sexta-feira, 1 de maio de 2026

EDITORIAL

Por Paccelli José Maracci Zahler - Editor (Brasília, DF)

Nesta edição, a Revista Cerrado Cultural reafirma seu compromisso com aquilo que nos move desde o início: dar espaço ao que pulsa, ao que nasce da sensibilidade, da inquietação e da coragem de quem escreve, pinta, canta, fotografa, traduz e reinventa o mundo. Somos, antes de tudo, um território de encontros — e maio nos lembra que os encontros verdadeiros florescem quando há escuta, generosidade e abertura.

Vivemos tempos em que a cultura precisa ser defendida com firmeza. Não apenas como patrimônio, mas como direito. A arte não é ornamento: é ferramenta de consciência, de memória e de futuro. Por isso, cada poema, cada conto, cada ensaio, cada obra visual que compõe esta edição é também um gesto de resistência. Um lembrete de que a criação humana continua sendo uma das formas mais potentes de liberdade.

Que esta edição de maio inspire você a desacelerar, a olhar de novo, a sentir o que talvez tenha ficado adormecido. Que desperte perguntas, provoque reflexões e, quem sabe, acenda aquela centelha que só a arte é capaz de reacender.

Seguimos juntos — leitores, autores, colaboradores e sonhadores — cultivando este Cerrado simbólico onde a cultura floresce apesar de tudo, e justamente por isso.


COMO É GOSTOSO SER ENGANADO

Por Roberto Minadeo (Brasília, DF)

            Fake News são as mais graves ações do momento. Mas, há muito fingimento por trás disso.

Todos os erros e problemas do mundo são creditados a elas e ampliados devido à onipresença da internet. Pérfida imprensa, que não mais cumpre seu papel de informar à incauta sociedade, que tanto nela confia! As Fake News são democráticas, atingem dos incultos aos catedráticos. A possibilidade de qualquer pessoa ser enganada é a mais abrangente, ilimitada e incondicional possível.

            Assisti a um filme horrível? Culpa do jornal que disse tratar-se de uma nova linguagem cinematográfica! Adquiri um carro que trouxe problemas de motor? Culpa das Fake News que disseram tratar-se de um design inovador!

            O filme informado pode ser uma nova linguagem – porém, isso não é certeza de agradar a todos. A compra de um carro é tão importante que merece mais do que ler uma nota em um jornal, que foi verídico sobre o inovador design do modelo.

            Um cidadão diz que a mortadela é feita de carne de cavalo. Questionado em sua ignorância, consultou a internet, para se aperceber de que vivia no erro, devido a seu preconceito contra o maravilhoso e popular embutido tão querido no país.

Há quem sustente conversas de botequim sobre economia, história, política, sociologia ou arte. São assuntos sobre os quais muitos não possui qualquer formação. É difícil admitir isso, sendo preferível culpar as Fake News.

            Será mesmo que todos os órgãos da imprensa apenas vivem para desinformar? Qual a motivação de instituições centenárias estarem desviadas dos propósitos que nortearam seus bons serviços? Será razoável supor que após a internet os jornais só propalam mentiras? Será que os blogs surgidos aos milhares são melhores do que a imprensa?

            Um argumento elementar desmonta os furibundos ataques à mídia: se é ela quem nos informa, como distinguir as matérias verdadeiras das falsas?

A realidade é outra. Devido à internet, milhares de jornais fecharam as portas. Mas isso não significa que os sobreviventes ficaram fracos, se fortaleceram, pois graças à mesma internet, atingem milhões de assinantes mundo afora – algo impensável décadas atrás, quando eram apenas baseados na versão impressa. Assim, precisam manter ingentes equipes para zelarem por seus nomes, pois competem com outros veículos informativos de grande porte. Por incrível que pareça, a concorrência aumentou, pois ocorre entre gigantes.

As Fake News são armadilhas nas quais gostamos de cair, quais macios colchões, bons para dormir e depois atribuir a culpa ao cansaço. Há enganos gostosos que mexem e cutucam muitos – como a mortadela.

