Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)
Eu bem me lembro dos muitos risos na minha vida, alguns nem eram da
minha espontaneidade. Quando eu os ouvia eu me sentia qualquer coisa menos
gente.
Quando eu ganhei o meu primeiro diário me perguntaram com toda ironia do
mundo o que eu iria escrever ali de tão secreto. Disseram para mim que eu nada
tinha para contar. E a gente precisa de ter uma grande uma grande história de
vida para escrever algo?
A mulher sofre oposição até dentro da família. É como se ela não pudesse
existir ou for a mulher que ela se tornou. No meu caso é pior, pois sou mulher
negra. Parece que a mulher negra tem que ser igual ao sistema, podre, frio e
obediente. Mas eu nasci para obedecer ao sistema não democrático desse país e
muito menos para seguir os padrões de beleza.
Eu tenho a minha particularidade, uma beleza única. A minha
persistência me faz crer que posso ir além do que todos imaginaram. Hoje eu
tenho uma história de perseverança pra contar. Porque para viver nesse mundo
tão desigual é preciso perseverar.
Depois que eu fiquei doente eu vi um novo mundo a minha volta. Também vi
em mim outra mulher, porém vulnerável. Eu não era forte. Eu sentia que existiam
em mim duas mulheres, uma queria desistir de tudo e ir morar na lua. Se é que
isso é possível! Eu achava que lá, somente lá eu poderia ser quem eu sou. É
inevitável, quando a sociedade lhe exclui do meio e as pessoas lhe julgam.
Obviamente que eu me isolei. Não fazia diferença a minha presença para eles.
Mas o incrível é que eu não deixei de sonhar de acreditar.
Eu caí várias vezes, não foram rasteiras da vida, simplesmente as pernas
não me obedeciam. Talvez no meu subconsciente eu não quisesse sair do lugar.
Eu jamais me senti incapaz, mas às vezes os olhares das pessoas me
faziam me sentir diferente, excluída.
O que é inclusão se a sociedade lhe exclui por ser negra ou ter alguma
deficiência física?
Eu perdi o ano escolar preste a ir para o terceiro ano do ensino médio.
A escola sequer me deu alternativas para estudar. A partir disto me senti
excluída e vi o valor de uma pessoa quando fica doente. De repente eu era nada
e sem liberdade para querer mais da vida.
Então através das poesias eu construí as minhas asas, com as poesias me
sinto livre. Claro que, sem fugir da realidade, completamente com os pés no
chão como o meu amigo escritor me ensinou.
Quando eu perdi quem eu mais amava parecia que eu tinha perdido tudo.
Cheguei a me sentir perdida sem ter para onde ir e o que fazer. Eu tinha um
sonho e zero oportunidade.
Eu sequer tinha planejado a minha vida sem ela. Eu falo de minha mãe.
Após sua partida parei pra pensar em tudo que vivi ao longo dos meus 35 anos de
vida.
Comecei a entender sobre o racismo que vivi já na infância, os olhares
para cima de mim e os questionamentos depois que comecei a usar andador.
A partir daí encontrei em mim outra mulher outra escritora. Forte
e crente na minha capacidade. Decidi olhar pra mim pra vida. A sociedade
não me incluiu. Eu me incluí no mundo.
Eu entrei no supermercado, ali eu não era mais uma pessoa à fazer
compras. Parecia que eu era um ser de outro planeta, tamanho os olhares sobre
mim. Mas eu segui em frente com a cestinha na mão e fui até o caixa pagar.
Cheguei em casa com a satisfação de que eu tinha vencido mais um obstáculo. Até
o meu pai ficou surpreso.
Mas o melhor da minha história foi quando entendi que a minha mãe não
queria me ver triste. A noite ela sentou-se na beirada da cama e me disse:
"Calma, eu estou aqui!" Então comecei a lutar com toda força em busca
do meu sonho.
Claro que não foi fácil, a vida nos surpreende o tempo todo. E nós como
humanos temos os nossos atos falhos. Não temos o controle de tudo. E essa vida
me apresentou o escritor Samuel da Costa e este me deu o caminho das pedras.
Ele me incluiu no mundo literário.
O caminho é fácil? Não. Nem o ser humano é. A inclusão existe para
todos? Não. Mas é preciso lutar. Existir para algum propósito que lhe faça a
diferença.
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