sábado, 1 de janeiro de 2022

ONDE SE FALA DA PALMATÓRIA E DA PALMADA

 Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)


A escola no tempo de santo Agostinho, era teatro de pancadaria brava. Era a palmatória, a bofetada, e até o chicote, que trabalhava, por qualquer engano ou esquecimento.

  No Brasil, no princípio do século XIX, as crianças, na escola, eram tratadas às palmatoadas. Palmatória – que por vezes, tinha um espinho, – e a vara nodosa, silvava, frequentemente, pela cabeça e orelhas, com alfinete na ponta, por qualquer engano.

Quando não se sabia a lição, o professor, ainda castigava, pondo o estudante, de braços abertos, de joelhos, sobre grão de milho!

Em meados do século XX, em Portugal e Europa, a escola era ainda lugar de suplicio quase inquisitorial.

O professor batia desalmadamente, deixando, por vezes, as mãos e as orelhas ensanguentadas.

Um dos prazeres sádicos de muitos professores, era fecharem as mãos dos jovens e baterem nos nós dos dedos, com régua em esquina!

Trindade Coelho sofreu essa barbaridade na escola primária, e mais tarde num colégio do Porto, foi-lhe aplicado, como castigo, 37 palmadas seguidas!...

No meu tempo de menino, ainda se infringiam castigos severos, com palmatória, em regra nas escolas públicas, apesar de ser expressamente proibido.

Num colégio respeitável, nos anos cinquenta, os alunos da "Primaria" se não conhecessem a lição, na ponta da língua, eram postos de joelhos sobre as carteiras, durante horas...

Felizmente essas barbaridades são agora do passado.

 Se outrora os pais e os professores foram demasiadamente severos, agora são "camaradas", ao ponto dos filhos baterem nos progenitores e maltratarem os mestres.

Não sou favorável à palmada, mas casos há, que boa palmada, resolve melhor que muita pedagogia.

Recentemente vi petiz a pontapear a mãe, na via pública, e esta envergonhada, mandava-o estar quieto, enquanto o menino ia-lhe batendo ferozmente nas canelas...

Os pais receiam castigar os filhos, para não serem condenados pela opinião pública, e até pelas autoridades; e o mesmo receio verifica-se no professorado e nas educadoras de infância.

E pena é que seja assim, porque se está a "educar" uma geração rebelde, malcriada, que se rege apenas pelo prazer.

Será como dizem a geração mais instruída: não digo: mais culta; mas será, certamente, a mais violenta e imoral. Uma geração sem valores e sem Deus.

Paulatinamente estamos a assistir ao declínio da civilização cristã; para isso contribui, decididamente, a mass-media e a classe politica.

Se queremos sociedade mais justa, respeitadora, não basta instruir, é mister: educar, baseado em princípios cristãos. Devemos, como cristãos, respeitar os agnósticos e a religião e costumes dos outros, mas nunca abdicar das nossas tradições e dos ensinamentos de Cristo.

A não ser que se queira acabar com a nossa civilização.

UM JOVEM DE SUCESSO, EM 1866

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)


A 14 de Novembro de 1839, nascia no Porto, na Rua do Reguinho, em família burguesa, Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que veria a ser conhecido como escritor, com o pseudónimo de Júlio Dinis.

No meu tempo de menino e moço, Júlio Dinis, era o escritor dos adolescentes. Não havia rapaz ou moça, que não se deliciasse com as obras, escritas em estilo simples, fluido e acessível a todos.

Aos cinco anos de idade, falecera-lhe a mãe – de descendência inglesa, – vítima de tuberculose, assim como lhe morreram os oito irmãos, com a mesma doença.

Cursou a Escola Médica do Porto, como aluno excecional, e veria, mais tarde a ser professor da mesma.

Começou a publicar poesia no: "Grinalda" e no " Jornal do Porto", até que, a 12 de maio de 1866, apareceu folhetim, no: " Jornal do Porto", intitulado: " As Pupilas do Senhor Reitor" - " Crónica da Aldeia".

Nessa recuada época, quase todos os diários e até semanários, publicavam folhetins. Romances em capítulos, mais tarde, muitos deles vieram a serem publicados em livro. Alguns romances de Camilo surgiram primeiro em folhetim, antes de aparecerem em formato de livro.

