Por Raquel
Naveira (Campo Grande, MS)
Angola, país no sul da África, é
fascinante. As praias tropicais do Atlântico; o labirinto de rios e desertos;
as florestas onde brotam imensas cachoeiras, parques coalhados de elefantes,
girafas, impalas, búfalos selvagens. Lagoas cercadas de capim de fogo,
labaredas verdes, sob um sol carrasco.
A história de Angola atravessou séculos
de reinos como o do Congo e de Ndongo. Depois, um longo período de colonização
portuguesa, iniciado com a chegada do navegador Diogo Cão, em 1482. O tráfico
intenso de mão de obra escravizada para o Brasil. O avanço militar para o
interior do território. A transição para a independência (1861-1974) com lutas
armadas, sustentadas por movimentos nacionalistas ora de base marxista, ora
apoiados pelos Estados Unidos, ora pelos maoístas. Por toda parte, sangue, explosão
de minas terrestres, mutilações. A Independência só foi alcançada em 1975, após
a Revolução dos Cravos em Portugal, que derrubou a ditadura de Salazar.
Centenas de portugueses que viviam em Angola retornaram a Portugal. Angola
mergulhou numa violenta guerra civil. Um caminho difícil de democratização,
descolonização e desenvolvimento.
Estou impactada pela leitura do romance
“Os Cus de Judas”, do escritor português António Lobo Antunes (1942-2026). O
livro que quebrou silêncios, que consolidou o autor, que descobriu a face de um
massacre insano e sem sentido, como são todas as guerras.
Comecemos pelo título: “Os Cus de Judas”
é uma expressão para indicar lugares longínquos, isolados, abandonados por
Deus. Algo como: “Lá, onde Judas perdeu as botas.”
Trata-se de um romance autobiográfico
narrando os horrores da Guerra Colonial em Angola. A história de um médico,
ex-militar, que é o protagonista, um alter-ego do próprio autor. Lobo Antunes
serviu em Angola entre 1971 e 1973. Vinte sete meses curando corpos para
matarem ou morrerem. Voltou traumatizado, destruído psicologicamente. As
trincheiras habitando sua mente. Sem conseguir se adaptar com a vida em Lisboa.
Sem conseguir se comunicar com a mulher e a filha de olhos verdes. Abismo no
lar. Laços rompidos. Olhar distante.
Numa noite, o médico entra num bar e
entre goles de conhaque, conversa com uma mulher silenciosa, que acabou de
conhecer. Despeja memórias, amarguras, crueldades presenciadas. Tudo numa
linguagem densa, poética, nostálgica. Há inúmeras citações a pintores como
Salvador Dalí, Mondrian, Vermeer; a poetas como Fernando Pessoa e Antero de
Quental; a filmes de Buñel e de Chaplin. A mulher interlocutora representa a
própria sociedade portuguesa forçada a ouvir o relato cheio de verdade. O livro
é dividido em 23 capítulos que recebem, cada um, uma letra do alfabeto. Um
dicionário de fragmentos e dores.
Veio forte a lembrança do meu encontro em
Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no ano de 1980, com o português Octávio
Canhão Bernardes (1923-2010). Canhão Bernardes era engenheiro, arquiteto,
escultor autodidata. Deixou uma marca profunda no urbanismo e na arte de
Angola, especialmente em Lobito, onde viveu e trabalhou intensamente entre 1960
e 1970. Foi ali que esculpiu “A Sereia”, às margens do Lobito; a estátua
“Caminhando” e o “Monumento à Aviação”, perto do aeroporto. Tudo no nível do
chão e das águas, pois detestava os pedestais.
Canhão Bernardes lera um poema meu no
jornal Correio do Estado e quis me conhecer pessoalmente. Ele e sua esposa,
Dona Odete, nos receberam em sua casa, com doces amarelos, os papos de anjo e
vinho do Porto. Era um filósofo, um teórico original. Escrevera o livreto: “Em
busca do paraíso perdido: arqueologia da arte.” Ele afirmava em sua
investigação sobre os impulsos humanos primordiais voltados à criação
artística, que as raízes puras e ancestrais jamais são anuladas. Ao contrário,
são reinventadas. Esses impulsos, segundo ele, levam à transcendência, à busca
do sagrado e do eterno; à territorialização estética do espaço através dos
símbolos; à projeção catártica dos sonhos e dos conflitos internos e à ânsia de
comunicação e conexão coletiva.
Aprendi muito com ele. Ouvia suas
explicações com sede de conhecimento. Eu era tão jovem. Depois, o casal partiu
para o Rio de Janeiro e os perdemos de vista. Foram ao encontro dos filhos,
Viviana, que tinha nome de fada e Nuno, uma homenagem ao herói Nuno Álvares
Pereira, o nobre general condestável, cantado por Camões nos “Lusíadas”.
Uma noite, entre lágrimas, contou-nos
sobre os últimos e tensos momentos vividos em Angola. A fuga, o medo da guerra,
da sanha revolucionária contra os portugueses. Havia escondido uma arma no
quintal, caso houvesse necessidade de se matar para não cair nas mãos de
torturadores. O alívio que sentiram quando entraram no avião rumo a Lisboa. E
as aventuras em solo brasileiro até chegarem ao nosso distante Mato Grosso do
Sul, como gerente de armazenamento de grãos.
A partir desse
relato, escrevi o poema “Visão de Angola”:
Vejo Angola
Da janela do avião:
Uma barcarola
No mar de Benguela,
A água lilás,
Guardiã da sabedoria,
Divide em ondas-
A guerra de um lado
E de outro, a harmonia.
Vejo Angola
Da janela do avião:
Uma casinhola,
A amoreira gigante
Onde enterrei a pistola
Com a qual me mataria.
Vejo Angola
Da janela do avião:
Tão verde,
Tão sagrada,
Nem parece que presenciei a degola,
O combate,
A afirmação de nacionalidade,
O canto dos poetas
Exigindo liberdade
Nas cordas da viola.
Vejo Angola
Da janela do avião:
Angola, minha escola,
Meu espaço de luta,
Minha infância crioula,
Mestiça,
Filho de português e africana.
Não pintarei mais meu corpo de tacula,
Não ouvirei mais o tam-tam dos tambores,
Não tocarei a pele dos antílopes,
Não comemorarei ritos de passagem,
Não seguirei as abelhas do dia,
Nem penetrarei nas florestas de lianas.
Angola,
Da janela do avião,
Rola
Como um filme
No fundo das minhas retinas.
Sim, caro
amigo Canhão Bernardes, não há bem maior, maior que a própria vida, do que a
liberdade.