quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

EDITORIAL - 15 ANOS DA REVISTA CERRADO CULTURAL

Em 1º de janeiro de 2011, nascia a Revista Cerrado Cultural com uma proposta simples e, ao mesmo tempo, ousada: criar um espaço livre e plural para a literatura, a arte e o pensamento crítico, tendo o Cerrado — bioma, território simbólico e cultural — como ponto de partida e horizonte de diálogo. Quinze anos depois, ao chegarmos a 1º de janeiro de 2026, celebramos não apenas o tempo decorrido, mas a permanência de um projeto que resistiu, se transformou e seguiu fiel à sua vocação essencial.

Ao longo dessa trajetória, a Cerrado Cultural tornou-se abrigo para vozes diversas: escritores iniciantes e autores consagrados, poetas, contistas, cronistas, ensaístas, artistas visuais e pensadores que encontraram aqui um espaço de expressão e escuta. Em um país de contrastes profundos e desafios constantes à cultura, manter uma revista literária independente por quinze anos é, por si só, um gesto de resistência e de amor à palavra.

Ser uma revista virtual sempre foi mais do que uma escolha técnica; foi uma afirmação de princípios. Apostamos no alcance democrático da internet, na circulação livre das ideias e na construção de uma comunidade leitora que ultrapassa fronteiras geográficas. Do Cerrado para o Brasil, do Brasil para o mundo, a revista cresceu como um território simbólico onde tradição e contemporaneidade dialogam, onde o local se encontra com o universal.

Nada disso seria possível sem os colaboradores que confiaram seus textos, imagens e reflexões a este espaço; sem os leitores que nos acompanham, comentam, divulgam e retornam; e sem todos aqueles que, ao longo desses anos, ajudaram a manter viva a chama da criação literária e artística. A cada edição, reafirmamos a certeza de que a cultura não é ornamento, mas fundamento.

Celebrar quinze anos é também olhar para o futuro. Seguimos atentos às novas linguagens, às transformações do fazer literário, às urgências do nosso tempo e às múltiplas formas de narrar e interpretar o mundo. Que os próximos anos sejam de continuidade, renovação e aprofundamento desse compromisso com a arte, a literatura e a diversidade cultural.

A Revista Cerrado Cultural agradece a todos que fizeram e fazem parte dessa história. Que venham novos ciclos, novas palavras e novos leitores.

Editor-Chefe
Revista Cerrado Cultural
1º de janeiro de 2026

CARTA AO IMPERADOR DOM PEDRO II


 Por Dom Alexandre Camêlo Rurikovich Carvalho (Teresópolis, RJ)

CARTA AO IMPERADOR

À Augusta Memória de Sua Majestade Imperial, Dom Pedro II, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil (in memoriam)

 

Não me dirijo apenas ao soberano coroado que a História consagrou, mas ao homem cuja maior riqueza foi a simplicidade do espírito e a nobreza silenciosa de um coração devotado ao bem.

Recordo, com reverente gratidão, aquele que, mesmo assentado no trono, preferia habitar entre livros, manuscritos, instrumentos científicos e obras de arte, como um eterno discípulo diante da vastidão do conhecimento humano. Vossa Majestade, que fez da curiosidade um farol e da sabedoria um princípio de Estado, ensinou-nos que o poder sem cultura é cego, e que a autoridade sem virtude é vazia.

Não governastes somente por decretos e instituições, mas, sobretudo, pela força moral que emanava de vosso exemplo. Soubestes ouvir o povo, compreender lhe as dores e abraçar, com serena humildade, os desafios de um país jovem que buscava sua identidade entre as nações civilizadas.

Mostrastes que a grandeza de um monarca não reside na pompa dos palácios, mas na firmeza de caráter, na doçura do trato e na capacidade de servir com dedicação aquele mesmo povo que vos confiou o destino da Pátria.

Vosso amor pela educação abriu horizontes luminosos às gerações vindouras; vosso apreço pela ciência impulsionou descobertas, debates e instituições que moldaram o pensamento brasileiro; vossa paixão pela cultura fez resplandecer a alma deste vasto Império, conferindo-lhe dignidade, reconhecimento e estima além de suas fronteiras. Fostes, para o Brasil, não apenas o Imperador, mas o patrono das luzes, o incentivador dos talentos e o guardião de um ideal de civilização.