Nessa época, como se sabe, não havia Tv, Rádio ou Cinema. O enredo dessas novelas e seus autores, tornavam-se rapidamente, tema de conversas, em clubes e serões familiares 

Andava a cidade do Porto em polvorosa, indagando curiosos quem seria Júlio Dinis. Entre eles contava-se seu pai, o Dr. Gomes Coelho. Até que, por mero acaso, entrando no quarto do filho, encontrou sobre a secretária, manuscritos do romance, prontos a serem entregues na redação do jornal. Júlio Dinis tinha-os deixado sobre a banca de trabalho.

Estava descoberto o segredo...e satisfeita a curiosidade...

" As Pupilas do Senhor Reitor" despertaram forte interesse no meio literário português.

Dizia-se, que fora escrito em estilo " incolor"; ou seja: transição do romantismo para o realismo.

Pinheiro Chagas, Alexandre Herculano, entre outros, teceram palavras de louvor. Até o velho Camilo, em carta a Castilho, datada de 2 de novembro de 1867, dizia que o jovem tinha talento e chegou o momento de: "entroixar eu a minha papelada, e desempeçar a entrada à nova geração".

Entretanto a doença que há muito sofria, agravou-se. Júlio Dinis, trocou os ares da sua cidade, por Ovar ou (Grijó?)

Acabando, em 1869, ir para o Funchal, sem conhecer melhoras, vindo a falecer na cidade do Porto, a 19 de setembro de 1871, na Rua Costa Cabral, 323, com trinta e dois anos.

 

 

WILLIAM, O PAPAGAIO

Por Dias Campos (São Paulo, SP) 

            Seu Osório tinha duas paixões e um sonho. Aquelas, sua esposa e a literatura; este, o de morar na praia quando se aposentasse.

Veio a inatividade. Trocaram-se os ares. Mas se foi a companheira.

Para compensar a solidão da viuvez, seu Osório comprou um papagaio. E chamou-o William, em homenagem a Shakespeare.

No entanto, como em seu lar os bons modos sempre reinaram, ele não ensinaria à mascote palavrões ou baixarias. Apenas frases icônicas sairiam do seu bico.

Certo dia, um amigo apareceu.

Ora, o emplumado não o conhecia. Daí que o “intruso” tomou um susto ao ouvir sua estridente voz:

            - Currupaco! “Deixai aqui todas as esperanças, ó vós que entrais!”

            Não se precisaria dizer que a ave foi o centro das atenções depois que o visitante identificou Dante e sua Divina comédia.

            Mas a visita não era ao papagaio. E ambos foram para a copa, a fim de tomarem um café e de matarem as saudades.

            Em dado momento, o recém-chegado contou que estava preocupado com a neta, visto que começara a namorar um fulano que, pelo que soubera, estava obcecado por ela.

Vai saber o que passa na cabeça desse garoto?!... – perguntou o avô zeloso.

E William atalhava:

            - Currupaco! “Iracema, a virgem dos lábios de mel,...” – Mas só seu Osório riu com José de Alencar.

            O dia acabava. E era hora de partir.

Antes de sair, seu amigo pediu um conselho. Perdera uma grana preta no jogo clandestino. O que deveria fazer?

Seu Osório bem que tentou, mas...

- Currupaco! “Ao vencedor, as batatas!” – Ó Machado!

REUNIÃO DA REFLEXÃO

 Por Marcelo de Oliveira Souza, IWA (Salvador, BA)

Chegamos mais uma vez ao final de ano, como sempre dizemos que a cada ano não somos os mesmos, principalmente agora, que estamos ainda em meio à pandemia, apesar de muitos esquecerem que ainda está acontecendo todo esse drama.

Uns dizem que está no final, outros dizem que vai demorar a passar, tem até algumas pessoas que dizem que vamos ter que conviver com essa celeuma.

Entretanto  sabemos que muito antes de acontecer essa doença, todos nós tínhamos nossos defeitos e qualidades, com essa moléstia só potencializamos  o que há  dentro da gente, “quem tem flores, dá flores...” 

Presenciamos tantas tragédias pessoais e coletivas, porém  o mundo continua girando, seguindo a sua órbita, muitos entraram e saíram de dramas pessoais de toda natureza, outros estão dentro dele até hoje.

Tudo isso tem que ter um motivo, nada acontece por acaso, independentemente de religião, todos chegam a esse denominador comum, outro entendimento, que todos nós temos é que  tudo tem início, meio e fim, igualzinho como durante o  ano, onde no início de cada  jornada temos uma série de expectativas até chegarmos justamente agora, nas festas de final de ano, cujas pessoas já estão se planejando como será a reunião natalina, bem como a reunião de  “réveillon” .

