segunda-feira, 1 de junho de 2026

NUNCA TE VI


Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

Já fui a um lugar distante chamado “Nunca te Vi”. É um bairro da cidade de Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. Uma zona de chácaras simples; primeiro assentamento de reforma agrária, da época de Getúlio Vargas. Casas de madeira afastadas umas das outras, em grandes terrenos com pomares, laranjais perfumados e pés de mandioca. A origem do nome remonta a meados do século XIX. Conta a lenda que um mascate turco atolou sua mula numa poça fumegante de lama, o “olho do boi”. Ao ser questionado se não tinha visto o perigo, respondeu: “Nunca te vi”.  Ali se encontram o monumento “Nhandipá”, palavra guarani que significa “nós chegamos ao fim”, que homenageia os mortos da Retirada da Laguna; uma igrejinha rústica de pedras brutas; lagoas azuis com cachoeiras.

Mais tarde, encantei-me pelo filme “Nunca te vi, sempre te amei” (1987). Esse clássico do cinema narra a amizade de vinte anos entre uma escritora americana, mal humorada e impulsiva, Helene e o gerente de livraria londrino, Frank Doel, um homem cortês, culto e discreto. A princípio, Helene solicita obras inglesas raras. Depois, durante o período de escassez do pós segunda guerra mundial, Helene envia mantimentos para Frank e sua equipe. As cartas, livros e encomendas atravessam os oceanos. Há carinho, solidariedade, respeito mútuo. Prova que a conexão humana está acima do contato físico. Após o falecimento de Frank, Helene visita a livraria. É um drama inspirador e aconchegante. Nunca te vi... sempre te amei.

As coisas que vemos são materiais, temporais. As invisíveis são eternas. Marcante o relato de Tomé, um dos apóstolos, que não estava presente na primeira aparição de Jesus e exigiu tocar nas feridas do Mestre para crer. Oito dias depois, Jesus apareceu e permitiu o toque, levando Tomé a confessar: “_Senhor meu, e Deus meu”. Tomé tornou-se símbolo da fé que precisa ver para crer. Das dúvidas e fraquezas que acompanham o ser humano. Mesmo as dúvidas podem nos levar a um relacionamento mais profundo com o espiritual. Não vi, não vi, mas sempre amei...

Esse valor da potência do invisível, daquilo que é chamado para se tornar visível, já estava lá, na Teoria das Ideias de Platão (428/427 a. C. -348/347 a. C.). É o núcleo central de sua filosofia: o mundo sensível, físico, mutável, percebido pelos sentidos e o mundo inteligível, imutável, acessível  apenas pela razão. Essência e Realidade. Pensamentos que geram formas. O mundo que habitamos é pálida cópia, reflexo de sombras. Há diferença profunda entre o ser e o parecer. Apalpamos meras carnes, superfícies e aparências. 

O céu é real. Não é local físico. É atuação divina que levará a um reino onde haverá paz, justiça e alegria. A sonhada plenitude. Um novo governo superior ao humano que se instalará no cosmos. Podemos senti-lo pulsar em nossos corações. Escrevi:

 

Lá perto da fronteira

Havia um lugar chamado “Nunca-te-vi”.

 

Nunca-te-vi...

Parecia que o passarinho mudara de canto

E agora, quando subisse na amoreira

Ou passasse rasante no telhado,

Deixaria recado muito mais sofrido:

“Nunca-te-vi...”

 

Nunca-te-vi...

Nunca

Nunca tem peso de eternidade,

Tem fatalidade de distância;

Nunca te vi

E, no entanto,

Isso que nunca vi

É a coisa mais importante da minha vida,

É minha essência,

É tudo que me falta.

 

Nunca-te-vi...

Ai, mundão de Deus!

Cheio de mato crespo,

De porteiras rangentes,

De garças longilíneas,

De bois opacos

Balançando as papadas.

 

Conheço tanto mistérios

Que já fui num lugar

Chamado “Nunca-te-vi”.

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