ABORTOS

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)

 


Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

 

Houve muitos abortos na família Figueira, eu sei. Sacrifícios humanos ao deus do ego. Crianças passadas pelo fogo sem piedade. Flores cortadas. Asas cortadas. Rosas mortas. Abortar nunca é um ato inócuo. Há uma vida humana a desenvolver-se no ventre da mãe: um pequeno ser como cada um de nós já foi. Parece tão óbvio, mesmo assim caímos fundo. Fetos foram sugados, salgados, dilatados, curetados.

Mulheres de minha família viveram com sentimentos de depressão, de autodesprezo, de ansiedade, de raiva, num verdadeiro colapso emocional. Mulheres de minha família enfraqueceram o seu instinto materno e destruíram laços afetivos com seus outros filhos. Mulheres de minha família tiveram essa experiência traumática esmagadora. Bem que procuraram banir o fato de suas mentes, fugir, se esconder, reprimir. Mas há uma tensão constante entre a necessidade de esconder e de expor o trauma. Misto de culpa e vergonha. Não há como uma mulher esquecer um filho, mesmo aquele que ela jogou num poço, mesmo aquele que ela abortou. Ela sempre o conta entre os seus filhos. Repulsa e fantasias intrusivas perseguiram sempre as pobres mulheres de minha família.

Imagino agora um mar de sangue formado pelos Figueiras que não vieram ao mundo, que nunca viram a luz do sol: são placentas, pernas, braços, corações, cérebros, zigotos, que borbulham num imenso caldeirão. Fecho os olhos e os batizo: João Figueira, Pedro Figueira, Henrique Figueira, Madalena Figueira. Desfio nomes, nomes e nomes: eu os batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Eu os batizo, personagens que não chegaram a nascer. Exausta, imploro paz para nossa árvore bendita.

Ouço uma voz que me consola: “- A figueira já deu os seus figuinhos, e as vides em flor exalam o seu aroma. Levanta-te, amiga minha, formosa minha, e vem.”

 

 

(Capítulo extraído do meu romance ÁLBUNS DA LUSITÂNIA, Campo Grande/MS: Alvorada, 2012, p.159)

POESIA E MAGISTÉRIO

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)




                                                 Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

Em entrevista à revista Manchete, publicada em outubro de 1953, Cecília Meireles declarou: “O meu interesse pelos livros transformou-se numa vocação de magistério”. Essa vocação levou-a a fazer o curso da Escola Normal (Instituto de Educação), diplomando-se como professora em 1917 e passando a exercer o magistério. Educadora, preocupou-se com os problemas da infância. Em 1930, houve no Brasil um surto de esperança em torno da educação. Ela se empenhou nesse movimento de renovação, participando das reformas e dirigindo, no Diário de Notícias, uma página dedicada aos assuntos de ensino. Criou em 1934 uma Biblioteca Infantil especializada, em Botafogo, a primeira do gênero. Folheando a antologia “Flor de Poemas”, encontrei e reli o seu poema “Aluna”, do qual transcrevo as duas primeiras estrofes:

 

“Conservo-te o meu sorriso

para, quando me encontrares,

veres que ainda tenho uns ares

de aluna do paraíso...

 

Leva sempre a minha imagem

A submissa rebeldia

Dos que estudam todo o dia

Sem chegar à aprendizagem...

 

Cora Coralina, a poeta e doceira goiana, professora de vida e resistência, tem em seus poemas uma postura pedagógica, de mestra de todos nós. Livre, receptiva, sábia, cultivadamente rude, ela, que se tornou escritora, relembra aquela que lhe ensinou a escrever, no poema “A escola de Mestra Silvina”:

 

“Minha escola primária...

escola antiga de antiga mestra.

Repartida em dois períodos

Para a mesma meninada,

Das 8 às 11, da 1 às 4.

Nem recreio, nem exames.

 

Nem notas, nem férias.

Sem cântico, sem merenda...

Digo mal – sempre havia

Distribuídos

Alguns bolos de palmatória...

A granel?