Ao recordar-vos neste solene Bicentenário de vosso nascimento, não enxergo apenas o chefe de Estado cuja biografia habita os anais da História, mas o amigo da sabedoria, o espírito magnânimo que acreditava no progresso humano e o homem de alma serena que, mesmo no exílio, jamais deixou de amar a Terra de Santa Cruz.

Vossa vida - marcada pela dignidade nos dias de glória e pela grandeza nos dias de dor - permanece como uma das mais puras expressões do dever e do patriotismo.

É, pois, com devoção, orgulho e profundo respeito, que dedico à Vossa Augusta Memória está singela e sincera homenagem.

Obrigado por terdes sido mais que um governante;

Obrigado por terdes sido humano;

Obrigado por terdes sido luz.

Com a mais elevada deferência e eterna gratidão.

SE AINDA NÃO TEM, COMPRE UM

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal) 

 

Acabo de sair de capela onde repousa senhora, que o povo canonizou. Venho entristecido e meditabundo: lá encontrei: muita cera; pagelas; terços; medalhas; Iemanjá: ídolos, que não sei o que representam; talvez " bezerros", da umbanda e candomblé.

Refleti amargamente: apesar de me dizerem que o povo está mais culto, porque frequenta a escola, e muitos a Universidade, continua, em matéria religiosa, a pensar como os antepassados iletrados.

Eça disse – que o nosso povo não católico, mas padrista: " Que sabe ele da moral do cristianismo? Da teologia, do ultramontanismo? Sabe do santo de barro que tem em casa, e do cura que está na igreja.” - " Notas Contemporâneas".

E o resultado, é o colapso Moral e da Fé: porque para A obter, além de dom de Deus, é preciso pregação cristocentrica , fiel ao ensino de Jesus.

Vários são os motivos que nos levaram ao descalabro atual:

O primordial é o facto de alguns sacerdotes preferirem agradar aos " fiéis", ensinando: não o que Deus quer, mas o que o povo deseja ouvir.

A Igreja recomenda, insistentemente, a leitura diária da Bíblia, mas os católicos, em geral, preferem colocá-La na estante, como Livro de decoração.

Para ser crente, não basta - ir à missa e rezar aos santos, - é preciso procurar Cristo e, principalmente, cumprir a vontade de Deus.

Como se pode conhecer a vontade de Deus? Na Bíblia, mormente no Novo Testamento. E Neste : no Evangelho.

Não chega para conhecer a Palavra, ouvir homilias e excelentes sermões. Santo Agostinho deliciava-se a escutar as práticas de S. Ambrósio (Bispo de Milão,) que eram regalos para seus ouvidos; mas, o prazer não o nutria, muito pelo contrário.

 Quem deseja conhecer a vontade de Deus, deve ler diariamente, o Novo Testamento. Melhor: o Santo Evangelho.

É nesse Livro – manual de conduta do cristão, – que se encontra o que Deus quer, escrito por quem ouviu e conviveu com Cristo.

Seguir tudo que Jesus ensinou, não fácil – nem os santos o conseguiram, mas tentaram: uns mais do que os outros.

Se ainda não O possui, adquira um exemplar, sublinhe os versículos, que mais o impressionaram, e tente seguir o que Jesus recomendou.

O Novo Testamento – livro de cabeceira do cristão, – deve ser lido e relido: à noite, ao deitar, ou no período das refeições. É bastante barato. Em qualquer livreiro O encontrará, em edição de bolso, de preferência anotado.

Que Deus vos abençoe.

O PROPÓSITO

Por N’Dom Calumbombo (Luanda, Angola)

 

Esta hora é de ficar livre, estou aqui com o corpo paisajado. Nada vale a pena, estas pernas me enchem facilmente. Lembro-me bem quando saía da casa do kota Nbala, às vezes saía da Canjala a correr porque as dores eram frequentes, mas os estímulos eram vedados com a lucidez por desaforos dos velhos tempos, ainda mais com o mais velho Katenda, pai do Rogério.

Sempre que íamos na sua casa trazíamos de lá várias recordações, as noites eram de leme, as histórias contadas na primeira pessoa. A juventude passou-nos em bons tempos. Naquela altura o pão não existia, era a broa que fazíamos em casa do mais velho Katenda; o sofrimento quando o opaco da luz não brilhava entre nós, até naqueles dias de festas, o dezembro era janeiro e os pratos rondavam seminus entre as aldeias.