            O que são os golpes que tantos incautos sofrem? Após alguém ser enganado é fácil dizer que ladrões inescrupulosos se apropriaram do fruto do trabalho. Porém, qual o motivo de alguém acreditar em esquemas de pirâmide, senão o fato de se buscar a eterna promessa do dinheiro fácil? Não teria faltado o primário raciocínio: se alguém ganha, é porque muitos perdem? E se tantos perdem, qual o motivo para que justamente eu venha a ganhar?

            Certa leitora de cartas foi denunciada pela imprensa. Pessoas gastavam fortunas para conhecerem o seu futuro e se arrependiam. A acusada fechou as portas e foi a um endereço mais nobre, para atender uma classe superior. A imprensa voltou a denunciar, mas há quem acredite em promessas de trazer de volta a pessoa amada em três dias. Culpa da imprensa? Claro que não, fez seu papel, porém em vão. Aliás, apesar de sua boa vontade, a mídia fez o papel contrário ao de alertar: alardeou gratuitamente os serviços daquela cartomante.

            Por trás das Fake News pode haver alguém querendo acreditar em algo por interesse. A verdade possui aspectos contrários aos interesses pessoais, por isso nem sempre é levada a sério – abrindo um amplo espaço à doce mentira.

            Há mentirosos e sempre existirão. Todavia, ao se compreender o aspecto “como é gostoso ser enganado” que se esconde por trás de tantas Fake News, menos pessoas reclamarão após terem sido escalpeladas por ofertas inescrupulosas. E, mais importante, surgirá espaço a uma sadia busca pelos fatos – tarefa árdua, que jamais se realiza de forma rápida, tranquila e descompromissada.

Sobre o autor:

Roberto Minadeo vive em Brasília; publicou obras em Marketing e Estratégia. Lançou as antologias oníricas “Sonhos Fulgurantes” e “A Rainha da Lua e Outros Contos”; o romance “Na Casa da Avó”; o drama “Duas Irmãs”; e “O Talismã Oculto” – baseado na mitologia chinesa. Participa de antologias de diversas editoras. É membro do Instituto Histórico e Geográfico do DF.

Teve três contos premiados:

·    “Libertação da Perfídia” (Secr. Cultura/200 Anos da Independência).

·    “O Clã” (VIII Concurso Cidade do Penedo de Poesia e Conto).

·     “A Maldição da Mansão” (Blog A Última Página).

Também recebeu prêmio pela crônica “A Irritação de Macunaíma”, no Concurso de Itapema/SC.

Email: rminadeo@gmail.com

Rede social: https://www.youtube.com/@robertominadeo

NO LOCAL DE TRABALHO

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)

  

Na empresa onde trabalhei quase quarenta anos, havia centenas de trabalhadores. Cada qual com sua função:

Uns, eram ateus; outros – em pequeno número: crentes; outros ainda: católicos de estatística.

Entre os crentes, havia um, que frequentara o seminário, mas foi constrangido a sair, porque sofria deficiência física: corcovava. Chamava-se Anselmo. Dirigente que tratava todos, com paciência e extrema bondade.

Nunca se envergonhou de se declarar cristão. Quem tivesse problemas de trabalho ou necessidade de apoio e conselho espiritual, dirigia-se a ele.

Era catequista, e todas as semanas deslocava-se à terra natal para cumprir a obrigação. Certa vez confessou-me: " Se pudesse, e ainda me quisessem, gostava de ser padre"...

Outro, era evangelista ferrenho, e gostava de conversar comigo. Contou-me - certa ocasião teve forte vontade e dizer, perante enfermo grave: " Em nome de Jesus, levanta-te!".

Nunca o fez, embora estivesse convicto que seria atendido, mas se tivesse enganado? Cairia no ridículo, e seria alcunhado de lunático ou coisa pior.

Ainda havia outro, que era católico praticante – não gosto do termo, porque quem não cumpre o que Jesus ensinou, não é cristão – o católico, cumpre ou tenta cumprir os Mandamentos.

Tinha aspeto provinciano, caipira. Nos intervalos das refeições, assistia à missa. Se não havia, rezava e orava no templo.

