segunda-feira, 1 de junho de 2026

ATRATO (QUANDO ELA TRESPASSOU A SIBILINA BRUMA)



Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

Gilberto Mattos Gama divagou em uma profunda viagem interna. Queria encontrar respostas para as muitas perguntas que precisava responder naquele exato momento. Era inevitável vislumbrar a estranhíssima figura de Fá Rodrigues Butler, enxergá-la flanando pelas ruas em meio à bruma notívaga, em perdidas horas da noite.

O investigador da Polícia Civil, imaginou Fá em suas vestes negras, em um eviterno atrato, trespassando a sibilina bruma noctâmbula em busca da próxima vítima. Quando foi que ela mergulhou naquela escuridão profunda? Era uma das perguntas que Gilberto fazia para si, e somente para si, dentro do táxi que o levava para casa, ladeado pelo tenente Jorge Bastos. Mattos Gama sabia que ambos tinham um papel muito importante nos mistérios que envolviam a paisagista clássica.

— Gilberto, meu parceiro, eu não sei como tu anda assim à noite, a pé e desarmado pelas ruas! — falou o tenente Jorge Bastos.

O motorista do táxi aguçou as orelhas ao ouvir o início do diálogo, mas o profissional do volante optou por subir o vidro escuro e blindado que separava os clientes do condutor, para a segurança de ambos.

— Vou te repetir o que um dos meus instrutores de tiro vivia dizendo enquanto me treinava na academia da Polícia Civil: "O melhor amigo do ser humano é o bom senso!" Ele vivia dizendo isso quando lhe faziam a mesma pergunta que tu acabou de me fazer, meu amigo. Pois o homem, um perito em armas e que me treinou, não andava armado e nem tinha armas de fogo em casa. Só no porta-malas do carro, quando ia e vinha do trabalho. E ele foi o melhor perito em armamentos que eu já tive a honra de conhecer nesta vida. O homem se aposentou com sessenta anos, dos quais mais da metade foram a serviço da segurança pública — ponderou Gilberto.

— Maluco o cabra! — disse Bastos, levando a mão ao queixo.

— Outra coisa! No dia em que eu não me sentir à vontade andando pelas ruas da minha cidade, onde nasci e cresci, eu mudo de cidade. Vou para um grande centro urbano trocar tiro com bandido armado até os dentes — rebateu Gilberto.

— Tu que sabes, parceiro, tu que sabes...

Jorge Bastos bateu com certa força com as costas da mão esquerda na janela do táxi, como se testasse a blindagem. Então o painel do veículo avisou o taxista das leves batidas; acostumado e sabendo quem estava conduzindo, ele evitou olhar para trás. Mas os toques na janela serviram para alertar Gilberto sobre o temperamento do parceiro ao lado.

Em seus mais de vinte anos no serviço de segurança pública — considerado o tempo em que fazia a faculdade de Direito —, Gilberto já tinha visto o que considerava reações extremas. Era o que acontecia quando policiais civis, militares e outros agentes da lei elevavam o nível de estresse ao máximo do impossível, em situações que nunca acabavam bem. Passavam a ver perigo no virar de cada esquina, a cada sombra, em pequenos gestos, suspiros ou espirros de quem passava ao lado.

O táxi rasgou as ruas da zona portuária, avançou por uma área de moradia popular e parou na frente de uma casa luxuosa em um bairro de classe alta, afastada do perímetro urbano. Nessas horas, Gilberto sempre se sentia constrangido toda vez que precisava explicar aos amigos próximos, os motivos de viver tão bem sendo um simples funcionário público, com um parco salário. O fato era que ele era filho, irmão, sobrinho, primo, neto e bisneto de juízes, promotores públicos, grandes juristas e políticos influentes, tanto do lado paterno quanto do materno. Indo mais longe, a sua árvore genealógica somava séculos de magistrados e advogados envolvidos em grandes causas e ocupantes de cargos públicos importantes. Das duas linhagens dedicadas ao mundo das leis e dos grandes debates públicos há mais de cento e cinquenta anos, Gilberto herdou uma enorme biblioteca jurídica e uma pequena fortuna, o que explicava o conforto em que vivia.

Foi em uma luta interna cheia de ponderações que ele tomou duas atitudes no mundo real, que o fizeram ter a certeza de que, na vida, ele mesmo não tinha certeza alguma. A primeira foi quando decidiu romper com a tradição familiar, ao terminar o curso de Direito, prestou concurso público e ingressou na Polícia Civil sem que ninguém soubesse. Ele logo imaginou um drama familiar ao contar a decisão em um almoço de domingo. Lembrou de como o pai e o avô desconversaram logo após o anúncio feito de forma desesperada. Como Gilberto pôde pensar que, em meio a tantos advogados renomados, ninguém das duas famílias perceberia a sua manobra. O segredo de Gilberto, não era segredo para a família influente. Sem entender nada, ele viu a mãe correr para buscar o antigo álbum de família. Foi assim que descobriu um segredo bem guardado: uma gama de obscuros personagens aventureiros em ambos os lados, todos ligados ao militarismo, campanhas militares, revoltas populares, revoluções e guerras mundo afora. Os Mattos e os Gama viviam se relacionado em si e se metendo em confusões desde que foram forçados a sair da velha Europa para o exílio no Novo mundo.

A segunda atitude foi o seu enlace com a Sofia, uma jovem advogada negra e filha de um consagrado líder sindical e comunista, agitador de massas em muitas marchas e greves. Gilberto revelou o romance com aquele espírito livre em outro almoço de família. Eles tinham se relacionado quando cursavam a faculdade de Direito, se afastaram depois de formados e acabaram se reencontrando poucos anos depois. E, mais uma vez, era um segredo que todos na família já sabiam.

Lá veio a mãe de Gilberto de novo, correndo com o velho álbum, para lembrar ao filho que os Mattos e os Gama já se envolviam com negros e negras desde antes da campanha abolicionista e republicana no século XIX. Os enlaces com indígenas e negros vinham de longa data. Tanto os homens quanto as mulheres, das duas famílias! E nas palavras descontraídas da mãe de Gilberto, a matriarca dos Bastos Gama, no almoço de domingo da família: "Em tempos idos, os membros das duas famílias não dispensavam uma carne negra por nada"! Gilberto também descobriu, folheando o álbuns de fotografias, um parente distante, que era comunista que se exilou na velha Europa, além de outros elementos que participaram de revoltas e guerras no Velho Mundo.

