Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
Gilberto
Mattos Gama divagou em uma profunda viagem interna. Queria encontrar respostas
para as muitas perguntas que precisava responder naquele exato momento. Era
inevitável vislumbrar a estranhíssima figura de Fá Rodrigues Butler, enxergá-la
flanando pelas ruas em meio à bruma notívaga, em perdidas horas da noite.
O
investigador da Polícia Civil, imaginou Fá em suas vestes negras, em um
eviterno atrato, trespassando a sibilina bruma noctâmbula em busca da próxima
vítima. Quando foi que ela mergulhou naquela escuridão profunda? Era uma das
perguntas que Gilberto fazia para si, e somente para si, dentro do táxi que o
levava para casa, ladeado pelo tenente Jorge Bastos. Mattos Gama sabia que
ambos tinham um papel muito importante nos mistérios que envolviam a paisagista
clássica.
—
Gilberto, meu parceiro, eu não sei como tu anda assim à noite, a pé e desarmado
pelas ruas! — falou o tenente Jorge Bastos.
O
motorista do táxi aguçou as orelhas ao ouvir o início do diálogo, mas o
profissional do volante optou por subir o vidro escuro e blindado que separava
os clientes do condutor, para a segurança de ambos.
— Vou
te repetir o que um dos meus instrutores de tiro vivia dizendo enquanto me
treinava na academia da Polícia Civil: "O
melhor amigo do ser humano é o bom senso!" Ele vivia dizendo isso
quando lhe faziam a mesma pergunta que tu acabou de me fazer, meu amigo. Pois o
homem, um perito em armas e que me treinou, não andava armado e nem tinha armas
de fogo em casa. Só no porta-malas do carro, quando ia e vinha do trabalho. E
ele foi o melhor perito em armamentos que eu já tive a honra de conhecer nesta
vida. O homem se aposentou com sessenta anos, dos quais mais da metade foram a
serviço da segurança pública — ponderou Gilberto.
—
Maluco o cabra! — disse Bastos, levando a mão ao queixo.
— Outra
coisa! No dia em que eu não me sentir à vontade andando pelas ruas da minha
cidade, onde nasci e cresci, eu mudo de cidade. Vou para um grande centro
urbano trocar tiro com bandido armado até os dentes — rebateu Gilberto.
— Tu
que sabes, parceiro, tu que sabes...
Jorge
Bastos bateu com certa força com as costas da mão esquerda na janela do táxi,
como se testasse a blindagem. Então o painel do veículo avisou o taxista das
leves batidas; acostumado e sabendo quem estava conduzindo, ele evitou olhar
para trás. Mas os toques na janela serviram para alertar Gilberto sobre o
temperamento do parceiro ao lado.
Em seus
mais de vinte anos no serviço de segurança pública — considerado o tempo em que
fazia a faculdade de Direito —, Gilberto já tinha visto o que considerava
reações extremas. Era o que acontecia quando policiais civis, militares e
outros agentes da lei elevavam o nível de estresse ao máximo do impossível, em
situações que nunca acabavam bem. Passavam a ver perigo no virar de cada
esquina, a cada sombra, em pequenos gestos, suspiros ou espirros de quem
passava ao lado.
O táxi
rasgou as ruas da zona portuária, avançou por uma área de moradia popular e
parou na frente de uma casa luxuosa em um bairro de classe alta, afastada do
perímetro urbano. Nessas horas, Gilberto sempre se sentia constrangido toda vez
que precisava explicar aos amigos próximos, os motivos de viver tão bem sendo
um simples funcionário público, com um parco salário. O fato era que ele era
filho, irmão, sobrinho, primo, neto e bisneto de juízes, promotores públicos,
grandes juristas e políticos influentes, tanto do lado paterno quanto do
materno. Indo mais longe, a sua árvore genealógica somava séculos de
magistrados e advogados envolvidos em grandes causas e ocupantes de cargos
públicos importantes. Das duas linhagens dedicadas ao mundo das leis e dos grandes
debates públicos há mais de cento e cinquenta anos, Gilberto herdou uma enorme
biblioteca jurídica e uma pequena fortuna, o que explicava o conforto em que
vivia.
Foi em
uma luta interna cheia de ponderações que ele tomou duas atitudes no mundo
real, que o fizeram ter a certeza de que, na vida, ele mesmo não tinha certeza
alguma. A primeira foi quando decidiu romper com a tradição familiar, ao
terminar o curso de Direito, prestou concurso público e ingressou na Polícia
Civil sem que ninguém soubesse. Ele logo imaginou um drama familiar ao contar a
decisão em um almoço de domingo. Lembrou de como o pai e o avô desconversaram
logo após o anúncio feito de forma desesperada. Como Gilberto pôde pensar que,
em meio a tantos advogados renomados, ninguém das duas famílias perceberia a
sua manobra. O segredo de Gilberto, não era segredo para a família influente.
Sem entender nada, ele viu a mãe correr para buscar o antigo álbum de família.
Foi assim que descobriu um segredo bem guardado: uma gama de obscuros
personagens aventureiros em ambos os lados, todos ligados ao militarismo,
campanhas militares, revoltas populares, revoluções e guerras mundo afora. Os
Mattos e os Gama viviam se relacionado em si e se metendo em confusões desde
que foram forçados a sair da velha Europa para o exílio no Novo mundo.
A
segunda atitude foi o seu enlace com a Sofia, uma jovem advogada negra e filha
de um consagrado líder sindical e comunista, agitador de massas em muitas
marchas e greves. Gilberto revelou o romance com aquele espírito livre em outro
almoço de família. Eles tinham se relacionado quando cursavam a faculdade de
Direito, se afastaram depois de formados e acabaram se reencontrando poucos
anos depois. E, mais uma vez, era um segredo que todos na família já sabiam.
Lá veio
a mãe de Gilberto de novo, correndo com o velho álbum, para lembrar ao filho
que os Mattos e os Gama já se envolviam com negros e negras desde antes da
campanha abolicionista e republicana no século XIX. Os enlaces com indígenas e
negros vinham de longa data. Tanto os homens quanto as mulheres, das duas
famílias! E nas palavras descontraídas da mãe de Gilberto, a matriarca dos
Bastos Gama, no almoço de domingo da família: "Em tempos idos, os
membros das duas famílias não dispensavam uma carne negra por nada"!
