segunda-feira, 1 de junho de 2026

MAIS UMA VEZ CLARISSE CRISTAL



Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)


Dá-me a tua delicada mão!

 Vamos juntos...

Vagar pelo infinito.

Vem, luz da minha vida!

Quero me perder...

Nos teus olhos verdes infindos!

Mergulhar nos teus trigais cabelos.

 

A nova Clarisse Cristal reapareceu repaginada na livraria e editora independente. O corte curto e o tom vermelho-pitanga nos cabelos davam um adeus definitivo ao longo preto perolado e reluzente. Um pequeno piercing de rubi, em formato de coração, ornamentava a sobrancelha direita, enquanto a enorme tatuagem de um dragão cuspindo fogo, que nascia no ombro esquerdo e serpenteava até o fim do antebraço, ainda exibia a proteção do plástico-filme. A pesada maquiagem noturna desapareceu por completo, substituída por um visual leve, diurno e solar. O pesado sobretudo preto godê de inverno ficou sabe-se lá onde; a peça havia se perdido no tempo e no espaço durante aquela breve digressão aventureira de Clarisse pelo mundo desconhecido da realidade liquefeita.

Contudo, as vestes escuras como a noite mais negra ainda reinavam soberanas no corpo da jovial bibliotecária, embora essas peças também estivessem com os dias contados. O fato de sair e voltar horas depois pela porta da frente, em plena luz do dia, com um sorriso radiante e um brilho provocativo no olhar, denunciava mudanças profundas, drásticas e permanentes. Em suma, Clarisse Cristal, a soturna bibliotecária, era uma típica criatura da noite que decidira invadir e experimentar os sabores radiantes de viver o dia em uma cidade de veraneio. Ela voltara ao ponto de partida, o seu sagrado local de trabalho, com um firme propósito: descobrir o destino do livro A Cinzas das Horas.

— Desculpem-me, minhas mais que queridas crianças perdidas ao leste do Éden! Meus pequenos arcanjos, querubins, querubinas, gnomos e fadas, mas demorei um pouco mais para retornar do meu desjejum matinal no Café Ivory Tower!

A voz alta e estridente de Clarisse ecoou por todo o ambiente requintado. Ela falou como se ensaiasse uma peça de teatro bufa. Os funcionários e os poucos clientes da livraria pararam para olhar a figura estática na porta. Passado o susto inicial, todos voltaram ao que faziam, sem expressar real surpresa. A senhora idosa que servia o café, vestida com elegância, prosseguiu sua lenta marcha rumo à copa. O operador da máquina fotostática abaixou a cabeça e voltou a tirar cópias de forma mecânica e sonolenta, como sempre fazia. Uma professora universitária de literatura comparada, frequentadora habitual, de cabelos curtos cor de caramelo, tailleur salmão, óculos fundo de garrafa e sorriso de Mona Lisa, processou a cena atípica e pensou em usar aquele monólogo sintético e teatral em suas aulas. Um entregador, com a sua surrada jaqueta de couro e o capacete que já vira dias melhores sob o braço esquerdo, deixou um envelope pardo no balcão da fotocopiadora, olhou profundamente para Clarisse e apressou o passo para ir embora sem olhar para trás. Havia mais envelopes para entregar.

Os demais funcionários e fregueses, afastados da entrada, perderam o ato inicial daquela peça teatral mambembe. O afetado gerente, com seu paletó impecável azul-celeste e uma flor vermelha carmesim artificial na lapela, estava ocupado demais no escritório do piso superior recebendo vendedores e analisando catálogos. Os três vendedores da loja, dignos representantes do varejo livreiro, bem como os estagiários que só trabalhavam pela manhã, perderam o espetáculo matutino. Mais ninguém ali presenciou a cena tragicômica atípica.

Clarisse divisou, a poucos metros de distância, a sua colega de trabalho, Anna Victória. A vendedora sênior exibia um sorriso largo enquanto atendia um garboso e austero casal diante do balcão de embrulhos. Uma jovem balconista, de costas e curvada, ignorava o redor enquanto tateava os compartimentos inferiores da estante de fitas e papéis.

Os olhos vivos de Clarisse se detiveram no casal. A mulher, uma jovem senhora de meia-idade, tinha a pele alvíssima, cabelos louros e curtos, seios fartos e olhos verdes. Uma pequena tatuagem verde-escura repousava em seu pulso esquerdo, ladeada por duas estrelas menores de cinco pontas; aproximando-se um pouco, Clarisse leu o nome manuscrito em itálico: Agnes. Trajava um blazer azul-oceano de corte arredondado com decote em V, mangas três-quartos com pequenas fendas nos punhos e fechamento de três botões, além de uma saia de cós largo com pregas frontais e zíper lateral. Uma delicada e pequena flor branca pregada entre o ombro e o coração quebrava a formalidade do traje. A bolsa a tira cola, os saltos altos e brincos de grife e o sofisticado colar exclusivo eram as peças que davam contam que ela não era uma qualquer.