Cresci com os olhos vedados de esperança, do bem, do mal, da noite para o dia era desterro e a alma que me anoitecia era vilã quando os sermões habitavam no coração daquela gente.

Uma vez Rogério dormiu nos meus braços vendo seu pai Katenda passando no caco da solidão, e o vazio indelével situado bem debaixo do seu matinal, do seu destino e ceder a si mesmo que transmitia protesto.

- Quando isso vai terminar? - questionava-me pálido!

Eu fingia não o ouvir com agudez no seu canto, até mesmo quando as paredes fixavam sobre mim, todas elas, uma lágrima no canto do olho.

- Saiba, Rogério, ninguém prevê o amanhã se não o adeus que vimos como um belo propósito, apesar de nos afetar, mas, ainda assim, a glória permanecerá intacta nos nossos corações. Vê-lo daquele jeito sem fazer nada, só tinha que o distrair, daí, começamos a sorrir; - disse-me maravilha!

O ânimo era leve e tínhamos que nos reinventar. Logo, acabaram-se os medos, que fosse como crepúsculo abnegado que havia adormecido nos nossos rostos. Outro dia dei uma volta na aldeia. Nem que partia comigo as andanças e o desejo de me distrair era tanto que havia também um propósito, talvez um dia saberia o que, na verdade, corrói a população da minha aldeia e a vida escurecida com montes de sacrifícios levedado de dores.

Os traumas eram tantos, tanto que, todas vezes cobrava de mim mesmo astúcia, afinal, as aldeias são lugares de sacrifícios, onde os ratos vivem conosco e a terra acolhe as patas na noite cada sacrifício que se faz durante o dia. Talvez tudo tenha um propósito, falava Rogério: nas aldeias as chamas transformam-se em cinzas e o pó esvaia sobre os tetos das casas!... 

 

Sobre o autor: N'Dom Calumbombo, poeta, cronista e contista

PEGADAS

 Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)



ESPERANÇA

 Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)


É inverno

o vento frio arrancou 

as últimas folhas

que antes foram refúgio

e abrigo para as aves


Tremem de frio

mas todavia cantam

também elas continuam à espera

por melhores tempos.



DESPEDIDA SOLITÁRIA

Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)

 


ÚLTIMO ADEUS

 Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)




GUERRA NA UCRÂNIA

Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha) 



POMBA DA PAZ

 Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)




DÉSPOTA

 

Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)


O DIÁLOGO DE JANO: REFLEXÓES ENTRE PASSADO E FUTURO

Por Catarina Denise Rabello Osoegawa (São Paulo, SP)

O Desafio da Escolha

Diante da incerteza sobre qual caminho tomar, Jano se vê diante de um desafio: como decidir entre o presente e o passado? Surge a indagação sobre a eficácia de se ter duas perspectivas na tomada de decisão. Será que duas cabeças pensam melhor do que uma, ou a divisão traz apenas mais dúvidas?

A Conversa com o Passado

Jano, então, busca respostas em seu próprio passado. Em um diálogo simbólico, pergunta: "O que você tem para me contar?" O passado não oferece uma resposta direta, mas se manifesta dizendo: "Eu e você somos como irmãos gêmeos. Nascemos das mesmas raízes, mas seguimos caminhos opostos. Você representa o que ainda está por vir, enquanto eu sou o espelho do que já aconteceu. Mesmo que tente me rejeitar ou afastar, estaremos sempre ligados. Sou eu quem determina as suas escolhas, ainda que sua consciência tente negar."

O Futuro e o Livre-Arbítrio

Diante dessa afirmação, o futuro, revoltado, questiona: "E o meu livre-arbítrio, para que serve então?" O passado responde apenas que essa é uma doce ilusão — alimentando a reflexão de que nossas escolhas podem estar mais condicionadas ao que vivenciamos do que imaginamos.

