CIDADE NUA

Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

(Para Rute Margarida Rita)

Corpo incorpóreo
Em transcendência
Uma nota dissonante
Que destoa
Que trespassa
A realidade liquefeita
E pós-moderna
***
Viagem transcendental
Em terra nua
***
Corpo incorpóreo nu
Em desalinho
Que devassa
 Noturnos labirintos
***
São perdidas noites insones
Sem fim

INEXORÁVEL (MEUS SONHOS EM MIL PEDAÇOS)

Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

(Para Mari Gomes‎)

O teu silêncio sobre mim
Vale mais que mil palavras
***
São mil palavras imperfeitas
 Hialinas abstrações liquefeitas
 Belas letras não revisadas
Enclausuradas
 Em páginas em branco
***
Quem dera poder saltar
Lançar-me ao infinito 
E perpassar os astros
Alcanças a divina musa
***
Fazer-te feliz por alguns dias
Ou poucas horas
Nanosegundos de pura felicidade
Em poucas linhas abstratas

RAINHA VICTÓRIA (NAVEGO PELO MAR DA TRANQUILIDADE)

Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

 Para Victória Butler Rodríguez

Navego pelo mar da tranquilidade
Cheio de esperanças
Renovadas
***
Pois tenho pensamentos probos
 Pensamentos bons
Mesmo sabendo que tenho
Um longo e difícil caminho
Para percorrer
***
A minha abstrata arte
Já não conhece limites
 Criou asas
 Voo para além do cosmo infindo
***
Tenho um longo e tortuoso caminho
Pela frente
Mas sei que ela vai estar lá
A minha espera
Tão linda e prefeita
Como só ela sabe ser
***
Já não dói mais...
A minha negra arte tão carregada
De dor e sofrimento
Não existe mais
***
A minha negra dor se foi
Dobrou a esquina e desapareceu
Por completo em meio
A massa dissoluta
***
O crepúsculo eviterno
 Já não cega mais
Meus quasímodos olhos
 Não temo a negra noite eterna
Com seus mistérios infindos
***
Tenho o sono tranquilo
Pois sei que ela estará
Ao meu lado
Quando eu acordar pela manhã

VIOLETAS PAIXÕES

Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

(Para Izabella Silva)

Com passos firmes
Veio ao meu encontro
***
Tinha brancas e imaculadas
Rosas nas mãos
Um belo sorriso nos lábios
Mil pedidos de desculpas
Para declamar
Chamando-me
Para um eviterno valsar
Sob a luz do negro luar
***
Veio até a minha surreal pessoa
Depois de muitas tempestades
 Com fortes ventos, trovoadas e raios...
De muita tormenta e dor
***
Veio como quem quis virar
A página das nossas liquefeitas vidas
 Por fim
Uns pedidos de desculpas
Lamúrias e lamentos
Na ponta da língua
***
Veio por fim
Como violetas paixões
A declamar uma breve
E inócuo poema pastoril de amor
***
Veio abstrato
 Vazio e oco
Em violetas paixões
E eu simplesmente lhe disse não

FÁH BUTLER (A QUARTA NOTA MUSICAL)

Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

Uma écloga de amor
Uma ignota canção pastoril
Em estado puro
Em tempos de paz
Em tempos de guerras
***
A celestial e intempestiva paixão
O lascivo amor sintético
O sibilino e abissal amor
Nanotecnológico
***
O amor abstrato e surreal
Em tempos de realidade líquida
Em tempos de realidade virtual
Em tempos de realidade liquefeita

LEANDRO GOMES DE BARROS

LEANDRO GOMES DE BARROS - Dia do Cordelista

Por Gustavo Dourado (ALT,Taguatinga,DF)

(Homenagem de Gustavo Dourado e da Academia de Letras de Taguatinga)

Leandro Gomes de Barros:
Na Paraíba nasceu
Na fazenda Melancia
O vate sobreviveu
Na cidade de Pombal
O seu nome inscreveu...

1865:
Em novembro, dezenove...
Em Pombal na Paraíba
O Leandro nos comove
Poesia de primeira
Sua poesia me move...

Criou o Canção de Fogo:
Foi dínamo da poesia
O cordel tem sua marca
Sua luz, sua magia
Registrou o seu talento
O que fez foi alquimia...

1918:
4 de março o dia
Vitimado pela gripe
Que matava à luz do dia
Influenza espanhola
Era o nome da porfia...

Fugiu de casa aos 11 anos:
Pelo padre maltratado
Vicente Xavier de Faria
Era o nome do danado
Perseguia a Leandro
Dava pisa no coitado...

O padre era seu tio:
Agia com violência
Leandro queria paz
Ser tratado com decência
Leandro, Cancão, Alfredo
Não é mera coincidência...

Fez centenas de cordéis:
Que merecem antologia
É poeta consagrado
Até pela academia
Sua poesia tem arte
Tem o caldo da magia...

História da Donzela Teodora:
Juvenal e o Dragão
A Órfã Abandonada
As Histórias de Canção
Rosa e Lino de Alencar
Leandro, vate do sertão...

Antônio Silvino, o Rei dos Cangaceiros:
A Filha do Pescador.
João da Cruz - O Boi Misterioso
Alonso e Marina...A Força do Amor
O Príncipe e a Fada, O Dinheiro
O Soldado Jogador...

A Batalha de Oliveiros e Ferrabrás:
A Morte de Alonso e a Vingança de Marina
A Mulher Roubada; A Vida de Pedro Cem
Criou A Princesa da Pedra Fina
Teceu A Prisão de Oliveiros
Com poética silibrina...