Não, que a Mestra

Era boa, velha, cansada, aposentada.

Tinha já ensinado a uma geração

Antes da minha.

A gente chegava “-Bença, Mestra.”

Sentava em bancos compridos,

Escorridos, sem encosto.

Lia alto lições de rotina:

O velho abecedário,

Lição sorteada,

Aprendia a soletrar.

...............................................

e a Mestra?

Está no céu.

Tem nas mãos um grande livro de ouro

E ensina a soletrar

Aos anjos”.

 

Cora Coralina é da estirpe de Gabriela Mistral, a poetisa chilena, expressão intelectual da América Latina, autora de “Desolação”, agraciada com o prêmio Nobel da Literatura em 1940. Técnica em educação escolar, consagrou aos filhos de outras mulheres todo seu instinto maternal, ela que nunca teve filhos. É dela a célebre “A oração da mestra”:

 

“Senhor, tu que ensinaste, perdoa que eu ensine; que leve o nome de Mestra, que pela terra levaste.

Mestre, faze-me duradouro o fervor e passageiro o desencanto.

Dá-me o ser mãe mais do que as mães, para poder amar e defender como elas o que não é carne da minha carne. Alcance fazer das minhas crianças meu verso perfeito e a deixar nelas gravada minha mais penetrante melodia, para quando meus lábios já não mais cantarem.

Mostre-me teu Evangelho em meu tempo, para que não renuncie à batalha de cada hora por ele.

Põe na minha escola democrática o resplendor de mulher e de mulher pobre; faze-me desdenhosa de todo poder que não seja puro, de toda pressão que não seja a tua vontade ardente sobre minha vida.

Dá-me simplicidade e profundeza; livra-me de ser complicada e banal em minha lição cotidiana.

Que eu levante os olhos de meu peito ferido ao entrar, em cada manhã, na minha escola.

Que não leve à minha mesa de trabalho meus pequenos afãs materiais, meus sofrimentos insignificantes.

Permite-me transformar em espírito a minha escola de argila. Que meu coração seja a coluna mais forte e minha boa vontade o ouro mais puro” ...

 

Adélia Prado, mística poeta mineira, tem todo seu trabalho fundamentado em suas aulas de Teologia e Filosofia. Encontro referências a escolas e educação em trechos de poemas como “Ensinamento”:

 

“Minha mãe achava estudo

a coisa mais fina do mundo.

Não é.

A coisa mais fina do mundo é o sentimento” .

 

Em “Códigos”:

 

“O perfume das bananas é escolar e pacífico.

Quando a mãe disse: filha, vovô morreu, pode falhar aula,

Eu achei morrer muito violoncelírico”.

 

“Abriam-se as pastas no começo da aula,

os lápis de ponta fresca recendiam”.

 

E, para finalizar, em “O alfabeto no parque”:

 

“Eu sei escrever.

Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,

Composição escolar

Narrando o belo passeio

À fazenda de minha avó que nunca existiu

Porque ela era pobre feito Jó”.

 

Cecília, Cora, Gabriela, Adélia, como amo vocês, minhas irmãzinhas de fé e de luta. Poesia, magistério, duas vocações profundamente unidas, interligadas, nascidas na área mágica do silêncio e da solidão, onde os livros se abrem e deixam sair suas realidades e seus sonhos.

Volto à minha infância. Vejo-me dando aula para minha classe de bonecas; o pátio da escola, onde estudei em São Paulo; os corredores e a capela do Colégio Auxiliadora, onde lecionei por tantos anos; os rostos de mestres, colegas, acadêmicos de Letras. Poesia e magistério, uma escolha. Um caminho difícil num país onde a cultura e a educação não são valorizadas, onde recebemos salários indignos, onde o cotidiano do mundo moderno se torna cada vez mais absurdo e caótico. Neste século XXI, ensinar tornou-se tarefa complexa. Significa lidar com transformações tecnológicas. Concorrer com telas e Inteligência Artificial. Enfrentar desafios emocionais. A perda da autoridade do professor causa desgaste na sua saúde mental. Apesar das dificuldades, da crise da leitura e da escrita, a docência continua sendo uma das profissões de maior importância social. A formação intelectual exige orientação, diálogo, aquisição de repertório. Qual Dom Quixote, continuo assumindo essa aspiração idealista. Que o sonho dessas vocações, ser poeta e professor, não morra nunca.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORA CORALINA. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. 4 ed. São Paulo: Global, 1983.

