bornes.

Vi - como vi! - As cacarejantes galinhas, à mistura com pachorrentos marrecos, cevados e esqueléticos cachorros, que livremente circulam pelas calçadas, cobertas de morenas palhinhas, morenas como a gente e o pobre centeio, que vegeta pelas serras.

  Vi a desmedida pá do forno comunitário, colhendo das encandecestes brasas, pães redondinhos, estaladiços, saborosos e fumegantes.

Na manhã seguinte parti no ronceiro comboio do Douro, junto à janela, para melhor observar o rio, que, após a Régua, se atravessava a vau.

Em Vila Flor, a Flor das Vilas, como dizia Raul de Sá Correia, o “Rossas" levou-nos, em velha viatura, até à “Quinta do Bem”, onde o prestável feitor, festivamente, nos acomodou.

Pouco depois conheci o Nero. Cãozarrão, guarda da quinta, que após meiga carícia, se afeiçoou a mim.

Sempre que passeava pelo negro asfalto da estrada ou me embrenhava pelos matagais, em vales e montes, o Nero acompanhava-me.

Abandonara, de todo, a obrigação de guarda da Quinta; e era feliz, ladeando me, e dormindo a sesta, estirado no esfregado soalho.

Certa ocasião ao atravessar olival, e não querendo sujar-me – para não ouvir minha mãe, – deitei-me sobre o pobre animal. Alguém viu, e tirou uma fotografia.

Clarisse Barata Sanches, conhecida como "A poetisa de Góis”, teve conhecimento, e publicou poema no: " Varzeense", acompanhada de foto.

Tenho oitenta e tal anos, mas guardo com saudade, o recorte da gazeta.

Ainda me recordo do amigo Nero, que na hora da despedida: gemeu, chorou, uivou de saudade...

Como seria sua vida após a minha partida?

Os cães também têm sentimentos: também, amam, gemem e choram...

AS AVENTURAS DOS PEIXINHOS BRINCALHÕES

Por Luis Antonio Violin (Brasília, DF)


Era uma vez quatro peixinhos muito brincalhões: Lala, Lelo, Beta e Beto.

Eles viviam onde havia várias nascentes de água na Estação Ecológica de Águas Emendadas, que fica perto de Planaltina, no Distrito Federal.

O lugar dessas nascentes é um paraíso para qualquer peixinho que gosta de brincar.

Um dia, eles resolveram apostar para ver quem conseguia nadar mais rápido e mais longe de casa.

Formaram duas duplas e, sem nem muito pensar, acabaram indo para lados opostos.

Lala e Lelo nadaram e nadaram até que uma leve correnteza os levou para um córrego chamado Vereda Grande, que vai para o norte do Brasil.

Beta e Beto, por sua vez, nadaram muito e tão rápido que também foram levados, mas para o córrego Brejinho, que vai para o sul do Brasil.

No início, para eles tudo parecia um passeio dos sonhos: água limpa e fresquinha, plantas balançando e aquela sensação de liberdade!

Mas logo as coisas começaram a ficar meio tensas... Estavam iniciando a maior aventura da vida deles.

Conforme iam nadando, os rios iam recebendo águas de todos os lados e ficando muito grandes. E, o pior, as águas começaram a ficar suja!

 — Eca! Que água fedida! — reclamavam eles.

De vez em quando, aparecia tanto plástico que eles ficavam confusos sobre o que era comida e o que era lixo. Foi um susto quando viram peixes engasgados com plástico.

Além da poluição, eles tinham de fugir dos peixões predadores que queriam transformá-los em almoço.

— Ai, não quero virar comida! — gritavam, procurado escapar o mais rápido possível.

Mesmo com tantas ameaças à vida, eles tinham esperança de lugares melhores e não perdiam o brilho nos olhinhos.

Lala e Lelo, depois de muitos dias aventurando, chegaram ao rio Tocantins. Foi aí que um casal muito simpático de peixe Dourado os adotou como se fossem seus filhos.

Assim eles continuaram a aventura sem tanto medo, mesmo quando o rio Tocantins ficou muito grande ao receber as águas do rio Araguaia.

Era muita água, mas eles estavam prontos para o desafio de nadar e brincar até o mar, se fosse preciso.

Mar? É que eles já estavam bem adiante na bacia do Tocantins-Araguaia, que deságua na baía de Marajó, no Pará, junto ao Oceano Atlântico.

Por sua vez, Beta e Beto, depois de muitos dias de aventura, chegaram ao rio Paraná. Sofreram, mas olha só que sortudos! Também ganharam pais adotivos, um casal de peixe Pintado, cheio de amor para dar.

Assim eles também continuaram a aventura mais confiantes, mesmo quando o rio Paraná ficou enorme ao receber as águas do rio Paraguai e depois as águas do rio Uruguai.

Eles quase foram até o rio da Prata, que recebe as águas desses rios. Com mais esse rio se forma a famosa bacia Platina, que deságua no Oceano Atlântico entre a Argentina e o Uruguai.