SÓCRATES E JANO: REFLEXÕES SOBRE O TEMPO, A ESCOLHA E O CONHECIMENTO

Por Catarina Denise Rabello Osoegawa (São Paulo, SP)

O Desafio da Escolha: Entre o Presente e o Passado

Diante da dúvida sobre qual caminho seguir, Jano se depara com o desafio de decidir entre o presente e o passado. Surge, então, o questionamento sobre a eficácia de possuir múltiplas perspectivas: será que duas cabeças pensam melhor do que uma, ou a divisão interna apenas intensifica as incertezas? Jano reflete profundamente e volta-se ao passado em busca de respostas.

O Diálogo com o Passado

No simbolismo do diálogo, Jano pergunta ao passado: "O que você tem para me contar?" O passado, porém, não oferece uma resposta clara. Em vez disso, responde: "Eu e você somos como irmãos gêmeos, nascidos das mesmas raízes, mas trilhando caminhos opostos. Você representa o que está por vir; eu sou o espelho do que já foi." Essa resposta revela a ligação indissolúvel entre passado e futuro, ressaltando que, mesmo diante da tentativa de rejeição ou afastamento, o passado permanece determinante nas escolhas presentes, ainda que a consciência tente negar sua influência.

O Futuro e a Ilusão do Livre-Arbítrio

Incomodado com essa perspectiva, o futuro, revoltado, questiona: "E o meu livre-arbítrio, para que serve então?" O passado sugere que o livre-arbítrio pode ser uma doce ilusão, insinuando que as decisões estão mais condicionadas pelas experiências vividas do que se imagina.

Sócrates e a Busca do Autoconhecimento

Nesse momento, Sócrates intervém de maneira serena, ensinando que a dúvida serve de anteparo e que o autoconhecimento é fundamental: "Conhece-te a ti mesmo." O segredo, segundo o oráculo de Delfos, revela-se quando olhamos para trás. A verdadeira função do tempo se manifesta quando a escolha, desenhada nas linhas da própria história, surge repentinamente como um presente. Assim, o vento do tempo sopra, a vida se encontra no agora e a dúvida se dissipa no amanhecer, revelando unicidade e profundo conhecimento.

Conclusão: A Sabedoria do Tempo

A afirmação final de Sócrates — "Só sei que nada sei" — ecoa como testemunho vivo de sabedoria, indicando que o verdadeiro conhecimento reside na humildade diante das incertezas e na compreensão de que passado, presente e futuro estão eternamente entrelaçados, moldando as escolhas e o percurso de cada um.

SÓCRATES E JANO

Por Catarina Denise Rabello Osoegawa (São Paulo, SP)

 

Diante da dúvida sobre a melhor escolha, Jano decide enfrentar o desafio

Coloca-se em questão futuro, presente e passado

Se uma cabeça dividida sofre pressão de ambos os lados

Se a divisão interna se multiplica

E a incerteza se intensifica

Duas cabeças pensam melhor do que uma?

Jano analisa o enigma colocado

E pergunta para o passado

O que você tem para me contar?

O passado evita a resposta clara

E simplesmente olha para o futuro:

Eu e você mais do que irmãos gêmeos

Das mesmas raízes nós nascemos

Nos opostos, os caminhos que trilhamos

Eu um espelho de incontáveis matizes

Você um vir a ser de surpresas indizíveis

Um ao outro unidos em amálgama perene

Mesmo que você me rejeite

Mesmo que você me afaste

Mesmo que a consciência diga não

Nas suas mínimas escolhas

Eu quem determino a decisão

Revoltado o futuro indaga

E o meu livre arbítrio, para que serve então?

Serenamente Sócrates intercede

A doce ilusão que te alimenta

Faz da dúvida um anteparo

Conhece-te a ti mesmo

No oráculo de Delfos

o segredo se revela

Olhes um pouco para trás e para dentro

E a resposta chegará sorrateiramente

Tracejas nas linhas das escrituras

A verdadeira direção do tempo

Sintas no vento o que te sussurra

A vida oferta em cestos de presente

A dúvida se reveste em música e serpente

Leve e profunda tragicidade

Afirmação tênue e segura

Preceito prático de uma teoria  

Só sei que nada sei

Testemunho vivo da sabedoria

Do sábio adolescer à livre nostalgia.

 

 

AREIA OU TERRA

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Areia ou terra não interagem

entre as águas desse mar aqui.

Massa e volume vão se mexer,

a densidade vamos ter.

 

O amor é denso.

É sólido ou líquido.

