Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)
Por Catarina Osoegawa (Florianópolis, SC)
O Grito, tela de Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês, revela
o que nenhum artista havia conseguido expressar anteriormente, um momento de
uma emoção vívida que nos remete a memórias arcaicas de experiências de medo,
terror e desamparo, sensações que vivemos em torno do nascimento. Munch retrata na pintura um
momento de profunda ansiedade que descreveu como “um grito infinito que passava
pela natureza”.
Viver sem emoção é como dormir com um chocolate delicioso na
mão e acordar com ele todo derretido no lençol. Perde-se o sabor daquilo que
mais se deseja quando não se degusta no momento certo. Viver exige entregar-se
para cada expectativa, marcar o tempo de cada detalhe, celebrar, registrar,
fotografar, chorar de alegria ou tristeza, compartilhar entre amigos uma
experiência ainda aquecida pela emoção, vibrando com todas as cores do
arco-íris, no exato momento em que nos surpreende, pois logo se desfaz e se
esconde por entre as nuvens escorregadias do céu.
Nossas redes sociais tão facilitadoras de trocas e
comunicação, propõem, ao mesmo tempo, que uma proximidade em velocidade
alucinante, se transforme em um distanciamento longínquo e duradouro marcado
pela ausência de contato e presença física. Nada é capaz ainda de substituir a
emoção que pode ser vivida no contato olho a olho, corpo a corpo, na
continuidade de sensações que nos provocam o estar junto com alguém.
Sensações são fenômenos naturais que vivemos a todo momento,
que nos provocam todas as formas de emoções. Voam como os pássaros que chegam e
se vão, alegram e às vezes assustam o nosso jardim emocional, mas logo permitem
que outros se apresentem com um canto e colorido diferenciados, para
exercitarmos o olhar e a escuta, e rapidamente tudo se emoldura em um novo
retrato na sequência infinita do viver.
Podemos perguntar à IA, que tanto nos acrescenta de
competência e praticidade: Seria possível agregar em proporção semelhante algo mais
de amor em excelência? Uma era de transformação cultural global exige também um
olhar mais respeitoso ao humano, e nós, brasileiros que somos, podemos perder o
momento de dizer o que necessitamos verdadeiramente. Desejos diferem de
necessidades, e estas precisam ser ouvidas, mesmo que sejam necessários os
gritos de todas as vozes reunidas da sociedade, por mais heterogênea que seja.
O trabalho em equipe é algo que aprendemos desde que
nascemos. Na família se congregam todos os esforços físicos e mentais para
acolher as necessidades de um bebê que acaba de chegar e grita com o seu choro
desesperado ansiando por recuperar a paz que vivia no ambiente embalado pela
segurança garantida no meio intrauterino.
Planejamento rigoroso, rotina bem estabelecida, sintonia nos
cuidados, empatia e afeto, criam para o recém-nascido uma base de sustentação
firme para o desenvolvimento pleno e saudável. Somos bebês gritando em uma
sociedade de surdos? Como nos fazer ouvir em meio a ruídos de toda sorte?
Aproveitar o momento de uma eleição seria uma oportunidade de reunir os gritos
de todas as vozes em consonância e harmonia, porém, cada grito tem a sua
particularidade e uma interpretação diferenciadas. Qual o trabalho seria
exigido para compreender e acolher o grito do desespero e desamparo coletivo?
Perder este momento seria como tentar degustar um pequeno
pedaço de chocolate depois que ele estivesse todo derretido no lençol de
censuras, ausências e silêncios mortificadores. Somos social e culturalmente
marcados pelo Grito de Munch onde podemos observar duas pessoas que caminham ao
longo da ponte totalmente indiferentes ao grito de uma outra pessoa em
desamparo. Sair deste lugar que demanda algo do outro é desesperador, exige um
amadurecimento e um longo tempo de processamento. O pequeno humano é capaz de
transformar o seu grito em linguagem e criar formas cada vez mais claras de
expressar seus sentimentos e necessidades. Munch, ao tentar processar e
elaborar através da sua arte sentimentos profundos e difíceis de lidar, nos
ofertou uma possibilidade na cultura criando a linguagem que chamou de
expressionismo. Expressar desejos, sentimentos, necessidades e emoções, por
todas as formas de linguagem, significa ainda...uma propriedade essencialmente
humana.