Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)
Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)
Minha filha, Letícia,
questionou-me o porquê de somente ela ter sido registrada com um dos sobrenomes
da família de seu pai, o Portocarrero. É mesmo belo esse Portocarrero de origem
espanhola, ligado às regiões de Castela e da Estremadura. Significa algo como
“porto”: passagem e “carrero”: carreiro, caminho de carros. As rodas das
carroças sulcando as antigas estradas ibéricas.
Em Mato Grosso do Sul,
Portocarrero lembra um episódio da Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior
conflito armado da América Latina. O Paraguai se opôs à Tríplice Aliança,
formada por Brasil, Argentina e Uruguai, num confronto mortífero, de dor e
destruição. Combates, fome, doenças. Países esgotados espiritual e
financeiramente. Esse foi o saldo da cruenta guerra.
O tenente-coronel Hermenegildo
de Albuquerque Portocarrero (1818-1893) foi enviado para inspecionar o Forte
Coimbra, localizado às margens do rio Paraguai, município de Corumbá. Esse
forte foi construído em 1775, no período colonial, pelos portugueses, para
proteger a fronteira oeste e controlar a navegação. Todo branco, imponente,
cercado por grossas muralhas, onde pousam garças e tuiuiús. Dos mirantes
avista-se a paisagem pantaneira. As ilhas de camalotes com flores roxas que
descem o rio. É patrimônio histórico e destino turístico.
Era o princípio da guerra. Ao
anoitecer do dia 26 de dezembro de 1864, surgiu a poderosa esquadra do coronel
paraguaio, Vicente Bárrios: 11 navios de guerra, 29 peças de artilharia, 3200
homens. No forte, a guarnição brasileira possuía dois canhões, 250 pessoas,
entre elas, 115 soldados e civis, 70 mulheres, crianças e 10 indígenas
guaicurus. Portocarrero assume a defesa. Quando recebeu um ultimato para render
o forte, recusou-se a capitular e declarou que resistiria “até o último
cartucho”. Seguiram-se dois dias de intenso bombardeio. Foi nesse momento que
se levantou a liderança de sua esposa, a uruguaiana Ludovina Portocarrero
(1825-1912). Ludovina organizou parte das mulheres para fabricarem buchas de
munição com pedaços de suas saias. Algumas cozinhavam. Outras escalavam na
escuridão da noite as íngremes barrancas para buscar água em latas. Outras
ainda prestavam assistência aos feridos. Nenhuma gritava. Nenhuma chorava.
Mantinham, firmes, o moral dos soldados. Entre as heroínas, a maioria anônimas,
destacaram-se duas mulheres do povo, as negras Aninha Cangalha e Maria Fuzil.
Ludovina, cheia de fé (e a fé
move os obstáculos), retirou a faixa de comandante do uniforme do marido e a
colocou aos pés da imagem de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do forte.
Confiou simbolicamente o governo daquelas vidas a algo sobrenatural, extraordinário.
Depois, deu ordem ao soldado músico, o Verdeixas, para subir no ponto mais alto
da muralha e mostrar a imagem. O gesto abalou a sensibilidade religiosa dos
paraguaios. Todos aplaudiam, deliravam, bradavam vivas. Uma verdadeira comoção.
Enquanto isso, a população de
Corumbá, em pânico, fugia pelas matas. Muitos foram massacrados. Portocarrero
ordena a retirada durante a noite, numa embarcação chamada “Amambaí”. Ninguém
ficou para trás. O barco não fez barulho, não soltou faíscas, não bateu remos
nas pedras. Envolto na bruma, sumiu na correnteza do rio.
Anos mais tarde, Ludovina e
Portocarrero receberam das mãos de Dom Pedro II os títulos de Barão e Baronesa
do Forte Coimbra. Era 1889, final melancólico do império. Ludovina ficou viúva
aos 68 anos. Perdeu oito de seus 15 filhos. Mergulhou em sua digna velhice.
Faleceu aos 87 anos, no Rio de Janeiro.
Descendente direta do casal
foi Tônia Carrero (1922-2018), Maria Antonieta Portocarrero Thedim, a sedutora
atriz, filha do neto, general Hermenegildo Portocarrero e de Dona Zilda. A
estrela de tantos filmes, peças teatrais e novelas. Mais de seis décadas de
dedicação à dramaturgia. Morreu de hidrocefalia, aos 95 anos, cercada por filho
e netos. Seu brilho permanece. Era azul, divino, de diva.
Por que coloquei o sobrenome
Portocarrero em você, filha? Tornei-a LP, Letícia Portocarrero, como era ela,
Ludovina Portocarrero. O anagrama LP bordado no linho do enxoval que se
encontra até hoje no Forte Coimbra. Uma coincidência? Um chamado? Uma sugestão?
Um augúrio? Um legado? Não sei, mas desejo que você tenha a mesma coragem dela
para enfrentar as guerras.