É tão bonito a

química entre nós acontecer.

 

Areia ou terra.

No mar vão ter.

A densidade desse

amor vamos ter.

 

Gramas ou volumes.

Kilos por litros.

Esse amor em várias

unidades vão sair.

 

Areia ou terra.

O amor é lindo.

Místico ou sublime

é o amor.

 

INSTAGRAM:@liecifranborgesmartins

SEUS DEFEITOS SÃO DEMAIS

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Seus defeitos são demais.

Você mente, você ilude.

Nem homem você é mais.

Sua beleza não me satisfaz.

 

Homem frouxo.

Homem imaturo e ainda frio.

Viciado, cachaceiro.

Você não é para mim.

 

Seus defeitos me

machucam.

Esses defeitos me

deixa até louca.

 

Homem ruim.

Sai daqui.

Você só me ilude,

com seus Rubens.

 

Seus defeitos

estragam meus rins.

Esses defeitos me

Deixa ferida em vez de florida.

 

 

CORINTO, MEU DOCE SERTÃO MINEIRO

Por Consuelo Pagani Vieira Machado (Corinto, MG)

 

Corinto, meu doce sertão mineiro

Cidade de céu estrelado

Árvores retorcidas, ar adocicado

Terra vermelha, cor de tijolo

Pessoas em festa, sorriso a espalhar

 

Amigões eternos, abraço sincero

Um cheiro orvalhado

Perfume no ar

 

E no chão molhado

Após chuva sertaneja

Pequi no mato, íamos buscar

Depois comer com arroz

Aquele fruto do cerrado

E com bons amigos,

Rir e degustar

 

Alma lavada, chuva benfazeja

Corações ao vento, livres a sonhar

Peito bem aberto, sorriso iluminado

Com as bicicletas, mundo a desbravar

 

Íamos descobrindo nosso árido cerrado...

Porém, rico e doce, frutas a fartar

Pequi, goiaba, pinha, jatobá

Cagaita, murici, carambola e panã

Sertão perfumado, florido, exuberante

Bem ornamentado com ricos flamboyants

 

Lindas cachoeiras, e nós fazendo a festa

De trem ou bicicleta, aproveitando à beça

Contria, Buenópolis, Três Marias, Beltrão,

Pirapora, Diamantina, Salobo, Manoelzão

 

Sim, aquele personagem

Do famoso livro, o“Grande Sertão”!

É lá das nossas bandas

De Corinto, “cê” sabia não?

 

Um cheiro adocicado,

De lenha no fogão

Mandioca com melado

E nós com o pé no chão

 

Minha pequena e frágil

Corinto do coração!

Terra adorada onde nasci

Tanta aventura ali eu vivi

Cachoeira dos Porcos, Joaquim Felício

Augusto de Lima, Curumataí

 

E o sol forte e bem dourado

Queimando os corpos suados...

Sorriso maroto bem lindo

Tímido, me olhando de lado

 

E até o beijo não dado

Na chuva após futebol

Tinha gosto de delícia

Gosto de céu e de sol

 

Do primeiro amor que a gente

Não se esquece, e de repente

Passa a sonhar, em arrebol

 

Corinto das noites de lua

Claras, alvas, com poesia

No Salobo, na Folia

De Reis, em 6 de Janeiro

Na fazenda da Bebel

 

Goiabada, queijo fresco

Garapa e rapadura

Lá na roça do “Seu” Zé

E o lindo doce de “estrelas”

De carambolas colhidas

Fresquinhas, direto do pé

 

Ouço os sons dos passarinhos

Do meu cerrado querido

Que em revoada, do ninho

Alegram meu coração

 

E o som das cachoeiras

Nos chamando, altaneiras

Para o banho, refrescar

E nossos corpos, felizes,

Nos poços, a mergulhar

 

Ou então, em águas tranquilas

De rios da cor de âmbar

Eu e irmão Paulo, juntinhos,

De mãos dadas, a boiar

E com toda a calma do mundo,

Pelo rio, a deslizar...

 

Bucólica Morro da Garça

Rio das Velhas, Contria

E a nossa Tomaz Gonzaga

Cheia de graça e poesia

Com seus casarões antigos

Do tempo da Sesmaria

 

 

 

 

É lá que a amizade brinda,

Se renova e se refaz

Em encontros bem felizes

Com os amigos, anuais

 

Porto da Manga, me lembro

Na Fazenda do tio Olinto

A turma toda festeira

Tomando banho no rio

 

O Pardo e o Rio das Velhas

Se encontram, em união...