Tudo isso é muito bonito e válido, mas temos que perceber que algo não está andando como o devido, enquanto comemoramos, tem gente sofrendo, enquanto abrimos o chester, tem gente com fome, vamos refletir sobre essa passagem tão importante e reunirmos também pensamentos e ações positivas, para com o próximo, desde o parente, vizinho, colega... Vamos pensar no que a “pandemia” nos ensinou, na sorte de estarmos ainda aqui comemorando com “o ouro puro em nossas mãos” para que possamos lapidá-lo e entregá-lo de coração às mais diferentes formas de amor.

Que no ano vindouro, tenhamos mais esperanças de melhoria, não só financeiramente, ou na saúde, mas na bondade e compreensão de todos e todas que habitam o nosso planeta.

 

 


REFLEXÃO DE FINAL DE ANO

Por Marcelo de Oliveira Souza, IWA (Salvador, BA) 

Nesse ano a nossa sociedade tem passado por inúmeras provações, o mundo tumultuado, mostra a instabilidade espiritual pelo qual todos nós passamos.

A gente não tem segurança no mundo virtual, tampouco no mundo físico, pois como todos nós sabemos, tudo desemboca  nos mesmos problemas, muitas vezes pensávamos que na “tranquilidade” do lar a gente poderia descansar o nosso corpo e espírito, entretanto sabemos que não é bem assim, pois as vicissitudes estão aí, justamente para serem superadas a cada dia, onde a violência de todo tipo campeia em todos os lugares, cabendo a nós estarmos preparados para esse momento, que pode até ser uma constante em nossa vida.

A dificuldade pode atingir diversos níveis, desde os nossos entes mais queridos, até os desconhecidos, vizinhos e principalmente no mundo virtual, que hoje está mais em pauta sendo um mundo de bastante glamour e violência,  muitas vezes se esconde na falsa sensação de segurança do mundo cibernético.

Com a graça de Deus e muita paciência, temos que passar por todas essas provações, no decorrer do ano, se a gente for imaginar o quão é importante essa aventura, pelo qual passamos, a gente não reagia tão negativamente, porque essas dificuldades não são fáceis, mas temos condições de superá-las.

Chegando ao final de mais um ano, como sempre, vamos refletir por toda essa jornada que dessa vez veio a  provação coletiva, que impactou tanta gente no mundo, ceifando vidas e levando muita gente à falência, desde os mais ricos como os mais pobres.

Que possamos agradecer a piedade Divina, por nossa saúde em todos os aspectos, onde os que não tiveram o mesmo destino, sejam amparados nos braços do Senhor.

PREFIRO SER MÁ ÀS VEZES

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

Nem princesa

Nem donzela

Eu sou mulher

Eu tenho direito

De ser má de vez em quando.

De escolher ficar

No meu silêncio.

De ignorar a pessoa.

De ser feliz pelas minhas escolhas.

De ousar viver a vida sozinha.

Crescemos com a sociedade

Nos dando um mundo fantasioso

E romântico,

Onde o homem é o príncipe

E nós mulheres as moças frágeis

Que precisam dele o tempo todo.

Eu tenho as asas do conhecimento

Com elas posso ir para onde eu quiser.

Eu não preciso de coroa,

Nem de rótulos.

Eu só preciso aprender a caminhar sozinha.

Esse lance de ser princesa

Não nos pertence,

O papel da mulher é ser rainha.


Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, SC.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

O NINHO DA SERPENTE


Para João Carlos Pereira 

 

            Parece que a teoria da relatividade foi feita especialmente para aquele lugar. Onde o tempo parece ter vontade própria. Anda de forma rápida quando quer andar. E, às vezes parece que paira no ar, de forma mágica.

Quando Ademar caíra naquele local o tempo andava de forma bem lenta. E ele não via a hora de ver seus entes queridos novamente. E uma simples visita no cárcere onde sua irmã e amigas vieram visitá-lo.

E, era para ser apenas mais uma simples visita, não fosse Marcelo de Sousa Andrade, ou melhor, Marcelinho Serra-Fita como era popularmente conhecido dentro e fora de prisão, ao vê-las partirem, ele foi categórico ao dar a ordem para Ademar: — Chama elas de volta! Chama agora! Marcelinho tinha o olhar vil de uma cobra.