MEIRELES, Cecília. Flor de poemas. 2. ed. Rio de Janeiro: Cia. José de Aguilar, 1972. p. 88 (Biblioteca Manancial).

MISTRAL, Gabriela. Poesias escolhidas. Tradução por Henriqueta Lisboa. Rio de Janeiro: Ópera Mundi, 1973. p. 205.

POEMA 1

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)





Por Fernando Baggio (Purus, AM)

plantei um saco inteiro
de sementes de expectativas
nasceram dois pés de encantos surpreendentes
e uma árvore de bolhas de sabão

adubei com poesia
reguei com sonhos, noite e dia
logo, ervas saudosistas
floresceram no quintal

avó das expectativas
a saudade é mãe dos encantos surpreendentes
e vive dentro da mais curiosa bolha de sabão
aquela, de cílios incandescentes
prestes a estourar-se em prantos de alegria
lacrimejando sorrisos
em sementes de euforia
semeadas pelo chão


POEMA 2

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)



Por Fernando Baggio (Purus, AM)


do jasmim
a flor é branca
e o cheiro é colorido

das nuvens
as gotas dançam
feito moças de vestido

das sementes
agigantam-se
universos contraídos

das bolhas
os sonhos voam nus
e distraem a rima final da poesia

POEMA 3

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)






Por Fernando Baggio (Purus, AM)


o movimento das bolhas sem sabão

reivindica a estatização
de todas as fábricas de sabonetes líricos
e detergentes poéticos

além da urgente realização
de reforma agrária dos campos semânticos

caso contrário, haverá retaliação
ataremos a linha narrativa ao vento
e cortaremos as raízes morfológicas
das palavras desprovidas de afeição

A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)













FIN DEL DEBATE

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)

Por Kechida Abdelkadir (Argélia)


(Enviado por Germain Droogenbroodt, Altea, Espanha)


CANCIÓN DEL JINETE

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)


Por Frederico Garcia Lorca (1898 - 1936) (Granada, Espanha)

 

Córdoba.

Lejana y sola.

 

Jaca negra, luna grande,

y aceitunas en mi alforja.

Aunque sepa los caminos

yo nunca llegaré a Córdoba.

 

Por el llano, por el viento,

jaca negra, luna roja.

La muerte me está mirando

desde las torres de Córdoba.

 

¡Ay qué camino tan largo!

¡Ay mi jaca valerosa!

¡Ay, que la muerte me espera,

antes de llegar a Córdoba!

 

Córdoba.

Lejana y sola.

 

(Enviado por Germain Droogenbroodt, Altea, Espanha)


A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)











MORTE

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)


Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


A morte um dia chega.

A morte um dia vem.

Não se desespera.

 

Morte, morte chega.

Ela é uma tristeza.

A alma dói.

 

O coração destrói.

A gente sente.

A dor no peito.

 

Ai coração.

Dói coração.

 

Instagram: @liecifranborgesmartins

 

A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)













OPERA MUNDI (5ª PARTE): PORTAL TO DOOMSDAY CELEBRATION - O INÍCIO DO FIM!

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)



Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

“Quero poder caminhar
Com toda a certeza
E desafiar todos os desafios.
Não me cabe mais chorar.
Eu sou passarinho,
É hora de voar.”
Clarisse da Costa

 

O dirigível Mare Crisium ganhou lentamente o céu, subiu e aumentou a velocidade, adentrando triunfante em meio às densas nuvens negras cósmicas. Fortes ventos e raios astrais castigaram vorazmente a aeronave interestelar. A sonhadora em vigília e a comandante Bartira estavam na ponte de comando do dirigível e se entreolhavam em um silêncio abissal.

— O que a miledy esperava encontrar vindo aqui? — perguntou a militar de alta patente, de forma desdenhosa.

— Pergunta desconcertante! Este é um assunto que é somente meu, de mais ninguém, comandante Bartira! — respondeu Luna Dark, a afra-rainha, complacentemente, e continuou — Mas eu posso responder que é o início de um sonho bom e a certeza de que tudo vai acabar bem no final da história!

— Volte para a vossa casa, miledy, para a tua nova morada, no mundo em vigília! — disse a comandante Bartira, como quem queria terminar uma conversa desagradável com uma visita indigesta.

O dirigível Mare Crisium venceu a tempestade e adentrou o negror da zona de exclusão, o vazio absoluto, onde as negras sombras se movimentavam lentamente do nada. Foram ouvidos gritos de dor e sussurros lancinantes que surgiam do vácuo e iam para lugar nenhum. Uma revoada de agourentas aves Moris circundou a aeronave; uma ave agourenta pousou no parapeito da janela do camarote do dirigível. Os grasnares das aves agourentas trespassaram as infinitudes do vácuo astral e ecoaram nas duas ocupantes do camarote do dirigível Mare Crisium, como se fosse uma cruel sentença de morte.

Ao longe, suspensa no ar, a Turris Ebúrnea despontou no horizonte negro, em meio às álgidas neblinas eviternas, em um recôndito perdido no vazio da terra dos sonhos. A visão imponente e decadente da Turris Ebúrnea encheu o álgido coração negro da sonhadora em vigília de sentimentos contraditórios. A semideusa queria perecer e renascer várias vezes. À distância, Luna Dark, chocada, viu duas sentinelas robôs Erbore guardando o portal de entrada da Turris Ebúrnea. Então, Luna Dark escaneou as duas letais e portentosas peças bélicas ladeadas e notou as mesclas das tecnologias Masai e Mursi: um grau de eficiência militar jamais visto ou imaginado pela afra-rainha. A sonhadora em vigília tentou acessar os bancos de dados dos robôs sentinelas e simplesmente não conseguiu. Os complexos cérebros positrônicos sequer existiam, e as letais armas bélicas estavam envoltas em uma magia antiga e desconhecida de Luna Dark.

— Quem sabe eu posso ajudar a miledy! — disse a comandante Bartira, sem mover os lábios, e a militar de alta patente destravou os bloqueios das peças militares.

Então, Luna Dark, a afra-rainha, foi inundada por apavorantes e vívidas imagens de sonhadores e sonhadoras tentando, em vão, adentrar a Turris Ebúrnea, sendo calcinados e dilacerados pelas sentinelas robôs Erbore, para depois terem seus restos mortais teletransportados para a vastidão do vácuo sombrio dos entremultiversos inexplorados.

— Satisfeita, miledy? — perguntou friamente a comandante Bartira.

— Calibor, creio eu! — afirmou Luna, enfática.

— Recebi a ordem para deixar Vossa Majestade sã e salva no alto da    Turris Ebúrnea! E, caso a miledy consiga sair da Turris Ebúrnea, vá embora, volte para o mundo em vigília, miledy, afra-rainha Luna Dark, enquanto Vossa Majestade puder! — falou friamente a comandante Bartira.

Um ajudante de ordens, Aparai AS1, adentrou o camarote da comandante de campo para avisar que o dirigível Mare Crisium havia chegado próximo ao ponto de não retorno. Se chegassem perigosamente perto demais, as sentinelas robôs Erbore poderiam ser ativadas no módulo defensivo. Os zunidos eletrônicos que a máquina proferiu chegaram aos ouvidos da sonhadora em vigília Luna Dark como se fossem finos cristais sendo triturados. A sonhadora em vigília não deixou de pensar que a primitiva comunicação da máquina doméstica com a comandante do dirigível teria algum motivo que Luna Dark não entendia.

— Chegamos ao vosso destino final, Vossa Majestade! Miledy Luna Dark! — anunciou de forma solene a comandante Bartira.

