quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: A FLORISTA DA RUA 57, SINTÉTICAS FLORES NEGRAS DO TÉDIO E ÁLGIDAS FLORES VAGAS (1ª PARTE)

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

“Dá-me a tua mão.

Minha divinal musa encantada,

Ouçamos juntos!

As sinfonias noturnas...

Ousamos trespassar!

Irmanados…

À sibilina bruma outonal decadentista.”

Samuel da Costa

 

Eu não posso dizer que tenho uma família disfuncional, pois o meu núcleo familiar funciona muito bem, pelo menos do meu ponto de vista. Pois, amigas e amigos, em mais um final de dia produtivo e no início da noite, estamos todos reunidos. Eu fui a última a chegar em casa. Ora vejam: os pais sempre chegavam em casa antes de escurecer o dia ou assim que escurecesse. Fato é que eu os vi poucas vezes percorrendo as ruas da nossa cidade à noite, fora as atividades profissionais e reuniões sociais que ocorrem à noite. Contudo, a conversa aqui não é bem esta!

Então, indo direto ao ponto, era mais um início de noite normal no meu núcleo familiar. E lá estava eu, como sempre àquela hora, esparramada na confortável e cafona poltrona do meu querido papai, olhando para o teto. E, segundo os meus progenitores — que assim me disseram —, o espalhafatoso móvel era um presente, uma promoção de uma loja de varejo. Então, eu, criança pequena, simplesmente tomei posse do móvel nada glamoroso; fato consumado, e ninguém contestou. Papai nunca usou o trambolho.

Estávamos na sala de estar: o meu pai lendo uma revista de economia e administração. Ele estava deitado, na verdade: de bermuda, sem camisa e descalço. Concentrado. A minha mãe, de roupão e chinelos, andando de um lado para outro, falando sem parar, contava o dia terrível que teve.

— Acredita, Hildebrando, meu amor! Que aquela loja no shopping, a loja de cosméticos...

— O meu nome não é Hildebrando. Sei da loja que vendia produtos de quinta categoria como se fossem importados — e mais caros!

Mamãe sempre chamava papai por nomes esdrúxulos ou ridículos para ver se o cara estava escutando o que ela falava. E digo que papai tinha a habilidade de escutar mamãe enquanto lia textos complexos e fazia cálculos difíceis.

— Sabia que a loja...

— Seria fechada pela Polícia Federal? Sim, eu sabia...

— Sabia, Hildebrando Fonseca? — gritou a minha mãe!

— Eu mesmo revisei o plano de negócios e o planejamento de marketing.    Inconsistências apareceram naturalmente e logo calculei que tal coisa poderia acontecer! — disse o meu pai, ainda folheando a revista, fazendo lá os seus cálculos e analisando dados e fatos.

Sim, a loja de cosméticos caros e “importados” que mamãe frequentava era uma fraude. A Polícia Federal tinha fechado a proeminente loja no templo do consumo. E o meu pai, esperto, funcionalista e estruturalista que era, viu que tinha caroço nesse angu. E deixou mamãe e as amigas gastarem muito dinheiro, comprando gato por lebre. Soube mais tarde que o meu pai era uma figura central, e não lateral, naquela ação policial e judicial.

E vi a cara de desespero do meu pai. Conforme o volume do falatório de mamãe, papai baixou a revista e olhou para mim pedindo socorro, e tive que improvisar. Mas quem deu o primeiro passo foi o economista.

— Minha filha querida, soube que tiveste problemas hoje! — A afirmação de papai ficou suspensa no ar, pois mamãe ficou com as mãos paralisadas no ar. Ela mudou a expressão e esperou para ver o que eu iria dizer.

— Na verdade, dois! Um bem simples e outro mais complexo! — disse eu, olhando para o meu papai. — E pensei que a coisa iria morrer ali. A bem da verdade, as coisas nunca acabam logo ali quando se trata da minha família! — Um simples é que não consegui efetuar uma compra na Doca 21, e outro, mais complexo, é que eu não consegui efetuar uma compra em uma floricultura.

Um pouco de contexto aqui: recebi um cartão de débito de papai como presente de aniversário. Segundo o economista Hildebrando Fonseca — segundo a minha mãe —, atingi a minha maioridade financeira; em suma, arrumei um emprego.

Voltei a apreciar o teto, não por muito tempo, pois os meus pais tinham se deslocado para perto da minha poltrona. Vencida pelas forças das circunstâncias, tive que contar do meu dia. Disse que percorri boa parte da orla atlântica rumo ao meu destino, a badalada conveniência Doca 21. Eu, ornada pelas trevas, toda de negro, da ponta dos pés às unhas esmaltadas de preto-carvão cintilante, e o meu cabelo negro perolado à Henê Rená. E, no meio do caminho, havia uma florista e uma floricultura. E só isso!

— Então posso dar a minha versão dos fatos! — disse papai, de pé, olhando para mim. — A minha versão da materialidade histórica. O Carlão, meu gerente das minhas contas pessoais e amigo pessoal, me ligou informando da nossa conta conjunta.

Sim, papai me deu uma liberdade vigiada. Ele continuou com o discurso triunfante:

— Uma era uma cobrança esdrúxula: um pedido da floricultura da rua 57, de sintéticas flores negras do tédio e orgânicas e álgidas flores vagas. E outra, de uma compra um tanto estranha na conveniência Doca 21: compra de bebidas e cigarros.

— Carlão, canalha! — disse, constrangida.

— Mas creio que a história é bem outra, minha filha! — enfatizou a minha mãe.

Aí eu me compus, ajustei a poltrona.

— Sim, minha querida mamãe, a florista da rua 57… estava escrito no uniforme florido dela: Ily!

Olhei para os meus pais e esperei o resultado. Um pouco de contexto aqui: Ily é a contração de I love you e, para ser mais específico, mulher de muitos lençóis — ou mesmo garota ou garoto de programa. Joguei a informação e esperei para ver o que aconteceria. As peças do tabuleiro se moveram. O rei e a rainha voltaram para os seus devidos lugares.

 

Fragmento do livro: Do diário de uma louca, de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

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