Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 11 (novembro / 2026)
Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
“Às vezes
eu fico a pensar...
Qual será
o meu grande amor?
Será a
minha grande paixão?
Ainda não
sei!
Pois acho
que algum dia
Vou
encontrar o meu grande amor...”
Marisa Libório
Para Diedra Roiz
As duas
mulheres, na mesa ao lado, gargalhavam bem alto. Quebravam, assim, o clima
sorumbático do lugar. Carolina ouviu, apesar do barulho que explodia nos
alto-falantes, algumas frases desconexas, a princípio trocadas entre as duas
criaturas da noite, que pareciam irradiar luz em meio às trevas do recinto.
Elas falavam uma língua estrangeira; Carolina não soube precisar qual era o
idioma.
As duas
trocavam carícias ligeiras e contidas. A teuta de meia-idade, de pele
alvíssima, cabelo louro bem curto e olhos verde-claros, passou as costas da mão
direita no rosto, sem maquiagem, da jovem morena de longos cabelos, pele
amendoada e olhos ligeiramente puxados. Esta última ficou rubra e desviou o
olhar.
A mão
da nórdica desceu do delicado rosto, passou lentamente pelos longos cabelos da
morena, alcançou o ombro, passeou pelo braço nu e, finalmente, mergulhou por
debaixo da mesa, onde os olhos de Carolina não alcançavam. Carolina acompanhava
o desenrolar dos fatos com curiosidade crescente; a cena se dava a poucos
centímetros dela. A linda morena, então, contorceu-se e fez uma careta que
expressava prazer. Carolina ouviu os gemidos, baixos, mas audíveis.
A
teuta, em um rompante, voltou-se para frente e olhou diretamente para Carolina.
Sorriu com malícia e piscou com um dos olhos verdes, brilhantes e cheios de
desejo. Depois, puxou a morena para si de forma ríspida. As duas se beijaram de
maneira lasciva. Carolina ficou rubra com a cena que acabara de presenciar.
A cena
foi interrompida, de repente, por uma outra mulher, que parecia fazer a
segurança do recinto. Era alta, de pele branca, cabelo bem curto e negro
reluzente, como a noite mais escura. Vestia-se toda de preto: coturnos pesados
e lustrados, camisa regata, esmalte preto nas unhas, anéis de prata nos dedos,
batom negro nos lábios, rímel marrom cintilante nos olhos. Tinha olhos negros e
gelados, calça de silicone, um delicado piercing no nariz, outro na sobrancelha
esquerda e grossas correntes de prata no pescoço.
O olhar
de Carolina deteve-se, por instantes, nos seios fartos da mulher. Notou também
uma postura marcial ou, pelo menos, resquícios de formação militar. Isso se
revelava no andar duro, no olhar rude, cheio de autoridade, no dedo em riste e
na ferocidade com que tratou as duas mulheres. Num rápido relance, Carolina
também percebeu a enorme tatuagem no braço esquerdo da segurança corpulenta: a
mesma que Cris fizera na perna dela, um vívido dragão em forma de serpente
cuspindo chamas cor amarelo alaranjada.
A
segurança, falou no mesmo dialeto estranho das outras duas e apontou para um
canto escuro do lugar. Elas nada disseram. Apenas levantaram-se rindo, como
crianças travessas que aproveitavam um dia ameno de sol, e as duas mulheres
desapareceram na escuridão. A segurança bateu em retirada, em marcha, e também
sumiu no breu do recinto.
Carolina
pensou se estava, de fato, acordada ou vivendo um sonho.
— Cris,
meu doce de gente, que tipo de lugar é este, afinal? — A fala e o olhar
assustado de Carolina divertiram Cris por alguns instantes apenas. A voz
arrastada e vacilante da moça em nada lembrava a autoconfiança de antes.
Parecia outra pessoa.
— O que
foi, Diaba? Não queria se divertir nesta tediosa e enfadonha noite de outono?
Não disseste isso há poucas horas? — disse Cris, soltando uma leve gargalhada
que assustou Carolina.
Cris
levou um charuto Havana à boca, tirou um isqueiro de butano do bolso do
sobretudo preto e aproximou-o dos lábios carnudos, acendendo o charuto
caribenho. Soltou a fumaça no ar, cruzou as pernas e tomou a pequena taça de
vinho do Porto entre os dedos, bebendo devagar, sem tirar os olhos de Carolina.
Carolina desviou o olhar, buscando refúgio em outro lugar.
Carolina
contemplou as pessoas vestidas de sobretudo preto; pálidas, com os olhos
carregados de maquiagem, dançavam solitárias. Olhavam para as paredes nos
corredores ao redor da pista. A pista de dança era um deserto às escuras, com
pequenos refletores criando ilhas de luz.
De
repente, no meio da pista desértica, surgiu uma jovem mulher de cabelo castanho
desgrenhado, maquiagem pesada, corpete vermelho e preto, luvas longas até o
cotovelo, saia rodada preta e coturnos. Deixou a pista de dança e passou
chorando perto da mesa de Cris e Carolia. O andar da mulher era trôpego, mas
ela não parecia estar embriagada. Somente cambaleava em desespero. Chegando a
final da pista de dança ela se ajoelhou no chão, levou a mão direita à boca e
apontou com a esquerda para o chão, em um gesto teatral, ensaiado, ao menos aos
olhos de Carolina.
