Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)
“Ligações Perigosas” é o
título daquele que foi considerado o melhor romance francês do século XVIII,
uma obra-prima da literatura erótica ocidental. O autor, Choderlos de
Laclos (1741-1803), foi militar e filósofo, que viveu a tensão de uma monarquia
aristocrática decadente, antes da Revolução Francesa. Conseguiu ser reintegrado
ao exército como general, sob o comando de Napoleão Bonaparte. Escreveu sobre a
necessidade de educação das mulheres que deveriam, segundo ele, ter uma rotina
leve, com repouso, mas ativas, sem excessos, com controle emocional dos desejos
que levam à frustração.
“Ligações Perigosas” (1782)
escandalizou a sociedade francesa. Trata-se de um romance epistolar. São 175
cartas trocadas entre personagens da alta burguesia com pontos de vista
diferentes, vozes que se opõem, expondo as vísceras de ligações políticas e amorosas,
cheias de ambição, sedução e corrupção moral.
A trama foca na Marquesa de
Merteuil e no Visconde de Valmont, ex-amantes, libertinos e cínicos, que
manipulam e arruínam reputações por pura diversão e vingança. A Marquesa é
enigmática, inteligente, calculista. O Visconde é inescrupuloso e conquistador.
Quando os dois se unem é para destruir a vida deles mesmos e das pessoas que os
rodeiam.
A Marquesa propõe ao Visconde
que corrompa Cécile de Volanges, uma jovem saída do convento. O Visconde tem
novo alvo: Madame de Tourvel, uma mulher bela, casada, fiel e virtuosa. O
marido de Madame viaja. O Visconde começa a tecer uma teia de fingimentos,
artimanhas e intrigas, para que ela caia em seus braços. Ataca para abalar suas
convicções morais. Os planos cruéis fogem do controle. O Visconde se apaixona
perdidamente por Madame de Tourvel. Caminha-se para a tragédia completa: a
Marquesa e o Visconde desmascarados publicamente; Cécile desonrada; Madame
Tourvel, corroída pela culpa, caindo gravemente doente. Todos devastados,
dilacerados, diante de uma corte hipócrita e extravagante. Fim de uma era.
O livro foi adaptado inúmeras
vezes para peças teatrais e filmes, tendo sido o mais recente o filme de 1998,
dirigido por Stephen Frears, com Glenn Close no papel da Marquesa de Merteuil,
Uma Thurman como Cécile, Michelle Pfeiffer como Madame de Tourvel e John
Malcovich no papel de Visconde de Valmont. Que atuação impressionante a de
Malkovich! No jogo de sedução, ora ele se assemelha a um anjo, ora a um
lagarto. Escrevi o poema “Anjo e Lagarto”:
Meu amante é mistura de anjo e lagarto,
De lagarto tem um ar rastejante,
Serpente que ganhou pés, mãos
E língua bífida;
De anjo tem um par de asas
Que se abrem sobre mim
Como cisne no lago.
De lagarto tem o olhar contemplativo
De quem fica horas imóvel
Sob o sol;
De anjo tem o poder
De conduzir astros,
De executar leis,
De tornar-me rainha.
Quando lagarto
Posso feri-lo,
Cortar-lhe a cauda
Que se regenera;
Quando anjo
Posso derramar azeite quente
Em suas costas
E traí-lo.
O lagarto
Foi um pássaro gigante,
O anjo,
Uma aspiração impossível.
Meu amante é mistura de lagarto e anjo,
De anjo e lagarto,
Sou mulher
E temo a raça dos demônios.
Assistimos há pouco a uma
tragédia familiar. A família é palco de amor, proteção e de traumas e
conflitos. Uma mulher trai o marido. Traição é fraqueza da vontade, uma
escolha. O marido, num colapso emocional, tira a vida dos próprios filhos e se
mata. São batalhas espirituais movidas a paixões, a erros. Paixões que queimam,
que levam a mil desordens, que enlouquecem. Misto de carência, rejeição,
dependência e egoísmo. A cegueira. O momento fatal. O combustível da raiva, da
tristeza, da confusão mental transformadas em lenha e fúria. Uma imensidão de
sentimentos negativos que se levantaram como labaredas.
Sou movida por paixões: o
desejo de amar, que me consome; a busca do meu ideal, sempre distante, nas
estrelas e a compaixão terrível pelo sofrimento de todos os seres viventes.