De volta ao tempo presente, Jorge sacou um cartão magnético para pagar a curta viagem de táxi, mas Gilberto já tinha feito o pagamento via aplicativo no celular. Jorge não gostou nada da atitude, mas o investigador ponderou que fora ele quem marcara a reunião na própria casa e insistira em irem de táxi. Fazia tempo que Jorge queria debater os estranhos hábitos do parceiro: marcar reunião no meio da rua, andar a pé, desarmado e, por fim, andar de táxi. O policial militar desconfiava das atitudes do primo e parceiro de combate ao crime. Para Jorge, havia algo de nebuloso por debaixo daquela dura carapaça de um racionalismo ortodoxo positivista.

Jorge Bastos, o primo distante de Gilberto, amava ser policial militar, vindo de uma trajetória familiar bem menos glamorosa. Descendente de pescadores artesanais e industriais, os seus familiares eram simples trabalhadores do mar. Jorge também rompeu a tradição ao entrar para o serviço militar obrigatório aos dezoito anos. Foi então que um mundo novo se abriu para o jovem de vida humilde. Descobriu um universo onde a ordem, a disciplina e a hierarquia rígida de um mundo marcial lhe abriam novas possibilidades além da vida civil. Marchas e contramarchas para sagrar o grande deus Marte, o deus romano da guerra e Ares, o deus grego da guerra. Incendiado por esse ideário de ser útil à sociedade, ao sair do quartel Jorge engraçou na Polícia Militar para dar continuidade à carreira de forma mais efetiva. Foi em ações conjuntas entre as forças de segurança, que Gilberto e Jorge se encontraram e descobriram os laços familiares. Os dois polos equidistantes que se deram as mãos em uma aliança para combater o crime e levar ordem ao caos.

E naquele exato momento, o caos era uma série de assassinatos de elementos menores do submundo dos pequenos delitos e do crime organizado. Não eram assassinatos comuns; eram pequenos espetáculos de horror tétrico, que ocorriam sempre na calada da noite, na alvorada negra, para ganhar destaque à luz do dia. Era sempre no alvor de um novo dia que os espetáculos lôbregos ganhavam vida e um público sedento de sangue cada vez maior. Afinal, alguém — ou algo — andava limpando as ruas dos seres ditos indesejáveis por boa parte da sociedade. Foi com o ímpeto de dar fim àquelas cenas tenebrosas que o investigador Gilberto uniu forças mais uma vez com o tenente Jorge.

Ao adentrar a casa de Gilberto, Jorge teve o choque visual de sempre. O policial militar conhecia o estilo arquitetônico da escola Bauhaus, da qual Sofia era uma fiel seguidora incondicional. Desde o primeiro dia em que pôs os pés ali, Jorge passou a detestar a funcionalidade fria e esdrúxula da escola modernista alemã. Como uma mulher como Sofia podia seguir uma escola teuta? O lugar era cheio de móveis tubulares, misturas estranhas de plástico, madeira e metal, além de espelhos hexagonais. Havia também as luminárias vermelhas e amarelas com forMattos cônicos esquisitos que despencavam do teto por finas hastes de metal, quase batendo na cabeça de quem andava pelo ambiente. Jorge achou engraçado ver um vaso de flores vazio que lembrava um projétil de canhão e, mais estranho ainda, um bule de leite ao lado de um busto romano. Eram muitas as dúvidas e estranhezas vagando na mente do tenente.

Naquele dia, o que saltou aos olhos do oficial da PM foi um quadro em tamanho natural que fugia totalmente ao minimalismo futurista da escola alemã. Estava soberana no alta da parede oriental da sala de estar! Era uma obra forjada no romantismo Greco-italiano, envolta em uma névoa renascentista: uma jovem mulher cigana grega, loura e de olhos vívidos, que parecia flutuar no vazio, com olhos em chamas e um belo sorriso. Jorge não soube o porquê de se emocionar ao olhar para a tela e refletiu profundamente sobre o que aquele quadro fazia ali.

— Um dia ainda venho aqui armado com um lança-chamas e coloco fogo em tudo isto. Mas, antes, salvo essa obra de arte magnífica — disse Jorge, sem nem se dar ao trabalho de olhar para Gilberto. Estava ocupado demais contemplando o quadro.

— Não fala bobagem. Quem vai fazer isso um dia sou eu mesmo, não te dou esse gostinho nem a pau. Vamos ao trabalho, meu bom amigo — falou Gilberto.

 — Ainda fico intrigado como uma comuna ortodoxa do tipo da Sofia — negra, filha e neta de comunistas agitadores — tem um gosto estético burguês igual a este! Coisa de louco mesmo, irmão — ponderou Jorge.

— Eu nem penso mais nisto. O quadro aí em cima, que tu não para de babar ovo, é de um ex-namorado dela, um affair com um estudante de Belas Artes. Ela conheceu o tal pintor, quando estava fazendo pós-graduação na velha Berlim. E para te espantar ainda mais, o carinha é brasileiro nato e é mais negro do que ela. Vai entender um troço desse... E antes que tu me perguntes, eu comprei a peça do tal pintor de presente para ela, sem saber do enlace deles na sagrada e velha Alemanha. Comprei em um disputado catálogo de artes. De novos e promissores artistas. Fiz isso para quebrar este clima modernista e pós-modernista que a Sofia criou para a gente viver. E que o teu lança-chamas passe bem longe dessa preciosidade, pois a Sofia te mata com requintes de crueldade, com toda a certeza deste mundo! — disse Gilberto o enciumado policial civil.

— Então vamos ao trabalho, meu caro amigo. Onde fica o teu porão? — perguntou Jorge, que só fizera visitas sociais anteriormente; aquela seria a primeira vez a trabalho.