Mas, veja bem, esses peixes são de água doce e nenhum deles queria chegar ao mar, onde só tem água salgada. Então, encontraram lugares calmos e mais limpos nos rios para viverem com mais segurança.

A vida dos peixinhos seguia normal. Somente não esqueciam do seu primeiro lar nas águas da Estação Ecológica de Águas Emendadas, nem das aventuras que fizeram a partir de uma brincadeira.  

Cuidemos bem desse lugar incrível, que fica no meio do cerrado e onde nasce muita água que dispersa para lados opostos e ajuda a formar o rio Tocantins e o Paraná, os principais rios da bacia Tocantins-Araguaia e da bacia Platina.

 

Sobre o autor:

Luis Antonio Violin nasceu em Batatais, São Paulo, em 1950. Reside em Brasília desde 1975. É professor de Português e Inglês, formado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca-SP (UNESP). Aposentou-se como Analista Legislativo concursado da Câmara dos Deputados. É pós-graduado em Administração e Recursos Humanos e autor do livro de contos Lá na praia... & outros casos, ed. independente (2019), e dos livros infantojuvenis O ninho vazio, ed. independente (2019) e pela Colli Books (2022), Histórias de Paulinho, Scortecci Ed. (2022), Os gatos dançantes, Scortecci Ed. (2023), A inesquecível praia do Pequeno Príncipe, Scortecci Ed. (2023), As aventuras dos peixinhos brincalhões, Ed. Casa o Autor  (2025), Felizes on-line e off-line, Ed. Colli Books, 2025, e O cachorro de duas vidas (no prelo) Participou da coletânea Contemporânea: antologia de contos & poemas, ed. Albatroz (2019), e da Antologia de poemas, contos e crônicas Scortecci 40 anos v. III (2022). É membro da Associação Nacional de Escritores.

 

UMA NOVA ERA

Por Dias Campos (São Paulo, SP)


 

O Olimpo voltava ao rebuliço. Era imperioso, sentenciavam, que a alegria fosse novamente semeada sobre a Terra. Afinal, desde Schiller, com sua famosa ode, e Beethoven, com o último movimento da sua 9ª Sinfonia, que esse sentimento não se via proclamado.

As agonias humanas, no entanto, fossem ruidosas ou abafadas, subindo dia a dia às excelsas fronteiras, nelas repercutiam como ferros incandescentes, e suplicavam aos deuses uma tomada de posição. Por isso, as sugestões à próxima investida multiplicavam-se, haja vista o entusiasmo que a todos contagiava.

            Ocorre que toda essa exaltação mais embaraçava que contribuía para a escolha da proposta mais adequada à necessidade do momento, e essa falta de unidade já se fazia ouvir no reino de Hades.

Ora, o Deus do Mundo Inferior não se furtou a zombar do seu augusto irmão, comentários esses que depunham contra a sua gloriosa reputação. Daí que Zeus resolveu pôr ordem na casa.

            Dessa forma, as propostas, que antes se superpunham umas às outras, tiveram que ser expostas para a escolha do onipotente, o que, é bom que se diga, implicou certo privilégio à ala feminina do Olimpo.

Não obstante essa reserva, as inevitáveis discussões que se seguiram tiveram que ser por ele administradas, e encontraram menos nas concessões que nas imposições os limites que pacificam.

Interessante mencionar que tanto essas deliberações, porque acaloradas, como as repreensões que as calavam, porque imperiosas, equiparavam-se a verdadeiros trovões que não raro transpunham o portal de nuvens – entrada do Monte Olimpo, vigiada pelas deusas Estações – e acabavam estrondeando no parnaso, o que deixava Virgílio e Hesíodo de cabelos em pé, os poucos que ainda lhes restavam.

É claro que cada divindade pleiteou serem os seus predicados os mais adequados à semeadura da alegria – salvo Melpômene, a Musa da Tragédia, por motivos óbvios –, o que, em princípio, dificultava a procura no mundo de tantos quantos pudessem servir de instrumentos à sua propagação. E como não se chegava a um consenso, coube à Graça Aglae, A brilhante, terminar essas idas e vindas com um toque de genial simplicidade:

- Deidades! Repitamos a receita, que nos foquemos em todas as artes!

Após alguns segundos de olhares recíprocos, de reflexões e de ilações, a esmagadora maioria dos presentes acabou aderindo a essa sugestão, o que fez com que o supremo juiz a declarasse vencedora.

No entanto, ainda se fazia necessário escolher a quem caberia esta ou aquela ação, e mais uma vez a balbúrdia tomou conta da morada dos deuses.

- Ó deusa Reia – desabafava Zeus a sua mãe –, ajuda-me neste momento de impaciência, pois que esse vaivém parece interminável!

Nesse instante, a Mãe dos Deuses fazia-se anunciar, não por meio de trombetas ou pirotecnias que, bem sabia, já se haviam reduzido a lugar-comum, mas, sim, por meio dos tonitruantes rugidos dos dois leões que puxavam a sua magnificente biga. E aterrissava triunfal bem perto de onde o concílio de potestades reunira-se.

