segunda-feira, 1 de junho de 2020

NIMBUS


Por  Pedro Barcellos  (Bagé, RS)

Naquela noite fantasmagórica, as luzes bruxuleavam como se brincassem de esconde-esconde com suas próprias sombras. Não havia eco; pois não havia som, nem passos na água fria que se acumulava na calçada. Não havia badalar de sino de igreja alguma. Os postes riscavam a noite com linhas incandescentes, mas a escuridão do silêncio era um manto que abafava até o farfalhar das folhas secas. Tudo estava suspenso no tempo, como uma respiração presa, tomada por vapor de panela, em um giro de desmaio, lento e infinito. Até que houve um respiro, um rasgo na noite úmida, um estrondo à frente da igreja. As nimbus se chocaram. Uma faísca se fez, um raio beijou a cruz; e o trovão se adonou de cada ruela, de cada casa e de cada ouvido, em Bagé. As gotas caíram rápido; e o tempo andou. O relógio, iluminado, como que para compensar o trabalho não feito, girou rápido, dando tantas voltas quanto possível, enquanto as gotas martelavam o asfalto, o zinco quente e o sono de quem acordou na calada da noite, sem saber que o tempo parara. O coração descompensado, batendo rápido; não era susto do trovão que ressoava no quarto, era o tempo se recuperando. Agora, o vento varre as ruas; e a chuva limpa as janelas, horas passadas... A noite pariu, o dia pode chegar de mansinho e tudo seguir na engrenagem da vida, sistêmica e perfeita.


(Pedro Barcellos é membro do Movimento dos Escritores Bageenses, MEB)

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