— Porão? O meu escritório de trabalho, meu parceiro, não é no porão. No meu subsolo, o meu pai insistiu para eu fazer uma adega, aqui em casa. Logo eu, que sou abstêmio, pelo menos em casa. Às vezes penso que meu pai me detesta de verdade. Depois passamos por lá e te dou de presente uma boa cachaça artesanal que a Sofia me trouxe da velha Alemanha, outro presente do tal artista. As escadas ficam atrás da tua nobre pessoa — falou Gilberto.

Os dois homens da lei subiram lentamente por uma escada de madeira Palo-Santo sem corrimão, com Jorge à frente como um desbravador cauteloso. Foram até o segundo piso, onde havia uma imponente porta da mesma madeira escura, cujos detalhes artísticos artesanais chamaram a atenção do tenente. Um talentoso artesão havia trabalhado ali por meses, entalhando cenas que retratavam o cotidiano simples do povo do campo misturado com cenas sacras, bem típicas da Península Ibérica. Jorge quis perguntar quem era o artesão, mas não se atreveu. No imaginário do oficial, bem poderia ser outro ex-namorado de Sofia.

— Está aberta, Jorge. É só empurrar — disse Gilberto.

— O teu local de trabalho fica aberto sempre? Para um proeminente agente da lei, tu és muito descuidado, parceiro — ponderou Jorge.

— O teu proeminente olhar anda um pouco cansado, bom amigo. Nem notou as muitas câmeras de segurança espalhadas pela casa — alertou o policial civil.

— Tás de brincadeira! Só pode ser! Como uma peça desse naipe tem maçanetas cromadas? Isso é um crime! — disse Jorge, que tivera de mergulhar no estudo de estética e história da arte depois que se casou com Yamaguchi, uma arquiteta estudiosa das culturas arquitetônicas latinas europeias, latinas americanas e caribenhas.

— Abre essa joça. A porta é imponente, eu sei, mas é leve — falou Gilberto, não escondendo o nervosismo.

Jorge levou a mão à maçaneta cromada. A porta era mesmo leve como uma pluma, e as luzes se acenderam automaticamente. O local de trabalho de Gilberto era moderno, equipado com impressoras a laser e matriciais de grandes e pequenos modelos, dispostas em uma robusta mesa artesanal também de Palo-Santo. Havia um computador de mesa de último modelo em uma escrivaninha em L com tampo de vidro, além de uma luminária articulada no canto esquerdo. Uma escrivaninha menor, mas não menos imponente, ostentava uma antiga máquina de escrever importada, uma Kanzler alemã. Uma enorme tela de LED atrás da escrivaninha contrapunha-se a uma tela de projeção em tripé no lado oposto. Jorge notou um telefone de linha instalado na parede ao lado das impressoras, outro aparelho perto do microcomputador e um terceiro ao lado da velha máquina de escrever teuta. Uma moderna mesa de reunião de vidro com pés de aço inox e oito lugares com confortáveis cadeiras também compunha o ambiente. Um pequeno frigobar se impunha discretamente ao lado da porta de entrada.

Jorge calculou que ali repousavam apenas sucos e água mineral. Todos os móveis e objetos eram bege-claro, e somente o frigobar era preto. Muito vidro e plástico, quase nada de madeira compunha o escritório. Nenhum quadro ou fotografia existia ali para humanizar o lugar; tudo era frio e funcional. No amplo espaço, poderiam trabalhar de três a quatro pessoas enquanto outras oito se reuniam ao redor da grande mesa. Jorge notou a falta de livros de Direito decorativos, sinal de que ali era o local de trabalho estrito de Gilberto, famoso por fazer consultas apenas em textos digitalizados. A célebre biblioteca jurídica devia estar em outro lugar. O policial militar imaginou que ali, na verdade, funcionava um pequeno gabinete de crise ou uma pequena redação de veículo de comunicação quando necessário.

— Então é aqui que a magia acontece? Gilberto, meu amigo, vamos ao que interessa. O que vamos fazer afinal? Qual é a nossa missão hoje? — perguntou Jorge.

— Então, tenente, vamos simplesmente repassar um caso antigo. Na verdade, dois casos antigos. Para entender como chegamos aqui, preciso do teu olhar apurado de militar disciplinado e do teu faro de rua! — disse Gilberto.

O investigador caminhou a passos compassados até a escrivaninha, sacou dali dois envelopes pardos, finos e sem identificação, e os jogou em cima da mesa. Jorge estranhou, pois os relatórios de casos geralmente eram volumosos. O alarme do tenente disparou na hora.

— Só isso? Cadê o resto dos arquivos, meu caro? — perguntou Jorge.

— Calma, tenente, é o que temos para hoje. Aqui não vamos nos concentrar no quem, e sim no como. É só isso por enquanto. No mais, vamos usar e abusar das novas tecnologias digitais para dar celeridade — falou o policial civil, colocando os envelopes um em cima do outro e dividindo-os em seguida. — São casos atípicos, meu caro amigo. Nada comuns. O povo lá de cima sabe quem são os autores, ou têm ideia de quem sejam presumo eu. Só falta resolver o como para desvendar os porquês subsequentes.

— Moreira César? — perguntou Jorge, enfático.

— Um pouco mais acima! Bem acima, aliás. René Descartes que me perdoe, mas vamos do mais complexo para o mais simples — desconversou o policial civil para evitar embaraços, pois nem ele sabia direito quem era o tal povo lá de cima.

Gilberto sacou um estilete de uma gaveta e abriu o primeiro envelope, retirando uma série de fotografias em preto e branco e distribuindo-as ao longo da mesa. Eram imagens da cena de um crime ocorrido na praça onde estiveram há pouco: corpos simetricamente espalhados no chão em meio à semiescuridão.

— Jorge, reconhece a cena? — perguntou entredentes o investigador.

— E como eu não poderia reconhecer? Fui o primeiro a chegar ao local da ocorrência, apesar de a área de patrulhamento não ser a minha de fato. Estranho mesmo esse crime, do princípio ao fim. Por Deus, que saudade do tempo em que um crime era só um crime e não passava disso — falou Jorge.

— Então, o tenente me conta o que...