Leandro Gomes de Barros:
Poeta incomensurável
Foi um dínamo da poesia
Eternamente louvável
Hoje encanta no infinito

Mestre vate inigualável...

O PUDOR DAS CRIANÇAS

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Recostada na cadeira de trabalho, em contraluz, diante da camila, revestida de toalhinha cor de canela, que tapa a braseira de cobre – onde em frias tardes de Inverno, ardem brasas rubras, – a zelosa mãe, de agulha na mão, acerta os calções vermelhos, da filha amada.
Pelas extensas vidraças, viradas para a cidadela, penetra leve claridade, envolvendo tudo numa doce e deliciosa paz.
Luz desmaiada de fim de tarde de Verão. Lá fora, o céu azul, acarminas- se, esmorecendo lentamente, em violeta – sanguínea e luminosa poalha doirada.
Silêncio.
A pequena salinha adormece em doce penumbra. Tudo se desvanece num misterioso encantamento: o aparelho de TV; o armário, pintado de branco, arrimado ao fundo; a toalhinha cor de canela, a mãe; os calções encarnados…Tudo se esvanece, esfuma-se, perdido na luz acolhedora, de entardecer calmoso.
Vem da cozinha, intensamente iluminada, tilintar de vidros e metais; e paira no ar, adocicado e delicioso odor a chocolate. É a filha mais velha que tem o bolo no forno.
De súbito o repousante silêncio – convidativo à sonolência, – é rasgado por harmoniosa voz juvenil:
-“ Mãe!!! … Como se faz chantilly?”
Um sorriso de bondade aflora nos lábios finos da progenitora.
Depõe os calções encarnados, mais a agulha, sobre a mesa, e lançando meigo olhar para a filha – que de mangas arregaçadas, no limiar da porta, aguarda a esperada resposta, – diz:
- “Mistura manteiga com açúcar e bate muito bem…muito bem…muito bem…Depois…”
Afobada, de braços balanceando, boca a transbordar sorrisos chilreantes, olhos vivos, espertos, luzindo de felicidade, entra a caçulinha, em grande estardalhaço.
Beija de fugida a mãe; abraça-a afectuosamente, como querendo dizer: - “ Gosto muito de ti! …”
Espicaçada pela curiosidade, aos saltinhos, quase pardalita travessa, a menininha interroga, ansiosamente a mana querida:
- “O que estás a fazer?!”
Ninguém lhe responde….
Amuada, despeitada, triste, de olhos fixos no vácuo, fica pensativa, a folhear velho caderno escolar, de capa azul, de folhas enodoadas, por muito ter sido manuseado.
Pela escancarada porta de vidro da varanda, entra, trazido pela brisa morna, à mistura com ruídos da rua: guinchos infantis e risos festivos de crianças. São os filhos do doutor ou do Major?
Ao longe, muito ao longe, galos de voz esganiçada, anunciam que são horas de recolher….
A salinha, agora, é quase trevas. Na semi-escuridão reluzem, na carinha morena, os luminosos olhos castanhos da meiga garotinha, que permanecem parados, tristes e meditativos.
Por arte mágica, de repente, tudo ganha brilhos e rebrilhos e nítidos contornos. Foi a mãe, que vindo da cozinha, acendeu as lâmpadas.
-“ Vamos provar?” – Diz, como se a convidasse.
Nesse comenos, toca a campainha. Quem será?!
É a D. Flora, professora, amiga da dona de casa.
Dá repenicados beijinhos à menina e à mãe, e atira, com quatro dedos rechonchudos, beijos à que anda à volta com o bolo, que rescende.
Conta novidades: casamento da Néné; maroteiras do filho do Dr. Bento; a lotaria premiada, vendida na Praça da Sé…
- “Vem menina! …Vem provar!” – Insiste, mais uma vez, a mãe, explicando, à visita, que vão a banhos para Foz de Arelho.
Encolhida, envergonhada, enleada, de faces rosadas, avizinha-se; e esta sem reparar no rosto anacarado de acanhamento, levanta-lhe a vaporosa saia, deixando as calcinhas cor-de-rosa, à vista e a perna nua.
Constrangida, humilhada, por se ver descomposta diante de estranhos, a pequenita fica a balancear: a brincar com os dedos das mãos…Com os dedos dos pés…Acariciando os macios cabelos castanhos de reflexos doirados; mas as maçãzinhas do rosto, enrubescem-se de pejo.
A mãe é mãe. Não é “gente”. Despir-se diante dela, é normal…mas na frente de visitas…
Indiferente ao comportamento da filha, nem repara no acanhamento, e continua a conversar – num cavaquear de amigas.
Este quadro familiar, tão simples, tão singelo, tão sem importância, não seria merecedor de registro, senão fosse o embaraço da mocinha.
Os pais, por vezes, esquecem-se que os filhos cresceram…Deixaram de ser garotinhos.
Há mães que pedem a empregadas para darem banho aos filhos, e vestem-nos diante de amigas. Olvidando que o pudor das crianças deve ser respeitado.
 A cena que vos trago, ocorreu há muito e muitos anos, quando os meninos e meninas eram recatados.
Agora, o pudor, parece estar a desaparecer…
O “progresso” deve-se, em parte, ao: ensino misto, à liberdade paterna e mormente à nefasta influência do cinema e TV.
Essa á vontade, por si, não é má nem boa. Mau é quando descamba em libertinagem e desrespeito pelo corpo.