A figura do guarda, fortemente armado, postado na guarita de observação, que vigiava os encarcerados, parecia uma figura folclórica, uma mera figura decorativa. Como também o carcereiro que assistia aquela cena, sem nada fazer ou dizer alguma coisa.           

Para Ademar, o tempo que pairava no ar, agora o sufocava, porque Marcelinho Serra-Fita, quem realmente mandava naquele lugar de angústias e muitas dores. Resolveu, após algumas visitas íntimas, oficializar o seu casamento com a irmã de Ademar. Uma união que Ademar não sabia se comemorava ou maldizia. 

Samuel da Costa é contista em Itajaí, Santa Catarina

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br 

 

APENAS UMA MULHER

Cheguei numa fase da vida que me sinto privilegiada. Sabe, aquela fase, onde desatamos os nós que nos prendia a tantas futilidades. Faço o que gosto, sem pressa e sem precisar agradar ninguém. Porque no fim, sempre acabamos sozinhos(as).           

         Como é bom acordar bem humorada! Não, com o semblante triste, envergonhado(a) por absolver tanto desprezo, e muitas vezes sermos chamadas de louca, ou vadia. Sinceramente, eu não me importo mais, não sou uma princesa, nem pretendo ser. Sou apenas uma mulher, na qual quebra tabus, nada santa! Tenho paixão pela escrita de vários gêneros, posso ser pura e impura, depende do dia. Não sou de dar indireta, sou direta sempre e apenas uma vez.                                                                         

         Cresci psicologicamente! Gosto de pessoas com espíritos livres, mas nem sempre fui assim, me prendia muito ao passado. Hoje sou errante, não tenho destino. O vento me guia. Sofri muito no passado! Mas cá entre nós, o que o passado nos reserva!? Nada, pois passado é apenas passado. Exceto que ficam as lembranças boas ainda dói muito. Como dói! Mas a vida segue, somos instantes. Quantas vezes chorei por amores passageiros. Hoje, restou-me o presente, onde me enxergo uma mulher, com rugas em volta dos olhos, alguns cabelos brancos, um corpão excitado, sonhadora, e ao mesmo tempo realista.                        

        São tempos sombrios de amores líquidos, fuja! Lute, lute muito, tenha sempre expectativa na vida, mas se coloque em primeiro lugar. Se priorize, quebre tabus, e (amor-próprio) sempre. Converse com o espelho e diga: — Mulher, como você é linda, tão pura e impura! Santa!? Só você pode responder...! Apenas uma mulher!


Fabiane Braga Lima é poetisa e cronista em Rio Claro, SP.    

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

SONHO DE NATAL

 

Por Marcelo de Oliveira Costa, IWA (Salvador, BA)

 

Muito cansado

Com o corpo esmaecido

Voltei  do centro animado

Com as compras do Natal.

 

Recolhi-me para dormir

E tive um sonho encantado

Onde cada presente comprado

Ia diminuindo até sumir.

 

Ao passo que o presente

Ficava ausente

Um necessitado

Deixava de sofrer, ficando contente!

 

Jesus Cristo abençoou

Todos que estavam em angústia

E o solitário ficou solidário,

Esquecendo   dos seus problemas.

 

O doente voltou ao normal

E o violento comemorou sem igual

Num sonho de Natal

Onde nada é impossível,

Nada é normal...

 

Só basta a gente sonhar

E realizar, mexendo com as emoções,

Pois o sonho de amar

Está incrustado em nossos corações.

NOVOS HORIZONTES


Escrever não é fácil, muitos acham que é só começar com uma letra maiúscula e terminar com um ponto final, mas não é bem assim. Escrever tem lá as suas fases, e nem sempre voltamos a escrever como antes, tudo tem seu tempo certo e o seu momento exato. Mesmo se quiséssemos voltar ao passado, seria tudo repetitivo, como antes. Mas com sabedoria, compreendemos melhor os tantos porquês da vida.

A criatividade requer muito mais do que versos de amor puro e simples. É preciso soltar o pássaro engaiolado para que ele possa voar por novos horizontes, e esse, é um dos motivos pelo qual devemos enterrar lembranças. Dizer adeus, mesmo sendo difícil.

         Precisamos nos reinventar, entender que a vida tem fases, assim como a escrita, e que as folhas caem para que possa nascer novas flores assim como amizades e novos amores. Para que juntos possamos construir uma parceria digna um dia de cada vez...!