— O que houve? Então evoco René Descartes e vamos do mais simples para o mais complexo. Eu respondi a um chamado pelo rádio, me dirigi para o local que me despacharam e mais nada, simples assim. Chegando lá, me deparei com essa cena aí da fotografia — disse Jorge, pegando uma das imagens e olhando-a bem de perto, como se puxasse da memória os detalhes daquela noite fatídica.

— Eu posso dizer que é um assassinato ritualístico, Jorge? Ou algo próximo disso? — perguntou Gilberto.

— Engraçado tu falar em assassinato no singular. Quando a gente chegou lá e viu esses corpos espalhados pelo chão, pensamos logo em um massacre. Sim, há muitos elementos de ritual aqui. Carrega o computador e projeta na tela de LED, por favor — sugeriu Jorge. E assim Gilberto fez.

Jorge se virou e viu a fotografia projetada em alta resolução. Gilberto se antecipara ao pedido, e o tenente já estava acostumado com a agilidade do parceiro. A imagem projetada mostrava o corpo sem vida de um homem teuto encostado em uma frondosa e secular árvore e, ao pé dela, cinco corpos perfilados.

— Por que tu diz que é um assassinato ritualístico, tenente? — perguntou Gilberto.

— Tenente? Faça-me o favor... Mas vamos lá. Por favor, vamos às três dimensões! — pediu Jorge.

Gilberto compilou as trinta fotografias e buscou outros arquivos das câmeras de vigilância, drones, registros da internet, portais de notícias, blogs e redes sociais digitais, tudo relacionado ao crime na praça. O policial civil fez a justaposição em três dimensões de todo o material entre fotos e vídeos, eliminando os elementos em volta e deixando apenas os corpos no chão.

— Olha bem! São duas pirâmides... Dois triângulos equiláteros, para ser exato. Os elementos estão todos postos e equidistantes entre si. Perfeitos demais, até para mãos humanas, ao meu ver. Começamos pelo primeiro triângulo. Aí preciso da tua ajuda de novo, nego velho... Ou melhor, senhor Gilberto Mattos Gama senhor investigador sênior da Polícia Civil — discursou Jorge.

— Posso imaginar o que tu queres — falou Gilberto. — Veja a simetria por trás da assimetria dos corpos. O assassino buscou exatos dezessete centímetros de distância entre os dois da base, na horizontal. E ambos a dezessete centímetros da ponta, que é o corpo encostado na árvore. Claro que o relevo do terreno e os volumes biológicos criam desvios nos dos corpos da cena do crime, mas a linha vetorial pretendida é óbvia — explicou Jorge, apontando para a tela.

Gilberto usou uma caneta eletrônica para marcar as três vítimas. Na tela de LED, o software forense processou a massa irregular dos cincos corpos demasiados e do corpo sem vida, calculou os centros de gravidade aproximados e aplicou os pequenos ajustes matemáticos para compensar as deformidades físicas das vítimas. Segundos depois, o algoritmo ignorou o caos dos membros caídos e esticou linhas puras em neon azul, desenhando um triângulo equilátero perfeito sobre a imagem.

— Realmente — murmurou Gilberto, observando as correções milimétricas piscando na interface na tela. — Nem parece feito por mãos humanas, de tão exata que era a intenção da geometria. Digo isso pelo pouco tempo que os executores teriam para calcular esse arranjo no escuro.

— E note bem, Gilberto, outro detalhe: há oposições entre os elementos nas estruturas. É o nosso elemento psicológico, sociológico, ou o que tu queira chamar. Uma mulher com trajes leves e coloridos, muito magra, de pele amendoada e rosto delicado, sem maquiagem, cabelos longos... Bem feminina, por sinal. Já a outra mulher, em oposição, é masculinizada, cabelos curtos, maquiagem pesada e roupas escuras e robustas. Uma é o dia claro e sem nuvens; a outra é a noite escura e fria — traduziu Jorge.

— E o outro arranjo? Segue a mesma linha? — perguntou Gilberto, que já previa a resposta.

 — Uma estrutura em oposição à outra, é claro. Outra oposição. Tenho uma teoria muito minha, mas vou deixar isso mais para a frente, Gilberto. Primeiro o mais simples, depois o mais complexo. Na base desse segundo grupo, os quatro corpos foram dispostos para espelhar treze centímetros de distância uns dos outros — falou Jorge.

Gilberto repetiu o processo. A caneta eletrônica tocou os novos alvos, o sistema computou as massas assimétricas e os desvios de postura dos mortos, sobrepondo uma nova grade vetorial. O software fez a compensação e fechou um quadrado perfeito em tom dourado na tela.

— Olha como o padrão é o mesmo sob a leitura do programa, as medidas de intenção se repetem! — apontou Jorge.

Gilberto calibrou os pontos de ancoragem para estabilizar os gráficos.

— Os dois corpos na horizontal mostram outras oposições. Essa mulher de cabelo curto, de meia-idade, tem um certo ar masculinizado, mas só na atitude, creio eu. Uma mulher liberada, livre, por assim dizer. Na outra ponta, temos um homem gay, o que revelam as roupas nada discretas e as unhas bem-feitas; mesmo assim, parece retraído, conservador... E quando digo conservador, quero dizer monogâmico! — apontou o Jorge

— Brilhante, tenente. Deduziu isso tudo só olhando as fotografias e o vetor do sistema? — perguntou Gilberto, intrigado com a precisão do militar.

— Parte sim, parte não. Assim que saí da academia militar, trabalhei por um curto tempo na inteligência da PM e conheço alguns desses elementos aí deitados no chão. Eu fiz a vigilância e produzia relatórios diários da maioria deles. Mas me deixa terminar, ora bolas! O topo de uma pirâmide é a oposição do topo da outra também. Como disse, essa mulher aqui deitada eu conheço bem — falou Jorge, pegando a caneta laser e contornando a figura na tela. — Assim como conheço o outro elemento a fundo. Uma mulher, uma tatuadora, que tem aversão a dor física e emocional, retraída, apegada a rotinas rígidas e totalmente transparente. Em oposição, o outro elemento é um homem, uma figura obscura do submundo do crime. É isso. Respondi à primeira questão, e aí imagino que venha a segunda. Como já disse, conheço essa gente.

— Como aconteceu? — perguntou Gilberto.