Só que Reia não vinha só. Teia, sua irmã, a acompanhava. E seus semblantes revelavam um misto de preocupação e esperança. Aquela, porque preocupada com o tempo que corria; esta, por causa da solução que seria apresentada.

Mais que depressa, Zeus levantou-se e foi ao encontro das deusas. E se estava saudoso e solícito, não escondia um tanto de espanto e mesmo de desconfiança ante a presteza com que sua mãe atendera ao seu chamamento.

Depois de cumprimentarem-se – e todos os demais as reverenciarem –, Reia tomou a palavra e passou a dizer a que vinham:

- Filho amado, deuses do Olimpo, não fostes vós apenas que ouvistes os rogos de quantos choram sobre a Terra. Nós, as filhas de Urano e Gaia, também nos compungimos de suas dores, e não só aplaudimos a intenção de ressemear a alegria como também nos oferecemos para ajudá-los.

- Querida mãe, agradecemos a vossa preocupação. No entanto, falta-me apenas distribuir as tarefas, pois o foco do nosso trabalho já foi delineado. De modo que... – E Reia o cortava:

- Não, meu filho, muita coisa mudou desde Schiller e Beethoven. O materialismo, a desesperança, a falta de oportunidades, a ganância que eleva a mediocridade à posição de primor, e tantos outros cânceres vêm contaminando o espírito do artista, carcomendo o seu ideal e destruindo o seu estímulo. Por isso, não mais bastará uma divina inspiração, como outrora vós fizestes. Neste momento histórico será necessário ir além.

- Prossegui, ó veneranda.

- Os olhos dos mortais, seus espíritos, acomodaram-se nesses últimos séculos. Eles veem, mas não enxergam. E resignam-se com as realidades que são apresentadas.

- Mas?... – Reia, contudo, não o deixou continuar, opondo a palma da mão direita.

- É lamentável constatar que esse triste hábito, se assim posso me exprimir, enraizou-se na esmagadora maioria do gênero humano. É preciso, pois, que nos esforçamos para arrancá-lo. Assim, além de descortinar o que cada artista carrega em si mesmo, o que para vós é trivialidade, será imprescindível que esta realidade seja a eles revelada, a fim de que eles próprios a filtrem e a devolvam cristalina ao seu entorno. Nesse sentido, as potencialidades, as perfectibilidades, o idealismo a guiar o mundo, tudo, enfim, está adormecido nas profundezas dos seus corações. Descobri-os, revelai-os, encorajai-os, e a alegria transbordará, passará a autoalimentar-se, e será disseminada por todo o globo com a força de mil vulcões!

Zeus e os demais já entreviam a sagacidade e a beleza da mensagem que a majestosa senhora trazia. E os sorrisos eram a prova desse vislumbre.

- Começai, sim, – prosseguia Reia – pelas artes. São as vanguardas naturais, as alavancas que revolvem, os estímulos a serem seguidos; tendes a minha bênção. Mas não vos esqueçais do futuro, quadro este que será por nós apontado no devido momento.

            - E o que quereis que façamos?

            - Estais mesmo dispostos a acatar a nossa proposta, ó Rei dos Deuses?

- E como ousaria eu superpor meu orgulho e vaidade ao vosso desígnio? Não me canso de lembrar, e de dizer, que se não fosse por vós, por vossa amorável atitude, a de me esconder no Monte Ida, em Creta, assim que nasci, e eu teria por certo a mesma desventura que tiveram meus irmãos – as entranhas de Cronos.

- Fico feliz com vossa receptividade. Mas não serei eu quem explicará o nosso plano. Vossa tia é quem tem mais qualificativos para explicar o que os deuses deverão fazer; não por isso que também é conhecida por Deusa da Visão. Quanto à distribuição das tarefas, não duvido de que vós bem sabereis a quem confiá-las.

Reia deu a palavra à irmã. Esta dispensou os rapapés e foi logo chamando a atenção:

- Trago comigo estes preciosos utensílios.

E a um estalar de dedos, um soberbo bornal, filigranado em ouro e cravejado de gemas cintilantes, surgiu por detrás da biga e foi pousar defronte à deusa. A essa altura, todos já se haviam achegado para melhor poderem ver. Teia, então, retirou de dentro do saco um exemplar do que trouxera – óculos por ela mesma criados, de um design sublime e cujas lentes, por possuírem graus mágicos, propiciariam uma auspiciosa releitura da vida.

- Como disse – continuava A divina –, será por meio destes instrumentos que cada mortal por vós visitado deixará de ver para enxergar. E porque imperceptíveis à grosseria dos sentidos humanos, basta sejam aproximados das frontes para que os óculos a eles adiram pelo tempo necessário à autotransformação. Depois disso, desaparecerão, reintegrando-se ao cosmo.

