ABORTOS

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)

 


Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

 

Houve muitos abortos na família Figueira, eu sei. Sacrifícios humanos ao deus do ego. Crianças passadas pelo fogo sem piedade. Flores cortadas. Asas cortadas. Rosas mortas. Abortar nunca é um ato inócuo. Há uma vida humana a desenvolver-se no ventre da mãe: um pequeno ser como cada um de nós já foi. Parece tão óbvio, mesmo assim caímos fundo. Fetos foram sugados, salgados, dilatados, curetados.

Mulheres de minha família viveram com sentimentos de depressão, de autodesprezo, de ansiedade, de raiva, num verdadeiro colapso emocional. Mulheres de minha família enfraqueceram o seu instinto materno e destruíram laços afetivos com seus outros filhos. Mulheres de minha família tiveram essa experiência traumática esmagadora. Bem que procuraram banir o fato de suas mentes, fugir, se esconder, reprimir. Mas há uma tensão constante entre a necessidade de esconder e de expor o trauma. Misto de culpa e vergonha. Não há como uma mulher esquecer um filho, mesmo aquele que ela jogou num poço, mesmo aquele que ela abortou. Ela sempre o conta entre os seus filhos. Repulsa e fantasias intrusivas perseguiram sempre as pobres mulheres de minha família.

Imagino agora um mar de sangue formado pelos Figueiras que não vieram ao mundo, que nunca viram a luz do sol: são placentas, pernas, braços, corações, cérebros, zigotos, que borbulham num imenso caldeirão. Fecho os olhos e os batizo: João Figueira, Pedro Figueira, Henrique Figueira, Madalena Figueira. Desfio nomes, nomes e nomes: eu os batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Eu os batizo, personagens que não chegaram a nascer. Exausta, imploro paz para nossa árvore bendita.

Ouço uma voz que me consola: “- A figueira já deu os seus figuinhos, e as vides em flor exalam o seu aroma. Levanta-te, amiga minha, formosa minha, e vem.”

 

 

(Capítulo extraído do meu romance ÁLBUNS DA LUSITÂNIA, Campo Grande/MS: Alvorada, 2012, p.159)