— Complicado! Aí partimos do mais simples para o mais complexo. Como te disse, fui o primeiro a chegar na cena do crime e, nossa, que saudade do tempo em que um crime era um simples crime, com mistérios simples. Cheguei ao local e vi a cena disposta desse jeito — o tenente pegou as fotos sobre a mesa, buscando os detalhes na memória. — Nada funcionava no entorno da praça, ou quase nada. Somente o trailer do velho Elias Grael, que mais parecia o sol da meia-noite. Todos os aparelhos elétricos, eletrônicos ou mecânicos tinham parado ou funcionavam muito mal. Tudo em um raio de trezentos metros era um breu só, com aquela barraca iluminando parcialmente a cena.

— O que tu fizestes? — perguntou Gilberto.

— Ora, o que fiz? Seguindo o protocolo, isolamos a área. Depois de verificar os corpos, vimos que cinco das vítimas estavam desacordadas e somente uma falecida. Acionei o pronto-socorro para os sobreviventes, reforçamos o isolamento e deixei a cena como a encontrei. Há também as imagens da câmera corporal da minha farda como registro; estranhamente, ela estava funcionando — lembrou Jorge.

— Mas em que estado estavam os sobreviventes? — perguntou Gilberto.

— Estavam em coma. Não estavam desmaiados, e sim em coma. Estavam iguais aos nossos três elementos que foram agredidos pelos neonazistas, ou pelo menos parecidos. Perguntados depois sobre o que ocorreu, eles só lembravam de um forte clarão e de mais nada. Foi aí que uni os dois grupos. Mas o que difere o pessoal da praça é a gravidade; eles levaram uma descarga bem maior, pelo que parece. Caíram e acordaram no hospital horas depois, quase simultaneamente, um por um. Os nossos heróis de há pouco acordaram mais rápido e foram sozinhos procurar ajuda. Os médicos disseram que os três pareciam ter acordado de um pequeno coma, não de um desmaio comum. Só o galego encostado na árvore morreu, claro. Já os seguidores do Adolfo e Benito foram trucidados, como se fossem atingidos por um deslocamento de ar uma potente explosão. 

— Mas como o elemento morreu? — perguntou Gilberto mais uma vez.

— Vou precisar da tua ajuda de novo, dos teus queridos aparelhos eletrônicos! Pois acredito que quem matou o teuto estava com muita raiva dele. Na verdade, aqui temos um misto de um frio profissionalismo com uma boa dose de ódio passional — falou o policial militar.

— Uma mulher na jogada, talvez — sugeriu Gilberto.

— Possivelmente, mas não me interrompa, por favor. Sei que os teus sagazes peritos fizeram várias simulações e não deu em nada. Por acaso tu tenhas cópias das simulações nos teus arquivos? — perguntou Jorge.

Gilberto correu os dedos pelos ícones do palmtop até encontrar as simulações mencionadas. Elas foram projetadas na tela grande; eram sete ao todo.

— A última, por favor — pediu Jorge.

— A última simulação? Mas Jorge, de todas, esta é a mais improvável... É impossível aliás — ponderou Gilberto.

— Ajuste o cronômetro em nanossegundos, por favor — sugeriu Jorge.

— Mas são precisos bilhões de nanossegundos...

— Para fazer tudo em apenas um segundo! Eu sei, caro amigo. Não é somente humanamente impossível, é fisicamente impossível neste mundo ou no nosso tempo presente. Assim como era impossível a birosca do Elias não sofrer nada com o campo magnético. Um fenômeno que paralisou tudo na hora e que ainda paralisa qualquer treco movido a energia. Vamos à simulação! — ordenou Jorge, enfático.

— Vamos lá então — falou Gilberto, apertando um comando.

— Deleta tudo em volta e deixa somente as nossas vítimas com a árvore ao fundo. Coloca em câmera lenta. Agora levante os nossos amigos, forme um semicírculo e coloque a vítima fatal na frente. Isso aí, meu garoto, bom trabalho. Agora vamos aos fatos: antes de darmos partida na nossa divagação cibernética, vamos escolher a arma do crime. Sei que o corte foi preciso na artéria carótida, na garganta. Lâminas, homem... Vamos às lâminas.

Com alguns cliques, uma enormidade de lâminas se projetou na tela. Gilberto passou lentamente uma por uma.

— A boa e velha navalha de barbear Auguste Bain! — apontou Jorge.

— Estás louco, homem? Para mim foi um bisturi...

— Que nada, irmão. O nosso homem é um verdadeiro artista clássico, não um açougueiro frio com um diploma de médico. Agora vamos adiante e vamos bagunçar ainda mais o coreto. Bem sei que quem é o artista não importa, mas o senhor ou senhora que cometeu esse crime — a criatura, por assim dizer — precisa de uma forma humana na simulação. Eu aposto em um homem forte, entre um metro e noventa e dois metros, um ex-militar ou agente de segurança, talvez da inteligência militar. E não faz esta cara feia, Gilberto, tenho olhos nas costas, meu caro.

Ambos não tiravam os olhos da tela grande enquanto trabalhavam.

— Vi essa criatura pelas imagens de segurança das ruas, próximas do porto e do comércio em volta. E a única testemunha que teve coragem de abrir a boca foi o Elias — disse Jorge, continuando: — O Elias Grael olhou bem para a cara do homem quando ele passou pela praça e dobrou a esquina mal iluminada antes do crime. Para mim, o homem queria ser visto, e somente pelo vendeiro, ao que parece — afirmou com segurança o tenente.

— Vamos ver para onde isso anda e onde vai parar — falou o policial civil, carregando as especificações do suspeito na tela.

— Com um morto e cinco desmaiados neste primeiro ato, ora bolas, pois ainda temos mais três presuntos nos esperando... O homem passou pelo Elias antes de as nossas vítimas darem as caras. O elemento em questão olhou bem nos olhos do velho, como quem quer ser notado. Apesar do calor, usava calça de brim, luvas pretas de couro, capa de chuva, botas de soldado e chapéu marrom. Um homem negro, de dois metros, idade indefinida... Mas eu aposto no começo dos cinquenta anos, não no fim. Faça o homem vir do sudoeste da praça, andando normalmente, e aumente a velocidade até chegar a um bilhão de nanossegundos — orientou Jorge.

