sexta-feira, 1 de maio de 2026

NAS MANHÃS NO SUL DO MUNDO (3ª PARTE)

 


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

‘’Numa manhã, ele veio!

Na seguinte também veio...

A pobre moça suspirava de felicidade...

E em um dia a alegria tranquila e desejada...

O moço vinha ao seu encontro...

Triste! Ele a perdeu!’’

 Patrícia Raphael

Em memória de João Carlos Pereira e Miguel Maria da Costa

 

Ao chegar ao Bar-café Garibaldi, Adérito Muteia olhou, como se fosse pela primeira vez, a frondosa embaúva ao lado do estabelecimento. O professor doutor Adérito Muteia pensa consigo mesmo: — Esta árvore bem merece um poema, opá! Poesia na árvore será o título, ora gaita! Melhor, vou compor uma écloga com este título!

Ao adentrar no Bar-café Garibaldi, Adérito contemplou as réplicas dos quadros de Picasso e Matisse na parede dos fundos. O clima retrô, que se mistura com o pós-modernismo do lugar, agradou Muteia. O cardápio trilíngue — em português brasileiro, espanhol europeu e inglês britânico — estava publicado na parede lateral esquerda em fonte serifada e também em versão impressa, distribuída simetricamente nas mesas.

As cores vermelhas, verdes e brancas, com as suas variantes, reinam absolutas e estavam em toda parte, do teto ao piso. As gélidas mesas metálicas cromadas contrastavam com as frágeis cadeiras de plástico branco-glacial. Uma enorme caixa registradora antiga, não restaurada e cheia de ferrugem, ocupa o destaque do balcão; uma peça genuína e decorativa, pois não funciona há anos. O professor Muteia só sentiu falta de uma coisa, algo que lembrasse o velho continente negro, a velha África: — Mas nem tudo poderia ser perfeito nesta vida — diz Muteia para si mesmo, como se fosse a primeira vez que pusesse os pés naquele lugar.

O professor africano caminhou lentamente para o fundo do café e se instalou no lugar de sempre, perto da porta de acesso à sala de descanso dos funcionários e dos banheiros. Naquele dia estranho, agitado e cheio de surpresas desagradáveis, ele pensou que alguma coisa iria mudar dali por diante. Aquela espera sem fim estava por acabar em definitivo, um sentimento que batia fundo no peito do professor.

Adérito, absorto em si mesmo, nem percebe a presença de Agnela, que se materializa, absoluta e cheia de si, diante dele. Ela simplesmente aparece como por encanto aos olhos do professor africano! Uma nevoenta quimera celestial, materializada e encarnada, que chega majestosa, cheia de vida e juventude. Uma promessa de abrandar aquele dia atípico do exilado. Agnela chegou como uma lufada primaveril de esperança no coração do velho professor.

— O que o senhor deseja para o café da manhã, doutor professor Muteia?

A voz melodiosa de Agnela soou como um belo poema. Os olhos claros e cheios de vida da jovem morena iluminam o dia obscuro e assistemático de Adérito. O professor africano sabia que o sentimento que, aparentemente, ela nutria por ele não era correto. A princípio, Muteia pensou ser apenas fome de conhecimento, algo comum em alguém jovem e cheio de expectativas. Mas a coisa toda estava ultrapassando a fronteira do bom senso, entrando em uma zona perigosa para ambos. Muteia é apanhado, de repente, retribuindo tal sentimento. A coisa tinha que acabar ali, naquela hora extrema. Adérito Muteia sepultaria para todo o sempre qualquer expectativa de um laço afetivo com aquela moça. Iria fazer, enfim, o que fora treinado para fazer em seus anos no Velho Mundo.

— O de sempre, é claro...

— Café preto e morno, pão com manteiga na chapa. Depois de o senhor professor tomar o café, vai querer ler os mesmos jornais e revistas nacionais e do estrangeiro de sempre. Depois vai tirar a sua velha, obsoleta e barulhenta máquina portátil de escrever do estojo surrado e datilografar por uma hora sem parar. Depois vai tentar ler um livro, e aí eu vou incomodar a vossa digníssima e nobre pessoa com perguntas e achismos meus sobre teoria literária moderna e clássica por quase meia hora. O professor me responderá de forma breve e certeira. Aí, o meu bom professor informal e quase amigo vai pedir o almoço para viagem, pagar tudo em dinheiro vivo e ir embora sem falar com mais ninguém. Para depois voltar no outro dia e fazer tudo de novo, faça chuva ou faça sol.