Gilberto também descobriu, folheando o álbuns de fotografias, um parente
distante, que era comunista que se exilou na velha Europa, além de outros
elementos que participaram de revoltas e guerras no Velho Mundo.
De
volta ao tempo presente, Jorge sacou um cartão magnético para pagar a curta
viagem de táxi, mas Gilberto já tinha feito o pagamento via aplicativo no
celular. Jorge não gostou nada da atitude, mas o investigador ponderou que fora
ele quem marcara a reunião na própria casa e insistira em irem de táxi. Fazia
tempo que Jorge queria debater os estranhos hábitos do parceiro: marcar reunião
no meio da rua, andar a pé, desarmado e, por fim, andar de táxi. O policial
militar desconfiava das atitudes do primo e parceiro de combate ao crime. Para
Jorge, havia algo de nebuloso por debaixo daquela dura carapaça de um
racionalismo ortodoxo positivista.
Jorge
Bastos, o primo distante de Gilberto, amava ser policial militar, vindo de uma
trajetória familiar bem menos glamorosa. Descendente de pescadores artesanais e
industriais, os seus familiares eram simples trabalhadores do mar. Jorge também
rompeu a tradição ao entrar para o serviço militar obrigatório aos dezoito
anos. Foi então que um mundo novo se abriu para o jovem de vida humilde.
Descobriu um universo onde a ordem, a disciplina e a hierarquia rígida de um
mundo marcial lhe abriam novas possibilidades além da vida civil. Marchas e
contramarchas para sagrar o grande deus Marte, o deus romano da guerra e Ares,
o deus grego da guerra. Incendiado por esse ideário de ser útil à sociedade, ao
sair do quartel Jorge engraçou na Polícia Militar para dar continuidade à
carreira de forma mais efetiva. Foi em ações conjuntas entre as forças de
segurança, que Gilberto e Jorge se encontraram e descobriram os laços
familiares. Os dois polos equidistantes que se deram as mãos em uma aliança
para combater o crime e levar ordem ao caos.
E
naquele exato momento, o caos era uma série de assassinatos de elementos
menores do submundo dos pequenos delitos e do crime organizado. Não eram
assassinatos comuns; eram pequenos espetáculos de horror tétrico, que ocorriam
sempre na calada da noite, na alvorada negra, para ganhar destaque à luz do
dia. Era sempre no alvor de um novo dia que os espetáculos lôbregos ganhavam
vida e um público sedento de sangue cada vez maior. Afinal, alguém — ou algo —
andava limpando as ruas dos seres ditos indesejáveis por boa parte da
sociedade. Foi com o ímpeto de dar fim àquelas cenas tenebrosas que o
investigador Gilberto uniu forças mais uma vez com o tenente Jorge.
Ao
adentrar a casa de Gilberto, Jorge teve o choque visual de sempre. O policial
militar conhecia o estilo arquitetônico da escola Bauhaus, da qual Sofia era
uma fiel seguidora incondicional. Desde o primeiro dia em que pôs os pés ali,
Jorge passou a detestar a funcionalidade fria e esdrúxula da escola modernista
alemã. Como uma mulher como Sofia podia seguir uma escola teuta? O lugar era
cheio de móveis tubulares, misturas estranhas de plástico, madeira e metal,
além de espelhos hexagonais. Havia também as luminárias vermelhas e amarelas
com forMattos cônicos esquisitos que despencavam do teto por finas hastes de
metal, quase batendo na cabeça de quem andava pelo ambiente. Jorge achou
engraçado ver um vaso de flores vazio que lembrava um projétil de canhão e,
mais estranho ainda, um bule de leite ao lado de um busto romano. Eram muitas
as dúvidas e estranhezas vagando na mente do tenente.
Naquele
dia, o que saltou aos olhos do oficial da PM foi um quadro em tamanho natural
que fugia totalmente ao minimalismo futurista da escola alemã. Estava soberana
no alta da parede oriental da sala de estar! Era uma obra forjada no romantismo
Greco-italiano, envolta em uma névoa renascentista: uma jovem mulher cigana
grega, loura e de olhos vívidos, que parecia flutuar no vazio, com olhos em
chamas e um belo sorriso. Jorge não soube o porquê de se emocionar ao olhar
para a tela e refletiu profundamente sobre o que aquele quadro fazia ali.
— Um
dia ainda venho aqui armado com um lança-chamas e coloco fogo em tudo isto.
Mas, antes, salvo essa obra de arte magnífica — disse Jorge, sem nem se dar ao
trabalho de olhar para Gilberto. Estava ocupado demais contemplando o quadro.
— Não
fala bobagem. Quem vai fazer isso um dia sou eu mesmo, não te dou esse gostinho
nem a pau. Vamos ao trabalho, meu bom amigo — falou Gilberto.
— Ainda fico intrigado como uma comuna
ortodoxa do tipo da Sofia — negra, filha e neta de comunistas agitadores — tem
um gosto estético burguês igual a este! Coisa de louco mesmo, irmão — ponderou
Jorge.
— Eu
nem penso mais nisto. O quadro aí em cima, que tu não para de babar ovo, é de
um ex-namorado dela, um affair com um estudante de Belas Artes. Ela conheceu o
tal pintor, quando estava fazendo pós-graduação na velha Berlim. E para te
espantar ainda mais, o carinha é brasileiro nato e é mais negro do que ela. Vai
entender um troço desse... E antes que tu me perguntes, eu comprei a peça do
tal pintor de presente para ela, sem saber do enlace deles na sagrada e velha
Alemanha. Comprei em um disputado catálogo de artes. De novos e promissores
artistas. Fiz isso para quebrar este clima modernista e pós-modernista que a
Sofia criou para a gente viver. E que o teu lança-chamas passe bem longe dessa
preciosidade, pois a Sofia te mata com requintes de crueldade, com toda a
certeza deste mundo! — disse Gilberto o enciumado policial civil.
— Então
vamos ao trabalho, meu caro amigo. Onde fica o teu porão? — perguntou Jorge,
que só fizera visitas sociais anteriormente; aquela seria a primeira vez a
trabalho.
—
Porão? O meu escritório de trabalho, meu parceiro, não é no porão. No meu
subsolo, o meu pai insistiu para eu fazer uma adega, aqui em casa. Logo eu, que
sou abstêmio, pelo menos em casa. Às vezes penso que meu pai me detesta de
verdade. Depois passamos por lá e te dou de presente uma boa cachaça artesanal
que a Sofia me trouxe da velha Alemanha, outro presente do tal artista. As
escadas ficam atrás da tua nobre pessoa — falou Gilberto.