Agnósticos e ateus eram poucos, – Havia um que pretendia batizar o filho. Não que acreditasse; mas, a mulher queria.

Foi falar ao Padre Faria. Este perguntou-lhe?

- " É casado na Igreja? Respondeu-lhe:

-" Não! Nem acredito. Minha mulher quer, porque diz que é bom..."

-" Então leve o menino para casa, quando tiver idade, traga-o para a catequese."

" Mas eu pago! Respondeu-lhe, irado. "                                                

                                                     ***

Acabo de escutar, num canal de TV, interessante entrevista a figura pública, bastante conhecida.

Ao perguntar-lhe se concordava com o que o Papa dissera sobre determinado assunto, declarou:

- "Por ser católico não me impede de dizer: que discordo muitas vezes, quando Ele fala de temas profanos, sem se basear na Bíblia ou dogma da Igreja". Para ser católico, basta cumprir o que Jesus ensinou; mas, infelizmente., nem sempre os crentes conhecem o Evangelho…

Em meados deste século, ouvi famoso ator declarar na televisão: "Globo": - " Tenho muita fé na Senhora Aparecida, mas para mim, a Santa Forte, é a Santa de Fátima!"...Como há tanta ignorância em matéria religiosa, mesmo em pessoas inteligentes e cultas!?... É inacreditável!...


CON LOS OJOS DE UN NIÑO

Por Irma Kurti (Albânia)

 

(Tradução de Javier Prieto, enviado por Germain Droogenbroodt)

 

Quiero ver el mundo con los ojos de un niño,

almendrados, claros, limpios e inocentes:

un prado donde crecen personas, flores y sonrisas,

donde no hay hambre, pobreza ni maldad.

 

Quiero ver el mundo con los ojos de un niño,

sentirme acariciada por el hechizo de los sueños,

alcanzar las estrellas con solo una escalera

y luego poder tocar el horizonte con una mano.

 

No, no quiero ver el mundo con mis ojos,

oh, han visto demasiado, se sienten sumergidos

en lágrimas que nunca se secan y, tras

una permanente bruma, distinguen el universo.

 

 

LA SEMILLA DE LA POESÍA

Por Yang Geum-Hee  (Coréia do Sul)

(Traducción de Germain Droogenbroodt e Rafael Carcelén)

 

Un poema es una pequeña semilla,

una vida que respira mientras espera la luz.

Donde descansan los ojos y la mente,

brota con alegría, con amor, en el tiempo y el espacio.

 

¿Dónde se plantará? ¿Dónde crecerá?

En el momento que elijas, sus raíces se extenderán.

 

Al igual que un cactus florece incluso en el desierto,

un poema vive en cualquier lugar.

Flota como una pluma ligera

y fluye con una suave brisa.

Incluso en un diminuto grano de arena,

puede llegar a echar raíces firmes.

 

Cierra los ojos e intenta respirar,

el susurro de la poesía se filtrará en ti.

En el jardín de tu alma,

lo verás florecer con esplendor.

 

El poder está en ti, la elección es clara;

si simplemente plantas la semilla, el poema florecerá.

 

 

 


 

 


A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 








OPERA MUNDI: ALIEN DICTATORS, GOTTVERLASSENEN (PARTE 4)


 

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

Um silêncio astral se abateu na sala de interrogatório, que estava na semiescuridão. O capitão interino Alejandro Contreras esperou a pergunta que redefiniria não somente o seu destino, mas se a compreensão da realidade dos juízes corregedores e da juíza corregedora — os aclamados deuses cibernéticos — alcançaria a gravidade do estado das coisas. Os três avatares digitais flutuavam no meio da sala, e Alejandro Contreras estava de pé na frente deles.

— Após a prisão do conhecido hacker estrangeiro Erik Thomas de Haas, o senhor fez a perícia prévia da residência deste referido senhor? E o que o senhor encontrou na busca prévia? — perguntou a juíza corregedora oriental.