E a areia alva e macia

Formam praia rente ao chão

 

A Caraíba querida

De amidos do coração

Rico encontro, grande festa

Praia, riso e o violão

 

Tesouro que guardo no peito

São as Gatinhas Amigas

E as risadas mais gostosas

Até dar dor de barriga

 

São momentos valiosos

Que nunca serão esquecidos

 

Passear na Rua do “Fúti”

Sapo seco e carnaval

Catar pau doce no pé

Comer fruta no quintal

 

Oh Corinto, nossa vida

Passa, volta e modifica...

O Primeiro Amor retorna

No peito, encontra guarida!

 

És passado, és presente

Oh Corinto, eternamente

Profunda e, ternamente,

Em minh’alma, és acolhida!

 

                                                                       Autora: Consuelo Pagani – 05/02/2021

CRÔNICA DO DIA: A FLORISTA DA RUA 57, SINTÉTICAS FLORES NEGRAS DO TÉDIO E ÁLGIDAS FLORES VAGAS (1ª PARTE)

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

“Dá-me a tua mão.

Minha divinal musa encantada,

Ouçamos juntos!

As sinfonias noturnas...

Ousamos trespassar!

Irmanados…

À sibilina bruma outonal decadentista.”

Samuel da Costa

 

Eu não posso dizer que tenho uma família disfuncional, pois o meu núcleo familiar funciona muito bem, pelo menos do meu ponto de vista. Pois, amigas e amigos, em mais um final de dia produtivo e no início da noite, estamos todos reunidos. Eu fui a última a chegar em casa. Ora vejam: os pais sempre chegavam em casa antes de escurecer o dia ou assim que escurecesse. Fato é que eu os vi poucas vezes percorrendo as ruas da nossa cidade à noite, fora as atividades profissionais e reuniões sociais que ocorrem à noite. Contudo, a conversa aqui não é bem esta!

Então, indo direto ao ponto, era mais um início de noite normal no meu núcleo familiar. E lá estava eu, como sempre àquela hora, esparramada na confortável e cafona poltrona do meu querido papai, olhando para o teto. E, segundo os meus progenitores — que assim me disseram —, o espalhafatoso móvel era um presente, uma promoção de uma loja de varejo. Então, eu, criança pequena, simplesmente tomei posse do móvel nada glamoroso; fato consumado, e ninguém contestou. Papai nunca usou o trambolho.

Estávamos na sala de estar: o meu pai lendo uma revista de economia e administração. Ele estava deitado, na verdade: de bermuda, sem camisa e descalço. Concentrado. A minha mãe, de roupão e chinelos, andando de um lado para outro, falando sem parar, contava o dia terrível que teve.

— Acredita, Hildebrando, meu amor! Que aquela loja no shopping, a loja de cosméticos...

— O meu nome não é Hildebrando. Sei da loja que vendia produtos de quinta categoria como se fossem importados — e mais caros!

Mamãe sempre chamava papai por nomes esdrúxulos ou ridículos para ver se o cara estava escutando o que ela falava. E digo que papai tinha a habilidade de escutar mamãe enquanto lia textos complexos e fazia cálculos difíceis.

— Sabia que a loja...

— Seria fechada pela Polícia Federal? Sim, eu sabia...

— Sabia, Hildebrando Fonseca? — gritou a minha mãe!

— Eu mesmo revisei o plano de negócios e o planejamento de marketing.    Inconsistências apareceram naturalmente e logo calculei que tal coisa poderia acontecer! — disse o meu pai, ainda folheando a revista, fazendo lá os seus cálculos e analisando dados e fatos.

Sim, a loja de cosméticos caros e “importados” que mamãe frequentava era uma fraude. A Polícia Federal tinha fechado a proeminente loja no templo do consumo. E o meu pai, esperto, funcionalista e estruturalista que era, viu que tinha caroço nesse angu. E deixou mamãe e as amigas gastarem muito dinheiro, comprando gato por lebre. Soube mais tarde que o meu pai era uma figura central, e não lateral, naquela ação policial e judicial.