- Bravo! – a aclamação foi unânime e calorosa, tanto que os aplausos e os hurras encontroaram-se por um bom tempo.

- Mas como será aos que já usam óculos? – retorquiu Ftono, o Deus da Inveja, com o costumeiro desdém.

- Por terem sido elaborados com a quintessência dos elementos, são imanentes às suas cópias terrenas.

- Ah... – E se calou.

Passada a euforia, Teia e sua irmã resolveram partir. A missão a que se entregaram fora cumprida a contento, e não estavam dispostas à baderna que sabiam viria a seguir.

O primogênito de Reia retomou a palavra:

- Como o objetivo é a ressemeadura da alegria, nada mais lógico que as escolhas recaiam sobre as divindades que a ela se liguem, mesmo que de maneira indireta. De outra parte, o mundo é bem vasto, o que suscita a divisão em grupos, visando à otimização. Assim, passo à escalação, e não admitirei apartes, apelos ou choramingos.

Zeus resolveu bipartir o mundo. Disso resultaram duas equipes: a das três Cárites ou Graças, a quem Homero descreveu na Odisseia como espíritos adoráveis, jovens e belos, e a das nove Musas, as inventoras de todas as artes, como bem lembrou Voltaire, no conto Aventura da memória. Estas comandadas por Apolo, e aquelas, por Afrodite, respectivamente os deuses das belas-artes e da alegria.

Os deuses remanescentes permaneceriam no Olimpo, mas de sobreaviso, e desceriam à Terra caso algum dos enviados precisasse de ajuda.

De outra parte, é certo que em um lugar de delícias nem tudo é trabalho. E como pré-sabiam as parentas de Zeus, uma comemoração majestosa foi preparada em seu louvor. Dionísio, o Deus das Festas, naturalmente assumiu a chefia, e entregou-se ao trabalho com um capricho inusual – o néctar e a ambrosia foram servidos à saciedade; as cornucópias trabalharam até a exaustão. Mas o mestre de cerimônias não parou por aí, e depois de um concerto de liras, foi a vez de Calíope, a Musa da Eloquência, anunciar, com sua trombeta, o recitar de um poema épico. Houve quem sugerisse Ilíada, mas Eneida sempre foi o preferido do homenageado. E puseram-se em silêncio, e cantou a Bela voz.

No dia seguinte, e como acordasse de muito bom humor, Zeus concedeu a Afrodite o privilégio de escolher os Continentes a que sua equipe iria dedicar-se. E como não temesse novos desafios, mas também levando em consideração a diferença numérica entre os grupos, ela e as Graças ficaram com a América e com a Oceania. Apolo muito se alegrou, pois, se era verdade que teria que vasculhar as populosas Ásia e África, a Europa e o helenismo ainda batiam fundo ao seu coração, e era isso que o estimulava sobremaneira. 

Resolvida essa última pendência, Zeus achou por bem proferir algumas palavras antes da partida dos enviados; a importância da ocasião o exigia:

- Trabalhai com afinco, ó sementeiros da alegria, pois o futuro dos mortais está em vossas mãos. Dessa forma, não abandoneis os desanimados, não desistais dos malsucedidos, não vos afasteis dos iludidos, e não vos envergonheis dos principiantes. Insisti sempre, sem descanso, pois todos devem ser estimulados no que tiverem de aproveitável. Agora, ide à crosta terrestre; eu vos invisto do meu poder!

O todo-poderoso ergueu os braços e abriu as mãos. E descargas de raios fulgurantes precipitaram-se de suas palmas e foram envolver os emissários em uma espécie de armadura dulcificante, a condição que faltava à plena execução do mandato divino.

Os mensageiros celestes desceram ao orbe cheios de vigor, de ânimo e, sobretudo, de otimismo. Era preciso encontrassem terreno fértil entre os mortais a fim de que as sementes que seriam deitadas pudessem crescer vigorosas, o que, confiavam, proporcionaria uma safra verdejante, o cêntuplo desde a última colheita.

Na França, por exemplo, Tália, A festiva, encontrou um escritor que já ganhara vários prêmios literários. Apresentava-se, no entanto, não como uma pessoa satisfeita e bem-disposta, mas, sim, como um farrapo vazio e enfermiço. Procurando as causas, compreendeu que esses estados decorriam do universo temático com que o laureado se harmonizava – o abuso da violência, do sofrimento, da podridão e do sexo.

A Musa não pensou duas vezes. Aproveitando a sua nacionalidade, e repleta de compaixão, conduziu-o à biblioteca – leia-se: puxou-o pela orelha –, pousou no seu rosto os óculos de Teia, e, sob o influxo de sua máscara da comédia, inspirou-o a abrir determinada obra de Barthélémy. Deste sobreveio o seguinte pensamento, que despontou como um verdadeiro lenimento: “A alegria é a saúde da alma”.