A simulação rodou em câmera lenta na escala dos nanossegundos. O homem em questão chegou por trás da árvore, bem perto das vítimas, deu um salto e caiu no meio do semicírculo. Todos caíram na hora. No detalhe, ele ficou de frente para o teuto. O desconhecido ergueu a vítima fatal do chão, com uma das mãos pelo pescoço, olhou bem nos seus olhos, sacou a navalha Auguste Bain, encostou a lâmina na carótida e, por fim, jogou o corpo contra a árvore.

— E monta o cenário teatral inteiro para, por fim, desaparecer como em um passe de mágica em meio à escuridão.

Os dois agentes da lei se entreolharam. Experimentados, não tinham nada a dizer; pensavam que já tinham visto de tudo em termos de crime e violência.

— Fantástico. Impossível... É uma afronta total às leis da física, da mecânica e da própria humanidade, Jorge! — falou Gilberto, olhando para a cena congelada na frente de ambos.

— E tem mais: os pulsos magnéticos que vemos hoje e que atingem pontos da cidade nasceram nesse evento específico. Os teus belos computadores devem mostrar que o tal pulso andou com ele por uns trinta metros, se expandiu para trezentos metros, jogando as nossas vítimas no chão e depois se retraiu para o raio de trinta metros que vemos hoje na praça — resumiu Jorge, olhando para o primo.

— E como tu sabe de tudo isso, tenente? — perguntou Gilberto.

— A rua! As informações vêm das ruas. Na verdade, sinto muita, mas muita falta de quando um crime era simplesmente um crime e nada mais. — Jorge fez uma pausa e continuou: — Uma pausa ou tocamos direto?

— Pausa, tenente. Já passou da hora do recreio — respondeu Gilberto.

Jorge andou e se acomodou na cadeira atrás da mesa de reunião, ficando de frente para a grande tela desligada. Gilberto foi até o frigobar e pegou duas garrafas de cerveja japonesa. Ele tinha lá as suas reservas com o companheiro de trabalho, parente distante e, há pouco tempo, amigo íntimo. Não pelo que Jorge se esforçava para aparentar ser, mas pelo fato de saber muito mais do que demonstrava. Tinha a habilidade de constatar o óbvio e não refutar o improvável ou o impossível de cada situação. O fato era que o tenente da PM poucas vezes errava nos casos em que trabalhavam juntos.

— E o cubano? Coloca o charuto cubano na roda, seu mão de vaca! — Os gritos do policial militar trouxeram Gilberto de volta à realidade.

Gilberto gostava cada vez menos dessa faceta que começava a conhecer no amigo; o típico militar de poucos sorrisos e disciplina marcial estava dando lugar a outro homem. O policial civil deixou as cervejas importadas em cima da mesa e foi buscar os charutos caribenhos, guardados na gaveta da mesa de trabalho. Após acenderem os cubanos e darem uma boa baforada, o gosto que nascia na língua, descia até a barriga e morria como prazer na mente de ambos durou pouco mais de alguns minutos.

Gilberto olhou para a tela de LED e viu a sétima simulação pausada, enquanto Jorge mantinha o olhar perdido na mesa. A dura realidade se impunha, inevitável. Depois de sentir o gosto do tabaco caribenho e dar uns bons goles nas importadas do Oriente, era hora de quebrar o silêncio.

— Jorge, tem algo de muito errado até agora. Faltam pedaços, tem coisas que não batem...

— A simulação número sete? É essa mesmo que passa atrás de mim agora? — falou Jorge, de forma sonolenta, enquanto girava a garrafa de cerveja.

Gilberto, que observava a animação, pensou e repensou. Na tela grande, o elemento projetado ganhava velocidade, acompanhado por uma onda eletromagnética que paralisava aparelhos elétricos, eletrônicos e mecânicos num raio de trinta metros. Ele dava um salto, subia trinta metros e caía no meio do semicírculo. Após derrubar as vítimas, o campo magnético se expandia para trezentos metros, deixando-as desacordadas no chão. O agressor então voltava para a vítima fatal, agarrava-a pelo colarinho antes que caísse, erguia o corpo, cravava a navalha Auguste Bain na garganta e o projetava contra a árvore, onde o homem escorregava coberto de sangue até a base do tronco.

— Os dados só podem estar errados — ponderou Gilberto.

— Olhe de novo — indicou Jorge.

— Onde, santo Deus? Olhar o quê? — estava indignado o investigador,

Jorge pegou o palmtop e, com o indicador direito, circulou o ponto exato do salto do assassino e o ponto de aterrissagem.

— Há uma pequena depressão no asfalto na subida e uma um pouco maior na descida. A única impossibilidade aí é a árvore, ora bolas. Era para haver galhos quebrados e folhas no chão. A outra anomalia é que mais ninguém na região foi atingido pelo pulso a ponto de sofrer o menor mal-estar — falou Jorge. — Vi as duas depressões enquanto isolava a cena do crime.

— Por Deus, homem! Não é só isto. Homem ou máquina, nada neste tempo ou neste planeta pode fazer uma coisa destas. Olha o jato de sangue que jorrou do pescoço da vítima. Deveria ter espirrado em cima do agressor, mas se projetou direto nas outras vítimas que já estavam no chão — apontou Gilberto na simulação.

Jorge olhou bem nos olhos de Gilberto, levantou a garrafa e deu um grande gole, sem desviar o olhar do parceiro na outra ponta da mesa. Depois, olhou para trás, encarou a simulação de computador, pegou o palmtop e desligou a tela grande.

— Adérito Muteia — falou Jorge.

— Quem? — perguntou Gilberto.

— O teórico que estuda estética e literatura moderna e pós-moderna. No livro dele, Realidades! ele faz a seguinte pergunta no título: "O que é a realidade?" Ele propõe nessa obra que certos fragmentos de realidades distorcidas aparecem aqui e acolá, em pequenas doses, antes de a humanidade dar seus pequenos e grandes saltos evolutivos. Até pouco tempo, vivíamos escondidos em cavernas escuras, com a nossa natureza selvagem e mais nada, até que um de nós esbarrou no fogo e tudo mudou de uma hora para outra.