O capitão interino Alejandro Contreras recorreu ao seu palácio das memórias e se reviu abrindo a palma da mão direita enluvada e ativando as três esferas periciais que fizeram a minuciosa varredura digital do amplo apartamento funcional de Erik Thomas de Haas.

— Recolhemos as digitais no apartamento de Erik Thomas de Haas, mapeamos vestígios de DNA e listamos o que ali havia. Sabemos como os dois grupos criminosos, Alien Dictators e Gottverlassenen, operam. Esperávamos encontrar os dados físicos das atividades criminosas deste senhor de Haas. Sim, encontrei os manuscritos do fluxo de caixa e breves relatórios das atividades criminosas deste referido senhor de Haas. Descobrimos que a função de Erik Thomas de Haas era fornecer e fazer a manutenção dos drones que eram usados na rede criminosa de comercialização e distribuição de drogas. O senhor Erik Thomas de Haas fornecia os drones para a distribuição de drogas, dinheiro e recursos da pequena operação criminosa, lucrativa e eficiente. Em pen drives e cartões de memória acoplados nos drones, era feita a distribuição de valores através de criptomoedas. Eram listas manuscritas de próprio punho, de nomes de agentes públicos e entes privados, físicos e jurídicos, envolvidos nesta pequena operação criminosa. — O capitão interino Alejandro Contreras parou de relatar e esperou a pergunta subsequente.

— Discorra sobre as detenções e as prisões posteriores, subsequentes a estas suas descobertas! — perguntou o juiz corregedor negro. A luz azul-celeste que emanava dos avatares se intensificou e inundou a sala de interrogatório.

— Senhora magistrada e senhores magistrados, quanto às referidas detenções e prisões subsequentes, nas quais eu pessoalmente não me envolvi — eu estava conduzindo uma investigação interna, focada somente no aparato de segurança e seus possíveis tentáculos na sociedade civil —, soube a posteriori, e acompanhei à distância, as detenções para averiguações e posteriores prisões feitas pela guarda municipal armada, pela polícia rodoviária federal e pela polícia federal. Os agentes de segurança pública de médio e baixo escalão faziam a segurança pessoal da conhecida advogada Luara Gutierrez. A proeminente e respeitada advogada tributarista, atrelada às nossas investigações internas, era o braço financeiro da organização criminosa. Organização criminosa que se infiltrara no aparato de segurança pública que começamos a investigar. Os agentes públicos de segurança estavam trabalhando de forma irregular para esta referida senhora advogada tributarista; estes agentes também portavam armas e comunicadores não registrados. Os quatro agentes de segurança pública e a referida senhora advogada estavam saindo de uma casa de apostas, e os cinco referidos foram conduzidos à delegacia central para prestar informações.

— E o empresário Ernesto García Guzmán foi detido quando circulava pela rodovia federal; ele também estava com quatro agentes de segurança pública que portavam armas e comunicadores não registrados. Para além dos referidos agentes de segurança que prestavam serviço de forma ilegal, o veículo do senhor empresário Ernesto García Guzmán estava sendo conduzido por uma inteligência artificial não registrada. E também descobrimos que o referido programa ilegal, instalado no veículo de Guzmán, era obra do senhor Erik Thomas de Haas. Assim como os armamentos ilegais dos agentes de segurança foram fornecidos pelo hacker estrangeiro, Erik Thomas de Haas. Todos foram conduzidos pela polícia federal para a delegacia regional para serem interrogados! — terminou o relato o capitão interino Alejandro Contreras.

— O senhor capitão interino Alejandro Contreras quer nos convencer das aleatoriedades destas detenções para averiguações e prisões, depois que o senhor colocou as mãos nos manuscritos do hacker Erik Thomas de Haas? — perguntou o juiz corregedor branco de idade indeterminada.

— Sim, senhores juízes e senhora juíza! — respondeu o senhor capitão interino Alejandro Contreras.

— Sabemos que não é da alçada de vossa senhoria, mas pode dizer o que aconteceu a posteriori dessas detenções para averiguação e prisões? — perguntou a juíza corregedora.