A
música lenta, pesada e arrastada deu lugar a uma ópera antiga, em alemão, com
sintetizadores ao fundo. Aplausos entusiasmados ecoaram por toda parte.
Carolina não soube o que pensar. Logo concluiu que era um ensaio de uma peça de
teatro amadora.
Uma
névoa branca tomou o ambiente. A temperatura caiu drasticamente. Carolina
arrepiou-se. A mulher ergueu-se e desapareceu em meio à bruma, ainda chorando e
falando alto em um idioma que lembrava o alemão. Uma sinfonia mediterrânea de
violões lúgubres começou a soar; parecia vir de todas as partes. Carolina
reconheceu: era uma música cigana grega muito antiga, típica de funerais. Mas
aquela versão moderna, pois era mais rápida e quase sem emoção. Cris permanecia
impassível diante da cena. Carolina percebeu: Cris já conhecia aquilo, pensou a
moça.
Carolina,
em desespero, olhou para os fundos da pista e se deteve no palco, ou no que
parecia ser um e viu a cena projetada em um telão: um filme mudo expressionista
alemão dos anos 20 do século XX, com legendas em inglês europeu. A mulher
chorava pelo marido que partira para a guerra em um país distante. Era uma
versão cinematográfica da cena que acabara de ver.
— Já
disse que não quero malcriação pro meu lado! Não me chama de Diaba! Sou um anjo
de pessoa, se queres saber! — disse Carolina, ríspida.
Cris se
surpreendeu com a ferocidade e altivez da resposta tardia de Carolina.
— És um
anjo ou uma Diaba hoje? Não podes ser as duas coisas ao mesmo tempo, meu bem. O
que vais representar no palco hoje, afinal?
— Palco?
Como tu sabes disso? Que pertenço aos palcos?
—
Hoje não, meu bem. Não gosto de mistérios. Sou direta. Não gosto de joguinhos.
Não perco tempo com miudezas, gente pequena... — sussurrou Cris, inclinando-se,
levando o charuto à boca e soltando outra baforada.
— Não
faço esse tipo de coisa sempre...
— Que
tipo, Diaba? Ficar aí com essa cara de assustada? E ainda tu te dizes atriz?
Não se engana a si mesma por muito tempo, meu doce.
— Não
sou atriz! Nunca disse isso...
— Claro
que não... A vida não é teatro, meu anjo. Não tem roteiro, nem plateia.
A
segurança reapareceu, como por encanto. Ela parecia maior agora aos olhos de
Carolina. Abaixou-se e sussurrou algo no ouvido de Cris. O tom da corpulenta
segurança agora era de submissão.
— Boa
noite, sua grossa! — disparou Carolina, sem esconder o ciúme.
A
mulher lançou um olhar rápido, quase pedindo desculpas, e voltou a falar com
Cris, agora em voz alta, em um idioma desconhecido para Carolina. Cris sorriu —
um riso estranho, quase insano. A segurança se despediu de Cris, deu meia-volta
e se bandeou rumo ao palco da danceteria.
Carolina
sentiu o chão sumir. Um turbilhão de sentimentos a invadiu. As certezas viraram
dúvidas. E, pela primeira vez, sentiu-se viva. Sem saber até quando.
***
O
quarto à meia-luz deixou Carolina confusa. Tateou o lado esquerdo da cama —
vazio. Desesperada, varreu o ambiente com os olhos turvos.
Carolina
percebeu que Cris estava de pé, diante de um cavalete, com o dorso desnudo,
próxima a uma janela aberta. Carolina notou pequenas cicatrizes verticais e
horizontais no corpo escultural de Cris. Logo pensou em bisturis.
Cris
pintava um esboço de um quadro com fúria — parecia em transe. Só então Carolina
percebeu: Cris não tinha tatuagens.
— Cris,
meu amor... só agora notei... tu não tens tatuagem nesse corpinho lindo? —
perguntou Carolina, em tom sedutor.
— Nem
piercing, nem anéis, nem brincos, Diaba. Não suporto adereços, nem dor. Não os
permito na minha vida.
Cris,
àquela altura, pensou ter dado espaço demais para Carolina. Cris, que não
suportava dores físicas ou mesmo emocionais, nem ter que dar explicações a
pessoas desconhecidas ou próximas.
— O meu
corpo é um santuário... é um templo sagrado — murmurou para si. Cris queria dar
mais explicações para Carolina, mas talvez em outra vida, pensou ela.
— Vem
pra cama... vem me amar... quero-te... — disse Carolina, sedutora e submissa.
Cris a
ignorou por completo. Não podia amar ninguém além de si. O quadro era tudo
àquela altura. Na mente de Cris, a obra já estava pronta: uma oriental em
trajes típicos, unhas longas, cigarrilha na boca, sentada como uma rainha.
Sorriso terno, olhos diabólicos.
Fragmento do livro: A casa de teto
verde. Texto de Samuel
da Costa, contista, cronista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.