Uma como metamorfose apoderava-se do seu íntimo enquanto lia e relia a poderosa frase. As lentes mágicas faziam-no enxergar, e com o mais cristalino dos augúrios, que ele deveria lutar para sufocar as suas más tendências, que teria que pelejar para mudar os seus maus gostos, que, enfim, outro fosse o regaço em que seu dom se dessedentasse. Então, não só veria curada a sua alma, como também, e por conseguinte, o próprio corpo ficaria são.

Tália, então, perguntou-se, e com um sorriso jubiloso ante a transformação que testemunhava:

- Uma vez restabelecida sua saúde psíquica e física, quantos prosélitos esse novo, agradecido e exultante autor será capaz de arregimentar?

E ela mesma respondia:

- E por acaso é concebível limites à alegria?

Noutra ocasião, em Lisboa, Terpsícore encontrou uma bailarina de uma importante Companhia. Analisando-a, a Musa da Dança aquilatou a sua inquebrantável determinação, a sua absoluta dedicação e o primor de sua técnica. Essas conquistas, contudo, que se consubstanciavam na mais sublime leveza, careciam ainda daquele quê enigmático, daquele plus imponderável sem o qual o primeiro lugar ainda parecia inalcançável.

Diagnosticada a lacuna no íntimo da adolescente, a recente perda da mãe, A rodopiante não precisou mais que dois segundos para arquitetar um meio por que aumentaria ainda mais a eficácia dos óculos mágicos. Dessa forma, viajou até o lar de Morfeu, uma escura caverna decorada com flores, conforme eternizara Ovídio, em Metamorfoses, expôs a sua ideia com muita propriedade, e dele obteve a mais entusiástica adesão.

Ato contínuo, o Deus dos Sonhos, sabedor de que a noite chegava ligeira, largou sobre sua cama de ébano o bilboquê com que costumava divertir-se nos momentos de folga, ofereceu o braço à Musa, que de pronto o aceitou, e foram ambos pedir ajuda a Hélio, a personificação do Sol. Com certeza, a sua quadriga era o jeito mais rápido e iluminante de retornarem à capital lusitana.

O Titã atendeu-os solícito, e em menos de um segundo alcançavam o quarto da alfacinha, que apenas dormitava.

Por sua vez, o filho de Hipnos preparou-se para usar sua divina habilidade – a de tomar a forma de qualquer pessoa, e de assim aparecer no sonho de outrem.

Antes, porém, que a jovem caísse em um sono profundo, a Musa ajeitava os óculos. Os seus olhos físicos cerravam-se; os espirituais, entretanto, começariam a enxergar.

Operada a transformação, e a resplandecência que despontava do reencontro entre mãe e filha configurava-se inimitável até para Apolo, caso o líder das Musas pretendesse reproduzi-la em tela. As lágrimas, excelsas e límpidas, faziam-se vozes, e por alguns minutos tudo falaram. O abraço que se seguiu, caricioso e amalgamado, desconstituía a tristeza filial, ao mesmo tempo em que a substituía pela certeza do convívio. Era assim que a bailarina relia o seu presente, tendo a convicção de que nunca mais ficaria só e para sempre iriam confessar-se.

Como a exultação voltasse a habitar aquele coração florescente, Morfeu dirigiu-se à parceira, num tom que revelava pura ternura:

- Quanto tempo esta dançarina rediviva ainda terá que esperar para chegar ao topo da carreira?

E com os olhos acumulando lágrimas, Terpsícore respondeu:

- Talvez um pouco mais que o necessário para que o âmago de sua arte, a alegria, contagie os milhões de espectadores que passarão a idolatrá-la.

Seguiam, assim, Apolo e as Musas, direcionando aptidões, incentivando atributos, soterrando negativismos, multiplicando a alegria em todas as direções. Nenhum recanto, por mais inóspito que parecesse, era esquecido pelas zelosas divindades. De vilarejo em vilarejo, de cidade em cidade, de país em país, sondavam-se os corações, os talentos, os estilos e os senões. Constatados os pontos que eram dignos de serem aproveitados, e aos eflúvios estimulantes ajuntava-se o poder dos óculos da deusa Teia. E os artistas passavam a enxergar aquilo que antes apenas viam. Daí que moldavam o belo no que era visto como feio, concebiam o ideal naquilo que achavam inatingível, e retransmitiam bem-estar aos que só sentiam insatisfação. A nova maneira com que percebiam a realidade circundante, faziam-na como as plantas ressequidas que, desiludidas, ressuscitam irreprimíveis ante as primeiras gotas de chuva. A semeação, executavam-na com transcendental esmero; a colheita, nem os armazéns celestiais comportariam a sacaria!

Com idênticos euforia e zelo, Afrodite e as Cárites desdobravam-se em seus propósitos, presenteando as Américas do Norte e Central com um rastro fulguroso. Aliás, a receptividade exemplar de seus habitantes muito as impressiou, o que facilitou a sua missão, e, por consequência, o alastramento da alegria.

Apesar dessa venturosa acolhida, foi nas terras do Tio Sam que a líder das Graças se deparou com um terrível obstáculo.

