sexta-feira, 1 de maio de 2026

OPERA MUNDI: ALIEN DICTATORS, GOTTVERLASSENEN (PARTE 4)


 

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

Um silêncio astral se abateu na sala de interrogatório, que estava na semiescuridão. O capitão interino Alejandro Contreras esperou a pergunta que redefiniria não somente o seu destino, mas se a compreensão da realidade dos juízes corregedores e da juíza corregedora — os aclamados deuses cibernéticos — alcançaria a gravidade do estado das coisas. Os três avatares digitais flutuavam no meio da sala, e Alejandro Contreras estava de pé na frente deles.

— Após a prisão do conhecido hacker estrangeiro Erik Thomas de Haas, o senhor fez a perícia prévia da residência deste referido senhor? E o que o senhor encontrou na busca prévia? — perguntou a juíza corregedora oriental.

O capitão interino Alejandro Contreras recorreu ao seu palácio das memórias e se reviu abrindo a palma da mão direita enluvada e ativando as três esferas periciais que fizeram a minuciosa varredura digital do amplo apartamento funcional de Erik Thomas de Haas.

— Recolhemos as digitais no apartamento de Erik Thomas de Haas, mapeamos vestígios de DNA e listamos o que ali havia. Sabemos como os dois grupos criminosos, Alien Dictators e Gottverlassenen, operam. Esperávamos encontrar os dados físicos das atividades criminosas deste senhor de Haas. Sim, encontrei os manuscritos do fluxo de caixa e breves relatórios das atividades criminosas deste referido senhor de Haas. Descobrimos que a função de Erik Thomas de Haas era fornecer e fazer a manutenção dos drones que eram usados na rede criminosa de comercialização e distribuição de drogas. O senhor Erik Thomas de Haas fornecia os drones para a distribuição de drogas, dinheiro e recursos da pequena operação criminosa, lucrativa e eficiente. Em pen drives e cartões de memória acoplados nos drones, era feita a distribuição de valores através de criptomoedas. Eram listas manuscritas de próprio punho, de nomes de agentes públicos e entes privados, físicos e jurídicos, envolvidos nesta pequena operação criminosa. — O capitão interino Alejandro Contreras parou de relatar e esperou a pergunta subsequente.

— Discorra sobre as detenções e as prisões posteriores, subsequentes a estas suas descobertas! — perguntou o juiz corregedor negro. A luz azul-celeste que emanava dos avatares se intensificou e inundou a sala de interrogatório.

— Senhora magistrada e senhores magistrados, quanto às referidas detenções e prisões subsequentes, nas quais eu pessoalmente não me envolvi — eu estava conduzindo uma investigação interna, focada somente no aparato de segurança e seus possíveis tentáculos na sociedade civil —, soube a posteriori, e acompanhei à distância, as detenções para averiguações e posteriores prisões feitas pela guarda municipal armada, pela polícia rodoviária federal e pela polícia federal. Os agentes de segurança pública de médio e baixo escalão faziam a segurança pessoal da conhecida advogada Luara Gutierrez. A proeminente e respeitada advogada tributarista, atrelada às nossas investigações internas, era o braço financeiro da organização criminosa. Organização criminosa que se infiltrara no aparato de segurança pública que começamos a investigar. Os agentes públicos de segurança estavam trabalhando de forma irregular para esta referida senhora advogada tributarista; estes agentes também portavam armas e comunicadores não registrados. Os quatro agentes de segurança pública e a referida senhora advogada estavam saindo de uma casa de apostas, e os cinco referidos foram conduzidos à delegacia central para prestar informações.

— E o empresário Ernesto García Guzmán foi detido quando circulava pela rodovia federal; ele também estava com quatro agentes de segurança pública que portavam armas e comunicadores não registrados. Para além dos referidos agentes de segurança que prestavam serviço de forma ilegal, o veículo do senhor empresário Ernesto García Guzmán estava sendo conduzido por uma inteligência artificial não registrada. E também descobrimos que o referido programa ilegal, instalado no veículo de Guzmán, era obra do senhor Erik Thomas de Haas. Assim como os armamentos ilegais dos agentes de segurança foram fornecidos pelo hacker estrangeiro, Erik Thomas de Haas. Todos foram conduzidos pela polícia federal para a delegacia regional para serem interrogados! — terminou o relato o capitão interino Alejandro Contreras.

— O senhor capitão interino Alejandro Contreras quer nos convencer das aleatoriedades destas detenções para averiguações e prisões, depois que o senhor colocou as mãos nos manuscritos do hacker Erik Thomas de Haas? — perguntou o juiz corregedor branco de idade indeterminada.