— Não compreendo, Jorge...

— Não me interrompa, ora bolas, na minha dissertação... que, a bem da verdade, nem é minha. Voltando: até ontem a Terra era plana, o conhecimento era um mal supremo a ser combatido, ler e escrever era crime para a maioria e pensadores eram queimados vivos nas fogueiras santas... Digo isso aqui no Ocidente. Aqui e acolá, as verdades obscuras impostas foram sendo derrubadas e vencidas por alguns rebeldes, exilados, presos e mortos por propor o fim dos disparates obscurantistas. Em suma, amigo velho, a realidade não é o que a gente pensa que é, e sim aquilo que imaginamos. Uns imaginavam que um Deus, lá das alturas, comandava os nossos destinos, até que algumas pessoas passaram a dizer que não era bem assim, que somos donos do nosso próprio nariz. No nosso caso aqui, meu caro, o que o computador simula pode, sim, ser a realidade, se a gente assim quiser. Agora, só posso olhar para as simulações como meras simulações. Mas quando encaro a frieza delas, não posso conflitá-las com o que houve, pois elas podem ser a realidade pura e simples, mesmo que só na minha mente e por alguns instantes. Os corpos no chão... eu pensei que estavam mortos assim que os vi. Mas não estavam. Nem todos ali estavam mortos. Tudo isso segundo o teórico africano Adérito Muteia, meu caro amigo. Posso concordar em alguns pontos e discordar em outros, mas podemos usar as ideias dele no nosso caso — discursou Jorge, como se fosse um catedrático sonolento e não um tenente da PM.

— Não consigo engolir estas ideias, meu amigo. Não mesmo. E antes que eu me esqueça, esse tal professor africano cabe como uma luva na descrição do nosso agressor. Um detalhe que não te passou batido, imagino. Como um estrangeiro exilado, um pensador com histórico de rebeldia, ficou de fora dos nossos olhares? — rebateu Gilberto.

— Chega, meu amigo. Realidades, mentiras, erros e acertos... É isso e nada mais. Se eles queriam o como e não o quem, é isso aí que vamos entregar. E para o caso seguinte, dispenso as novas tecnologias digitais. O próximo é bem mais fácil que esse da praça. Como tu mesmo definiu: do mais complexo para o mais simples! — disse Jorge.

— Antes, Jorge, o que houve com as vítimas não fatais que foram parar no chão? — perguntou Gilberto.

— Quando cheguei lá, pensei que estavam todos mortos, mas estavam numa espécie de coma profundo, como já te disse. Os corpos estavam quentes, um pouco acima da média da temperatura humana, e sem hematomas sérios aparentes. Foram levados ao hospital de imediato e, assim que deram entrada, acordaram quase ao mesmo tempo. E estavam bem. Descreveram as mesmas coisas, com pequenas variações: uma leve amnésia e uma cegueira momentânea, mas ambas desapareceram bem rápido. Passamos para o caso seguinte, irmão — cortou Jorge.

Gilberto pegou o segundo envelope pardo, que estava a poucos centímetros dele. Abriu-o e expôs um relatório de poucas páginas batido à máquina de escrever, espalhando algumas fotografias em preto e branco em cima da mesa. O policial civil estava tenso ao extremo. Queria que as coisas tomassem outro rumo, mas o mundo caminha alheio às vontades de qualquer um; muitas vezes é assim que a banda toca. Era esse o sentimento de Gilberto naquela hora limite.

— Enfim, um crime um pouco mais simples... Ou quase simples.

— Como vamos abordar este, Gilberto? — perguntou Jorge.

— À moda antiga, meu velho, e sem essas parafernálias eletrônicas. Primeiro, o que já sabemos dele, que está ligado ao primeiro caso em vários pontos. Um fato bem relevante é a onda magnética, que agiu em ambos os cenários — falou Gilberto, apontando para a fotografia da viatura da PM. Ele seguiu: — Também agiu na praça, pelo que parece.

— Mas com uma diferença abissal, meu grande amigo investigador. A onda que atingiu a praça desligou os aparelhos elétricos, eletrônicos e mecânicos primeiro em trinta metros, depois o raio cresceu exponencialmente para trezentos metros para só então voltar para trinta de novo. Já esse segundo pulso apenas queimou os aparelhos eletrônicos; na verdade, torrou tudo, e há pouco tempo atingiu os componentes mecânicos — explicou Jorge.

— Lugar ermo, diferente da praça movimentada; três vítimas fatais e policiais militares; arma de fogo versus arma branca. Aqui no caso dos policiais tem um ar de profissionalismo; no caso da praça, uma leve dose de crime passional. Mas ambos parecem acertos de contas — ponderou Gilberto.

— Certo, amigo investigador. Quer saber se esse é mais um crime ritualístico? Passa-me as outras fotografias...

— Claro que quero. Afinal, quem morreu aqui — disse o militar, apontando para a foto — foram os meus companheiros de farda. Fomos todos mobilizados para o local assim que fomos informados do ocorrido. Isso não é uma simples questão de protocolo e ordem unida.

— E o que tu encontraste por lá? — perguntou Gilberto.

— Vamos do mais simples para o mais complexo desta vez. A primeira pergunta é: como eles foram parar em um lugar ermo daquele, sem avisar ninguém e quebrando o protocolo? Primeiro, o sargento Tavares e os outros dois oficiais desligaram os rádios, os celulares funcionais e pessoais, o tablet da viatura e, depois, o GPS as câmeras frontal e traseira da viatura. Só existem dois motivos para tomarem tal atitude, pois somente um oficial graduado a distância ou o primeiro em comando da patrulha podem fazer isto. O primeiro motivo é legal, o segundo é ilegal. Vamos primeiro ao segundo...

— Na ilegalidade? — perguntou Gilberto, intrigado, pois conhecia este protocolo da patrulha.

— Na necessidade de interrogatórios mais duros, um ato ilegal puro e simples, uma conversa com um informante ou, ainda, um alinhamento com elementos de outras agências de segurança dentro e fora do protocolo. E ali, em meio ao barulho das ondas e sem ninguém à vista, vai saber... É um bom lugar. Procedimento ilegal, porque não está nos manuais da instituição, mas é tolerado — explicou o tenente.

