sexta-feira, 1 de maio de 2026

OPERA MUNDI: CYBER GODS! A EPOPEIA CIBERNÉTICA!


Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

“As memórias se somam e formam histórias.
O tempo dificilmente as apaga! ”
Clarisse da Costa

 

Ao descer lentamente as escadarias de madeira do hotel barato de estadia prolongada, o investigador de primeira classe Alejandro Contreras percebeu que havia escurecido. Sem saber exatamente o motivo, antes de passar pela portaria, levou discretamente a mão direita à manopla e ativou o modo de combate.

O hall de entrada estava vazio. Ao ganhar a rua, Alejandro notou que as luzes dos postes de iluminação pública estavam apagadas. Ainda assim, apesar da escuridão completa, ele enxergava. Atribuiu o fato às lentes de contato, até perceber que elas não estavam funcionando. Notou também que a rua e as cercanias estavam desoladamente vazias. Olhou para o pulso, levou a mão à manopla de cristal líquido e percebeu que ela não estava lá.

Contreras varreu o perímetro com os olhos nus e avistou, não muito longe, uma figura bizarra — um homem maltrapilho, barbudo, portando um arco e uma aljava repleta de flechas. Um uivo tétrico de lobo selvagem brotou do vazio e se perdeu no nada; a melodia noturna aterrorizou o investigador. O homem esfarrapado, de profundos olhos amarelos reluzentes, sacou uma flecha, mirou e disparou. Atônito, Alejandro levou a mão ao coldre e sacou a pistola de pulso eletromagnético. Nervoso, puxou o gatilho, mas a arma estava descarregada.

A flecha trespassou seu corpo sem feri-lo.

— Investigador de primeira classe Alejandro Contreras! O vosso veículo funcional está configurado e à vossa disposição! — disse uma voz sintética. O policial pretoriano trazia o homem da lei de volta à realidade. Era o crepúsculo. Trabalhadores e trabalhadoras extenuados, voltavam para casa após uma longa jornada, enquanto os primeiros elementos do submundo marginal começavam a circular pelo perímetro. Três agentes da unidade de medicina legal, carregando uma leve maca retrátil, adentraram o hotel.

Alejandro Contreras, olhou para o enorme oficial à sua frente e lembrou-se da infância, quando sonhava em envergar aquele mesmo exoesqueleto. O sonho acabou quando seu pai explicou a dura realidade: para ser um oficial pretoriano, primeiro era preciso destacar-se em uma força tática de elite. Depois, se aceito na academia, seria completamente apartado da sociedade. Passaria por uma disciplina rigorosa, como a de um monge em um monastério — viveria, então, exclusivamente pela e para a unidade pretoriana. Teria que esquecer da família, das pessoas próximas e que dia tivera vida para além da unidade.

— Muito obrigado... — o investigador leu o número de série no peitoral e ordenou: — AS2-102, dispensado! Alejandro Contreras, notou que se tratava de um comandante de campo, segundo a leitura de suas lentes de contato. O pretoriano bateu os cascos com força, deu meia-volta e entrou no hotel, sendo tragado pela escuridão do hall.

Alejandro olhou para o oeste, contemplando o arrebol — um banho de sangue carmesim refletido nos prédios envidraçados.

Ele levantou o punho esquerdo e acionou a manopla para localizar o veículo funcional. Poderia pedir que Carmem assumisse o controle e o trouxesse até ali, mas o pequeno modelo preto metálico estava a poucos metros.

Quatro adolescentes, o observavam, curiosos, ao redor do veículo policial. Alejandro, acionou a interface da manopla: mudou a cor do carro para verde metálico e alterou a identificação para a de seu veículo pessoal.

— Carmem! Acorde, meu anjo! — comandou por voz. — Leve o meu carro particular para casa.

O veículo modesto, estacionado no fim da rua, começou a se mover sozinho. Alejandro caminhou até o carro funcional, e a porta do motorista se abriu roboticamente. Os adolescentes, temerosos, afastaram-se rapidamente ao ver o investigador de primeira classe se aproximar.

Ao entrar, ele conectou Carmem ao sistema operacional e ajustou a voz da inteligência artificial, para um tom mais humano. Ativou o bloqueio magnético, isolando o veículo em um perímetro de três metros.

— Carmem, quero saber sobre as câmeras de vigilância na frente do hotel. Quando pararam de funcionar? — Contreras notara a destruição do dispositivo de vigilância assim que chegara à cena. — Quero saber quem entrou e saiu do hotel antes do apagão. Depois, consulte os drones de defesa que circum-navegam o batalhão e os relatórios das torres que cobrem este perímetro perímetro. Por fim, acesse a central de segurança pública e consulte os seguintes indivíduos: Diego Fernández, comandante-chefe da guarda pretoriana; Raúl López, delegado-chefe; e, por fim, Gael Pérez, médico-chefe dos legistas.

— Investigador... — Carmem hesitou.

— Temos acesso irrestrito aos bancos de dados, minha querida. Não se preocupe. Quero também um pente fino em Roberto Martínez Junior, professor e advogado. E os relatórios de ocorrências e informantes do Hotel Beira-Mar deste último mês.

— Algo mais específico? — perguntou a IA, friamente.

— Quero saber dos laços pessoais e familiares entre os agentes citados e o advogado. Confrarias, associações, reuniões públicas e reservadas. Quero a agenda comum e quem orbita no círculo íntimo deles. Sobre Martínez, quero tudo o que for possível ligando-o aos três agentes.

Alejandro acionou a manopla, e uma planta em três dimensões foi projetada à sua frente. Ele analisou o mobiliário com atenção.

— Já vi esses móveis antigos antes. São exclusivos, feitos de madeira de demolição. Não estão em catálogos, creio eu. Investigue a origem, minha amiga.

Ele acoplou um pente de memória ao painel — Salve tudo aqui, envie para minha impressora pessoal e, depois, desmagnetize este pente. Apague toda a pesquisa da sua memória local. Não deixe rastros.

— Alejandro, posso fazer uma pergunta indiscreta? — disse Carmem, em tom casual.

— O que foi, meu bem? Algo não ficou claro? — perguntou o investigador, impaciente.

— Sairemos vivos disso tudo?

Alejandro soltou uma risada alta — daquelas que fariam qualquer um pensar que ele estava louco.

— Carmem meu anjo! Sempre haverá crimes e criminosos. E sempre haverá quem os combata. E somente uma certeza! — Sentenciou Contreras de forma fria.

— Qual é, Alejandro? — perguntou Carmem, com toda a humanidade possível a um programa de computador.

— No final de tudo isso, meu bem, ninguém fica vivo. Alea jacta est!

Ao sair do veículo e ganhar a rua, Alejandro observou atentamente a movimentação ao redor. Viu os médicos legistas saindo do hotel, carregando o corpo sem vida de Roberto Martínez Junior. Os oficiais pretorianos guardavam o perímetro, enquanto as pessoas passavam como se fosse apenas mais um dia rotineiro na cidade portuária.

 

Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas.
Texto de Clarisse Cristal, poetisa, cronista, contista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.

Argumento de Samuel da Costa: poeta, contista e novelista de Itajaí, Santa Catarina.

Nenhum comentário:

Postar um comentário