Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)
Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)
Quem vive muitos anos,
facilmente verifica que, o parecer dos homens de Letras e não só, - variam
consoante a posição que ocupam no xadrez da vida.
Basta escrever critica
desfavorável ou pouca lisonjeira, para o poema ou texto, escrito por Fulano,
passe de bom a mau.
Moura e Sá, no interessante ensaio: "
Vida e Literatura", escreveu: "Quando dizemos: Este poema é mau,
queremos muitas vezes, afirmar que o autor pensa em matéria política, de
maneira diferente da nossa".
Em 1604, Lopes de Vega,
despeitado, escreveu missiva a amigo, referindo-se a Cervantes, por este haver
depreciado seu teatro: " De poetas não digo, que esteja bom ano (...),
mas nenhum há tão mau como Cervantes, nem tão néscio, que seja capaz de Gabar o
D. Quixote."
É conhecidíssima a carta, que
Voltaire escreveu a Quinault, lamentando-se:" Só se ganha (com
os escritos,) inimigos, desprezo, quando não se vence, e ódios quando se
triunfa.".
Também Ramalho, “Em Paris"
se lamenta:
"Os homens
predestinados pelo talento de escrever, criam às vezes prosélitos, mas não
criam amigos; conquistam inteligências, mas não corações; tornam-se célebres,
mas não se tornam amados."
Já que pretendo reunir apanhado
de opiniões de homens de Letras, sobre a inveja, cito o que declarou ao "
Diário de Notícias" Helena Sacadura Cabral: " Os valores,
raramente são conhecidos, e os mais inteligentes constituem o repasto ideal
para a calúnia."
É sabido que a crítica é, em
geral, fruto de "capelinhas". Se são de esquerda, elevam ao Olimpo,
os correligionários; se são de direita comportam-se como diz Cruz Malpique: "Agora
é que vais saber de quem sou filho!", e desandam sem dó e piedade. Álvaro
Lins, em " Literatura e Vida Literária" afirma:" Alguns me
advertem que não estou agradando inteiramente com a minha crítica, porque não
me coloquei ao serviço de um partido ou de grupo, que por sua vez, me apoiaria"
O defunto suplemento literário,
do "Jornal de Notícias", foi encerrado por não ter louvado o romance
de Paços d'Arcos, segundo, Manuel António Pina, ("JN”, de 26/O1/2012, pág.
48.).
Disse. por graça, Júlio Dantas,
sobre a inveja entre intelectuais, que era - A "Formiga branca das
literaturas".
Por sua vez, algumas editoras
preferem publicar só os da sua ideologia política. Certo jovem, no início da
carreira, lembrou-se de enviar o original, a escritor consagrado. Este deu-lhe
parecer favorável – O que é raro! Acrescentando que seu editor talvez pudesse
publicá-lo. Mas, teria de se inscrever no partido de Sicrano, se o queria vê-lo
em letra de forma!....
Infelizmente quem não tem
posses ou mecenas, se quer singrar, tem que se tornar Bonifácio de
"importante", e pensar, e agir, como ele quer.
Assim foi e assim será – em
todas as profissões....