— É o teu instinto policial que fala? — perguntou Gilberto.

— O meu faro de cachorro vadio, de um vira-lata das ruas! Conhecendo bem a fama do Tavares, um achaque é bem mais provável. Mas vamos ao que interessa de fato: Tavares foi alvejado no peito e à queima-roupa, os resíduos de pólvora apontam para isto. Olha bem como o sargento patrulheiro ainda está de pé, curvado para trás contra o lado esquerdo do capô da viatura por causa do impacto. E os outros dois militares foram alvejados na cabeça ainda no banco traseiro. O elemento usou uma Luger P08, mais uma velharia alemã do Velho Mundo. Então aqui temos um saudosista, meu amigo. Outro saudosista, na verdade, pois o da praça também é um conservador saudosista. Temos dois tradicionais: um corta e o outro usa arma de fogo das antigas.

— Acabou a digressão? — perguntou Gilberto, nervoso.

— Claro que não. Olha como os dois militares estão dispostos, cada um com a cabeça encostada na janela trincada da viatura. Os tiros formaram mais um triângulo equilátero invertido. Outra incompatibilidade física para tu pôr no teu caderninho de notas: a balística deu conta de que todos os três foram mortos pela mesma arma. A mesma arma dispara quase simultaneamente, pegando os três policiais graduados e experimentados de surpresa? Três disparos quase simultâneos em três policiais experientes que sequer se defenderam? E como as balas atravessaram os vidros à prova de balas? — questionou enfático o tenente Bastos.

— Quais são os fatos óbvios? — perguntou Gilberto.

— Tem duas obviedades aqui. Uma é que os crimes estão mais ligados do que parecem; a outra é que são motivados por circunstâncias diferentes — expôs Jorge.

— Ligados? Como, tenente? — insistiu Gilberto.

— Os campos magnéticos que estavam em torno da viatura eram de trinta metros. Os jornalistas e os teus sagazes amigos peritos criminais tiveram que recorrer a máquinas fotográficas analógicas antigas, com filme, como no outro caso. E o que salta aos olhos de uma mente mais atenta é a flor negra Halfeti deixada no capô da viatura; é a mesma que estava em cima da vítima fatal da praça. As mesmas flores que vimos na loja da condessa gótica, Fá Butler Rodriguez, aliás — disse Jorge, com entusiasmo.

— Então é só isso? Mais nada? — perguntou Gilberto, fatigado.

Jorge era um bloco de gelo naquela hora. Não queria nem pensar no rumo que aquela conversa tomaria. Estava farto dos muitos porquês do amigo, mas, como bom militar, tinha de estar preparado para tudo. De repente, sentiu falta de ter uma arma mais pesada ali, naquela situação limite.

— Te dei o que tu querias. Agora quer saber como nós estamos envolvidos nas mortes? — perguntou Jorge, de mau humor.

— Passo a bola para ti, parceiro, pois aí já é outra obviedade... A obviedade suprema — respondeu Gilberto.

— Tem razão, nego velho. São dois crimes ritualísticos, praticados por elementos diferentes e por motivações diferentes. Provavelmente pertencem aos mesmo grupo criminiso. Vamos mapear os nossos casos recentes na grande tela de LED — sugeriu Jorge.

Gilberto alimentou o programa usando dados compartilhados entre as duas polícias. O civil digitou flor negra Halfeti, puxou o histórico de três meses e limitou o perímetro ao entorno do centro da cidade. No sistema, múltiplos triângulos logo surgiram na tela grande.

— Gilberto, amplia a área geográfica e joga o tempo para sete anos, por favor — pediu Jorge.

Outros triângulos foram aparecendo em várias dimensões: trezentos metros, trinta metros e três metros. Triângulos dentro de outros triângulos.

— Temos aí o nosso padrão, mas difere e muito dos dois primeiros casos. Os primeiros são execuções violentas, feitas por mãos profissionais, puras e simples. Então, Gilberto, meu irmão, quando vamos prender a tal condessa gótica, Fá Butler Rodriguez? Quando? E como ninguém percebeu estes padrões até agora? — disse Jorge, nervoso.

Gilberto, que olhava para a tela grande, foi até a janela, que se abriu automaticamente quando ele se aproximou. Lá fora, viu as luzes da cidade e, em destaque, as duas torres gêmeas Fiote e Xoclengue. Avistou, com certa dificuldade, os drones bem ao alto que patrulhavam o quartel da Polícia Militar. Queria dizer para o parente, amigo e colega de ofício que uma coisa era o ideal e a outra era a dura realidade. Mas precisava se conter; ele sabia o que se passara depois das duas últimas execuções. A onda de pequenos crimes que tinha se espalhado pela cidade vinha recuando a índices mínimos, mas caía. E Gilberto precisava ver até onde ia o poder do outro de ligar os pontos.

— Ninguém será preso, Jorge. Nem agora e nem tão cedo. — O policial civil nem se preocupou em olhar nos olhos do parceiro para dar o veredito. — Aqui é o como e não o quem que interessa, meu bom amigo.

— Mas o que...

— Isso é briga de cachorros grandes. E a dona madame gótica, se é que foi ela mesmo, passou de todos os limites e vai receber o que merece, mas isso vem ao seu devido tempo. A questão não está nas nossas mãos...

— Justiçamento? — perguntou Jorge, abalado.

— São muitas obviedades se juntando a obviedades supremas. Tu fazes perguntas demais, parceiro — disse Gilberto e continuou — As coisas são assim, acima das nossas possiblidades e atribuições.

— Então me traz aquele importado que tu escondes da Sofia — pediu Jorge, vencido. Mais do que acostumado com tais situações, o tenente sabia quem eram os elementos menores abatidos: vinham do submundo do crime. Não desperdiçaria lágrimas com criminosos mortos. E os justiceiros, um dia, serão justiçados... O tenente Jorge Bastos bem sabia disso.

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestade e frio. Texto de Clarisse Cristal — poetisa, contista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.

 

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