Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 8 (Agosto / 2026)
Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
São dias escuros
e noites convulsas.
O tempo em que
vivo...
Definitivamente eu não me importo mais
Com as minudencias atrozes
Do dia a dia
urbano e pós-moderno
Que giram ao meu redor.
***
Talvez! E digo
talvez,
Se os meus
ligeiros estros nevoentos
Fossem mais
sinuosos e curvilíneos,
Tu poderias me olhar
Com um olhar
cândido e sereno.
Então eu não
seria tão sorumbática assim
E deixaria de me
abrigar
Neste meu mundo
de sombras.
Na Turris eburnea
***
Se for verdade
O que a
literatura ultrarromântica me disse,
Que o dito do
amor verdadeiro
Não conhece
barreiras de amar
E ser amada
perdidamente...
Então eu sou uma glamorosa
rainha.
Uma doidivanas
desafinada,
Cantando uma
longa e triste
Canção de amor
dorido
Nas ondas de uma
rádio AM
Do século
passado.
***
E pensar que
papai
Nunca convidou
mamãe para dançar
Em fim de semana
qualquer.
E eles nunca
chegaram em casa
Ao amanhecer de
um novo dia,
Com a sensação
única
De tirar os
sapatos apertados dos pés
Exaustos, se
atirarem na cama imaculada
Depois de
dançarem a noite inteira,
Em um encerado
piso de madeira
Embalados por músicas maviosas
E popularescas,
Embalados em
movimentos graciosos
E espontâneos,
Como se fosse um
casal
Perdidamente
apaixonado
***
Então a hirta
realidade se impõe.
Então percebo que não vivo
Em um lar
funcional.
Somos nós contra
o mundo,
Disseram-me os
meus progenitores
Felizes da vida
No almoço de
domingo.
Então volto para
o lugar comum.
E digo que vou
escolher melhor
Os caminhos que devo trilhar
Daqui para
frente.
Fragmento do livro, Sustentada no ar por negras
asas fracas, texto de Clarisse Cristal, poetisa, cronista, contista, novelista
e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.