Fabiane Braga Lima é poetisa e cronista em Rio Claro, SP.

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

LUSOFONIA...

Mais que de repente, me assusto nas incertezas de que a língua que falo/escrevo tenha a ver com o mundo em que vivo. Eu já não sei! Pois moro no sul do Brasil e falo/penso/escrevo em português brasileiro, com um leve sotaque dos açores. Em uma cidade litorânea catarinense, onde indivíduos vindos do além-mar, há muito, resolveram por aqui aportar, bem perto do mar.                  

 Mas, isto já não interessa mais, pois hoje eu vivo em um mundo interligado/globalizado/informatizado, e já não sei mais quem realmente eu sou, e a minha realidade local já não me satisfaz.

Eu penso que nunca satisfez, pelo fato de ser afrodescendente e com o externo/interno estigma de também ser marginalizado na sociedade, por séculos e séculos de escravidão negra.

Talvez isto justifique certas coisas! Mas isto também não basta! Penso que nada basta, neste mundo agora tão pequeno e fugaz. Mundo artificial diluído nas telas de computadores.

Um mundo perdido, nas autoestradas pavimentadas por transcontinentais cabos de fibras ópticas submarinos! Quem sou neste dito mundo lusófono? Mundo que fala/escreve/pensa em português.

Ambiente que vive e fala portuguesa multicolorido, pois se banhou em outras culturas! Onde estão meus irmãos e irmãs que falam/escrevem/pensam a mesma língua?

 

Samuel da Costa é funcionário público e poeta em Itajaí, SC.

 

Contato: samueldeitajai@itajai@yahoo.com.br

 

AS MULHERES DEPOIS DOS QUARENTA

As mulheres depois dos quarenta                                                                                             


          Claro que aos 40 tem aquela preocupação com a idade, com as coisas que ainda não foram feitas ou deixaram de ser feitas. Bate o medo de não dar tempo de fazer tudo, da idade passar. Basicamente vivemos a crise dos 40 com a aproximação da velhice, mas viver não tem prazo de validade. A mulher não tem prazo de validade, ela pode viver tudo que ela quiser.
         Sim, depois dos 40 tudo passa rápido, a gente começa ver todo caminho percorrido e descobre que os tabus ainda são muitos. É como se a vida tivesse uma forma única e correta de se viver. E a gente não se encaixando nessa vida subjetiva pela sociedade é sempre rotulada.

           A mulher separada é a errada, não pode tentar ser feliz com outra pessoa. A mulher solteira não pode ter o direito de ficar sozinha, pois seu único papel nesse mundo é construir uma família. De todas as formas possíveis, ela vai ser alvo dos julgamentos.

          Se é casada tem que se portar como tal, amigos é a primeira coisa que ela deve deixar de lado. São tantas imposições que fica difícil a caminhada. E nós mulheres somos chamadas de princesas. Que princesa é essa que a sociedade cria para ser dependente do homem?                           
        Eu penso que a revolução das mulheres é quando ela deixa de ser princesa para ser má de vez em quando. Porque o papel de boa moça não pertence mais a mulher atual e nós sabemos que mudanças são bem vindas.   

                  
Clarisse da Costa é artesã, cronista e poetisa em Biguaçu, SC.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

XENOFOBIA!

Xenofobia!

 

Luna se mudou para cidade grande, com seus filhos pequenos Antônio e Leandro, era uma bela e simpática nordestina. Resolveu se mudar para cidade grande, procurar um emprego digno, procurou por muito tempo e não conseguiu.

Há muito tempo sem poder dar o que comer para os filhos pequenos, suas noites eram de choro, suas crianças choravam de fome. Luna sofria a dor do abandono, xenofobia por muitos. Sem dinheiro para voltar para sua terra natal, pedia a Deus alimento e um teto para morar com seus filhos.                       

Despejada da casa onde estava morando, foi enfrentar a vida nas ruas, sofreu xenofobia, muitos viravam as costas para ela, quando pedia um prato de comida para os filhos.  Parada olhando para os seus filhos, sem banho, sem teto e sem comida! Deixou-os ali e saiu em busca de algum mantimento pela rua afora, era sua única solução.

E com toda a timidez, pedia para quem quer que fosse: — Poderia me arrumar comida para dar aos meus filhos!? Com variações tinha como resposta: —Trabalhe! Volte pra tua terra!

Cansada de procurar trabalho e abandonada pelo marido! Decidiu vender seu corpo pelas ruas! Chegou a ser estuprada, não resistindo mais aquela vida, furtou mantimentos para matar a fome de seus filhos. Logo depois, foi presa com alguns pães em mãos, considerada bandida, passou meses num presídio, onde foi torturada e dada como morta.

Já sem forças, Luna faleceu, ali mesmo no presídio! Seus filhos morando na rua, entregaram-se às drogas e ao tráfico. Hoje estão foragidos. Mesmo depois de morta, muitos dizem que ouvem seu choro de dor!

Tudo isso foi consequência do preconceito chamado xenofobia de muitos brasileiros. E, suas últimas palavras foram: —Piedade! Ajudem meus filhos...! Piedade!


Texto, argumento e enredo de Fabiane Braga Lima, contista em Rio claro, SP.

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

Texto e revisão de Samuel da Costa, contista em Itajaí, SC.

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

 

IDENTIDADE ROUBADA II

Identidade Roubada II

Eu estive aqui pensando e me veio muitos questionamentos. A minha avó era filha de escravos e não tinha conhecimento algum da cultura africana. Todo o seu conhecimento estava nas suas rezas e ensinamentos da vida. Ela era benzedeira. Muitos até procuravam ela por conta das benzeduras.

Para quem não sabe benzedura é o ato de benzer. O benzedor destina-se a curar uma pessoa doente. Muitas das rezadeiras, assim como a minha avó, plantavam e colhiam ervas para benzer.

Minha avó benzia arca caída e tantas outras doenças. Algo que veio com ela desde o período escravocrata. No sentido dicionarizado, benzer é o ato da bênção, fazer o sinal da cruz sobre coisas ou pessoas, falando palavras litúrgicas como chamamento das bênçãos do céu.

Então como podemos perceber o tempo todo o negro teve a sua história roubada. O que acontece nos dias de hoje nas instituições escolares e faculdades.

Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, Santa Catarina. 

Contato: clarissedacosta81@gmail.com 

DOZE ANOS DEPOIS...

 Doze anos depois...

 

‘’Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. ’’

1 Coríntios 15:56 

 

Uma olhada rápida no espelho e, ela mal pode acreditar nas marcas que o tempo imprimira em seu belo corpo. E parada diante do espelho, ela está, linda e sensual, vestida de lingerie vermelha exuberante! E seu amante, está na cama deitado de bruços, complacentemente, ele parece dormir um sono profundo.

Até ali, foram doze anos de agonia e também de puro prazer, para os dois, logo ambos não poderiam reclamar de nada. Pois o que é o sexo para os amantes clandestino? Senão uma estranha conjunção entre o amor e a dor, entre o divino e o profano!

Se alguém pedisse para ela, definir a sua relação com o seu amante casado, seria assim que ela o definiria: – ‘’Um ponto onde o amor e o ódio se encontram’’. E acrescentaria mais: — ‘’Seria como um ponto obscuro na vida da gente, que às vezes parece que vai durar para sempre! Só que às vezes dura mesmo’’! — E as marcas em seu corpo são prova disso tudo, são cicatrizes profundas no corpo e na alma.

E parada diante do espelho, fumando seu cigarro tranquilamente, pensando no que fizera há poucos minutos. Pensando no corpo do seu amásio sem vida, deitado na cama. E na mesa de centro, que ainda conserva os dois copos de uísque barato, com as pedras de gelos dentro, que deveria ser para ambos desfrutarem, depois do prazer. Sylvia desconsolada encosta uma arma em sua têmpora...

Samuel da Costa é contista em Itajaí, Santa Catarina.

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

 

FABIANE BRAGA LIMA E SAMUEL DA COSTA: DUETOS POÉTICOS

 

Fabiane Braga Lima e Samuel da Costa em duetos poéticos

 

 

Preciso sentir!

 

Sozinha neste quarto!

A solidão me sufoca, te busco...

Preciso senti-lo, aqui.

***

Ao longe,

Na insuportável cósmica distância

Vejo-te Beltia imortal!

Quero-te por inteiro

Ao lado meu

***

De longe, escuto a tua voz,

Ofegante, sem nunca ter ouvido.

Me aquieto, preciso sair daqui.

***

Ao longe ouço

As tuas suplicas lançadas

Aos ventos solares

Como quem ouve divinais clamores

São as celestiais preces tuas

Aos deuses e deusas eviternos

***

Estou doidejando, desatino,

Louca fantasia.