Com efeito, ao penetrar o estúdio de uma renomada pintora, cujos quadros já abrilhantaram inúmeros vernissages ao redor do mundo, Afrodite defrontou-se com uma senhora prostrada, um corpo opaco, quase sem vida. Defronte à artista, e sobre um cavalete, um esboço cinzento refletia o pincel que se exauriu. Ao perquirir o motivo de tanta desventura, a Deusa do Amor descobriu que seu único filho sucumbira no campo de batalha, em uma das últimas campanhas encabeçadas por seu país. E como faz um povo, a filha de Zeus condoía-se de tamanha compensação – a pátria perdera um fuzileiro e um herói; a mãe recebeu uma bandeira e uma condecoração.

Afrodite continuou a vasculhar os meandros do espírito dessa pobre mortal e acabou descobrindo quem era o seu pintor predileto. Nesse mesmo instante, um dos símbolos por que a deusa é conhecida, a pomba, materializava-se no peitoril da janela; decerto fora a onipotência de Zeus que a providenciava. À alva visitante coube fazer-se notar, e os conhecidos arrulhos somados aos meneios característicos do pescoço foram mais que suficientes. Assim, bastou à perspicaz Deusa da Beleza acomodar os óculos de sua avó naquele semblante derrotado para que, a pouco e pouco, um simples pássaro transmudasse em mote, e uma nova maneira de enxergar a vida fosse sendo matizada.

Dessa forma, e tal como fizera o seu mestre – Pablo Picasso – no início dos anos sessenta, a mãe artista punha-se ao trabalho, aposentando aquele esboço acinzentado e debruçando-se sobre outra tela, em que a pomba branca da paz voejava fulgurante ao redor de todo o planeta, esclarecendo os equivocados, cativando os indiferentes, e convidando os indecisos a dizerem não ao belicismo, não ao desespero, e não à desolação! E concluía sorridente, de si para si:

- Sim ao pacifismo, sim à esperança, sim ao júbilo! – A bruma dissipava-se; o dom via-se redirecionado.

- Qual será o impacto que a arte desta senhora produzirá nas próximas exposições? – perguntava-se Afrodite – Quantos corações contritos serão refeitos ao se alimentarem do aroma que seus quadros exalarão? Quanta alegria transmitirá às almas sensíveis, e para quantas mais estas a repassarão?

E mantendo o sorriso, respondia tranquila:

- Só nos cabe aguardar.

E os deuses seguiam confiantes, obsequiosos, vigorosos, deitando sementes aqui, semeando-as ali, espalhando-as acolá. Sempre exultantes de sua missão, e, principalmente, da germinação que presenciavam.

Isso não quer dizer que tudo acontecia como nas lagoas edênicas, onde a calmaria reina absoluta e beatífica. Por vezes os enviados deparavam-se com um e outro artista que, renitentes, mantinham-se enclausurados em suas ruinosas opiniões. Isso implicava uma nuvem espessa e negra que se amoldava em suas cabeças, e que, fazendo as vezes de um capacete, tapava completamente a visão; e esse fenômeno era suficiente para neutralizar a eficácia dos óculos mágicos. Tudo indicava, portanto, que Hades ali estivera, e os presenteara com seu Elmo da Escuridão.

Nesse exato momento, no entanto, Zeus, que tudo vê, fazia-se presente por meio de Hermes, o Mensageiro dos Deuses, que os acudia na velocidade do pensamento. Trazia, das mãos do manquitola Hefesto, o Ferreiro dos Deuses, o seu martelo, o único capaz de despedaçar o elmo das trevas. Daí que, uma vez reconquistada a luz, e o processo de correção visual seguia o seu curso.

Ocorre que, sem que nenhum dos mandatários olímpicos suspeitasse, ao Novo Continente estaria reservado o papel decisivo a que a alegria se destinara desde o surgimento de Caos, o mais antigo dos deuses. E seria no Brasil o local onde tudo aconteceria.

Afrodite e as Cárites sobrevoavam a zona portuária da cidade do Rio de Janeiro, quando Eufrosina sentiu uma vontade incontrolável de investigar uma favela. O desejo era tão forte que ela simplesmente desgarrou-se do quarteto e desceu a terra. Ora, como voasse na retaguarda, ninguém deu por sua falta.

Quis o destino que ela pousasse exatamente no Morro do Livramento, berço do imortal Machado de Assis, e defronte a uma casa mal-acabada. Do seu interior, vozes infantis, quais trinados demiúrgicos, sobrepujavam o burburinho da ladeira em que a divindade se encontrava e a atraíam como ímãs poderosos.

Mas como recobrasse a plenitude das faculdades, a Graça hesitou em ceder ao estranho fascínio, chegando mesmo a dar três passos para trás. Só não partiu apressada em busca de sua equipe porque os donos das risadas, os Ibêjis, entidades crianças sincretizadas com os santos Cosme e Damião, trataram de dissuadi-la, fazendo-se visíveis, enleando-a em eflúvios calmantes e de confiança, e justificando que, entre todos os enviados, somente a Alegria da alma, por sua própria natureza, é que tinha condições de ouvir o chamamento.