As duas poderosas mulheres se levantaram simultaneamente, atravessaram o corredor do camarote, andaram até as escadarias e desceram os degraus. Ao chegar ao final das escadarias, os olhares ferozes de dezenas de felinos encontraram Luna Dark e receberam apenas indiferença. Andaram em meio à gataria por poucos metros até chegarem ao deque esquerdo de embarques e desembarques do dirigível; a porta se abriu automaticamente.

Luna Dark, não querendo prolongar o mal-estar, deu as costas para a comandante Bartira. Deu alguns passos, virou-se para a militar de alta patente, flanou no ar e subiu poucos metros, sem tirar os olhos da comandante de campo. A afra-rainha afastou-se alguns metros da belonave, virou-se para frente, voltou a olhar para trás e encarou a militar de alta patente com olhos ferinos. A outra devolveu-lhe um olhar frio. A porta do deque se fechou, e a sonhadora em vigília admirou o dirigível Mare Crisium entrar e desaparecer em uma ponte de Einstein-Rosen.

A sonhadora em vigília, agora sozinha, suspensa no vazio cósmico, olhou para baixo e viu a Turris Ebúrnea a poucos metros abaixo de si. A afra-rainha desceu lentamente. Uma revoada de aves agourentas Moris saudou a afra-rainha com seus grasnares tétricos em um negro bailado macabro. As aves agourentas se multiplicaram e circunvagaram ao redor da afra-rainha até a Turris Ebúrnea. Um portentoso brado — um salve à afra-rainha — chegou à mente de Luna Dark em vários dialetos e idiomas de povos há muito extintos.

 

Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas, texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

OUÇO

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)


Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Ouço o coração falar.

Suavemente para me acalmar.

Barulhos vem do mar.

 

A minha vida agitada está.

Corro contra o tempo.

Vivo o momento.

 

Choro quando paro.

Rezo quando entalo.

Ouço vozes me falar.

 

Coração sossega aí.

A ARTE DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)










CRIS E O DRAGÃO: ENTRE SAFO, VÊNUS, ATENA & ALGUMAS DEUSAS MAIS...

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

“Às vezes eu fico a pensar...

Qual será o meu grande amor?

Será a minha grande paixão?

Ainda não sei!

Pois acho que algum dia

Vou encontrar o meu grande amor...”

Marisa Libório

Para Diedra Roiz

 

As duas mulheres, na mesa ao lado, gargalhavam bem alto. Quebravam, assim, o clima sorumbático do lugar. Carolina ouviu, apesar do barulho que explodia nos alto-falantes, algumas frases desconexas, a princípio trocadas entre as duas criaturas da noite, que pareciam irradiar luz em meio às trevas do recinto. Elas falavam uma língua estrangeira; Carolina não soube precisar qual era o idioma.

As duas trocavam carícias ligeiras e contidas. A teuta de meia-idade, de pele alvíssima, cabelo louro bem curto e olhos verde-claros, passou as costas da mão direita no rosto, sem maquiagem, da jovem morena de longos cabelos, pele amendoada e olhos ligeiramente puxados. Esta última ficou rubra e desviou o olhar.

A mão da nórdica desceu do delicado rosto, passou lentamente pelos longos cabelos da morena, alcançou o ombro, passeou pelo braço nu e, finalmente, mergulhou por debaixo da mesa, onde os olhos de Carolina não alcançavam. Carolina acompanhava o desenrolar dos fatos com curiosidade crescente; a cena se dava a poucos centímetros dela. A linda morena, então, contorceu-se e fez uma careta que expressava prazer. Carolina ouviu os gemidos, baixos, mas audíveis.

A teuta, em um rompante, voltou-se para frente e olhou diretamente para Carolina. Sorriu com malícia e piscou com um dos olhos verdes, brilhantes e cheios de desejo. Depois, puxou a morena para si de forma ríspida. As duas se beijaram de maneira lasciva. Carolina ficou rubra com a cena que acabara de presenciar.

