OPERA MUNDI (5ª PARTE): PORTAL TO DOOMSDAY CELEBRATION - O INÍCIO DO FIM!

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)



Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

“Quero poder caminhar
Com toda a certeza
E desafiar todos os desafios.
Não me cabe mais chorar.
Eu sou passarinho,
É hora de voar.”
Clarisse da Costa

 

O dirigível Mare Crisium ganhou lentamente o céu, subiu e aumentou a velocidade, adentrando triunfante em meio às densas nuvens negras cósmicas. Fortes ventos e raios astrais castigaram vorazmente a aeronave interestelar. A sonhadora em vigília e a comandante Bartira estavam na ponte de comando do dirigível e se entreolhavam em um silêncio abissal.

— O que a miledy esperava encontrar vindo aqui? — perguntou a militar de alta patente, de forma desdenhosa.

— Pergunta desconcertante! Este é um assunto que é somente meu, de mais ninguém, comandante Bartira! — respondeu Luna Dark, a afra-rainha, complacentemente, e continuou — Mas eu posso responder que é o início de um sonho bom e a certeza de que tudo vai acabar bem no final da história!

— Volte para a vossa casa, miledy, para a tua nova morada, no mundo em vigília! — disse a comandante Bartira, como quem queria terminar uma conversa desagradável com uma visita indigesta.

O dirigível Mare Crisium venceu a tempestade e adentrou o negror da zona de exclusão, o vazio absoluto, onde as negras sombras se movimentavam lentamente do nada. Foram ouvidos gritos de dor e sussurros lancinantes que surgiam do vácuo e iam para lugar nenhum. Uma revoada de agourentas aves Moris circundou a aeronave; uma ave agourenta pousou no parapeito da janela do camarote do dirigível. Os grasnares das aves agourentas trespassaram as infinitudes do vácuo astral e ecoaram nas duas ocupantes do camarote do dirigível Mare Crisium, como se fosse uma cruel sentença de morte.

Ao longe, suspensa no ar, a Turris Ebúrnea despontou no horizonte negro, em meio às álgidas neblinas eviternas, em um recôndito perdido no vazio da terra dos sonhos. A visão imponente e decadente da Turris Ebúrnea encheu o álgido coração negro da sonhadora em vigília de sentimentos contraditórios. A semideusa queria perecer e renascer várias vezes. À distância, Luna Dark, chocada, viu duas sentinelas robôs Erbore guardando o portal de entrada da Turris Ebúrnea. Então, Luna Dark escaneou as duas letais e portentosas peças bélicas ladeadas e notou as mesclas das tecnologias Masai e Mursi: um grau de eficiência militar jamais visto ou imaginado pela afra-rainha. A sonhadora em vigília tentou acessar os bancos de dados dos robôs sentinelas e simplesmente não conseguiu. Os complexos cérebros positrônicos sequer existiam, e as letais armas bélicas estavam envoltas em uma magia antiga e desconhecida de Luna Dark.

— Quem sabe eu posso ajudar a miledy! — disse a comandante Bartira, sem mover os lábios, e a militar de alta patente destravou os bloqueios das peças militares.

Então, Luna Dark, a afra-rainha, foi inundada por apavorantes e vívidas imagens de sonhadores e sonhadoras tentando, em vão, adentrar a Turris Ebúrnea, sendo calcinados e dilacerados pelas sentinelas robôs Erbore, para depois terem seus restos mortais teletransportados para a vastidão do vácuo sombrio dos entremultiversos inexplorados.

— Satisfeita, miledy? — perguntou friamente a comandante Bartira.

— Calibor, creio eu! — afirmou Luna, enfática.

— Recebi a ordem para deixar Vossa Majestade sã e salva no alto da    Turris Ebúrnea! E, caso a miledy consiga sair da Turris Ebúrnea, vá embora, volte para o mundo em vigília, miledy, afra-rainha Luna Dark, enquanto Vossa Majestade puder! — falou friamente a comandante Bartira.

Um ajudante de ordens, Aparai AS1, adentrou o camarote da comandante de campo para avisar que o dirigível Mare Crisium havia chegado próximo ao ponto de não retorno. Se chegassem perigosamente perto demais, as sentinelas robôs Erbore poderiam ser ativadas no módulo defensivo. Os zunidos eletrônicos que a máquina proferiu chegaram aos ouvidos da sonhadora em vigília Luna Dark como se fossem finos cristais sendo triturados. A sonhadora em vigília não deixou de pensar que a primitiva comunicação da máquina doméstica com a comandante do dirigível teria algum motivo que Luna Dark não entendia.

— Chegamos ao vosso destino final, Vossa Majestade! Miledy Luna Dark! — anunciou de forma solene a comandante Bartira.

As duas poderosas mulheres se levantaram simultaneamente, atravessaram o corredor do camarote, andaram até as escadarias e desceram os degraus. Ao chegar ao final das escadarias, os olhares ferozes de dezenas de felinos encontraram Luna Dark e receberam apenas indiferença. Andaram em meio à gataria por poucos metros até chegarem ao deque esquerdo de embarques e desembarques do dirigível; a porta se abriu automaticamente.

Luna Dark, não querendo prolongar o mal-estar, deu as costas para a comandante Bartira. Deu alguns passos, virou-se para a militar de alta patente, flanou no ar e subiu poucos metros, sem tirar os olhos da comandante de campo. A afra-rainha afastou-se alguns metros da belonave, virou-se para frente, voltou a olhar para trás e encarou a militar de alta patente com olhos ferinos. A outra devolveu-lhe um olhar frio. A porta do deque se fechou, e a sonhadora em vigília admirou o dirigível Mare Crisium entrar e desaparecer em uma ponte de Einstein-Rosen.

A sonhadora em vigília, agora sozinha, suspensa no vazio cósmico, olhou para baixo e viu a Turris Ebúrnea a poucos metros abaixo de si. A afra-rainha desceu lentamente. Uma revoada de aves agourentas Moris saudou a afra-rainha com seus grasnares tétricos em um negro bailado macabro. As aves agourentas se multiplicaram e circunvagaram ao redor da afra-rainha até a Turris Ebúrnea. Um portentoso brado — um salve à afra-rainha — chegou à mente de Luna Dark em vários dialetos e idiomas de povos há muito extintos.

 

Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas, texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.