Em seguida, os orixás gêmeos pediram à Graça que entrasse e subisse à água-frutada, onde o real motivo do convite seria esclarecido. Adiantavam, ademais, que os seres humanos só teriam a agradecer.

Mesmo assim, o Sentido da alegria não se deixava convencer, encarando-os em silêncio e esperando um algo a mais.

As entidades, então, apreendendo o seu aguardo, conectaram-se às pressas a uma mente distante, e, com idênticos sorrisos, arremataram:

- A deusa Reia diz: “Não se esqueçam do futuro!”

Foi o suficiente para que a Graça as acompanhasse, e de muito bom grado.

Nesse meio tempo, Afrodite, Aglae e Tália, A verdejante, já procuravam por Eufrosina, mas como esta não respondia a nenhuma mensagem telepática, aquelas começaram a se inquietar. Não que com ela se preocupassem, pois, como deusa, sabiam-na inatingível. É que, como é notório, uma Graça jamais se separa de suas irmãs. O sumiço, portanto, era motivo bastante para muitas interrogações.

Como os questionamentos persistissem, a líder resolveu apelar: Contactou o oráculo de Delfos e dele obteve a orientação precisa de como chegar ao local onde a caçula encontrava-se. E partiram sem demora.

O trio aproximou-se da casinha um tanto ressabiado. No entanto, e ao contrário do que supunham, tão logo atravessaram a parede chapiscada, as deusas viram-se envolvidas por uma vibração amena, aconchegante, em tudo semelhante às emanações espargidas pelos Penates do panteão romano. E à medida que subiam a tosca escada, rumo ao quarto improvisado, a sensação de conforto só fazia aumentar.

Ao alcançarem o humilde cômodo, Afrodite e as Graças depararam-se com uma cena em si mesma corriqueira, mas que, na verdade, compreendia um poder incomensurável. Não por isso que o ambiente se revelava como que preenchido de uma indizível aurora e tomado por uma intraduzível fragrância.

Eufrosina embevecia-se com duas crianças que, sentadas na cama, ouviam da avó lindas histórias. A atenção dos pequeninos – um garoto de três e uma menina de dois anos – era tamanha que os olhinhos simplesmente não piscavam! E os sorrisos, ah! os sorrisos... exprimiam todo o deleite que a meiguice, a pureza e a angelitude são capazes de ofertar.

Mas antes que alguma das recém-chegadas pensasse em questionar ou mesmo em interromper esse momento sublime, os Ibêjis para elas se dirigiram, apresentaram-se em baixíssimas e uníssonas vozes, e, afáveis, pediram que aguardassem só alguns minutos a mais, pois um convidado ilustre não tardava, e deste encontro, insistiam, o mundo inteiro poderia beneficiar-se.

Ante a magnitude e utilidade dessa afirmação, as deusas aquietaram-se e puseram-se a sorver das delícias que, profusas e graciosas, inundavam e aqueciam os corações de todos os que ali se encontravam.

Quando notou a presença das irmãs e de Afrodite, a enlevada Graça correu para abraçá-las, ávida por compartilhar de seu contentamento.

Nesse ínterim, porém, um espírito luminoso adentrava sorridente. Trazia consigo quatro rosas brancas, vistosas e perfumadas, e que colhera no próprio jardim, localizado na Alameda dos Imortais, na ala norte dos Campos Elísios. As flores, recebiam-nas com um terno sorriso; os cumprimentos, iniciou-os Coelho Neto, O príncipe dos prosadores brasileiros.

Em seguida, e como permanecesse a curiosidade, Afrodite tomou a iniciativa de interpelar o fundador da cadeira número 2 da Academia Brasileira de Letras sobre em que esse encontro favoreceria o gênero humano. E ele desta forma respondeu:

- Afrodite, ó sagrada por Camões como a protetora dos heróis portugueses, bem sabemos, eu e os que me enviaram, que os deuses para cá se deslocaram porque mais uma vez compadeceram-se dos sofrimentos por que passam os mortais. Mas, pergunto eu, de que vale a nós outros já termos alcançado o empíreo se lá permanecermos numa eterna e inútil contemplação? De que serviria a solidariedade? E como justificar a felicidade perfeita?

- Nesse sentido – prosseguia o filho dileto de Caxias –, confabulamos nós também e concluímos por esta estratégia: Atraí-las para este recinto bendito para que, compreendendo a razão mesma desta cena, extraiam dela o adubo divino que permitirá transfigurar o planeta numa só lavoura, expandindo excepcional e irrefreavelmente o cultivo da alegria!

            Acontecimento inimaginável, fato antológico... Os seres humanos – mesmo que falecidos – e as entidades afro-brasileiras ombreavam com os deuses do Olimpo em prol do bem comum!

- Como assim? – questionou Tália.

