Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Então toda a minha
existência justificar-se-ia
E então eu me
perderia na imensidão dos teus olhos
De um verde tão
intenso.
E eu saberia, com
toda a certeza,
Que já não posso
viver sem você...
Sem tua doce
presença na minha vida.
O aroma
de alfazema pairava no ar, misturando-se à música romântica francesa antiga. A
tênue luz vermelha do abajur deixava o quarto encoberto por mistérios à
meia-luz. Roupas espalhadas por toda parte compunham o ambiente. Para os dois
amantes clandestinos, não havia nada a dizer; o silêncio falava por si, e
falava alto.
Ficaram
abraçados na cama por mais tempo que o habitual, o que pareceu uma eternidade
para ambos. Agnes bem sabia que aquilo não podia, nem devia, durar muito. Otto
Meisel também sentia que as coisas não ficariam como estavam. Ele queria dizer
algo, mas as palavras nasciam e morriam rápido demais em sua mente. Nos últimos
dias, Agnes nem sequer dera espaço para a conversa, que deveriam ter. Mas o
problema existia e ela, pragmática e profissional, decidira pôr fim à história
de uma vez por todas. Conhecia Otto, o suficiente para saber onde golpear:
seria abaixo da cintura, no momento exato em que ele estava fragilizado, cheio
de culpas e remorsos.
—
Amanhã mesmo, assim que o dia raiar, apareço no teu trabalho. E tu vai me
preparar um senhor café da manhã, seu canalha, aproveitador miserável,
desgraçado maldito. Vou querer ser servida por aquele teu amiguinho muito
especial. Que tal torradas e chá com conhaque canadense? E pra Cigana, pão de
mel e café morno sem açúcar, um limão cortado ao meio e dois saquinhos de
adoçante importado. E tu vai nos servir, mais ninguém.
Não era
do perfil de Agnes ser grosseira com clientes, fossem habituais ou ocasionais,
mas aquilo precisava de um fim absoluto. Não podia sobrar uma centelha sequer
da relação que construíra com Otto; era ruim para ambos. Agnes conhecia a sua
realidade e não queria ilusões.
— Se tu
fizeres isso, sua puta desgraçada, eu te mato! Tu sabes que a minha mulher
trabalha comigo, não sabes? — esbravejou Otto. Ele ainda a abraçava com terno
carinho, apesar do tom áspero e das palavras duras.
— Não!
Eu não sabia... — A voz dela soou como um lamento sincero, um pedido de
desculpas que camuflava a mentira.
— Pois
agora tu sabes! Te mato se puser os pés lá. Mato tu e aquela tua amiga
ordinária! — retrucou o teuto com todo o ódio do mundo, sem conseguir olhar nos
olhos dela.
Lá
fora, a noite se despedia lentamente. O dia vinha com as suas múltiplas
possibilidades para expulsar Agnes da vida de Otto e Otto da cama de Agnes.
Dessa vez, era para sempre. Ou, pelo menos, era o que ambos imaginavam.