REINADO

Por Luiz Otávio Oliani

A Lêdo Ivo

enterra palavras
em alto-mar

como tesouro
às escondidas
qual pirata
faze das águas
a cidade de teus versos

TRANSFORMAÇÃO

Por Luiz Otávio Oliani

A Antonio Carlos Secchin

toda linguagem
é selva
a ser devastada

toda linguagem
é terra
a ser adubada

toda linguagem
é pedra
a ser limada

NÁUTICA

Por Luiz Otávio Oliani


A Olga Savary

navego
em tua essência

mergulho nos seixos
que te habitam
mas não naufrago

o mar nos pertence

RABO-DE-ARRAIA

Por Luiz Otávio Oliani

A Igor Fagundes

ao som do berimbau
batuque ginga cadência

o poeta luta
capoeira
com a palavra

FOME

Por Luiz Otávio Oliani

ao roçar a boca da solidão
entre auroras e estrelas
mastigo minha dor

em que língua nos falamos?

CASA

Por Luiz Otávio Oliani

faço do silêncio
a morada do ser

não lhe digo
palavras duras
nem amorteço quedas

apenas guardo
a concha
em que abrigo
a solidão dos homens

MÃOS DESUNIDAS

Por Luiz Otávio Oliani

não serei o poeta do passado
embora dele me alimente

canto o presente
que Drummond não vê

nada de serafins
cartas de suicida
- os homens aterraram
a palavra amor
num canteiro de obras

as mãos desunidas
traduzem: os espinhos
inda sufocam as flores