Os dois
homens da lei subiram lentamente por uma escada de madeira Palo-Santo sem
corrimão, com Jorge à frente como um desbravador cauteloso. Foram até o segundo
piso, onde havia uma imponente porta da mesma madeira escura, cujos detalhes
artísticos artesanais chamaram a atenção do tenente. Um talentoso artesão havia
trabalhado ali por meses, entalhando cenas que retratavam o cotidiano simples
do povo do campo misturado com cenas sacras, bem típicas da Península Ibérica.
Jorge quis perguntar quem era o artesão, mas não se atreveu. No imaginário do
oficial, bem poderia ser outro ex-namorado de Sofia.
— Está
aberta, Jorge. É só empurrar — disse Gilberto.
— O teu
local de trabalho fica aberto sempre? Para um proeminente agente da lei, tu és
muito descuidado, parceiro — ponderou Jorge.
— O teu
proeminente olhar anda um pouco cansado, bom amigo. Nem notou as muitas câmeras
de segurança espalhadas pela casa — alertou o policial civil.
— Tás
de brincadeira! Só pode ser! Como uma peça desse naipe tem maçanetas cromadas?
Isso é um crime! — disse Jorge, que tivera de mergulhar no estudo de estética e
história da arte depois que se casou com Yamaguchi, uma arquiteta estudiosa das
culturas arquitetônicas latinas europeias, latinas americanas e caribenhas.
— Abre
essa joça. A porta é imponente, eu sei, mas é leve — falou Gilberto, não
escondendo o nervosismo.
Jorge
levou a mão à maçaneta cromada. A porta era mesmo leve como uma pluma, e as
luzes se acenderam automaticamente. O local de trabalho de Gilberto era
moderno, equipado com impressoras a laser e matriciais de grandes e pequenos
modelos, dispostas em uma robusta mesa artesanal também de Palo-Santo. Havia um
computador de mesa de último modelo em uma escrivaninha em L com tampo de
vidro, além de uma luminária articulada no canto esquerdo. Uma escrivaninha
menor, mas não menos imponente, ostentava uma antiga máquina de escrever
importada, uma Kanzler alemã. Uma enorme tela de LED atrás da escrivaninha
contrapunha-se a uma tela de projeção em tripé no lado oposto. Jorge notou um
telefone de linha instalado na parede ao lado das impressoras, outro aparelho perto
do microcomputador e um terceiro ao lado da velha máquina de escrever teuta.
Uma moderna mesa de reunião de vidro com pés de aço inox e oito lugares com
confortáveis cadeiras também compunha o ambiente. Um pequeno frigobar se
impunha discretamente ao lado da porta de entrada.
Jorge
calculou que ali repousavam apenas sucos e água mineral. Todos os móveis e
objetos eram bege-claro, e somente o frigobar era preto. Muito vidro e
plástico, quase nada de madeira compunha o escritório. Nenhum quadro ou
fotografia existia ali para humanizar o lugar; tudo era frio e funcional. No
amplo espaço, poderiam trabalhar de três a quatro pessoas enquanto outras oito
se reuniam ao redor da grande mesa. Jorge notou a falta de livros de Direito
decorativos, sinal de que ali era o local de trabalho estrito de Gilberto,
famoso por fazer consultas apenas em textos digitalizados. A célebre biblioteca
jurídica devia estar em outro lugar. O policial militar imaginou que ali, na
verdade, funcionava um pequeno gabinete de crise ou uma pequena redação de veículo
de comunicação quando necessário.
— Então
é aqui que a magia acontece? Gilberto, meu amigo, vamos ao que interessa. O que
vamos fazer afinal? Qual é a nossa missão hoje? — perguntou Jorge.
—
Então, tenente, vamos simplesmente repassar um caso antigo. Na verdade, dois
casos antigos. Para entender como chegamos aqui, preciso do teu olhar apurado
de militar disciplinado e do teu faro de rua! — disse Gilberto.
O
investigador caminhou a passos compassados até a escrivaninha, sacou dali dois
envelopes pardos, finos e sem identificação, e os jogou em cima da mesa. Jorge
estranhou, pois os relatórios de casos geralmente eram volumosos. O alarme do
tenente disparou na hora.
— Só
isso? Cadê o resto dos arquivos, meu caro? — perguntou Jorge.
—
Calma, tenente, é o que temos para hoje. Aqui não vamos nos concentrar no quem, e sim no como. É só isso por enquanto. No
mais, vamos usar e abusar das novas tecnologias digitais para dar celeridade —
falou o policial civil, colocando os envelopes um em cima do outro e
dividindo-os em seguida. — São casos atípicos, meu caro amigo. Nada comuns. O
povo lá de cima sabe quem são os autores, ou têm ideia de quem sejam presumo
eu. Só falta resolver o como
para desvendar os porquês subsequentes.
—
Moreira César? — perguntou Jorge, enfático.
— Um
pouco mais acima! Bem acima, aliás. René Descartes que me perdoe, mas vamos do
mais complexo para o mais simples — desconversou o policial civil para evitar
embaraços, pois nem ele sabia direito quem era o tal povo lá de cima.
Gilberto
sacou um estilete de uma gaveta e abriu o primeiro envelope, retirando uma
série de fotografias em preto e branco e distribuindo-as ao longo da mesa. Eram
imagens da cena de um crime ocorrido na praça onde estiveram há pouco: corpos
simetricamente espalhados no chão em meio à semiescuridão.
—
Jorge, reconhece a cena? — perguntou entredentes o investigador.
— E
como eu não poderia reconhecer? Fui o primeiro a chegar ao local da ocorrência,
apesar de a área de patrulhamento não ser a minha de fato. Estranho mesmo esse
crime, do princípio ao fim. Por Deus, que saudade do tempo em que um crime era
só um crime e não passava disso — falou Jorge.
—
Então, o tenente me conta o que...
— O que
houve? Então evoco René Descartes e vamos do mais simples para o mais complexo.