E vi a cara de desespero do meu pai. Conforme o volume do falatório de mamãe, papai baixou a revista e olhou para mim pedindo socorro, e tive que improvisar. Mas quem deu o primeiro passo foi o economista.

— Minha filha querida, soube que tiveste problemas hoje! — A afirmação de papai ficou suspensa no ar, pois mamãe ficou com as mãos paralisadas no ar. Ela mudou a expressão e esperou para ver o que eu iria dizer.

— Na verdade, dois! Um bem simples e outro mais complexo! — disse eu, olhando para o meu papai. — E pensei que a coisa iria morrer ali. A bem da verdade, as coisas nunca acabam logo ali quando se trata da minha família! — Um simples é que não consegui efetuar uma compra na Doca 21, e outro, mais complexo, é que eu não consegui efetuar uma compra em uma floricultura.

Um pouco de contexto aqui: recebi um cartão de débito de papai como presente de aniversário. Segundo o economista Hildebrando Fonseca — segundo a minha mãe —, atingi a minha maioridade financeira; em suma, arrumei um emprego.

Voltei a apreciar o teto, não por muito tempo, pois os meus pais tinham se deslocado para perto da minha poltrona. Vencida pelas forças das circunstâncias, tive que contar do meu dia. Disse que percorri boa parte da orla atlântica rumo ao meu destino, a badalada conveniência Doca 21. Eu, ornada pelas trevas, toda de negro, da ponta dos pés às unhas esmaltadas de preto-carvão cintilante, e o meu cabelo negro perolado à Henê Rená. E, no meio do caminho, havia uma florista e uma floricultura. E só isso!

— Então posso dar a minha versão dos fatos! — disse papai, de pé, olhando para mim. — A minha versão da materialidade histórica. O Carlão, meu gerente das minhas contas pessoais e amigo pessoal, me ligou informando da nossa conta conjunta.

Sim, papai me deu uma liberdade vigiada. Ele continuou com o discurso triunfante:

— Uma era uma cobrança esdrúxula: um pedido da floricultura da rua 57, de sintéticas flores negras do tédio e orgânicas e álgidas flores vagas. E outra, de uma compra um tanto estranha na conveniência Doca 21: compra de bebidas e cigarros.

— Carlão, canalha! — disse, constrangida.

— Mas creio que a história é bem outra, minha filha! — enfatizou a minha mãe.

Aí eu me compus, ajustei a poltrona.

— Sim, minha querida mamãe, a florista da rua 57… estava escrito no uniforme florido dela: Ily!

Olhei para os meus pais e esperei o resultado. Um pouco de contexto aqui: Ily é a contração de I love you e, para ser mais específico, mulher de muitos lençóis — ou mesmo garota ou garoto de programa. Joguei a informação e esperei para ver o que aconteceria. As peças do tabuleiro se moveram. O rei e a rainha voltaram para os seus devidos lugares.

 

Fragmento do livro: Do diário de uma louca, de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

O CENTRO DE CRISTO!

Por Manoel Ianzer (São Paulo, SP)

 

Busco em 2026

o apoio do Exército da Salvação

que combate a escuridão

esses maravilhosos guardas

            do Palácio Universal

numa parada de Soldados da Paz

desfilando pelo Bosque da Saúde

e pela Avenida da Restauração

nesse espaço intergaláctico

misterioso e indecifrável

que só conheceremos

mediante a nossa evolução

que ela seja abrangente

                      e integral

para atingir as dimensões

                     da perfeição

nesta vida

vamos aproveitar e se aproximar

dos guardiões e mensageiros

                           da ascensão

que transmitem sabedoria

seres celestiais

divindades de luz

que agem impulsionados

pelos dons concedidos           

 

Espírito Santo

tão forte e luminoso

verdadeira conexão com o

                  sagrado

oração e meditação

paz e amor 

 

Mestre dos Mestres

Anjos, Arcanjos, Devas

Elohim, Querubins, Pleiadianos

seres elevados dos raios

azul - Miguel – proteção

verde - Rafael – saúde

branco - Gabriel - paz

violeta – Saint Germain – transmutação

trabalhadores das obras do Salvador

com a missão de trazer

o verdadeiro conhecimento

para entendermos o “EU SOU”

presença Divina em nós!