TRAJETÓRIA OPOSTA

Por Pedro Du Bois (Itapema, SC)

Reescrevo a raiva em papel
de seda. Encarto a ira
              no final do quadro.

Enquadro a tristeza em soslaio.
Remeto a visão ao desatino.

Depois
recebo as honras e a gala.


Engalano a morte em suspiros.

PANO

Por Pedro Du Bois (Itapema, SC)

Desfaço o pano
(a nudez do corpo)
em linha enrolada
ao fuso (a ilusão da hora).

Desenlaço a corda como reinício
(a sofreguidão do beijo) e me vejo
recoberto (a condução do corpo)

no pano remanescente.

MÚSICA

Por Pedro Du Bois (Itapema, SC)

Enquanto escuto a música
danço o corpo ao espaço.

Livre quanto a liberdade
permite ao congestionado
corpo meço distâncias
em tons e pautas: maneiras
simplificadas do gosto.

A música recria o final
do passo. A disparidade

finalizada em nada.

O VELHO RELÓGIO DE CORDA

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

São quatro horas de tarde escaldante. O velho relógio de parede acaba de dar quatro sonoras badaladas, que ecoaram pela casa deserta e silenciosa.
O centenário relógio de pêndulo, movido a corda, foi de minha bisavó Júlia. Sempre o conheci suspenso na parede, forrada a papel encarnado, da pequena salinha de jantar, onde tomávamos as refeições diárias.
Está protegido por sólida caixa de madeira, esbotenada e lurada de caruncho, de cor castanha, onde dois grandes ponteiros negros, marcam e contam o tempo.
Insensível, cumpridor fiel das suas funções, assistiu, altivo e sisudo, às alegrias e angústias da família.
Passivamente, viu, do alto da sua parede a morte de minha avó, na flor da idade e à criação de meu pai.
Assistiu, igualmente, aos derradeiros momentos de minha mãe, vítima de doença que não perdoa, apesar do progresso da medicina.
Impávido e sereno, sempre indiferente, sempre na monotonia do tic- tac, o pêndulo de metal amarelo, marca ritmicamente, minutos e horas. Horas que passam, que foram, mas já não são.
Minha juventude foi cronometrada por esse velho relógio de corda.
As sonoras badaladas percorriam a antiquíssima casa, avisando a hora do almoço, e indicando o termo das divertidas brincadeiras – as construções de madeira, o mecânico, os soldadinhos de folheta policromados, os bonecos de trapos, que a madrinha Baptista, com habilidade, paciência e muito gosto, confeccionava, imitando trajos usados na sua longínqua adolescência.
E sempre ele, o velho relógio de pêndulo, dia e noite, sem parar, sem descansar, avisava que o tempo passava.
Um dia fui chamado a cumprir os deveres para com a pátria.
Levei saudades da casa, onde nasci; dos carinhos maternos; do sofá, onde, em tardes sombrias, lia e relia livros que retirava da vasta biblioteca paterna; e do velho e amigo relógio.
Após a morte de meu pai, feito partilhas, trouxe-o para minha casa.
Solenemente coloquei-o na sala de jantar.
Reparei, então, que a velhice, começara a corromper a complicada engrenagem, que mostrava sinais de desgaste.
Levei-o ao relojoeiro. Mirou-o, remirou-o e por fim disse: - “ É muito antigo…Os concertos são difíceis e caros…
Pendurei-o em local de destaque, mas não lhe dei corda, para não gastar as peças.
Mas sempre que chega o Natal, acerto-o. Dou-lhe corda. Começa, então, no seu tic-tac, surdo, o mesmo tic-tac que ouvia na infância.
O velho relógio de parede traz, consigo, o passado: cenas, alegrias, tristezas, que sempre partilhou, impassível, mas atento, do alto da sua parede.

Os objectos antigos, que passam de geração a geração, na mesma família, possuem encanto especial, e a magia de unir a família…principalmente os que já faleceram.

THE LISTENING EAR

Por Geoff Kebby (Stratford-upon-Avon, England)

The Listening Ear...
Finds the time we are needing
To thoughtfully hear what the Heart may be pleading.

The Listening Ear...
is not looking for shame.
It usually wants to forget who to blame.

The Listening Ear...
is just waiting to give
each one a chance to contentedly live.

It happily takes on the burden of sharing.
The Listening Ear
looks for ways that are caring.

VENTAVA

Por Paccelli José Maracci Zahler

Ventava...
E naquela estrada
Cabelos esvoaçavam,
Folhas secas rolavam,
Arranhando o chão.

Arbusto vergavam
E a poeira subia,
O vento assoviava,
Saci-Pererê?

Ventava...

Um coração
Batia lentamente,
A cada passo, uma dor.
O vento arrepiava a alma,
Mexia com o corpo,
Como se tocasse um sino.

O toque era triste
Como no réquiem
E ecoava campo a fora
Dizendo:

- Estou com saudades!

MÃOS

Por Paccelli José Maracci Zahler

Mãos que desfilam
Pelo teu corpo,
Percorrendo caminhos sinuosos,
Muitos vales e montanhas.

Mãos que sentem
Tua maciez
E estudam tua textura.

Mãos que encontram as tuas
Fazendo-me sentir
Algo diferente
- Elos de uma corrente
Ligados ao coração?

Mão que tocam teu rosto,
Conduzindo meus olhos
Na direção dos teus,
Permitindo-me ouvir
Os teus pensamentos.

Mãos que exploram teus cabelos,
Sentem teu calor
E as batidas do teu peito.

É neste momento
Que uma energia envolve meu corpo,
Fazendo-me esquecer do mundo
Num beijo terno.
Então, nossas mãos se encontram...
-Momento mágico, efêmero,

Porém, eterno!