- Certa vez, porque devidamente inspirado, alinhavei um pensamento por meio do qual volta e meia sou lembrado. E creio ser ele o melhor dos esclarecimentos: “A criança é alegria como o raio de sol e estímulo como a esperança.”

Alguns entreolhares; muitos sorrisos... E não havia mais o que arguir. Daí que, além de persistirem nas artes, como meio iniciante de propagação da alegria, o leque teria que ser necessária e rapidamente aberto. Assim, fossem ou não pais, mães ou responsáveis, que todo o ser humano recebesse os óculos de Teia para que passasse a enxergar no presente a maneira de se alcançar um futuro glorioso. Só desta maneira – investindo-se nas crianças, garantindo a sua satisfação física e moral, preservando-as de todos os males, cultivando a sua jovialidade –, é que o mundo edificará e garantirá para si um éden imperecível, onde a alcunha, Vale de Lágrimas, ficará para sempre relegada a uma página dobrada no livro da História.

Os abraços que se seguiram, entremeados de soluços e fios de lágrimas, coroaram aquele instante bem-aventurado, perpetuando-o nos corações dos privilegiados que o puderam contemplar. E depois dos muitos e recíprocos votos de sucesso, Afrodite e as Graças partiram ao encontro de seus companheiros de tarefa.

Reencontrado o outro grupo, e transmitido o ensinamento profundo, Apolo e as Musas encantaram-se com o novo rumo que deveriam tomar. No entanto, antes de recomeçarem a jornada, acharam prudente obterem primeiro a bênção de Zeus; não convinha agissem em desacordo com as orientações do Detentor da Égide. Assim, replenos de otimismo e de autoconfiança, as duas equipes rumaram para o Monte Olimpo, retorno esse que, é forçoso dizer, pegaria o maioral de surpresa.

Amainados os primeiros sobressaltos, e o Deus do Céu era inteirado do sublime contratempo. E como previram, assim se manifestou:

- Que projeto maravilhoso, e ambicioso! Digno dos deuses!... E de quem foi essa ideia extraordinária?

- Na verdade, ó potestade – antecipou-se Apolo, um tanto temeroso –, nenhum de nós poderá dar-se o crédito. As coroas de louros são devidas, sim, aos habitantes do Eliseu.

Zeus contrafez-se. Como, perguntava-se, um intento dessa magnitude não tinha sido idealizado por nenhum dos seus escolhidos?!

O pior é que toda a corte olímpica presenciava o orgulho ferido, e o cognome Deus das Tempestades ainda fazia-se zunir desde a vitória na guerra contra os Titãs.

No entanto, e para espanto de todos, seria a magnanimidade do todo-poderoso que falaria mais alto:

- Quem diria... Mesmo com todos os meus atributos, onividência, oni-isso, oni-aquilo, e, ainda assim, minha mãe e tia descobriram um jeito de me surpreenderem. Bem, mãos à obra! Que nenhum artista seja esquecido; que nenhum mortal fique sem os óculos mágicos; que a alegria seja disseminada à farta e recubra toda a humanidade!

Desta vez, porém, as festividades tiveram que ser adiadas, pois o tempo urgia. Isso deixou Dionísio um tanto melindrado, mas nada que uma taça de vinho e um solo de cítara não remediassem.

E enquanto as duas equipes retiravam-se, Zeus levantou-se do seu trono e arrematou com muita disposição:

- Ah, já ia me esquecendo: Levem consigo quantos deuses precisarem. Afinal, o trabalho vai aumentar, e muito!

A propósito, ainda bem que a deusa Teia já se preparara para este novo desafio. Como confiassem, ela e Reia, que a humanidade toda seria aclarada, tratou de reduplicar a produção dos óculos mágicos e de abarrotá-los nos almoxarifados do Elísio.

Realmente, a Terra despertava para uma nova era, onde o enxergar substituirá o ver, onde os bons valores triunfarão, e onde a alegria reinará absoluta.

ARREPENDIMENTO

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Se arrependimento matasse

eu estaria morta.

Morta por dentro.

Morta por completo.

 

Como me arrependo

de certas decisões.

Que machucaram

meu doce coração.

 

Arrependo de ter deixado

alguém que amava partir.

Sem ao menos tentar

talvez esse alguém não era meu.

 

A dor do arrependimento

é enorme e infinita.

Como dói esse

meu arrependimento.

 

INSTAGRAM: @liecifranborgesmartins

ÀS VEZES, SINTO FALTA DE UM COMPANHEIRO!

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Essa vida de solteira

não é um mar de rosas.

A solitude cansa.

A carência cansa.

 

O coração acelera.

Os olhos e lágrimas

caem sem parar.

Os joelhos doem.

 

Às vezes sinto falta.

Falta de ter alguém.

Compartilhar a minha

vida e rotina.

 

Ser solteira é bom.

Me leva ao céu.

Sobra tempo de mel.

Mas ter alguém é bom.

 

Às vezes sinto falta.

Falta de um

companheiro.

Sinto falta.