PONTO NULO NO CÉU: MINHA QUERIDA AGNES!

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 8 (Agosto / 2026)



Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

We entered the deep expanse

Of my palace of lost memories.

 Now all the black souls scream for us

 

Valentina caminhava lentamente na semiescuridão, carregando a pequena Agnes no colo com terno carinho. Àquela hora noturna, a idosa, babá de profissão, sentiu todas as dores acumuladas por décadas que se manifestaram de forma absoluta dentro do seu frágil ser. A babá sentiu, também, a enormidade do peso da idade cair-lhe sobre as costas — que chegou sem aviso, afinal de contas, como uma torrente avassaladora.

Agnes nunca fora pesada de carregar; aliás, nenhuma das crianças o fora, ao menos as que Valentina cuidava, pois carregar a inocência delas era como carregar leves plumas níveas. Cuidar de crianças pequenas foi a forma que Valentina encontrou para aliviar as muitas e pesadas culpas que trazia dentro de si. Ela caminhava como se estivesse indo encarar um pelotão de fuzilamento naquela hora extrema, pois sentia no íntimo a escuridão chegando.

— Tina, aquele homem bonzinho, de roupa engraçada, vai mesmo me trazer muitos presentes? Como ele prometeu! — falou a pequena Agnes, com a típica voz de criança nívea.

— Isto é com a mãe da senhorita, meu anjo bom, só ela pode te responder! — respondeu Valentina com a voz embargada.

— Tina, tu vai ler aquele livro pra mim, mais uma vez? Tu vai, Tina? Tu vai? — perguntou Agnes com o entusiasmo que somente uma criança pode ter.

— Qual livro, meu anjo bom? — Valentina fez a pergunta já sabendo a resposta.

— Os Filhos do Sol, livro supimpa, Tina! — respondeu a menina.

— Muito adulto, minha menina. A mãe da senhorita, não gosta que eu leia para a senhorita tais desatinos literários — disse Valentina, com todo o cansaço que lhe cabia.

Valentina chegou, por fim, ao quarto de dormir da menina Agnes; as portas se abriram automaticamente. A senhora negra e idosa, de longos cabelos grisalhos, mesmo na semiescuridão, deslumbrou-se com o que viu, toda a magnificência dos aposentos da pequena Agnes, como se fosse a primeira vez que adentrava aquele sítio.

Naquela noite fria de outono, o quarto enorme exalava os olores de primaveris de rosas frescas colhidas no arrebol orvalhado. Valentina, esperava que as luzes se acendessem automaticamente assim que colocasse os pés no recinto. Não acenderam; somente as luzes de segurança se fizeram presentes. Valentina levou a criança até a cama, ajeitou a pequena Agnes letárgica e a cobriu com uma alabastrina manta de algodão egípcio. A menina ergueu a cabeça e sorriu inocente para Valentina antes de cair completamente no sono.

Valentina foi até a pequena biblioteca da menina e pegou o livro Os Filhos do Sol, da estante, livro que tratava de crianças separadas de seus lares por um deus cósmico e dispersas pelos confins do universo. Um volume de capa dura, de couro cru, desgastada pela ação do tempo, mas com páginas glaciais e incrivelmente novas. Sem editora, sem nome de autor ou mesmo nacionalidade; livro escrito em um português que misturava arcaísmos medievais lusitanos com o moderníssimo português do novo mundo. Um livro que aparentava ser muito antigo e incrivelmente novo ao mesmo tempo. E que Valentina nem sabia como fora parar ali, na biblioteca da pequena Agnes, pois era a própria babá quem fora encarregada das escolhas das compras literárias da pequena, sempre sob o crivo rigoroso da Condessa Fá Rodrigues Butler, a mãe de Agnes. Quando Valentina a questionou sobre a obra desconhecida, a mãe da menina respondera de forma vaga: — São desígnios dos deuses e das deusas imortais, minha querida Valentina! Se quiseres ler para a pequena, leia, ora essa. E não me aborreça mais com essas miudezas! — assim disse a Condessa um tanto nervosa.

Valentina colocou o livro de volta na estante de Palo Santo, deu alguns passos, foi até a janela e a abriu. Olhou para baixo, levou a mão à haste esquerda e ajustou os óculos para longa distância; depois, tocou a haste direita, acionando o módulo de visão noturna. As lentes se autoajustaram. A babá viu as luzes vermelhas e amarelas lá embaixo: uma profusão de ambulâncias e viaturas das forças de segurança — bombeiros, policiais civis e militares. Profissionais da imprensa e populares circulavam, contidos pelos agentes da lei, cones e fitas que resguardavam a cena do crime.

— Deus do céu! É sempre assim quando a Condessa volta para casa depois do trabalho e resolve dar essas festas infernais! Deus do céu! Será? — a voz da babá era arrastada e exausta.

— Falando sozinha, Valentina? — disse uma voz distante na mente de Valentina.

A senhora idosa fechou os olhos e sorriu. Há quanto tempo não ouvia aquela voz doce, límpida e cheia de mistérios?

— O livro é presente teu, afinal de contas? Claro que é! De quem mais poderia ser? — disse Valentina, que continuava a olhar para baixo; não tinha coragem de encará-la. Mas havia ali a fragrância de rosas frescas, o alfarrábio, o teatro tétrico lá embaixo e o quarto à meia-luz. Valentina viu ali um cenário bem montado, e algo — ou alguém — apenas esperando o momento certo para surgir de forma teatral dos bastidores escuros.

— Quase isso, meu anjo! — disse mais uma vez a voz ao longe, como se pudesse ler os pensamentos da babá. Valentina soube que a hora havia chegado.

— Kriseide, eu não tive culpa alguma do que aconteceu naquele dia! — justificou-se Valentina para o vazio.

— Sabe qual é o problema de vocês? — perguntou Kriseide, respondendo enfática: — Vocês são incapazes de viver com os pesos das próprias fraquezas e angústias! São incapazes de viver consigo mesmos e com os seus erros, por mais simples que sejam!

Valentina fechou os olhos, virou-se e deu dois passos à frente. Mil vozes gritavam em sua mente. Sentiu uma chuva de vidros dilacerar o seu corpo por inteiro; de forma brutal e rápida, o corpo de Valentina ardia em chamas para, logo depois, ser projetado para trás. Atravessou a janela de vidro temperado; o noturno vento frio e a sensação agonizante da queda livre aterrorizaram a babá. Do impacto ao alcançar a calçada, Valentina nada sentiu. Deitada no chão frio, respirando sofregamente, sentiu apenas micro-agulhas perfurarem a carne até os ossos. Para depois acordar, sentada na poltrona de leitura, sem um arranhão sequer, com o livro Os Filhos do Sol no colo. Valentina olhou para a menina no berço e logo imaginou que aquele era apenas o começo de um pesadelo sem fim — e não apenas para ela.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa.