Por Roberto Minadeo (Brasília, DF)
Fake
News são as mais graves ações do momento. Mas, há muito fingimento por trás
disso.
Todos
os erros e problemas do mundo são creditados a elas e ampliados devido à
onipresença da internet. Pérfida imprensa, que não mais cumpre seu papel de
informar à incauta sociedade, que tanto nela confia! As Fake News são
democráticas, atingem dos incultos aos catedráticos. A possibilidade de
qualquer pessoa ser enganada é a mais abrangente, ilimitada e incondicional
possível.
Assisti
a um filme horrível? Culpa do jornal que disse tratar-se de uma nova linguagem
cinematográfica! Adquiri um carro que trouxe problemas de motor? Culpa das Fake
News que disseram tratar-se de um design inovador!
O
filme informado pode ser uma nova linguagem – porém, isso não é certeza de
agradar a todos. A compra de um carro é tão importante que merece mais do que
ler uma nota em um jornal, que foi verídico sobre o inovador design do modelo.
Um
cidadão diz que a mortadela é feita de carne de cavalo. Questionado em sua
ignorância, consultou a internet, para se aperceber de que vivia no erro,
devido a seu preconceito contra o maravilhoso e popular embutido tão querido no
país.
Há
quem sustente conversas de botequim sobre economia, história, política,
sociologia ou arte. São assuntos sobre os quais muitos não possui qualquer
formação. É difícil admitir isso, sendo preferível culpar as Fake News.
Será
mesmo que todos os órgãos da imprensa apenas vivem para desinformar? Qual a
motivação de instituições centenárias estarem desviadas dos propósitos que
nortearam seus bons serviços? Será razoável supor que após a internet os
jornais só propalam mentiras? Será que os blogs surgidos aos milhares são melhores
do que a imprensa?
Um
argumento elementar desmonta os furibundos ataques à mídia: se é ela quem nos
informa, como distinguir as matérias verdadeiras das falsas?
A
realidade é outra. Devido à internet, milhares de jornais fecharam as portas.
Mas isso não significa que os sobreviventes ficaram fracos, se fortaleceram,
pois graças à mesma internet, atingem milhões de assinantes mundo afora – algo
impensável décadas atrás, quando eram apenas baseados na versão impressa.
Assim, precisam manter ingentes equipes para zelarem por seus nomes, pois
competem com outros veículos informativos de grande porte. Por incrível que
pareça, a concorrência aumentou, pois ocorre entre gigantes.
As
Fake News são armadilhas nas quais gostamos de cair, quais macios colchões,
bons para dormir e depois atribuir a culpa ao cansaço. Há enganos gostosos que
mexem e cutucam muitos – como a mortadela.
O
que são os golpes que tantos incautos sofrem? Após alguém ser enganado é fácil
dizer que ladrões inescrupulosos se apropriaram do fruto do trabalho. Porém,
qual o motivo de alguém acreditar em esquemas de pirâmide, senão o fato de se
buscar a eterna promessa do dinheiro fácil? Não teria faltado o primário
raciocínio: se alguém ganha, é porque muitos perdem? E se tantos perdem, qual o
motivo para que justamente eu venha a ganhar?
Certa
leitora de cartas foi denunciada pela imprensa. Pessoas gastavam fortunas para
conhecerem o seu futuro e se arrependiam. A acusada fechou as portas e foi a um
endereço mais nobre, para atender uma classe superior. A imprensa voltou a
denunciar, mas há quem acredite em promessas de trazer de volta a pessoa amada
em três dias. Culpa da imprensa? Claro que não, fez seu papel, porém em vão.
Aliás, apesar de sua boa vontade, a mídia fez o papel contrário ao de alertar:
alardeou gratuitamente os serviços daquela cartomante.
Por
trás das Fake News pode haver alguém querendo acreditar em algo por interesse.
A verdade possui aspectos contrários aos interesses pessoais, por isso nem
sempre é levada a sério – abrindo um amplo espaço à doce mentira.
Há
mentirosos e sempre existirão. Todavia, ao se compreender o aspecto “como é
gostoso ser enganado” que se esconde por trás de tantas Fake News, menos
pessoas reclamarão após terem sido escalpeladas por ofertas inescrupulosas. E,
mais importante, surgirá espaço a uma sadia busca pelos fatos – tarefa árdua,
que jamais se realiza de forma rápida, tranquila e descompromissada.
Sobre o autor:
Roberto Minadeo vive em Brasília; publicou obras em
Marketing e Estratégia. Lançou as antologias oníricas “Sonhos Fulgurantes” e “A
Rainha da Lua e Outros Contos”; o romance “Na Casa da Avó”; o drama “Duas
Irmãs”; e “O Talismã Oculto” – baseado na mitologia chinesa. Participa de
antologias de diversas editoras. É membro do Instituto Histórico e Geográfico
do DF.
Teve três contos premiados:
· “Libertação da Perfídia” (Secr. Cultura/200
Anos da Independência).
· “O Clã” (VIII Concurso Cidade do Penedo de
Poesia e Conto).
· “A Maldição da Mansão” (Blog A Última
Página).
Também recebeu prêmio pela crônica “A Irritação de
Macunaíma”, no Concurso de Itapema/SC.
Email: rminadeo@gmail.com
Rede social: https://www.youtube.com/@robertominadeo
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