Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Dá-me a tua delicada mão!
Vamos
juntos...
Vagar pelo infinito.
Vem, luz da minha vida!
Quero me perder...
Nos teus olhos verdes infindos!
Mergulhar nos teus trigais cabelos.
A nova
Clarisse Cristal reapareceu repaginada na livraria e editora independente. O
corte curto e o tom vermelho-pitanga nos cabelos davam um adeus definitivo ao
longo preto perolado e reluzente. Um pequeno piercing de rubi, em formato de
coração, ornamentava a sobrancelha direita, enquanto a enorme tatuagem de um
dragão cuspindo fogo, que nascia no ombro esquerdo e serpenteava até o fim do
antebraço, ainda exibia a proteção do plástico-filme. A pesada maquiagem
noturna desapareceu por completo, substituída por um visual leve, diurno e
solar. O pesado sobretudo preto godê de inverno ficou sabe-se lá onde; a peça
havia se perdido no tempo e no espaço durante aquela breve digressão
aventureira de Clarisse pelo mundo desconhecido da realidade liquefeita.
Contudo,
as vestes escuras como a noite mais negra ainda reinavam soberanas no corpo da
jovial bibliotecária, embora essas peças também estivessem com os dias
contados. O fato de sair e voltar horas depois pela porta da frente, em plena
luz do dia, com um sorriso radiante e um brilho provocativo no olhar,
denunciava mudanças profundas, drásticas e permanentes. Em suma, Clarisse
Cristal, a soturna bibliotecária, era uma típica criatura da noite que decidira
invadir e experimentar os sabores radiantes de viver o dia em uma cidade de
veraneio. Ela voltara ao ponto de partida, o seu sagrado local de trabalho, com
um firme propósito: descobrir o destino do livro A Cinzas das Horas.
—
Desculpem-me, minhas mais que queridas crianças perdidas ao leste do Éden! Meus
pequenos arcanjos, querubins, querubinas, gnomos e fadas, mas demorei um pouco
mais para retornar do meu desjejum matinal no Café Ivory Tower!
A voz
alta e estridente de Clarisse ecoou por todo o ambiente requintado. Ela falou
como se ensaiasse uma peça de teatro bufa. Os funcionários e os poucos clientes
da livraria pararam para olhar a figura estática na porta. Passado o susto
inicial, todos voltaram ao que faziam, sem expressar real surpresa. A senhora
idosa que servia o café, vestida com elegância, prosseguiu sua lenta marcha
rumo à copa. O operador da máquina fotostática abaixou a cabeça e voltou a
tirar cópias de forma mecânica e sonolenta, como sempre fazia. Uma professora
universitária de literatura comparada, frequentadora habitual, de cabelos
curtos cor de caramelo, tailleur salmão, óculos fundo de garrafa e sorriso de
Mona Lisa, processou a cena atípica e pensou em usar aquele monólogo sintético
e teatral em suas aulas. Um entregador, com a sua surrada jaqueta de couro e o
capacete que já vira dias melhores sob o braço esquerdo, deixou um envelope
pardo no balcão da fotocopiadora, olhou profundamente para Clarisse e apressou
o passo para ir embora sem olhar para trás. Havia mais envelopes para entregar.
Os
demais funcionários e fregueses, afastados da entrada, perderam o ato inicial
daquela peça teatral mambembe. O afetado gerente, com seu paletó impecável
azul-celeste e uma flor vermelha carmesim artificial na lapela, estava ocupado
demais no escritório do piso superior recebendo vendedores e analisando catálogos.
Os três vendedores da loja, dignos representantes do varejo livreiro, bem como
os estagiários que só trabalhavam pela manhã, perderam o espetáculo matutino.
Mais ninguém ali presenciou a cena tragicômica atípica.
Clarisse
divisou, a poucos metros de distância, a sua colega de trabalho, Anna Victória.
A vendedora sênior exibia um sorriso largo enquanto atendia um garboso e
austero casal diante do balcão de embrulhos. Uma jovem balconista, de costas e
curvada, ignorava o redor enquanto tateava os compartimentos inferiores da
estante de fitas e papéis.
Os
olhos vivos de Clarisse se detiveram no casal. A mulher, uma jovem senhora de
meia-idade, tinha a pele alvíssima, cabelos louros e curtos, seios fartos e
olhos verdes. Uma pequena tatuagem verde-escura repousava em seu pulso
esquerdo, ladeada por duas estrelas menores de cinco pontas; aproximando-se um
pouco, Clarisse leu o nome manuscrito em itálico: Agnes. Trajava um blazer azul-oceano de corte arredondado com
decote em V, mangas três-quartos com pequenas fendas nos punhos e fechamento de
três botões, além de uma saia de cós largo com pregas frontais e zíper lateral.
Uma delicada e pequena flor branca pregada entre o ombro e o coração quebrava a
formalidade do traje. A bolsa a tira cola, os saltos altos e brincos de grife e
o sofisticado colar exclusivo eram as peças que davam contam que ela não era
uma qualquer.