Pela postura, pelo perfume discreto e pela maquiagem carregada demais para uma executiva, Clarisse deduziu que se tratava de uma estudante estrangeira de pós-graduação, provavelmente graduada em Letras ou belas-artes. Também não lhe passaram despercebidos as olheiras da mulher e o olhar vazio, perdido no nada, direcionado ao homem ao seu lado. O parceiro era um senhor de idade indefinida, de pele negra retinta que brilhava sob a luz, rosto escanhoado e cabelo cortado à moda militar. Trajava um clássico paletó azul-escuro bem cortado, calça da mesma cor, colete e sapatos Oxford pretos de legítimo couro de crocodilo. Clarisse logo concluiu que era outro estrangeiro, um africano, afro-europeu ou afro-caribenho, possivelmente um renomado professor doutor visitante ou um importante adido cultural. O homem era só sorrisos ao ver o pacote passar das mãos da balconista para a promotora sênior.

— Mais uma boa venda, estimadinha do meu coração? — disparou Clarisse, a voz carregada de uma forte dose de ironia direcionada à vendedora sênior de livros estrangeiros.

Era senso comum na livraria, que Anna Victória pouco entendia de literatura, em qualquer ramificação das belas-letras ou da literatura popular. No máximo, lia preguiçosamente as orelhas e os prefácios dos títulos que pretendia empurrar, folheava revistas de moda literária esquecidas nos balcões ou fazia buscas rápidas e superficiais na internet quando o calo apertava. Ainda assim, ali estava ela, atendendo o casal elegante como se fosse uma exímia especialista em clássicos modernos e pós-modernos do mundo literário. Clarisse logo calculou que o livro em questão era justamente A Cinzas das Horas.

"E qual o motivo de a Anna Victória atendê-los pessoalmente e não eu, a especialista em análise e restauro de livros raros?", pensou Clarisse naquela hora derradeira.

A resposta veio rápido: o homem falava em francês com Anna Victória. O requintado cavalheiro estrangeiro dominava o idioma com a elegância de um diplomata de primeira linha, evocando o sotaque típico de um frequentador do hotel Park Hyatt Vendôme de Paris. Anna Victória, por sua vez, respondia em um francês sofrível e medíocre, com o sotaque latino-americano de quem aprendera a língua em um intercâmbio de classe média baixa no Canadá. Quando a empacotadora finalmente encontrou o que procurava e finalizou o embrulho, passou o pacote para Anna. A empacotadora olhou para Clarisse, como se pedisse desculpas por algum ato falho de uma subalterna.

O homem negro tomou o livro das mãos dela de forma abrupta, mas cortês. Agradeceu a ambas e, eufórico, mostrou a peça para a acompanhante, falando em português luso. A loira deu um sorriso amarelo, que ele ignorou antes de se voltar novamente para Anna Victória.  O estrangeiro entregou um cartão magnético e disparou instruções em um ríspido e rápido português europeu. Anna, por sua vez, repassou as ordens para a balconista em um português sul-americano rasteiro, reproduzindo pausadamente o que o homem acabara de ditar.

Uma chama acendeu dentro de Clarisse Cristal. Foi intenso. Nenhum dos quatro, a poucos metros de distância, havia prestado atenção nela. Ser ignorada era tudo o que Clarisse não queria àquela altura; ela queria mais, queria tudo o que a vida pudesse dar, o bônus e o ônus. Queria ir além do bem e do mal.

Em um segundo ato teatral bufo, Clarisse bateu palmas bem alto, estalando o som pelo ambiente e capturando a atenção do quarteto e de toda a audiência da livraria. O homem negro soltou uma risada farta, num misto de latinidade e africanidade, enquanto os demais permaneciam sem reação. Delicadamente, ele desembrulhou a peça e entregou o livro à acompanhante.

— Sim, opa! Uma excelente venda, fez a vossa amiga, ó miúda! E não poderia ser outra coisa. Bem sei o quanto procurei esta peça única, esta obra de arte na língua de Camões e Pessoa. E sei também, ó raios, que quem restaurou a obra fez um excelente trabalho. Já ia pedir à rapariga aqui ao lado que me apresentasse o artista da restauração...

— O artista? Não mesmo, meu bom senhor gringo! — interrompeu Clarisse, dando alguns passos à frente e erguendo a mão direita. — Fui eu mesma, professor, quem restaurou o livro que está em suas digníssimas mãos! Este tributo à língua de Camões e Fernando.

O homem estrangeiro se aproximou de Clarisse com passos firmes e estendeu a mão. O aperto de mãos foi firma! Ambos sabiam, naquele instante, que eram dois mundos se chocando ao sabor do destino. Dois iguais em essência, dois amantes de literatura em belas-letras, que se reconheciam em trajetórias diferentes. Eles se mediram naquele momento extremo, cientes de que aquele encontro era apenas o primeiro de muitos. De fato, muitas coisas estavam por vir — para ambos, e para além do bem e do mal.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de Samuel da Costa, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

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