Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)
Por
Raquel Naveira (Campo Grande, MS)
Paris é uma cidade de tirar o
fôlego: os jardins clássicos, a água furta-cor do rio Sena, as margens fluviais
charmosas com bancas de livros e flores, as catedrais góticas, as galerias com
imensos quadros impressionistas.
O filme “Casablanca” é um
ícone romântico, cheio de ação, espionagem, aventura. Um triângulo amoroso que
exige sacrifício e renúncia. Inesquecível o diálogo entre Rick (Humphrey
Boagart) e Ilsa (Ingrid Bergman), que foram amantes em Paris. Ela pergunta na
despedida: “- E quanto a nós?”. Ele responde: “- Nós sempre teremos Paris.” É a
aceitação da separação. A maturidade. O foco na beleza do que foi vivido. Todos
sonham em viver algo maravilhoso, fascinante, em Paris. E vivem.
Foi lá que aconteceu a paixão
desmedida, intensa, atribulada entre a bela e sedutora atriz, Tônia Carrero
(1922-2018) e o diplomata e cronista Rubem Braga (1913-1990). Flanavam juntos,
de mãos dadas, pelas ruas de Paris. Corria o ano de 1947. Os dois eram casados.
Ela, com o artista plástico Carlos Thiré, com quem tinha um filho, Cecil. Ele,
com a dramaturga mineira Zora Seljan, mãe de Roberto Braga. O casal se encontrava
às escondidas num pequeno hotel. Ao redor deles: o ciúme, a fúria, o flagrante
moral e as luzes estonteantes de Paris.
Ao voltarem para o Rio de
Janeiro, os casamentos de ambos terminaram.
Tônia decide romper também com
o instável e mulherengo Rubem Braga. O escritor reage de forma dramática,
ameaça atirar-se sob os carros ou se jogar no mar. Persegue os passos de Tônia.
Envia rosas vermelhas para o camarim do teatro onde ela se apresentava. Mas ela
o trata com desdém. Era o encerramento definitivo. Ele nunca a esqueceu.
Manteve admiração pela atriz ao longo de toda a vida. Escreveu por décadas poemas,
crônicas e cartas endereçadas a ela, como este soneto “Tarde”:
E quando nós saímos era a Lua,
era o vento caído e o mar sereno
azul e cinza-azul anoitecendo
a tarde ruiva das amendoeiras.
E respiramos, livres das ardências
do sol, que nos levara à sombra cauta
tangidos pelo canto das cigarras
dentro e fora de nós exasperadas.
Andamos em silêncio pela praia.
Nos corpos leves e lavados ia
o sentimento do prazer cumprido.
Se mágoa me ficou da despedida
não fez mal que ficasse, nem doesse:
- Era bem doce, perto das antigas.
Quem me enviou o poema e me
fez relembrar desse caso amoroso foi Danilo Gomes (1914), o jornalista e
crítico literário, que pertence à Academia Mineira de Letras. Danilo conhece
profundamente a história urbana e literária do Brasil. É um grande
memorialista. Escreveu o estudo “Em torno de Rubem Braga: ensaio e homenagem ao
estilo do mestre”. Danilo foi assessor de imprensa da Presidência de República
(1985-2004), nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Em mensagem,
Danilo descreveu: “Encontrei-me com Tônia uma vez, no Palácio do Planalto, numa
homenagem a Fernanda Montenegro. Dei a Tônia o meu livrinho sobre Rubem Braga.
Ela ficou surpresa. E, segurando minhas mãos, olhos marejando, ela me disse o
soneto que Rubem Braga lhe dedicara.” E acrescentou: “Emotiva, franca, verdadeira,
amável e adorável. Assim era Tônia Carrero, carioca da gema. (Não quero dizer
que todas as cariocas sejam assim). E aquele poema do Rubem é antológico, como você
captou logo.”
No meio de tudo isso,
pegou-me, de surpresa, a pergunta de uma amiga que se preparava para viajar a
Paris: “- O que você quer que lhe traga de presente de Paris?”
Respondi em forma de poema:
- O que você quer de Paris?
- Uma folha da borda do Sena,
Uma folha de castanheira,
Ressequida e amarela.
Bastará uma folha
E me virão à lembrança
Os beijos,
Os barcos,
As abadias;
Atravessarei pontes,
Arcos,
Águas ancestrais
E ficarei presa ao passado,
Às torres
E ao cais.
Uma folha só,
Da árvore mais velha
Ou da mais alta
E sorverei magia,
Gotas de chuva,
Pingos de luz.
Uma folha arrancada pelo vento
Como a que caiu
Sobre meu casaco de veludo
Naquela tarde bordô.
Uma folha do Sena
Armazena todo meu sonho
De ser feliz.
Uma folha da borda do Sena
É o que quero de Paris.