— Sim, senhores juízes e senhora juíza! — respondeu o senhor capitão interino Alejandro Contreras.

— Sabemos que não é da alçada de vossa senhoria, mas pode dizer o que aconteceu a posteriori dessas detenções para averiguação e prisões? — perguntou a juíza corregedora.

— Sim! Eu posso! Uma vez que os agentes de segurança pública detidos para averiguação, bem como a senhora advogada Luara Gutierrez e o senhor empresário Ernesto García Guzmán, constavam nas listas manuscritas do hacker Erik Thomas de Haas. Verificou-se que os dois estrangeiros, a senhora Gutierrez e o senhor García Guzmán, tinham várias pendências com vários países do nosso continente. Eles são investigados e procurados, assim como o hacker constava em lista de procurados de várias agências de segurança de países vizinhos. O que eu posso dizer é que, depois da detenção para averiguações e prisões, o que aconteceu? Fugas e detenções do médio e baixo escalão desta organização de tráfico de drogas. Cortou-se a cabeça da cobra e o corpo simplesmente apodreceu. Sobre as apreensões das novas e misteriosas drogas amarelas, drones, dinheiro, criptomoedas, armamentos e farta documentação falsa, ainda estão sendo contabilizadas! — finalizou o capitão interino Alejandro Contreras e aguardou a pergunta derradeira.

— Posso dizer a este comitê que nunca vi tantas ilegalidades dentro da lei por parte de um capitão interino, senhor Alejandro Contreras! — disse o juiz corregedor negro e continuou — Sobre a logística: como as drogas, armas, dinheiro, criptomoedas e documentação falsa circulavam pela via aérea? Como estes referidos drones não registrados circulavam sem serem detectados pelos nossos aparatos de vigilância civil e militar?

— Os tabletes já referidos nesta inquisição são pequenas barras lisas e finas, peças de metal cinza, com variações de tonalidade, espessura e tamanho. Eram acoplados em cima dos drones, pois os aparelhos não possuíam discos rígidos, e o que se pensava serem discos rígidos externos! Como já disse, a assinatura de calor captada pelos nossos sistemas de vigilância civil e militar dava conta de que eram pássaros em voo; claro que esses voos e sobrevoos chamaram as nossas atenções, o que culminou na nossa investigação...

— O que o senhor capitão interino quer dizer com isso? — perguntou o juiz corregedor negro, não escondendo o espanto.

Alejandro Contreras olhou friamente para os avatares e só agora ele se deu conta de como eram patéticos aqueles seres em seus uniformes garbosos.

— Esta tecnologia nunca vista não pertence à nossa realidade! Estes HDs externos não são metálicos, e sim biomecânicos. Pois, nos testes que realizamos até agora, nada se constatou. Senhora juíza e senhores juízes corregedores, o espectrômetro de massa não conseguiu ler estes tabletes. O teste de carbono-14 não conseguiu fazer a leitura; não se conseguiu perfurá-los com lasers; os elementos que compõem estas peças não constam na tabela periódica. Nem sabemos como estes aparelhos funcionam. O hacker Erik Thomas de Haas, interrogado, falou o que sabia: que recebeu estes discos rígidos por um drone e as instruções de como usá-los vieram pelas redes de computadores. A simples instrução era colocar estes discos rígidos em cima dos aparelhos e disse que a sua única função era montar e fazer a manutenção dos drones. Os aparelhos simplesmente voavam sem precisar de programações ou planos de voo. Um drone-mãe abastecia o ateliê do hacker de Haas com drogas e tabletes; as documentações falsas, armamentos e movimentação financeira eram encargo do hacker Erik Thomas de Haas. E já antecipo a próxima pergunta: alguém ou algo que não pertence à nossa realidade estava testando as nossas capacidades de respostas e tecnologias. E ouso dizer que alguém ou algo está somente começando. Este foi somente um pequeno teste.

— O senhor capitão interino Alejandro Contreras está dispensado desta inquisição. Recolha-se à sua residência, fique incomunicável e esperamos que nos envie o relatório final manuscrito, à máquina de escrever, das vossas ações enquanto capitão interino — disse a juíza corregedora.

A porta atrás de Contreras se abriu, inundando o lugar com uma luz amarela, e dois portentosos guardas pretorianos de alta patente adentraram a sala e conduziram o então senhor capitão interino Alejandro Contreras para fora da sala de interrogatório.

 

Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.

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