— Sim! Eu posso! Uma vez que os agentes de segurança pública detidos para averiguação, bem como a senhora advogada Luara Gutierrez e o senhor empresário Ernesto García Guzmán, constavam nas listas manuscritas do hacker Erik Thomas de Haas. Verificou-se que os dois estrangeiros, a senhora Gutierrez e o senhor García Guzmán, tinham várias pendências com vários países do nosso continente. Eles são investigados e procurados, assim como o hacker constava em lista de procurados de várias agências de segurança de países vizinhos. O que eu posso dizer é que, depois da detenção para averiguações e prisões, o que aconteceu? Fugas e detenções do médio e baixo escalão desta organização de tráfico de drogas. Cortou-se a cabeça da cobra e o corpo simplesmente apodreceu. Sobre as apreensões das novas e misteriosas drogas amarelas, drones, dinheiro, criptomoedas, armamentos e farta documentação falsa, ainda estão sendo contabilizadas! — finalizou o capitão interino Alejandro Contreras e aguardou a pergunta derradeira.

— Posso dizer a este comitê que nunca vi tantas ilegalidades dentro da lei por parte de um capitão interino, senhor Alejandro Contreras! — disse o juiz corregedor negro e continuou — Sobre a logística: como as drogas, armas, dinheiro, criptomoedas e documentação falsa circulavam pela via aérea? Como estes referidos drones não registrados circulavam sem serem detectados pelos nossos aparatos de vigilância civil e militar?

— Os tabletes já referidos nesta inquisição são pequenas barras lisas e finas, peças de metal cinza, com variações de tonalidade, espessura e tamanho. Eram acoplados em cima dos drones, pois os aparelhos não possuíam discos rígidos, e o que se pensava serem discos rígidos externos! Como já disse, a assinatura de calor captada pelos nossos sistemas de vigilância civil e militar dava conta de que eram pássaros em voo; claro que esses voos e sobrevoos chamaram as nossas atenções, o que culminou na nossa investigação...

— O que o senhor capitão interino quer dizer com isso? — perguntou o juiz corregedor negro, não escondendo o espanto.

Alejandro Contreras olhou friamente para os avatares e só agora ele se deu conta de como eram patéticos aqueles seres em seus uniformes garbosos.

— Esta tecnologia nunca vista não pertence à nossa realidade! Estes HDs externos não são metálicos, e sim biomecânicos. Pois, nos testes que realizamos até agora, nada se constatou. Senhora juíza e senhores juízes corregedores, o espectrômetro de massa não conseguiu ler estes tabletes. O teste de carbono-14 não conseguiu fazer a leitura; não se conseguiu perfurá-los com lasers; os elementos que compõem estas peças não constam na tabela periódica. Nem sabemos como estes aparelhos funcionam. O hacker Erik Thomas de Haas, interrogado, falou o que sabia: que recebeu estes discos rígidos por um drone e as instruções de como usá-los vieram pelas redes de computadores. A simples instrução era colocar estes discos rígidos em cima dos aparelhos e disse que a sua única função era montar e fazer a manutenção dos drones. Os aparelhos simplesmente voavam sem precisar de programações ou planos de voo. Um drone-mãe abastecia o ateliê do hacker de Haas com drogas e tabletes; as documentações falsas, armamentos e movimentação financeira eram encargo do hacker Erik Thomas de Haas. E já antecipo a próxima pergunta: alguém ou algo que não pertence à nossa realidade estava testando as nossas capacidades de respostas e tecnologias. E ouso dizer que alguém ou algo está somente começando. Este foi somente um pequeno teste.

— O senhor capitão interino Alejandro Contreras está dispensado desta inquisição. Recolha-se à sua residência, fique incomunicável e esperamos que nos envie o relatório final manuscrito, à máquina de escrever, das vossas ações enquanto capitão interino — disse a juíza corregedora.

A porta atrás de Contreras se abriu, inundando o lugar com uma luz amarela, e dois portentosos guardas pretorianos de alta patente adentraram a sala e conduziram o então senhor capitão interino Alejandro Contreras para fora da sala de interrogatório.

 

Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.