Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
“Dá-me a tua mão.
Minha divinal musa encantada,
Ouçamos juntos!
As sinfonias noturnas...
Ousamos trespassar!
Irmanados…
À sibilina bruma outonal decadentista.”
Samuel da Costa
Eu não posso
dizer que tenho uma família disfuncional, pois o meu núcleo familiar funciona
muito bem, pelo menos do meu ponto de vista. Pois, amigas e amigos, em mais um
final de dia produtivo e no início da noite, estamos todos reunidos. Eu fui a
última a chegar em casa. Ora vejam: os pais sempre chegavam em casa antes de
escurecer o dia ou assim que escurecesse. Fato é que eu os vi poucas vezes
percorrendo as ruas da nossa cidade à noite, fora as atividades profissionais e
reuniões sociais que ocorrem à noite. Contudo, a conversa aqui não é bem esta!
Então, indo
direto ao ponto, era mais um início de noite normal no meu núcleo familiar. E
lá estava eu, como sempre àquela hora, esparramada na confortável e cafona
poltrona do meu querido papai, olhando para o teto. E, segundo os meus
progenitores — que assim me disseram —, o espalhafatoso móvel era um presente,
uma promoção de uma loja de varejo. Então, eu, criança pequena, simplesmente
tomei posse do móvel nada glamoroso; fato consumado, e ninguém contestou. Papai
nunca usou o trambolho.
Estávamos na
sala de estar: o meu pai lendo uma revista de economia e administração. Ele
estava deitado, na verdade: de bermuda, sem camisa e descalço. Concentrado. A
minha mãe, de roupão e chinelos, andando de um lado para outro, falando sem
parar, contava o dia terrível que teve.
— Acredita,
Hildebrando, meu amor! Que aquela loja no shopping, a loja de cosméticos...
— O meu nome
não é Hildebrando. Sei da loja que vendia produtos de quinta categoria como se
fossem importados — e mais caros!
Mamãe sempre
chamava papai por nomes esdrúxulos ou ridículos para ver se o cara estava
escutando o que ela falava. E digo que papai tinha a habilidade de escutar
mamãe enquanto lia textos complexos e fazia cálculos difíceis.
— Sabia que a
loja...
— Seria
fechada pela Polícia Federal? Sim, eu sabia...
— Sabia,
Hildebrando Fonseca? — gritou a minha mãe!
— Eu mesmo
revisei o plano de negócios e o planejamento de marketing. Inconsistências apareceram naturalmente e
logo calculei que tal coisa poderia acontecer! — disse o meu pai, ainda
folheando a revista, fazendo lá os seus cálculos e analisando dados e fatos.
Sim, a loja de
cosméticos caros e “importados” que mamãe frequentava era uma fraude. A Polícia
Federal tinha fechado a proeminente loja no templo do consumo. E o meu pai,
esperto, funcionalista e estruturalista que era, viu que tinha caroço nesse
angu. E deixou mamãe e as amigas gastarem muito dinheiro, comprando gato por
lebre. Soube mais tarde que o meu pai era uma figura central, e não lateral,
naquela ação policial e judicial.
E vi a cara de
desespero do meu pai. Conforme o volume do falatório de mamãe, papai baixou a
revista e olhou para mim pedindo socorro, e tive que improvisar. Mas quem deu o
primeiro passo foi o economista.
— Minha filha
querida, soube que tiveste problemas hoje! — A afirmação de papai ficou
suspensa no ar, pois mamãe ficou com as mãos paralisadas no ar. Ela mudou a
expressão e esperou para ver o que eu iria dizer.
— Na verdade,
dois! Um bem simples e outro mais complexo! — disse eu, olhando para o meu
papai. — E pensei que a coisa iria morrer ali. A bem da verdade, as coisas
nunca acabam logo ali quando se trata da minha família! — Um simples é que não
consegui efetuar uma compra na Doca 21, e outro, mais complexo, é que eu não
consegui efetuar uma compra em uma floricultura.
Um pouco de
contexto aqui: recebi um cartão de débito de papai como presente de
aniversário. Segundo o economista Hildebrando Fonseca — segundo a minha mãe —,
atingi a minha maioridade financeira; em suma, arrumei um emprego.
Voltei a
apreciar o teto, não por muito tempo, pois os meus pais tinham se deslocado
para perto da minha poltrona. Vencida pelas forças das circunstâncias, tive que
contar do meu dia. Disse que percorri boa parte da orla atlântica rumo ao meu
destino, a badalada conveniência Doca 21. Eu, ornada pelas trevas, toda de
negro, da ponta dos pés às unhas esmaltadas de preto-carvão cintilante, e o meu
cabelo negro perolado à Henê Rená. E, no meio do caminho, havia uma florista e
uma floricultura. E só isso!
— Então posso
dar a minha versão dos fatos! — disse papai, de pé, olhando para mim. — A minha
versão da materialidade histórica. O Carlão, meu gerente das minhas contas
pessoais e amigo pessoal, me ligou informando da nossa conta conjunta.
Sim, papai me
deu uma liberdade vigiada. Ele continuou com o discurso triunfante:
— Uma era uma
cobrança esdrúxula: um pedido da floricultura da rua 57, de sintéticas flores
negras do tédio e orgânicas e álgidas flores vagas. E outra, de uma compra um
tanto estranha na conveniência Doca 21: compra de bebidas e cigarros.
— Carlão,
canalha! — disse, constrangida.
— Mas creio
que a história é bem outra, minha filha! — enfatizou a minha mãe.
Aí eu me compus, ajustei a poltrona.
— Sim, minha
querida mamãe, a florista da rua 57… estava escrito no uniforme florido dela:
Ily!
Olhei para os
meus pais e esperei o resultado. Um pouco de contexto aqui: Ily é a contração
de I love you e, para ser mais específico, mulher de muitos lençóis — ou mesmo
garota ou garoto de programa. Joguei a informação e esperei para ver o que
aconteceria. As peças do tabuleiro se moveram. O rei e a rainha voltaram para
os seus devidos lugares.
Fragmento do livro: Do diário de uma louca, de Clarisse Cristal,
poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa
Catarina.