Eu respondi a um chamado pelo rádio, me dirigi para o local que me despacharam
e mais nada, simples assim. Chegando lá, me deparei com essa cena aí da
fotografia — disse Jorge, pegando uma das imagens e olhando-a bem de perto,
como se puxasse da memória os detalhes daquela noite fatídica.
— Eu
posso dizer que é um assassinato ritualístico, Jorge? Ou algo próximo disso? —
perguntou Gilberto.
—
Engraçado tu falar em assassinato no singular. Quando a gente chegou lá e viu
esses corpos espalhados pelo chão, pensamos logo em um massacre. Sim, há muitos
elementos de ritual aqui. Carrega o computador e projeta na tela de LED, por
favor — sugeriu Jorge. E assim Gilberto fez.
Jorge
se virou e viu a fotografia projetada em alta resolução. Gilberto se antecipara
ao pedido, e o tenente já estava acostumado com a agilidade do parceiro. A
imagem projetada mostrava o corpo sem vida de um homem teuto encostado em uma
frondosa e secular árvore e, ao pé dela, cinco corpos perfilados.
— Por
que tu diz que é um assassinato ritualístico, tenente? — perguntou Gilberto.
—
Tenente? Faça-me o favor... Mas vamos lá. Por favor, vamos às três dimensões! —
pediu Jorge.
Gilberto
compilou as trinta fotografias e buscou outros arquivos das câmeras de
vigilância, drones, registros da internet, portais de notícias, blogs e redes
sociais digitais, tudo relacionado ao crime na praça. O policial civil fez a
justaposição em três dimensões de todo o material entre fotos e vídeos,
eliminando os elementos em volta e deixando apenas os corpos no chão.
— Olha
bem! São duas pirâmides... Dois triângulos equiláteros, para ser exato. Os
elementos estão todos postos e equidistantes entre si. Perfeitos demais, até
para mãos humanas, ao meu ver. Começamos pelo primeiro triângulo. Aí preciso da
tua ajuda de novo, nego velho... Ou melhor, senhor Gilberto Mattos Gama senhor
investigador sênior da Polícia Civil — discursou Jorge.
— Posso imaginar o que tu queres — falou
Gilberto. — Veja a simetria por trás da assimetria dos corpos. O assassino
buscou exatos dezessete centímetros de distância entre os dois da base, na
horizontal. E ambos a dezessete centímetros da ponta, que é o corpo encostado
na árvore. Claro que o relevo do terreno e os volumes biológicos criam desvios
nos dos corpos da cena do crime, mas a linha vetorial pretendida é óbvia —
explicou Jorge, apontando para a tela.
Gilberto usou uma caneta eletrônica para
marcar as três vítimas. Na tela de LED, o software forense processou a massa
irregular dos cincos corpos demasiados e do corpo sem vida, calculou os centros
de gravidade aproximados e aplicou os pequenos ajustes matemáticos para
compensar as deformidades físicas das vítimas. Segundos depois, o algoritmo
ignorou o caos dos membros caídos e esticou linhas puras em neon azul,
desenhando um triângulo equilátero perfeito sobre a imagem.
— Realmente — murmurou Gilberto,
observando as correções milimétricas piscando na interface na tela. — Nem
parece feito por mãos humanas, de tão exata que era a intenção da geometria.
Digo isso pelo pouco tempo que os executores teriam para calcular esse arranjo
no escuro.
— E note bem, Gilberto, outro detalhe:
há oposições entre os elementos nas estruturas. É o nosso elemento psicológico,
sociológico, ou o que tu queira chamar. Uma mulher com trajes leves e
coloridos, muito magra, de pele amendoada e rosto delicado, sem maquiagem,
cabelos longos... Bem feminina, por sinal. Já a outra mulher, em oposição, é
masculinizada, cabelos curtos, maquiagem pesada e roupas escuras e robustas.
Uma é o dia claro e sem nuvens; a outra é a noite escura e fria — traduziu
Jorge.
— E o outro arranjo? Segue a mesma
linha? — perguntou Gilberto, que já previa a resposta.
—
Uma estrutura em oposição à outra, é claro. Outra oposição. Tenho uma teoria
muito minha, mas vou deixar isso mais para a frente, Gilberto. Primeiro o mais
simples, depois o mais complexo. Na base desse segundo grupo, os quatro corpos
foram dispostos para espelhar treze centímetros de distância uns dos outros —
falou Jorge.
Gilberto repetiu o processo. A caneta
eletrônica tocou os novos alvos, o sistema computou as massas assimétricas e os
desvios de postura dos mortos, sobrepondo uma nova grade vetorial. O software
fez a compensação e fechou um quadrado perfeito em tom dourado na tela.
— Olha como o padrão é o mesmo sob a
leitura do programa, as medidas de intenção se repetem! — apontou Jorge.
Gilberto calibrou os pontos de ancoragem
para estabilizar os gráficos.
— Os dois corpos na horizontal mostram
outras oposições. Essa mulher de cabelo curto, de meia-idade, tem um certo ar
masculinizado, mas só na atitude, creio eu. Uma mulher liberada, livre, por
assim dizer. Na outra ponta, temos um homem gay, o que revelam as roupas nada
discretas e as unhas bem-feitas; mesmo assim, parece retraído, conservador... E
quando digo conservador, quero dizer monogâmico! — apontou o Jorge
— Brilhante, tenente. Deduziu isso tudo
só olhando as fotografias e o vetor do sistema? — perguntou Gilberto, intrigado
com a precisão do militar.
— Parte
sim, parte não. Assim que saí da academia militar, trabalhei por um curto tempo
na inteligência da PM e conheço alguns desses elementos aí deitados no chão. Eu
fiz a vigilância e produzia relatórios diários da maioria deles. Mas me deixa
terminar, ora bolas! O topo de uma pirâmide é a oposição do topo da outra
também. Como disse, essa mulher aqui deitada eu conheço bem — falou Jorge,
pegando a caneta laser e contornando a figura na tela. — Assim como conheço o
outro elemento a fundo. Uma mulher, uma tatuadora, que tem aversão a dor física
e emocional, retraída, apegada a rotinas rígidas e totalmente transparente. Em
oposição, o outro elemento é um homem, uma figura obscura do submundo do crime.
É isso. Respondi à primeira questão, e aí imagino que venha a segunda. Como já
disse, conheço essa gente.
— Como
aconteceu? — perguntou Gilberto.
