domingo, 1 de outubro de 2017

HOLI FESTIVAL OF COLORS, JAISALMER, INDIA

By Arjun Singh Bhati (Jaisalmer, India)


TECENDO A VIDA

Por Paccelli M. Zahler

(à Maria Letícia, minha mãe)

Quando vim ao mundo,
Não sabia o rumo a tomar
Que o caminho seria longo,
Que teria muito a andar.

Rodeada de tecidos,
Linhas, agulhas, torçais,
Aprendi a costurar,
A crochetar, a tricotar...

Dando forma aos panos,
Os fios a entrelaçar,
Fui tecendo a vida,
Nem a vi passar.

O GAROTINHO BRAGANÇANO

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)



Não sei se já vos falei de amoroso menino, que conheci, nos anos sessenta, na velha cidade de Bragança.
Tinha a cabeça coberta de farto e fino cabelo; cabelo macio, escorrido, de nuances em ouro velho, que lhe descia até aos ombros. Rosto oval. Pele branca, cetinosa, ligeiramente tostadinha. Olhos vivos e meigos. Lábios bem desenhados. Pescoço alto e esbelto; e cândida expressão, que cativava.
Foi meu companheiro. Companheiro dedicado, com quem passei largos e longas horas de ameno convívio fraternal.
Certa ocasião, após ter vindo, definitivamente, para a cidade do Porto, hospedei-me em modesta pensão bragantina, cuja fachada era fronteira à velha estação ferroviária.
Após o almoço, inesperadamente, surgiu-me, num lanço das escadas, que comunicavam com os quartos, sorrindo. Sorriso lindo, que jamais pude esquecer.
Admirei-me da insólita presença, e indaguei, curioso, a razão de me esperar:
- “ Olá! Então por aqui?! …”
Num trejeito juvenil, disse-me, encolhido, titubeando:
- “ Minha mãe pediu-me para o vir buscar, e ajudá-lo a levar a mala… – Explicou, de mãos enlaçadas, balanceando o corpo.
Agradeci, penhorado, a gentileza, e cortesmente, esclareci que não pretendia incomodar.
- “ O primo Humberto nunca incómoda! …Assim ficamos todos juntos…”
Fiquei sem palavras. Emocionado. Sabia que falava com sinceridade. Os olhos não enganavam…
Não o deixei trazer a mala, como queria. Mala antiga, de cartão endurecido, de cor acastanhada. Insistiu. Recusei. Vencido, acompanhou-me em silêncio.
Ao cruzarmos a Praça da Sé, junto ao Café Central, voltou-se para mim, e, timidamente, declarou:
- “ Minhas irmãs estão ansiosas de o ver…”
Este rapazinho, de bondade e sensibilidade extrema, foi o meu companheiro predileto; amigo sincero e leal, nos anos, que, por obrigação, permaneci na sua velha e encantadora cidade.
Decorrido um bom par de anos, após a derradeira visita, que fiz, encontrei-o, já adolescente, na bonita aldeia de seu pai.
Avizinhou-se, numa tarde abafada de Agosto, com a mesma simplicidade de sempre, e convidou-me para acompanhá-lo a bonito prado, onde pesada vaca, malhada, branca e preta, pastava pachorrentamente, com chocalho barulhento.
Deitamo-nos na relva fofa, mirando o céu azul – onde vagavam pequenas e esfarrapadas nuvens brancas, – sob frondosa e farfalhuda figueira. Uma andorinha, num voo baixo e elegante, rasgou o ar, pairando sobre a relva.
Raios doirados do Sol, crivados pela espessa e fresca ramagem, manchavam-nos o rosto de sombras escuras e claras. Enorme e acolhedora paz, envolvia-nos. Calor de rachar! …Cantavam, não sei onde, à compita, cigarras e grilos – gri, gri.gri…; crass,crass…zzz…- quebrando o murmúrio do silencio.
Os cavalos – que nos transportaram – libertos do selim, espojavam-se, retoiçando e relinchando, alegremente, na relva verde-escura. Ao longe, ladravam cães, e chegavam vozes imperceptíveis, de mulheres e crianças.
Conversamos sobre a canícula, que tudo secava; da beleza de viver à beira-mar; e da tumultuosa vida citadina.
Disse-lhe, então, que dentro de dias tinha que regressar.
- “ E não vai a Bragança?! – Indagou, com pontinha de censura.
- “ Não. Parto diretamente para o Porto.”
_ “ Fique mais uns dias! …A mãe, e minhas irmãs, também gostam muito do primo…”
Não fiquei. Não podia. Na hora da despedida, abraçou-me, beijou-me, e não sei se chegou a chorar.
Fiquei com a sensação – talvez errada, – que me queria dizer, muito baixinho: “ leve-me consigo…”
Soube, mais tarde, por meu irmão, que havia falecido, de forma trágica.
Fiquei triste. Muito triste…
Triste, por não o ter visitado mais vezes. Triste, porque amizades assim, nunca mais encontrei.
Escrevo, esta crónica, ao cair da tarde. Em breve, para as verdes várzeas do Candal, o céu azul, alaranjar-se-á; e tonalidades quentes de vermelho-sangue e amarelo-ouro-esverdeado, pintarão o azul desmaiado do céu, desta tórrida tarde de Verão.
É o pôr-do-sol. Espetáculo apoteótico de luz e cor. Extasiante; sempre renovado e belo, que encanta, e deixa paz na alma angustiada.
O Sol sempre nasce e sempre morre; morre e nasce todos os dias: iluminando, dando vida e cor à Terra.
Mas…Ai de mim! …, que, vertiginosamente, caminho para as derradeiras cores do meu crepuscular…
Em breve chegará a noite negra; mas enquanto não vier o sono, viverei dos lindos sonhos, que vivi, e dos que não vivi, mas gostaria de os ter vivido…
Recordando companheiros que partiram… mas vivem, eternamente, dentro de mim; e os que ainda não partiram… mas já me sepultaram no esquecimento…

Este garotinho não morreu: repousa no meu coração saudoso: sempre jovem, sempre sorrindo, sempre a dizer muito baixinho à minha alma contristada: “ Gosto muito do primo! …”

LIBERDADE DE EXPRESSÃO, É PARA TODOS?

