Por Ridamar Batista
Três mulheres fazem a cabeça
das outras todas damas presas
nas ambiguidades de si mesmas.
A indígena, a negra e a cigana
mulheres tao lúcidas, fortes e grandes
capazes de deixar no nosso sangue
a nobreza delas exalada.
Mulheres que souberam seu destino
conhecedora dos destinos alheios
sabedoras dos conselhos que davam
tirados dos olhares, gestos e trejeitos.
Amantes do fogo e do fogão
sabiam as artimanhas
das dores e dos prazeres,
dos remédios e dos venenos
aplicados cada qual a sua vez.
De corpos pintados
as tatuagens da vida e dos enfeites
os brincos tecidos ao gosto de cada uma
enfeitavam-se para seus homens
seus filhos e sua tribo
criavam a sina, benziam os caminhos
por onde todos pisavam.
Deitavam no leito amado
do braço de seus maridos
tinham orgulho dos seios fartos
que alimentavam sua cria.
Mulheres guerreiras e sábias
conheciam os céus e estrelas
toda mudança do tempo
sabiam benzer e rezar
aprendizes da vida
liam no fundo dos olhos
sorviam os conselhos dos velhos
copiavam a insensatez dos jovens
criando a linha do meio.
Cada qual com tanta carga
souberam transmutar seu viver
e vivem hoje felizes
no sangue das outras mulheres
que delas puderam aprender
a arte da feiticeira.
(Poema selecionado nos 3ºs Jogos Florais para a antologia bilingue (português/espanhol) da aBrace no Uruguai)
Sobre a autora: Ridamar Batista é poetisa e presidente da Academia de Letras do Brasil, Seccional Anápolis, GO.