QUANDO TUDO TERMINAR (SEGUNDA PARTE)

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)





Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

Então toda a minha existência justificar-se-ia

E então eu me perderia na imensidão dos teus olhos

De um verde tão intenso.

E eu saberia, com toda a certeza,

Que já não posso viver sem você...

Sem tua doce presença na minha vida.

 

O aroma de alfazema pairava no ar, misturando-se à música romântica francesa antiga. A tênue luz vermelha do abajur deixava o quarto encoberto por mistérios à meia-luz. Roupas espalhadas por toda parte compunham o ambiente. Para os dois amantes clandestinos, não havia nada a dizer; o silêncio falava por si, e falava alto.

Ficaram abraçados na cama por mais tempo que o habitual, o que pareceu uma eternidade para ambos. Agnes bem sabia que aquilo não podia, nem devia, durar muito. Otto Meisel também sentia que as coisas não ficariam como estavam. Ele queria dizer algo, mas as palavras nasciam e morriam rápido demais em sua mente. Nos últimos dias, Agnes nem sequer dera espaço para a conversa, que deveriam ter. Mas o problema existia e ela, pragmática e profissional, decidira pôr fim à história de uma vez por todas. Conhecia Otto, o suficiente para saber onde golpear: seria abaixo da cintura, no momento exato em que ele estava fragilizado, cheio de culpas e remorsos.

— Amanhã mesmo, assim que o dia raiar, apareço no teu trabalho. E tu vai me preparar um senhor café da manhã, seu canalha, aproveitador miserável, desgraçado maldito. Vou querer ser servida por aquele teu amiguinho muito especial. Que tal torradas e chá com conhaque canadense? E pra Cigana, pão de mel e café morno sem açúcar, um limão cortado ao meio e dois saquinhos de adoçante importado. E tu vai nos servir, mais ninguém.

Não era do perfil de Agnes ser grosseira com clientes, fossem habituais ou ocasionais, mas aquilo precisava de um fim absoluto. Não podia sobrar uma centelha sequer da relação que construíra com Otto; era ruim para ambos. Agnes conhecia a sua realidade e não queria ilusões.

— Se tu fizeres isso, sua puta desgraçada, eu te mato! Tu sabes que a minha mulher trabalha comigo, não sabes? — esbravejou Otto. Ele ainda a abraçava com terno carinho, apesar do tom áspero e das palavras duras.

— Não! Eu não sabia... — A voz dela soou como um lamento sincero, um pedido de desculpas que camuflava a mentira.

— Pois agora tu sabes! Te mato se puser os pés lá. Mato tu e aquela tua amiga ordinária! — retrucou o teuto com todo o ódio do mundo, sem conseguir olhar nos olhos dela.

Lá fora, a noite se despedia lentamente. O dia vinha com as suas múltiplas possibilidades para expulsar Agnes da vida de Otto e Otto da cama de Agnes. Dessa vez, era para sempre. Ou, pelo menos, era o que ambos imaginavam.