Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 8 (Agosto / 2026)
Por Raquel Naveira (Campo
Grande, MS)
A cruz, assim como uma faca ou
uma forca, foi instrumento de tortura e morte, usado durante o tempo do
violento Império Romano. Era destinada aos condenados pelas autoridades,
escravos rebeldes, criminosos perigosos, piratas, inimigos que aplicariam
golpes ao Estado. Só as pessoas de condição social inferior eram crucificadas,
açoitadas, obrigadas a carregar a trave horizontal da cruz no ombro até a
chegada ao local de execução. Depois eram pregadas ou amarradas na cruz, deixadas
expostas para morrerem lentamente. Um suplício por horas ou dias. Uma humilhação.
Uma advertência pública de intimidação para quem desafiasse o poder. Aquela
crueldade seria a consequência.
Imaginemos as estradas, as
colinas, os montes, os portais da cidade por onde entravam viajantes e
comerciantes, cheios de cruzes fincadas no solo. Que espetáculo de terror.
Depois da revolta liderada por Espártaco, por exemplo, cerca de mil escravos foram
crucificados ao longo da Via Ápia.
Foram cinco séculos de
crucificação: desde o período da República, passando pelos reinados dos
imperadores Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Vespasiano e Tito. Era
assim que exerciam o controle.
A cruz aparece em diversos
textos da literatura latina. O filósofo Sêneca (c.
4 a. C- 65 d. C.) observa que
havia formas diferentes de crucificar, como neste trecho:
“Vejo cruzes, não de um só
tipo, mas feitas de diferentes maneiras, alguns têm a cabeça para baixo, outros
são empalados pelas partes íntimas; outros estendem os braços no patíbulo.” Em
Cartas a Lucílio, acrescenta que a cruz é o limite da dor física. Cícero (106-43
a. C) mencionou a cruz diversas vezes sem seus discursos, afirmando:
“A própria palavra ‘cruz’ deve estar longe não
apenas do corpo de um cidadão romano, mas também de seus pensamentos, seus
olhos e seus ouvidos.” O historiador Tácito (c.56- 120 d. C) confirma e
execução de um tal Jesus, da cidade de Nazaré, na obra Anais, ao registrar:
“Cristo, de quem deriva esse nome, sofreu a pena extrema durante o reinado de
Tibério, por sentença do procurador Pôncio Pilatos.”
Mas foi Petrônio (60-65 d.
C.), árbitro da elegância na corte de Nero, no seu livro Satiricon, um
romance picaresco, cheio de humor, erotismo, que revela os costumes e a
linguagem da sociedade romana do século I, que encontramos o episódio conhecido
como “A Matrona de Éfeso”. A cruz aqui não tem sentido religioso. Reflete a realidade
cotidiana daquela sociedade sangrenta. A cruz como punição extrema, vergonhosa,
degradante. Conta que uma viúva permanecia no túmulo do marido, decidida a
morrer de tristeza. Perto dali criminosos haviam sido crucificados e um soldado
vigiava os corpos para que não fossem retirados. O soldado se apaixona pela viúva
e abandona o seu posto.
Um dos corpos desaparece da
cruz, levado, provavelmente, por familiares. O soldado entra em desespero. A
falha na missão poderia custar-lhe a vida. A viúva sugere que se retire o
cadáver do marido do túmulo e o pendurassem na cruz. Afinal, amava o marido e o
amante.
Escritores como James Joyce,
Proust e Jorge Luís Borges admiravam o Satiricon, de Petrônio. O célebre
filme Fellini Satiricon dirigido por Federico Fellini (1920-1993) teve
esse livro como base. Cenas de corrupção, tormentos físicos e psicológicos,
intrigas palacianas, banquetes e orgias lembram o ambiente e as questões contemporâneas.
É nesse contexto que Jesus foi
crucificado sob a acusação política de se apresentar como “Rei dos Judeus”.
Quando aconteceu essa mudança de percepção dacruz na história do Ocidente? Que
loucura, que insensatez, que impacto levaram um cidadão romano como Paulo a
declarar que pregava “Cristo crucificado”? Um verdadeiro escândalo para os
valores daquela nação. Um acontecimento surpreendente.
A cruz passara de infâmia a
redenção, a símbolo de sacrifício, amor, esperança, salvação. O homem capaz de
impor crucificação ao próprio homem poderia por esse caminho reconciliar-se com
Deus? A História foi abalada em seus alicerces, partida em dois períodos: antes
e depois da cruz.
Descrevi a cena da
crucificação neste poema:
Jesus ensanguentado,
Carregando o madeiro,
A coroa de espinhos na cabeça;
Fisionomias assustadas,
Satânicas,
Nuvens de pó,
De cuspe
E suor;
Jesus suspenso na cruz
Como um fruto de carne,
Os pregos perfurando as
juntas.
Como se pode morrer assim?
Como uma ovelha?
Como um peixe que se retalha?
Como uma criança inocente
Massacrada numa batalha?
Ah! Será que podemos ainda
Oferecer-lhe água?
Tocar em seu manto?
Tecer para ele uma mortalha?
Será que depois de tantos
séculos
Ainda somos esse povo que
desama?
Essa turba assassina?
Essa gentalha?
Carrego uma carga pesada nos
ombros, em meio a tribulações. Agora cheguei a um ponto de passagem, uma
encruzilhada, duas linhas que se intersectam.
Terei que fazer uma escolha,
uma mudança a essa altura da vida. Dou o primeiro passo?