A cena foi interrompida, de repente, por uma outra mulher, que parecia fazer a segurança do recinto. Era alta, de pele branca, cabelo bem curto e negro reluzente, como a noite mais escura. Vestia-se toda de preto: coturnos pesados e lustrados, camisa regata, esmalte preto nas unhas, anéis de prata nos dedos, batom negro nos lábios, rímel marrom cintilante nos olhos. Tinha olhos negros e gelados, calça de silicone, um delicado piercing no nariz, outro na sobrancelha esquerda e grossas correntes de prata no pescoço.

O olhar de Carolina deteve-se, por instantes, nos seios fartos da mulher. Notou também uma postura marcial ou, pelo menos, resquícios de formação militar. Isso se revelava no andar duro, no olhar rude, cheio de autoridade, no dedo em riste e na ferocidade com que tratou as duas mulheres. Num rápido relance, Carolina também percebeu a enorme tatuagem no braço esquerdo da segurança corpulenta: a mesma que Cris fizera na perna dela, um vívido dragão em forma de serpente cuspindo chamas cor amarelo alaranjada.

A segurança, falou no mesmo dialeto estranho das outras duas e apontou para um canto escuro do lugar. Elas nada disseram. Apenas levantaram-se rindo, como crianças travessas que aproveitavam um dia ameno de sol, e as duas mulheres desapareceram na escuridão. A segurança bateu em retirada, em marcha, e também sumiu no breu do recinto.

Carolina pensou se estava, de fato, acordada ou vivendo um sonho.

— Cris, meu doce de gente, que tipo de lugar é este, afinal? — A fala e o olhar assustado de Carolina divertiram Cris por alguns instantes apenas. A voz arrastada e vacilante da moça em nada lembrava a autoconfiança de antes. Parecia outra pessoa.

— O que foi, Diaba? Não queria se divertir nesta tediosa e enfadonha noite de outono? Não disseste isso há poucas horas? — disse Cris, soltando uma leve gargalhada que assustou Carolina.

Cris levou um charuto Havana à boca, tirou um isqueiro de butano do bolso do sobretudo preto e aproximou-o dos lábios carnudos, acendendo o charuto caribenho. Soltou a fumaça no ar, cruzou as pernas e tomou a pequena taça de vinho do Porto entre os dedos, bebendo devagar, sem tirar os olhos de Carolina. Carolina desviou o olhar, buscando refúgio em outro lugar.

Carolina contemplou as pessoas vestidas de sobretudo preto; pálidas, com os olhos carregados de maquiagem, dançavam solitárias. Olhavam para as paredes nos corredores ao redor da pista. A pista de dança era um deserto às escuras, com pequenos refletores criando ilhas de luz.

De repente, no meio da pista desértica, surgiu uma jovem mulher de cabelo castanho desgrenhado, maquiagem pesada, corpete vermelho e preto, luvas longas até o cotovelo, saia rodada preta e coturnos. Deixou a pista de dança e passou chorando perto da mesa de Cris e Carolia. O andar da mulher era trôpego, mas ela não parecia estar embriagada. Somente cambaleava em desespero. Chegando a final da pista de dança ela se ajoelhou no chão, levou a mão direita à boca e apontou com a esquerda para o chão, em um gesto teatral, ensaiado, ao menos aos olhos de Carolina.

A música lenta, pesada e arrastada deu lugar a uma ópera antiga, em alemão, com sintetizadores ao fundo. Aplausos entusiasmados ecoaram por toda parte. Carolina não soube o que pensar. Logo concluiu que era um ensaio de uma peça de teatro amadora.

Uma névoa branca tomou o ambiente. A temperatura caiu drasticamente. Carolina arrepiou-se. A mulher ergueu-se e desapareceu em meio à bruma, ainda chorando e falando alto em um idioma que lembrava o alemão. Uma sinfonia mediterrânea de violões lúgubres começou a soar; parecia vir de todas as partes. Carolina reconheceu: era uma música cigana grega muito antiga, típica de funerais. Mas aquela versão moderna, pois era mais rápida e quase sem emoção. Cris permanecia impassível diante da cena. Carolina percebeu: Cris já conhecia aquilo, pensou a moça.