   “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas
      defenderei até à morte o seu direito de dizê-la.”

                                                                            Voltaire



Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)


Editora portuense, deu à estampa dois cadernos de exercícios para crianças: um, dedicado a meninos; outro a meninas.
Logo se levantaram vozes indignadas, que, em nome da educação democrática, pediram a retirada dos livros.
Não posso avaliar os conteúdos dos cadernos, porque não os vi; mas admiro-me de tamanha indignação:
Não vivemos num regime democrático, onde cada qual compra o que quer, e goza de liberdade de escolha?! …
Eu sei, que há quem confunda: ensino com educação; e há, igualmente, quem considere: igualdade de oportunidades e direitos, com igualdade de género.
Está em voga, pelo menos no Mundo Ocidental, defender educação igual para ambos os sexos. Pretende-se educar, do mesmo modo como o dinheiro é cunhado na Casa da Moeda. Todos iguais.
Outrora ouvia, muitas vezes, eminentes homens de esquerda, criticar a Mocidade Portuguesa, que pretendia inculcar valores e ideologias caras ao Estado Novo.
Diziam – e bem, – que cabia aos pais escolher e orientar os filhos; encaminhando-os, na vida, segundo seus princípios e valores.
Em nome da “ liberdade”, o Estado Novo retirava do mercado, tudo que não perfilhasse a ideologia em vigor. Era a ditadura.
Agora, em nome da “liberdade”, condenam, criticam e insultam (por vezes,) tudo e todos, que não seguem a ideologia “oficial”. É o direito democrático.
Como os antigos antifascistas (se me permitem pensar,) penso: cabe aos pais, educadores – enfim à família, – educar as crianças, dentro dos padrões e princípios que professam.
Não há – como alguns afirmam, – uma educação; mas várias. Como não cabe ao Estado e à classe politica, impor, mas defender a livre escolha e a livre opinião.
Há educadores, de países – de amplas liberdades, – que procuram igualar os sexos, desde a mais tenra idade: para isso, as casas de banho de escolas, são unissexo; e defendem, até, que cada qual, traje, como deseja: de saia, calção ou calça comprida, sejam meninos ou meninas.
Pretendem, deste modo, igualar o género, mesmo quando os pais e as crianças, não querem: por pudor ou vergonha.
Admira-me, todavia, que, certas pessoas, que eram acérrimas puritanas, no tempo da ditadura, fiquem agora silenciosas, permitindo que o direito de expressão e de educação, sofra tratos de polé.
Teriam mudado de opinião ou acomodaram-se?
Admira-me, mas não devia admirar-me, porque os que defendem plena liberdade, costumam ficar mudos, quando se trata de a defender, em certas zonas do globo…
Mas, já o nosso Camões, dizia: “ É fraqueza entre ovelhas ser leão” (Lus. Cant. I - LXVIII).

E há tantos leões!...

SEDE

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

(para Carmen Sílvia Presotto, em memória)



Porque da sede somos o cantil repleto

temos deveres e direitos em obrigações

diversas dos outros que são a seca

no copo vazio onde não aplacam iras

nem votos declarados como prática

da ética: infiéis procuram nas luas

sinais externos de que a vingança

se fará breve e ilusória na hora

em que apenas o sonho for visto

sobre dunas em águas salgadas



meu barco não será seu barco

nem nosso o impulso dos remos

que nos levará as terras opacas

entre espelhos foscos

e o cantil estará pela metade



instante em que nos vemos

sem entendermos as razões

além das órbitas e rotações



por ciúme derramamos o líquido

sobre as faces que na sede

temos o cantil vazio: em areias

encalhamos o barco ao fazermos

as mãos destrançadas em ritmos

e gestos de até logo.


THIRST

By Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

(Marina Du Bois, English version)

(to Carmen Sílvia Presotto, in memoriam)


As we are the full cantel for the thirst

we have duties and rights in different

obligations from the others who are the

drought in the empty glass where they

do not placate ehtics wraths or declared vows

as ethics’ practice: infidels seek on the moons

external signs that revenge will become brief

and illusory at the time that only the dream

is seen above dunes in salt water



my boat will not be your boat

nor ours the impulse of oars

which will take us to opaque lands

between frosted mirrors

and the cantel will be in half



moment that we see ourselves

without understanding the reasons

beyond the orbits and rotations



out of jealousy we pour the liquid

on the faces that on the thirst

we have an empty cantel: on sands

we run aground the boat as we do

with untied hands in rhythms


and gestures of good-bye.

CONHECIDOS

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)


Conversamos longas horas

fôssemos amigos de sempre

e nossas infâncias

precisassem ser revistas

nos sonhos alcançados

pelas frustrações dos caminhos

raiva e ódio do que deu errado

rimos velhas piadas repetidas

e a bebida nos subiu a cabeça

embriagados entre tempos



as restantes horas foram de silêncios

olhares dispersos nos móveis da sala

o constrangimento na falta de assunto

nossas conversas passadas no início

desencontros impostos pela vida

no vício do trabalho e famílias



fomos conhecidos outrora

colegas nos bancos escolares

que se reencontram por acaso

esquecidos das lembranças


logo voltem aos seus mundos.