Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 8 (Agosto / 2026)
Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)
A autoria da Odisseia, poema épico fundador da literatura
ocidental, é atribuída ao poeta Homero, da Grécia Antiga (928 a. C.- 898 a. C).
Há muitas polêmicas sobre sua real existência histórica, mas ele é a
personificação coletiva de toda a memória dos gregos, a culminância de séculos de
histórias contadas oralmente.
A Odisseia narra a perigosa jornada de dez anos do herói
Odisseu, também conhecido como Ulisses, para retornar à sua casa na ilha de
Ítaca, após a guerra de Tróia, enquanto sua esposa, Penélope, resiste aos
pretendentes estrangeiros que não desejavam somente o seu amor, mas o poder de
seu reino. Penélope não é ingênua. Ela tem um pensamento político. Não quer
entregar o governo a estranhos, que, certamente, matariam o seu filho,
Telêmaco. E assim, bordando um sudário, aguarda a chegada improvável de seu
amado Odisseu.
A partir dessa história, “odisseia” passa a ser sinônimo de
travessia longa, cheia de aventuras, provações, percalços, perigos. O homem
atirado ao mar dá vida, enfrentando ciladas, tempestades noturnas, contando
exclusivamente com sua inteligência e astúcia. Visando o seu autoconhecimento.
Alcançando o fundo de sua consciência.
A Odisseia continua inspirando o cinema contemporâneo. O
filme “A Odisseia” de Christopher Nolan (1970), diretor, roteirista e produtor
britânico, é grandioso, bárbaro, melancólico. Odisseu é interpretado com força
contida por Matt Damon; Anne Hathaway é uma altiva Penélope e Tom Holland, um
jovem atordoado e confuso Telêmaco, em busca de sua identidade. Mas a maior controvérsia
é uma Helena de Tróia negra, encarnada na pele luzidia de Lupita Nyong’o. Surge
o debate: Helena sempre foi mostrada com pele e cabelos claros. Homero não a
descreve fisicamente em detalhes. Deixa que cada leitor imagine o seu ideal de
beleza. Uma Helena negra revelaria a presença de etíopes entre os gregos. Uma
deusa de ébano incorporando as trágicas irmãs gêmeas, Helena e Clitemnestra,
esposa vingativa de Agamenon. A pesquisa, no entanto, remete ao fato de que
Helena era prima de Penélope. Christopher Nolan deu um toque ousado e poético
com essa escolha.
Os cenários são reais, locações espalhadas pela Europa e Norte da África. E todas as fabulosas fantasias transpondo a realidade para o plano místico estão lá: os furacões que inundam e partem os navios ao meio; sereias sedutoras e fatais, com suas vozes que puxam os viajantes para a morte; ninfas que tentam manter Odisseu prisioneiro, como Calipso, ofertando-lhe a flor azul e alucinógena de lótus; Circe, a feiticeira envelhecida no ódio e na maldade, horrenda, arrancando com as próprias mãos os espíritos de porcos encravados nos homens; a alma do adivinho Tirésias, entre zumbis bebedores de sangue. Odisseu guerreiro, de instinto prático, indomável, estrategista, artesão, criatura e criador, capaz de tecer redes, de moldar armas e reconstruir navios.
Sufocando sua emoção ao rever Penélope, Odisseu usa de um
ardil para combater os famigerados pretendentes instalados no seu palácio.
Entra no território inimigo disfarçado de mendigo. Evita o peito aberto.
Infiltra-se. Luta corpo a corpo. O final é feliz. Penélope e Odisseu embarcando
num navio rumo ao sol poente. O eterno convívio do grego com o mar. Com a sede
de expansão do sonho de alargamento de fronteiras geográficas e psíquicas.
Um filme como “A Odisseia” faz repensar a necessidade de
nos arremessarmos ao desconhecido, aos mares e ao espaço, com coragem e esperança.
Algo extraordinário, potente. A luta contra o fatalismo do Destino, tendo a
razão como única bússola.
Pensando em Odisseu, escrevi um poema erótico, na voz de
uma sereia:
Vem, Odisseu,
Detém teu barco,
Sou sereia sedutora,
Sirena suave
Que atrai para o abismo.
Vem, meu navegante,
Para a minha caverna,
Minha gruta secreta
Onde te devoro
E te encanto.
Vem, meu bravo,
Venceste Tróia
Com tua astúcia,
Descansa em minha ilha,
Entre penhascos negros
E precipícios de espumas.
Vem,
Sou sereia,
Cauda de peixe,
Toda vulva,
Estranho molusco
Que te descarna
E te sepulta
Nos baixios do mar.