—
Complicado! Aí partimos do mais simples para o mais complexo. Como te disse,
fui o primeiro a chegar na cena do crime e, nossa, que saudade do tempo em que
um crime era um simples crime, com mistérios simples. Cheguei ao local e vi a
cena disposta desse jeito — o tenente pegou as fotos sobre a mesa, buscando os
detalhes na memória. — Nada funcionava no entorno da praça, ou quase nada.
Somente o trailer do velho Elias Grael, que mais parecia o sol da meia-noite.
Todos os aparelhos elétricos, eletrônicos ou mecânicos tinham parado ou
funcionavam muito mal. Tudo em um raio de trezentos metros era um breu só, com
aquela barraca iluminando parcialmente a cena.
— O que
tu fizestes? — perguntou Gilberto.
— Ora,
o que fiz? Seguindo o protocolo, isolamos a área. Depois de verificar os
corpos, vimos que cinco das vítimas estavam desacordadas e somente uma
falecida. Acionei o pronto-socorro para os sobreviventes, reforçamos o
isolamento e deixei a cena como a encontrei. Há também as imagens da câmera
corporal da minha farda como registro; estranhamente, ela estava funcionando —
lembrou Jorge.
— Mas
em que estado estavam os sobreviventes? — perguntou Gilberto.
—
Estavam em coma. Não estavam desmaiados, e sim em coma. Estavam iguais aos
nossos três elementos que foram agredidos pelos neonazistas, ou pelo menos
parecidos. Perguntados depois sobre o que ocorreu, eles só lembravam de um
forte clarão e de mais nada. Foi aí que uni os dois grupos. Mas o que difere o
pessoal da praça é a gravidade; eles levaram uma descarga bem maior, pelo que
parece. Caíram e acordaram no hospital horas depois, quase simultaneamente, um
por um. Os nossos heróis de há pouco acordaram mais rápido e foram sozinhos
procurar ajuda. Os médicos disseram que os três pareciam ter acordado de um
pequeno coma, não de um desmaio comum. Só o galego encostado na árvore morreu,
claro. Já os seguidores do Adolfo e Benito foram trucidados, como se fossem
atingidos por um deslocamento de ar uma potente explosão.
— Mas
como o elemento morreu? — perguntou Gilberto mais uma vez.
— Vou
precisar da tua ajuda de novo, dos teus queridos aparelhos eletrônicos! Pois
acredito que quem matou o teuto estava com muita raiva dele. Na verdade, aqui
temos um misto de um frio profissionalismo com uma boa dose de ódio passional —
falou o policial militar.
— Uma
mulher na jogada, talvez — sugeriu Gilberto.
—
Possivelmente, mas não me interrompa, por favor. Sei que os teus sagazes
peritos fizeram várias simulações e não deu em nada. Por acaso tu tenhas cópias
das simulações nos teus arquivos? — perguntou Jorge.
Gilberto
correu os dedos pelos ícones do palmtop até encontrar as simulações
mencionadas. Elas foram projetadas na tela grande; eram sete ao todo.
— A
última, por favor — pediu Jorge.
— A
última simulação? Mas Jorge, de todas, esta é a mais improvável... É impossível
aliás — ponderou Gilberto.
—
Ajuste o cronômetro em nanossegundos, por favor — sugeriu Jorge.
— Mas
são precisos bilhões de nanossegundos...
— Para
fazer tudo em apenas um segundo! Eu sei, caro amigo. Não é somente humanamente
impossível, é fisicamente impossível neste mundo ou no nosso tempo presente.
Assim como era impossível a birosca do Elias não sofrer nada com o campo
magnético. Um fenômeno que paralisou tudo na hora e que ainda paralisa qualquer
treco movido a energia. Vamos à simulação! — ordenou Jorge, enfático.
— Vamos
lá então — falou Gilberto, apertando um comando.
—
Deleta tudo em volta e deixa somente as nossas vítimas com a árvore ao fundo.
Coloca em câmera lenta. Agora levante os nossos amigos, forme um semicírculo e
coloque a vítima fatal na frente. Isso aí, meu garoto, bom trabalho. Agora
vamos aos fatos: antes de darmos partida na nossa divagação cibernética, vamos
escolher a arma do crime. Sei que o corte foi preciso na artéria carótida, na
garganta. Lâminas, homem... Vamos às lâminas.
Com
alguns cliques, uma enormidade de lâminas se projetou na tela. Gilberto passou
lentamente uma por uma.
— A boa
e velha navalha de barbear Auguste Bain! — apontou Jorge.
— Estás
louco, homem? Para mim foi um bisturi...
— Que
nada, irmão. O nosso homem é um verdadeiro artista clássico, não um açougueiro
frio com um diploma de médico. Agora vamos adiante e vamos bagunçar ainda mais
o coreto. Bem sei que quem é o artista não importa, mas o senhor ou senhora que
cometeu esse crime — a criatura, por assim dizer — precisa de uma forma humana
na simulação. Eu aposto em um homem forte, entre um metro e noventa e dois
metros, um ex-militar ou agente de segurança, talvez da inteligência militar. E
não faz esta cara feia, Gilberto, tenho olhos nas costas, meu caro.
Ambos
não tiravam os olhos da tela grande enquanto trabalhavam.
— Vi
essa criatura pelas imagens de segurança das ruas, próximas do porto e do
comércio em volta. E a única testemunha que teve coragem de abrir a boca foi o
Elias — disse Jorge, continuando: — O Elias Grael olhou bem para a cara do
homem quando ele passou pela praça e dobrou a esquina mal iluminada antes do
crime. Para mim, o homem queria ser visto, e somente pelo vendeiro, ao que
parece — afirmou com segurança o tenente.
— Vamos
ver para onde isso anda e onde vai parar — falou o policial civil, carregando
as especificações do suspeito na tela.
— Com
um morto e cinco desmaiados neste primeiro ato, ora bolas, pois ainda temos
mais três presuntos nos esperando... O homem passou pelo Elias antes de as
nossas vítimas darem as caras. O elemento em questão olhou bem nos olhos do
velho, como quem quer ser notado. Apesar do calor, usava calça de brim, luvas
pretas de couro, capa de chuva, botas de soldado e chapéu marrom. Um homem
negro, de dois metros, idade indefinida... Mas eu aposto no começo dos
cinquenta anos, não no fim. Faça o homem vir do sudoeste da praça, andando
normalmente, e aumente a velocidade até chegar a um bilhão de nanossegundos —
orientou Jorge.