Extasiada, me domina, sem extorqui...!

***

Alva

Dispersa-te no ar

Liberta-te do pranto

Enxuga as tuas lágrimas


Fabiane Braga Lima é poetisa e contista em Rio Claro, SP

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

Samuel da Costa é poeta contista em Itajaí, SC

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

 

Careço

 

Prometa meu amor,

Comigo sempre ficar!

Sem você padeço.

***

Prometo amor meu

Nunca te deixar

Prometo

O nos dois a caminhar

Entre as eviternas estrelas

Da noite

***

Tua ausência me mata, não mereço.

Preciso deitar e acordar

Ao teu lado,

Ser toda tua, ter o seu apreço.

***

Ao fim do dia

Ao fim da tarde

Ao final de tudo

Quando agonizar o arrebol

Seremos somente o nos dois

Suspensos no ar

***

Apenas me ouça com atenção:

— Quero os teus beijos, a tua alma,

O teu corpo, eu careço…!

***

Quero-te por inteiro

Divinal alva


Fabiane Braga Lima é poetisa e contista em Rio Claro, SP

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

Samuel da Costa é poeta contista em Itajaí, SC

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

 

 

Deixe-me ser tua

 

Ressurgi na minha escuridão

Sempre mudo... Sempre calado...

Olha-me apenas, como fosse a tua amiga,

Quando na verdade no meu pensamento

Estamos em pecado,

Loucura misturada com a insanidade!

Nunca se entrega às minhas súplicas,

Intimida-me com palavras sem nexo,

Será que existe reciprocidade!?

***

Cortejo-te com cósmicas palavras

Aéreas... Etéreas...  Estéreas

Tomado por um insano desejo

Quero que sejas minha

Em flóreos tons outonais

No alvor rubro ao fim do dia

***

Tomada por um desejo,

Sou eu querendo provar dos teus cálidos beijos

E saciar todos os teus pecados,

Ser a tua mulher, amante, toda tua.

***

Menina mulher airosa

Em venal oculto celibato

Divinal flor embalada

Aos sons de finos cristais quebrados

Aos sabores liriais de oásis imagético

Aureola encantada

De todas as minhas quimeras

Mais brumosas

De os profanos odes

De todos os trovadores irreais

Em eviternas dores

Postados na imensidão cósmica

***

Há tempos te almejo,

Será que não mereço ser

A tua joia rara, tua eterna namorada,

Ser a tua musa!?

***

Que a realidade fluida

Que a pós-modernidade liquefeita

Caia sobre nós dois infelizes

Míticos degredados no deserto do real

Místicos quiméricos amantes surreais

Quedos a vagar na quintessência

Das belas-letras mortas

***

Deixe-me embriagar a tua vida de amor,

Sem controle, sem medidas, sem pudores,

Deixe-me ser toda tua, incógnita doçura...!


Fabiane Braga Lima é poetisa e contista em Rio Claro, SP

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

Samuel da Costa é poeta contista em Itajaí, SC

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

 

 

De tudo que te é avaro

 

Lágrimas caem sobre o rosto

Lembro em silêncio, calada

***

Álgidas cristalinas lágrimas

Rolam do mavioso rosto

Da flava poetisa ebúrnea em dor

***

De nosso amor, nossos gostos,

Mas a melancólica, fico intacta.

***

Nada fica no seu devido lugar

Tudo mudo há toda hora

Em cada nano-segundo

No fluido tempo atemporal

***

Madrugada gelada te escuto,

E penso: — Demência, está mudo!

E na insuficiência de palavras,

Os versos, são as minhas lágrimas.

***

Dispa das vaporosas vestes negras tua

Cubra-te então somente

De milenares mistérios infinitos

Recorda das dulcíssimas

Negras palavras aladas

Que ficam suspensas no ar

***

Como posso viver clamando!?

Prefiro tolerar toda a saudade

Repudio! Ficar aqui esperando...

***

Sinta

O céu azul neurastênico

Recorda

Do cósmico bel canto

Para ti dedicado

***

Chega desta agonia, machuca

Quero seguir com a verdade,

Liberta de mentira e vaidade...!

***

Liberta-te já!

De tudo que é avaro e falso

Liberta-te já!

De todos os abissais medos

E todas as eviternas dúvidas


Fabiane Braga Lima é poetisa e contista em Rio Claro, SP

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

Samuel da Costa é poeta contista em Itajaí, SC

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br