Carolina, em desespero, olhou para os fundos da pista e se deteve no palco, ou no que parecia ser um e viu a cena projetada em um telão: um filme mudo expressionista alemão dos anos 20 do século XX, com legendas em inglês europeu. A mulher chorava pelo marido que partira para a guerra em um país distante. Era uma versão cinematográfica da cena que acabara de ver.

— Já disse que não quero malcriação pro meu lado! Não me chama de Diaba! Sou um anjo de pessoa, se queres saber! — disse Carolina, ríspida.

Cris se surpreendeu com a ferocidade e altivez da resposta tardia de Carolina.

— És um anjo ou uma Diaba hoje? Não podes ser as duas coisas ao mesmo tempo, meu bem. O que vais representar no palco hoje, afinal?

— Palco? Como tu sabes disso? Que pertenço aos palcos?

          — Hoje não, meu bem. Não gosto de mistérios. Sou direta. Não gosto de joguinhos. Não perco tempo com miudezas, gente pequena... — sussurrou Cris, inclinando-se, levando o charuto à boca e soltando outra baforada.

— Não faço esse tipo de coisa sempre...

— Que tipo, Diaba? Ficar aí com essa cara de assustada? E ainda tu te dizes atriz? Não se engana a si mesma por muito tempo, meu doce.

— Não sou atriz! Nunca disse isso...

— Claro que não... A vida não é teatro, meu anjo. Não tem roteiro, nem plateia.

A segurança reapareceu, como por encanto. Ela parecia maior agora aos olhos de Carolina. Abaixou-se e sussurrou algo no ouvido de Cris. O tom da corpulenta segurança agora era de submissão.

— Boa noite, sua grossa! — disparou Carolina, sem esconder o ciúme.

A mulher lançou um olhar rápido, quase pedindo desculpas, e voltou a falar com Cris, agora em voz alta, em um idioma desconhecido para Carolina. Cris sorriu — um riso estranho, quase insano. A segurança se despediu de Cris, deu meia-volta e se bandeou rumo ao palco da danceteria.

Carolina sentiu o chão sumir. Um turbilhão de sentimentos a invadiu. As certezas viraram dúvidas. E, pela primeira vez, sentiu-se viva. Sem saber até quando.

***

O quarto à meia-luz deixou Carolina confusa. Tateou o lado esquerdo da cama — vazio. Desesperada, varreu o ambiente com os olhos turvos.

Carolina percebeu que Cris estava de pé, diante de um cavalete, com o dorso desnudo, próxima a uma janela aberta. Carolina notou pequenas cicatrizes verticais e horizontais no corpo escultural de Cris. Logo pensou em bisturis.

Cris pintava um esboço de um quadro com fúria — parecia em transe. Só então Carolina percebeu: Cris não tinha tatuagens.

— Cris, meu amor... só agora notei... tu não tens tatuagem nesse corpinho lindo? — perguntou Carolina, em tom sedutor.

— Nem piercing, nem anéis, nem brincos, Diaba. Não suporto adereços, nem dor. Não os permito na minha vida.

Cris, àquela altura, pensou ter dado espaço demais para Carolina. Cris, que não suportava dores físicas ou mesmo emocionais, nem ter que dar explicações a pessoas desconhecidas ou próximas.

— O meu corpo é um santuário... é um templo sagrado — murmurou para si. Cris queria dar mais explicações para Carolina, mas talvez em outra vida, pensou ela.

— Vem pra cama... vem me amar... quero-te... — disse Carolina, sedutora e submissa.

Cris a ignorou por completo. Não podia amar ninguém além de si. O quadro era tudo àquela altura. Na mente de Cris, a obra já estava pronta: uma oriental em trajes típicos, unhas longas, cigarrilha na boca, sentada como uma rainha. Sorriso terno, olhos diabólicos.

 

Fragmento do livro: A casa de teto verde. Texto de Samuel da Costa, contista, cronista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.