Pela
postura, pelo perfume discreto e pela maquiagem carregada demais para uma
executiva, Clarisse deduziu que se tratava de uma estudante estrangeira de
pós-graduação, provavelmente graduada em Letras ou belas-artes. Também não lhe
passaram despercebidos as olheiras da mulher e o olhar vazio, perdido no nada,
direcionado ao homem ao seu lado. O parceiro era um senhor de idade indefinida,
de pele negra retinta que brilhava sob a luz, rosto escanhoado e cabelo cortado
à moda militar. Trajava um clássico paletó azul-escuro bem cortado, calça da
mesma cor, colete e sapatos Oxford pretos de legítimo couro de crocodilo.
Clarisse logo concluiu que era outro estrangeiro, um africano, afro-europeu ou
afro-caribenho, possivelmente um renomado professor doutor visitante ou um
importante adido cultural. O homem era só sorrisos ao ver o pacote passar das
mãos da balconista para a promotora sênior.
— Mais
uma boa venda, estimadinha do meu coração? — disparou Clarisse, a voz carregada
de uma forte dose de ironia direcionada à vendedora sênior de livros
estrangeiros.
Era
senso comum na livraria, que Anna Victória pouco entendia de literatura, em
qualquer ramificação das belas-letras ou da literatura popular. No máximo, lia
preguiçosamente as orelhas e os prefácios dos títulos que pretendia empurrar,
folheava revistas de moda literária esquecidas nos balcões ou fazia buscas
rápidas e superficiais na internet quando o calo apertava. Ainda assim, ali
estava ela, atendendo o casal elegante como se fosse uma exímia especialista em
clássicos modernos e pós-modernos do mundo literário. Clarisse logo calculou
que o livro em questão era justamente A
Cinzas das Horas.
"E
qual o motivo de a Anna Victória atendê-los pessoalmente e não eu, a
especialista em análise e restauro de livros raros?", pensou Clarisse
naquela hora derradeira.
A
resposta veio rápido: o homem falava em francês com Anna Victória. O requintado
cavalheiro estrangeiro dominava o idioma com a elegância de um diplomata de
primeira linha, evocando o sotaque típico de um frequentador do hotel Park
Hyatt Vendôme de Paris. Anna Victória, por sua vez, respondia em um francês
sofrível e medíocre, com o sotaque latino-americano de quem aprendera a língua
em um intercâmbio de classe média baixa no Canadá. Quando a empacotadora
finalmente encontrou o que procurava e finalizou o embrulho, passou o pacote
para Anna. A empacotadora olhou para Clarisse, como se pedisse desculpas por
algum ato falho de uma subalterna.
O homem
negro tomou o livro das mãos dela de forma abrupta, mas cortês. Agradeceu a
ambas e, eufórico, mostrou a peça para a acompanhante, falando em português
luso. A loira deu um sorriso amarelo, que ele ignorou antes de se voltar
novamente para Anna Victória. O
estrangeiro entregou um cartão magnético e disparou instruções em um ríspido e
rápido português europeu. Anna, por sua vez, repassou as ordens para a
balconista em um português sul-americano rasteiro, reproduzindo pausadamente o
que o homem acabara de ditar.
Uma
chama acendeu dentro de Clarisse Cristal. Foi intenso. Nenhum dos quatro, a
poucos metros de distância, havia prestado atenção nela. Ser ignorada era tudo
o que Clarisse não queria àquela altura; ela queria mais, queria tudo o que a
vida pudesse dar, o bônus e o ônus. Queria ir além do bem e do mal.
Em um
segundo ato teatral bufo, Clarisse bateu palmas bem alto, estalando o som pelo
ambiente e capturando a atenção do quarteto e de toda a audiência da livraria.
O homem negro soltou uma risada farta, num misto de latinidade e africanidade,
enquanto os demais permaneciam sem reação. Delicadamente, ele desembrulhou a
peça e entregou o livro à acompanhante.
— Sim,
opa! Uma excelente venda, fez a vossa amiga, ó miúda! E não poderia ser outra
coisa. Bem sei o quanto procurei esta peça única, esta obra de arte na língua
de Camões e Pessoa. E sei também, ó raios, que quem restaurou a obra fez um
excelente trabalho. Já ia pedir à rapariga aqui ao lado que me apresentasse o
artista da restauração...
— O
artista? Não mesmo, meu bom senhor gringo! — interrompeu Clarisse, dando alguns
passos à frente e erguendo a mão direita. — Fui eu mesma, professor, quem
restaurou o livro que está em suas digníssimas mãos! Este tributo à língua de
Camões e Fernando.
O homem
estrangeiro se aproximou de Clarisse com passos firmes e estendeu a mão. O
aperto de mãos foi firma! Ambos sabiam, naquele instante, que eram dois mundos
se chocando ao sabor do destino. Dois iguais em essência, dois amantes de
literatura em belas-letras, que se reconheciam em trajetórias diferentes. Eles
se mediram naquele momento extremo, cientes de que aquele encontro era apenas o
primeiro de muitos. De fato, muitas coisas estavam por vir — para ambos, e para
além do bem e do mal.
Fragmento do livro: Em dias de sol e calor,
em noites de tempestades e frio. Texto de Samuel da Costa, contista, poeta e
novelista em Itajaí, Santa Catarina.
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