Agnela fez uma pausa, ganhando fôlego: — E hoje posso dizer, com toda a ousadia que tenho, o meu mestre: bem que poderia jogar fora essa velharia enferrujada e adquirir um bom e moderno microcomputador portátil no comércio local!

A fala longa de Agnela desnorteou o professor africano.

— Espero, mesmo, que eu tenha lhe passado bem os conceitos contidos nas obras de Platão, Aristóteles, Horácio e Longino. Também espero que tenha entendido, em especial, a retórica aristotélica, para o seu próprio bem, minha aluna. Compreender a contribuição dos pensadores gregos é fundamental para entendermos a balbúrdia que vivemos nestes dias de muitas perguntas e poucas respostas, minha quase-aluna. Sobre a minha fatigada vida rotineira, eu não pensava que um pobre e velho africano pudesse interessar a quem quer que seja, opá. Tu e a tua juventude bem poderíeis ter mais com que se ocupar, para além de teorias literárias antigas e modernas e a minha pobre vida de exilado!

Ele mudou o tom, sondando o terreno movediço que tinha que percorrer:

— Mudando de assunto! E o teu consorte, minha querida amiga? Por que nunca falas dele para mim, opá? Apesar de ele trabalhar aqui contigo, oh rapariga! O teu companheiro não trabalha contigo? Não trabalha, miúda? Eu gostaria de falar com ele qualquer dia!

O tom professoral de Muteia hipnotizou a moça.

— Vou trazer-lhe o café, afinal! Volto logo e não suma daqui, meu querido professor!

As perguntas indiscretas não tiraram o bom humor de Agnela. Antes de partir para a cozinha, ela deu um beijo demorado e estalado na testa de Muteia. O professor ficou embaraçado; a cena chamou a atenção de todos no recinto.

— Fico eu aqui a te esperar, minha amiga! — disse o professor africano, enfim vencido pelo vigor da aluna, mas ainda temeroso.

Adérito preferiu não olhar para o corpo escultural de Agnela, que parecia flutuar enquanto andava. A cabeça de Adérito ficou pesada, como se existisse algo no ar, imperceptível para a maioria. O africano entrou em alerta total, preparado para o pior. Desejou estar armado; pegou uma faca esquecida em cima da mesa e a pôs no colo, entre as pernas.

Enfim, um tipo germânico trouxe o café, mais rápido que o usual. Muteia fingiu não perceber a quebra da rotina. O teuto andava como se estivesse em marcha militar; a bandeja vinha coberta por uma toalha vermelha chamativa. O jovem de cabelos louros e olhos claros parou na frente do professor. Em um estalo, Adérito deduziu o óbvio: possivelmente aquela figura trágica era Otto, o companheiro de Agnela. Então era isso! O marido veio lhe tirar satisfações como em uma comédia burlesca à moda de Émile Zola. Em um rompante, Adérito Muteia pensou no pior; pensou que teria que matar o jovem diante dele.

— É hora de acordar, Capitão. Ou melhor, Major. Sim, quero lhe informar que o senhor foi promovido, opá!

— O quê? Estás louco, miúdo? Por quem me tomas? O que dizes, ora gaita...

— Não quer que eu diga o número da sua patente? Quer, camarada? Chega de história para boi dormir. Tenho as suas ordens, Major! — o tom firme e baixo fez Adérito recordar-se de quando estava em treinamento.

O jovem usou a parole para se comunicar. Passou um pequeno envelope pardo para Adérito e disse: — Sim, já passou da hora de acordar.

Antes que Muteia pudesse reagir, Otto deu meia volta e partiu. Adérito teve a impressão de ter escutado o jovem bater os cascos.

— O sono acabou! Desgraçado... é verdade, o sonho e o sono acabaram.

O professor não se deu conta de que proferiu aquelas palavras também na parole.


Fragmento do livro: A casa de teto verde. Texto de Samuel da Costa, contista, cronista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

 

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