A
simulação rodou em câmera lenta na escala dos nanossegundos. O homem em questão
chegou por trás da árvore, bem perto das vítimas, deu um salto e caiu no meio
do semicírculo. Todos caíram na hora. No detalhe, ele ficou de frente para o
teuto. O desconhecido ergueu a vítima fatal do chão, com uma das mãos pelo
pescoço, olhou bem nos seus olhos, sacou a navalha Auguste Bain, encostou a
lâmina na carótida e, por fim, jogou o corpo contra a árvore.
— E monta o cenário teatral inteiro para, por
fim, desaparecer como em um passe de mágica em meio à escuridão.
Os dois agentes da lei se entreolharam.
Experimentados, não tinham nada a dizer; pensavam que já tinham visto de tudo
em termos de crime e violência.
— Fantástico. Impossível... É uma afronta
total às leis da física, da mecânica e da própria humanidade, Jorge! — falou
Gilberto, olhando para a cena congelada na frente de ambos.
— E tem mais: os pulsos magnéticos que vemos
hoje e que atingem pontos da cidade nasceram nesse evento específico. Os teus
belos computadores devem mostrar que o tal pulso andou com ele por uns trinta
metros, se expandiu para trezentos metros, jogando as nossas vítimas no chão e
depois se retraiu para o raio de trinta metros que vemos hoje na praça —
resumiu Jorge, olhando para o primo.
— E como tu sabe de tudo isso, tenente? —
perguntou Gilberto.
— A rua! As informações vêm das ruas. Na
verdade, sinto muita, mas muita falta de quando um crime era simplesmente um
crime e nada mais. — Jorge fez uma pausa e continuou: — Uma pausa ou tocamos
direto?
— Pausa, tenente. Já passou da hora do
recreio — respondeu Gilberto.
Jorge andou e se acomodou na cadeira atrás da
mesa de reunião, ficando de frente para a grande tela desligada. Gilberto foi
até o frigobar e pegou duas garrafas de cerveja japonesa. Ele tinha lá as suas
reservas com o companheiro de trabalho, parente distante e, há pouco tempo,
amigo íntimo. Não pelo que Jorge se esforçava para aparentar ser, mas pelo fato
de saber muito mais do que demonstrava. Tinha a habilidade de constatar o óbvio
e não refutar o improvável ou o impossível de cada situação. O fato era que o
tenente da PM poucas vezes errava nos casos em que trabalhavam juntos.
— E o cubano? Coloca o charuto cubano na
roda, seu mão de vaca! — Os gritos do policial militar trouxeram Gilberto de
volta à realidade.
Gilberto gostava cada vez menos dessa faceta
que começava a conhecer no amigo; o típico militar de poucos sorrisos e
disciplina marcial estava dando lugar a outro homem. O policial civil deixou as
cervejas importadas em cima da mesa e foi buscar os charutos caribenhos,
guardados na gaveta da mesa de trabalho. Após acenderem os cubanos e darem uma
boa baforada, o gosto que nascia na língua, descia até a barriga e morria como
prazer na mente de ambos durou pouco mais de alguns minutos.
Gilberto olhou para a tela de LED e viu a
sétima simulação pausada, enquanto Jorge mantinha o olhar perdido na mesa. A
dura realidade se impunha, inevitável. Depois de sentir o gosto do tabaco
caribenho e dar uns bons goles nas importadas do Oriente, era hora de quebrar o
silêncio.
— Jorge, tem algo de muito errado até agora.
Faltam pedaços, tem coisas que não batem...
— A simulação número sete? É essa mesmo que
passa atrás de mim agora? — falou Jorge, de forma sonolenta, enquanto girava a
garrafa de cerveja.
Gilberto, que observava a animação, pensou e
repensou. Na tela grande, o elemento projetado ganhava velocidade, acompanhado
por uma onda eletromagnética que paralisava aparelhos elétricos, eletrônicos e
mecânicos num raio de trinta metros. Ele dava um salto, subia trinta metros e
caía no meio do semicírculo. Após derrubar as vítimas, o campo magnético se
expandia para trezentos metros, deixando-as desacordadas no chão. O agressor
então voltava para a vítima fatal, agarrava-a pelo colarinho antes que caísse,
erguia o corpo, cravava a navalha Auguste Bain na garganta e o projetava contra
a árvore, onde o homem escorregava coberto de sangue até a base do tronco.
— Os dados só podem estar errados — ponderou
Gilberto.
— Olhe de novo — indicou Jorge.
— Onde, santo Deus? Olhar o quê? — estava
indignado o investigador,
Jorge pegou o palmtop e, com o indicador
direito, circulou o ponto exato do salto do assassino e o ponto de
aterrissagem.
— Há uma pequena depressão no asfalto na
subida e uma um pouco maior na descida. A única impossibilidade aí é a árvore,
ora bolas. Era para haver galhos quebrados e folhas no chão. A outra anomalia é
que mais ninguém na região foi atingido pelo pulso a ponto de sofrer o menor
mal-estar — falou Jorge. — Vi as duas depressões enquanto isolava a cena do
crime.
— Por Deus, homem! Não é só isto. Homem ou
máquina, nada neste tempo ou neste planeta pode fazer uma coisa destas. Olha o
jato de sangue que jorrou do pescoço da vítima. Deveria ter espirrado em cima
do agressor, mas se projetou direto nas outras vítimas que já estavam no chão —
apontou Gilberto na simulação.
Jorge olhou bem nos olhos de Gilberto,
levantou a garrafa e deu um grande gole, sem desviar o olhar do parceiro na
outra ponta da mesa. Depois, olhou para trás, encarou a simulação de
computador, pegou o palmtop e desligou a tela grande.
— Adérito Muteia — falou Jorge.
— Quem? — perguntou Gilberto.
— O teórico que estuda estética e literatura
moderna e pós-moderna. No livro dele, Realidades!
ele faz a seguinte pergunta no título: "O que é a realidade?" Ele
propõe nessa obra que certos fragmentos de realidades distorcidas aparecem aqui
e acolá, em pequenas doses, antes de a humanidade dar seus pequenos e grandes
saltos evolutivos. Até pouco tempo, vivíamos escondidos em cavernas escuras,
com a nossa natureza selvagem e mais nada, até que um de nós esbarrou no fogo e
tudo mudou de uma hora para outra.
