UM MERGULHO NA ESCURIDÃO (4ª PARTE)

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)



Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

Quarta parte

Fecho os meus lânguidos olhos

Há muito cansados

E tento imaginar

O que de fato tu pensas

A respeito dos perdidos versos

 Ágrafos meus

Lançados aos astrais insulares

Ventos solares

 

A Dama da Noite se impressionou ao chegar no que seria a cobertura do Darkness Fall Club. O clima sorumbático ficou para trás; a escuridão e o clima gótico dão lugar a um clima tropical e de festa. Ela pensou que as pessoas que projetaram esses dois ambientes distintos deviam ser loucas ou muito espertas, ao pôr no mesmo espaço dois ambientes tão diversos.

A piscina semiolímpica aquecida estava cheia e com o sistema de autofiltragem funcionando. Ao lado da piscina, próximo ao bar, duas jovens mulheres orientais — uma de topless e outra completamente nua — tomavam banho de sol em uma cadeira de sol conjugada. A mulher de topless era pequena e parecia uma adolescente: pele lisa e clara, rosto sem espinhas, tinha cabelos longos, lisos e soltos; usava um minúsculo biquíni floral, uma grande tatuagem de dragão em forma de serpente na coxa direita e peitos pequenos. Possuía outra tatuagem no ombro direito, onde estava escrito Tranny com fonte de design oriental; a mulher estava deitada de costas.

A outra mulher era um pouco maior e parecia mais velha: tinha os cabelos curtos e com luzes, sardas no rosto, pele morena; usava óculos escuros de grife e importados, uma pequena borboleta tatuada no pé esquerdo e um dragão em forma de serpente tatuado na virilha. De seios pequenos, estava deitada de barriga para cima. As duas levantaram a cabeça ao perceberem a presença da Dama da Noite; ambas levaram as mãos à boca, riram da jovem e falaram entre si em uma língua estrangeira.

— Falam a minha língua, senhoritas? — perguntou Cigana ao passar ao lado das mulheres orientais.

— Claro que falamos, ora essa! — disse a mais velha, como se se desculpando. — Ao fundo do bar tem uma porta, as outras meninas estão te esperando lá dentro. E vê se não liga para o Claus; às vezes ele é meio inconveniente, sabes como são os homens! — Falou isso e olhou para a outra ao lado; elas explodiram em gargalhadas.

— Tá bom, não vou ligar para o teu amigo! Aliás, não tenho esse péssimo hábito de olhar para os homens das outras, são eles que olham para mim! — Todas as três riram alto.

Cigana foi encontrar Claus atrás de um frio balcão de mármore Calacatta Borghini. Ele estava preparando uns drinks: uma caipirinha de limão e mel e dois dry martinis. O homem parecia um típico empreendedor europeu endinheirado que passava da meia-idade, de férias eviternas nos trópicos ensolarados. Usava uma camisa floral, uma bermuda azul-marinho da moda e óculos de sol de grife importados, iguais aos das damas deitadas na cadeira de sol, um chapéu náutico e sandálias verde-amarelas ordinárias nos pés. A Dama da Noite percebeu uma caixa de charutos Havana no balcão do bar.

— Bom dia, moça! Espero que se divirta muito, afinal de contas a vida é curta demais para não ser aproveitada, não é verdade? — falou Claus em alemão berlinense.

— Bom dia, Herr Claus! Tem mesmo um gosto estranho em se tratando de diversão, meu bom senhor! — devolveu a Dama da Noite também em alemão, se voltou para trás e olhou demoradamente para as duas belacíssimas mulheres orientais, deitadas complacentemente na cadeira de sol, esperando pelas bebidas sofisticadas. A fala da Dama da Noite em alemão desconcertou Claus. Passado o susto inicial, ele percebeu logo que ela falava um dialeto teuto: o pomerano.

— Diga para Agnes que vou vê-la hoje, ao cair da noite! — Claus falou em português, sem sotaque algum para um típico estrangeiro em férias nos trópicos.

— Em Roma, como os romanos, não é mesmo, meu bom senhor? Não sei quem é essa tal fulana, meu senhor, também não sou garota de recados de ninguém! — Disse Cigana de forma debochada.

— A porta é esta aí! Bem na sua frente e está aberta! Não precisa bater, estão lhe esperando, meu anjo! — disse Claus, falando de novo em alemão, mas em um dialeto do norte, de Hamburgo.

— Quem sabe possamos nos ver mais tarde? — perguntou a Dama da Noite em um tom sedutor.

Herr Claus não responde, só faz um aceno positivo com a cabeça e a Dama da Noite retribui com um sorriso sedutor. Ele sai de trás do balcão, movimenta-se rapidamente em direção às mulheres orientais, que falavam palavras incompreensíveis para a Cigana. Elas desatam a rir ao ver Herr Claus se aproximando com as bebidas e a caixa de charutos em uma bandeja de prata. A Dama da Noite, naquela altura, deduziu que era o dialeto local das duas mulheres orientais e que Claus ou entendia o dialeto ou não se importava com o fato de não entendê-las.

— Não sei o porquê de eu estar aqui, ora bolas! Mas vamos lá! — sussurrou Cigana. Andou até a porta e levou a mão esquerda à maçaneta. Não foi preciso a jovem abrir a porta de alumínio aos fundos do bar da piscina; como por encanto, ela se abriu sozinha.

 

Fragmento da novela A Casa de Teto Verde. Texto de Samuel da Costa, poeta, novelista e contista em Itajaí, Santa Catarina.