— Não compreendo, Jorge...
— Não me interrompa, ora bolas, na minha
dissertação... que, a bem da verdade, nem é minha. Voltando: até ontem a Terra
era plana, o conhecimento era um mal supremo a ser combatido, ler e escrever
era crime para a maioria e pensadores eram queimados vivos nas fogueiras
santas... Digo isso aqui no Ocidente. Aqui e acolá, as verdades obscuras
impostas foram sendo derrubadas e vencidas por alguns rebeldes, exilados,
presos e mortos por propor o fim dos disparates obscurantistas. Em suma, amigo
velho, a realidade não é o que a gente pensa que é, e sim aquilo que
imaginamos. Uns imaginavam que um Deus, lá das alturas, comandava os nossos
destinos, até que algumas pessoas passaram a dizer que não era bem assim, que
somos donos do nosso próprio nariz. No nosso caso aqui, meu caro, o que o
computador simula pode, sim, ser a realidade, se a gente assim quiser. Agora,
só posso olhar para as simulações como meras simulações. Mas quando encaro a
frieza delas, não posso conflitá-las com o que houve, pois elas podem ser a realidade
pura e simples, mesmo que só na minha mente e por alguns instantes. Os corpos
no chão... eu pensei que estavam mortos assim que os vi. Mas não estavam. Nem
todos ali estavam mortos. Tudo isso segundo o teórico africano Adérito Muteia,
meu caro amigo. Posso concordar em alguns pontos e discordar em outros, mas
podemos usar as ideias dele no nosso caso — discursou Jorge, como se fosse um
catedrático sonolento e não um tenente da PM.
— Não consigo engolir estas ideias, meu
amigo. Não mesmo. E antes que eu me esqueça, esse tal professor africano cabe
como uma luva na descrição do nosso agressor. Um detalhe que não te passou
batido, imagino. Como um estrangeiro exilado, um pensador com histórico de
rebeldia, ficou de fora dos nossos olhares? — rebateu Gilberto.
— Chega, meu amigo. Realidades, mentiras,
erros e acertos... É isso e nada mais. Se eles queriam o como e não o quem, é isso aí que vamos entregar. E para o caso seguinte,
dispenso as novas tecnologias digitais. O próximo é bem mais fácil que esse da
praça. Como tu mesmo definiu: do mais complexo para o mais simples! — disse
Jorge.
— Antes, Jorge, o que houve com as vítimas
não fatais que foram parar no chão? — perguntou Gilberto.
— Quando cheguei lá, pensei que estavam todos
mortos, mas estavam numa espécie de coma profundo, como já te disse. Os corpos
estavam quentes, um pouco acima da média da temperatura humana, e sem hematomas
sérios aparentes. Foram levados ao hospital de imediato e, assim que deram
entrada, acordaram quase ao mesmo tempo. E estavam bem. Descreveram as mesmas
coisas, com pequenas variações: uma leve amnésia e uma cegueira momentânea, mas
ambas desapareceram bem rápido. Passamos para o caso seguinte, irmão — cortou
Jorge.
Gilberto pegou o segundo envelope pardo, que
estava a poucos centímetros dele. Abriu-o e expôs um relatório de poucas
páginas batido à máquina de escrever, espalhando algumas fotografias em preto e
branco em cima da mesa. O policial civil estava tenso ao extremo. Queria que as
coisas tomassem outro rumo, mas o mundo caminha alheio às vontades de qualquer
um; muitas vezes é assim que a banda toca. Era esse o sentimento de Gilberto
naquela hora limite.
— Enfim, um crime um pouco mais simples... Ou
quase simples.
— Como vamos abordar este, Gilberto? —
perguntou Jorge.
— À moda antiga, meu velho, e sem essas
parafernálias eletrônicas. Primeiro, o que já sabemos dele, que está ligado ao
primeiro caso em vários pontos. Um fato bem relevante é a onda magnética, que
agiu em ambos os cenários — falou Gilberto, apontando para a fotografia da
viatura da PM. Ele seguiu: — Também agiu na praça, pelo que parece.
— Mas com uma diferença abissal, meu grande
amigo investigador. A onda que atingiu a praça desligou os aparelhos elétricos,
eletrônicos e mecânicos primeiro em trinta metros, depois o raio cresceu
exponencialmente para trezentos metros para só então voltar para trinta de
novo. Já esse segundo pulso apenas queimou os aparelhos eletrônicos; na
verdade, torrou tudo, e há pouco tempo atingiu os componentes mecânicos —
explicou Jorge.
— Lugar ermo, diferente da praça movimentada;
três vítimas fatais e policiais militares; arma de fogo versus arma branca.
Aqui no caso dos policiais tem um ar de profissionalismo; no caso da praça, uma
leve dose de crime passional. Mas ambos parecem acertos de contas — ponderou
Gilberto.
— Certo, amigo investigador. Quer saber se
esse é mais um crime ritualístico? Passa-me as outras fotografias...
— Claro que quero. Afinal, quem morreu aqui —
disse o militar, apontando para a foto — foram os meus companheiros de farda.
Fomos todos mobilizados para o local assim que fomos informados do ocorrido.
Isso não é uma simples questão de protocolo e ordem unida.
— E o que tu encontraste por lá? — perguntou
Gilberto.
— Vamos do mais simples para o mais complexo
desta vez. A primeira pergunta é: como eles foram parar em um lugar ermo
daquele, sem avisar ninguém e quebrando o protocolo? Primeiro, o sargento
Tavares e os outros dois oficiais desligaram os rádios, os celulares funcionais
e pessoais, o tablet da viatura e, depois, o GPS as câmeras frontal e traseira
da viatura. Só existem dois motivos para tomarem tal atitude, pois somente um
oficial graduado a distância ou o primeiro em comando da patrulha podem fazer isto.
O primeiro motivo é legal, o segundo é ilegal. Vamos primeiro ao segundo...
— Na ilegalidade? — perguntou Gilberto,
intrigado, pois conhecia este protocolo da patrulha.
— Na necessidade de interrogatórios mais
duros, um ato ilegal puro e simples, uma conversa com um informante ou, ainda,
um alinhamento com elementos de outras agências de segurança dentro e fora do
protocolo. E ali, em meio ao barulho das ondas e sem ninguém à vista, vai
saber... É um bom lugar. Procedimento ilegal, porque não está nos manuais da
instituição, mas é tolerado — explicou o tenente.
— É o teu instinto policial que fala? —
perguntou Gilberto.
— O meu faro de cachorro vadio, de um
vira-lata das ruas! Conhecendo bem a fama do Tavares, um achaque é bem mais
provável. Mas vamos ao que interessa de fato: Tavares foi alvejado no peito e à
queima-roupa, os resíduos de pólvora apontam para isto. Olha bem como o
sargento patrulheiro ainda está de pé, curvado para trás contra o lado esquerdo
do capô da viatura por causa do impacto. E os outros dois militares foram
alvejados na cabeça ainda no banco traseiro. O elemento usou uma Luger P08,
mais uma velharia alemã do Velho Mundo. Então aqui temos um saudosista, meu
amigo. Outro saudosista, na verdade, pois o da praça também é um conservador
saudosista. Temos dois tradicionais: um corta e o outro usa arma de fogo das
antigas.
— Acabou a digressão? — perguntou Gilberto,
nervoso.
— Claro que não. Olha como os dois militares
estão dispostos, cada um com a cabeça encostada na janela trincada da viatura.
Os tiros formaram mais um triângulo equilátero invertido. Outra
incompatibilidade física para tu pôr no teu caderninho de notas: a balística
deu conta de que todos os três foram mortos pela mesma arma. A mesma arma
dispara quase simultaneamente, pegando os três policiais graduados e
experimentados de surpresa? Três disparos quase simultâneos em três policiais
experientes que sequer se defenderam? E como as balas atravessaram os vidros à
prova de balas? — questionou enfático o tenente Bastos.
— Quais são os fatos óbvios? — perguntou
Gilberto.
— Tem duas obviedades aqui. Uma é que os
crimes estão mais ligados do que parecem; a outra é que são motivados por
circunstâncias diferentes — expôs Jorge.
— Ligados? Como, tenente? — insistiu
Gilberto.
— Os campos magnéticos que estavam em torno
da viatura eram de trinta metros. Os jornalistas e os teus sagazes amigos
peritos criminais tiveram que recorrer a máquinas fotográficas analógicas
antigas, com filme, como no outro caso. E o que salta aos olhos de uma mente
mais atenta é a flor negra Halfeti deixada no capô da viatura; é a mesma que
estava em cima da vítima fatal da praça. As mesmas flores que vimos na loja da
condessa gótica, Fá Butler Rodriguez, aliás — disse Jorge, com entusiasmo.
— Então é só isso? Mais nada? — perguntou
Gilberto, fatigado.
Jorge era um bloco de gelo naquela hora. Não
queria nem pensar no rumo que aquela conversa tomaria. Estava farto dos muitos
porquês do amigo, mas, como bom militar, tinha de estar preparado para tudo. De
repente, sentiu falta de ter uma arma mais pesada ali, naquela situação limite.
— Te dei o que tu querias. Agora quer saber
como nós estamos envolvidos nas mortes? — perguntou Jorge, de mau humor.
— Passo a bola para ti, parceiro, pois aí já
é outra obviedade... A obviedade suprema — respondeu Gilberto.
— Tem razão, nego velho. São dois crimes
ritualísticos, praticados por elementos diferentes e por motivações diferentes.
Provavelmente pertencem aos mesmo grupo criminiso. Vamos mapear os nossos casos
recentes na grande tela de LED — sugeriu Jorge.
Gilberto alimentou o programa usando dados
compartilhados entre as duas polícias. O civil digitou flor negra Halfeti,
puxou o histórico de três meses e limitou o perímetro ao entorno do centro da
cidade. No sistema, múltiplos triângulos logo surgiram na tela grande.
— Gilberto, amplia a área geográfica e joga o
tempo para sete anos, por favor — pediu Jorge.
Outros triângulos foram aparecendo em várias
dimensões: trezentos metros, trinta metros e três metros. Triângulos dentro de
outros triângulos.
— Temos aí o nosso padrão, mas difere e muito
dos dois primeiros casos. Os primeiros são execuções violentas, feitas por mãos
profissionais, puras e simples. Então, Gilberto, meu irmão, quando vamos
prender a tal condessa gótica, Fá Butler Rodriguez? Quando? E como ninguém
percebeu estes padrões até agora? — disse Jorge, nervoso.
Gilberto, que olhava para a tela grande, foi
até a janela, que se abriu automaticamente quando ele se aproximou. Lá fora,
viu as luzes da cidade e, em destaque, as duas torres gêmeas Fiote e
Xoclengue. Avistou, com certa dificuldade, os drones bem ao alto
que patrulhavam o quartel da Polícia Militar. Queria dizer para o parente,
amigo e colega de ofício que uma coisa era o ideal e a outra era a dura
realidade. Mas precisava se conter; ele sabia o que se passara depois das duas
últimas execuções. A onda de pequenos crimes que tinha se espalhado pela cidade
vinha recuando a índices mínimos, mas caía. E Gilberto precisava ver até onde
ia o poder do outro de ligar os pontos.
— Ninguém será preso, Jorge. Nem agora e nem
tão cedo. — O policial civil nem se preocupou em olhar nos olhos do parceiro
para dar o veredito. — Aqui é o como
e não o quem que interessa, meu
bom amigo.
— Mas o que...
— Isso é briga de cachorros grandes. E a dona
madame gótica, se é que foi ela mesmo, passou de todos os limites e vai receber
o que merece, mas isso vem ao seu devido tempo. A questão não está nas nossas
mãos...
— Justiçamento? — perguntou Jorge, abalado.
— São muitas obviedades se juntando a
obviedades supremas. Tu fazes perguntas demais, parceiro — disse Gilberto e
continuou — As coisas são assim, acima das nossas possiblidades e atribuições.
— Então me traz aquele importado que tu
escondes da Sofia — pediu Jorge, vencido. Mais do que acostumado com tais
situações, o tenente sabia quem eram os elementos menores abatidos: vinham do
submundo do crime. Não desperdiçaria lágrimas com criminosos mortos. E os
justiceiros, um dia, serão justiçados... O tenente Jorge Bastos bem sabia
disso.
Fragmento do
livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestade e frio. Texto de
Clarisse Cristal — poetisa, contista, novelista e bibliotecária de Balneário
Camboriú, Santa Catarina.
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